sexta-feira, 13 de junho de 2025

25.280 Casinos portuenses

 
No século XIX, o jogo praticava-se nos cafés e nas pensões ou hotéis.
O povo fazia-o nas tabernas de jogo a pataco, recatadas da vista do público e das autoridades.
Por sua vez, os cafés e hotéis eram verdadeiros casinos, com salas próprias para o efeito, onde se apostava forte.
O Café das Hortas, o Café Guichard, o Café Palladium e, sobretudo, o Café Águia d’Ouro, ficaram célebres, neste capítulo, pela mão de alguns dos nossos melhores escritores.
Alberto Pimentel na sua obra “O Porto há 30 anos”, publicada em 1893, referindo-se a factos da década de sessenta do século XIX, dizia sobre a existência de um local de jogo na Foz do Douro:

 
"Dava sobre a praia dos banhos o terraço da Assembleia, cuja principal entrada abria para a rua dos Banhos Quentes. Foi n´essa Assembleia que nasceu a primeira rolêta da Foz. Ha mais de vinte annos, a rolêta era uma innovação recente, que produzia sensação. Alguns pais de familia, que nunca jámais jogaram, iam vêr a rolêta, por simples curiosidade, como se póde ir vêr um monstro, uma fera. Os viciosos tomaram-lhe gosto, e, dentro de pouco tempo, a rolêta popularisou-se, a ponto de começarem a funccionar, além da rolêta aristocratica da Assembleia, varias rolêtas pataqueiras e pelintras. Os puritanos, os caturras da jogatina repelliram a rolêta, e continuaram a frequentar a batota do high-life no Passeio Alegre; os encanzinados no vicio do jogo, ultra-viciosos, frequentavam a rolêta e a batota, - accumulavam."


 
Praia do Caneiro, em 1876  -  Fonte: “As Praias de Portugal - Guia do Banhista e do Viajante” de Ramalho Ortigão (1836-1915); gravuras de Emílio Pimentel ( 1844-1880) e João Pedrozo Gomes da Silva (1823-1890); ed. Magalhães & Moniz
 
 
 
 
 
Na gravura acima publicada na obra "As Praias de Portugal, Guia do Banhista e do Viajante", editado em 1876, talvez numa das casas representadas, funcionasse a Assembleia e aqui estivesse sediado o Casino da Assembleia, a que se referiu Alberto Pimentel. Na primeira à direita, pode ler-se na placa: “Banhos Quentes”.
Em 29/8/1869 foi lá inaugurada uma praça de touros, com uma grande enchente; estariam 2500 pessoas. O delírio pelas touradas durou apenas 2 anos, após os quais mais ninguém lhes ligou. Elas voltariam, no entanto, alguns anos mais tarde.

 
 

À direita, o edifício onde funcionou o Clube de Cadouços

 
 
“O Clube de Cadouços, também conhecido como Casino de Cadouços – Inaugurado em 1881 – funcionando no “Restaurante de Cadouços”, era frequentado pela elite das famílias que iam a banhos, entre Maio e Outubro. Aqui se reuniam às tardes para conviverem, jogarem cartas, bilhar, dominó. Lugar de leitura e conversa, realizava concertos de música de câmara, árias de ópera e canções; teatro, e reuniões dançantes. A partir de 1884 o clube formou uma orquestra amadora composta por sócios. Eram sempre muito concorridos pelo que muitas vezes o difícil era conseguir bilhetes. Aqui se apresentaram os melhores músicos do Porto dessa época (1881/1910). Era comum músicos amadores, mesmo sócios, também executarem obras com grande sucesso. Este clube também tinha uma finalidade beneficente.
Pagava-se uma jóia de 1$000 reis e 6$000 reis por ano.”
Cortesia de “portoarc.blogspot.com”


 
 

Programa do Casino de Cadouços

 
 
A Foz do Douro foi sempre um local onde se praticaram os jogos de sorte e azar, por isso as autoridades procuraram disciplinar a actividade.
É exemplo, a notícia (9 de Agosto de 1900) exibida abaixo, com o devido destaque.


 


 
 
 
No início do século XX, no Jardim do Passeio Alegre, em frente ao chalet do Carneiro existiu, desde 1906, o Casino da Foz, que foi devorado por incêndio em 12 de Julho de 1911, que destruiu o prédio onde funcionava.
O casino da Foz foi registado na “Repartição de Propriedade Industrial”, em 15 de Fevereiro de 1906, por José Lopes Carreira Munhós.
 
 
 

Registo do Casino da Foz
 
 
 
Ainda nas suas primitivas instalações, o Casino da Foz, para a estação balnear de 1910, contrataria o sexteto Anneda, que faria a sua apresentação em ante-estreia na Sala Moreira de Sá.




Casino da Foz, revista “A Arte Musical”, 15 de Agosto de 1910
 
 

Após o incêndio de 1911, o Casino da Foz teria passado para um prédio contíguo, com entrada pela Rua das Motas, nº 9, onde continuou em funcionamento e que era a sede do Clube da Foz.
 
 
 
 
 

À esquerda, haveria de estar o Casino da Foz, devorado por um incêndio, em 1911 - Ed. Alberto Ferreira-Batalha-Porto
 
 
 
 
Após as necessárias obras de restauro das instalações afectadas pelo incêndio, o local foi ocupado pelo “Restaurante Casino Internacional” ou “High-Life”, propriedade da “Empresa do Casino Internacional da Foz, Limitada”, que passou também a explorar a actividade de jogo de fortuna e azar, até aí, do domínio do velho Casino da Foz, sucedendo-lhe nessa actividade.


 
 

O salão do Restaurante Casino Internacional (visível, parcialmente, o seu gradeamento, à esquerda) e no prédio contíguo funcionava o casino – Fonte: Arquivo Histórico Municipal do Porto

 
 
Pela comparação com fotos anteriores, poder-se-á concluir que o prédio, em 1º plano, foi intervencionado e recebeu mais um piso. 
Nele, com entrada lateral, pela Rua das Motas nº 9, funcionou o Casino da Foz, depois do incêndio.
Em 8 de Maio de 1919, o salão do Restaurante Casino Internacional entraria em obras e esse serviço passou a ser oferecido no 1º andar do prédio contíguo (esquina com a Rua das Motas).
Neste prédio, que foi Café e Clube da Foz,  no rés-do-chão, passou a funcionar uma garagem, a partir de 1919.
 
 
 

Anúncio da realização de obras no Restaurante Casino Internacional

 
 

Publicidade ao Restaurante do Casino Internacional, em 15 de Maio de 1919

 
 

No local onde esteve o Casino da Foz, acabaria por se instalar uma alquilaria e, mais tarde, aí funcionaria um ginásio e algumas salas de aula do vizinho Colégio Brotero que, por aqui esteve, entre 1931 e 1950.


«A atual Mercearia (Augusto) era onde ficava o edifício principal do Colégio Brotero tendo por traz e a nível mais alto o Recreio e edifício dos Internos.
Onde hoje é a Garrafeira ficava uma outra parte do Colégio Brotero onde estava o ginásio e mais algumas salas de aula.
Dizia-se que neste edifício teria funcionado o "Casino da Foz”».
Cortesia de Abel Cunha Rodrigues

 
 
 

Perspectiva actual de fotos anteriores e, em primeiro plano, o local de implantação do casino – Fonte: Google maps
 
 
 

 

Edifício da Rua das Motas, nº 9 - Ed. “ A Nossa Foz do Douro”
 
 
 
O edifício da foto acima, por onde esteve o Casino Internacional é, hoje, a sede do Orfeão da Foz do Douro.
À saída da ponte Luís I existiu, também, um casino.
Nos finais do século XIX passou a existir o Casino da Ponte, adossado ao muro de suporte dos terrenos da igreja da Serra do Pilar.
O "Casino da Ponte" era um conjunto urbanístico de edifícios contíguos constituído por um restaurante panorâmico, casa de espectáculos e sala de jogo, que funcionaria até finais da década de 1920.
O acesso para o piso principal fazia-se pela rua, depois chamada Rua do Casino da Ponte, à cota do tabuleiro superior da ponte Luís I e distribuía-se ainda, escarpa abaixo, por patamares, pela Calçada da Serra.
 
 
 

Em cima, à direita, a trincheira aberta no morro da Serra do Pilar, em 1905, para permitir a passagem do elétrico
 



O edifício do casino era propriedade de Abílio Loureiro Dias, que o arrendou a José Luís de Couto Querido para, aí, instalar um casino.
Anexo ao edifício do casino que, para além de sala de jogo promovia espectáculos, funcionou o “Grande Restaurante Jardim” (visível a identificação por ampliação da foto acima).
 

 

Casino da Ponte, V. N. de Gaia, à saída da Ponte Luís I

 
 
De notar, que na construção do edifício principal onde se instalou o Casino da Ponte, foram usados os quatro arcos que estavam à entrada do convento de São Bento da Ave-Maria, adquiridos aquando da demolição do mosteiro. Três encontram-se voltados para norte e o quarto para poente, integrando a fachada principal, perfeitamente visíveis na foto acima.
 
 
 
 

Casino da Ponte e os seus arcos, numa vista lateral - Ed. Alvão
 
 
 

Convento de S. Bento da Ave-Maria e os seus 4 arcos
 
 
 
 
 

O Restaurante-Jardim L’Étoile foi inaugurado em 1908
 
 
 

20 de Junho de 1908

 
 
Sobre a inauguração do café e restaurante L’Étoile, escrevia o jornal “A Voz Pública”, em 20 de Junho de 1908.
 
 
 




Ao L’Étoile seguir-se-ia o Restaurante Jardim da Ponte que funcionava, também, com serviço de pensão.
 
 
 

23 de Março de 1913, In jornal “O Comércio do Porto”

 
 
Em 21 de Agosto de 1919, ocorreria um incêndio em todo o conjunto de edifícios que, mais tarde, foi comprado pela firma Barros & Almeida, ligada à produção de vinho do Porto (Porto Barros) e, depois, seria arrendado à empresa de mobiliário, J. Loureiro, Lda.
 
 
 
 

Em 1958, é visível a publicidade ao Porto Barros e ao fabricante de móveis e colchoaria “J. Loureiro, Lda.”

 
 

Construção, em 1963, do muro de suporte do morro onde se encontra a Igreja da Serra do Pilar
 
 
 
 

Ponte Luís I, observando-se o muro de suporte do morro de assentamento da igreja do mosteiro da Serra do Pilar e o intenso trânsito, em 1989
 
 
 
 

Morro da Serra do Pilar, em 1942

 
 

Abertura rasgada, em 1905, à saída da Ponte Luís I, no morro da Serra do Pilar, para permitir a passagem do carro eléctrico

 
 
Em 25 de Outubro de 2016, o edifício devoluto, há anos, que nos tempos mais próximos tinha servido de armazém da fábrica de móveis Lima, foi consumido por um fogo. 
Depois de muitos anos ao abandono, a cadeia espanhola “Vince Hoteles” inaugurou, em 15 de Junho de 2021, uma nova unidade hoteleira, denominada “Vince Ponte de Ferro”, após a sociedade gestora de património “Caler Advisory & Asset Management”, gestora do fundo de investimento “RSR Singular Assets Europe”, ter adquirido o complexo de edifícios e, depois, de totalmente remodelado o ter entregue àquela cadeia espanhola.
O projecto foi do arquitecto José Gigante e do gabinete de arquitectura catalão “GGV Arquitetura”.
 
 
 
Hotel Vince Ponte de Ferro
 


No antigo Palácio de Cristal funcionou numa das suas naves laterais, durante alguns anos, o Casino do Palácio de Cristal, com fotos abaixo.
 
 
 

Casino do Palácio de Cristal - Ed. Foto Alvão


 

Sala de jogo do casino do Palácio de Cristal - Ed. Foto Alvão


 
Muitos outros locais ficaram ligados à “jogatana” na cidade, de que se destaca, ainda, o caso do “London Club”.
Em 15 de Junho de 1918, o periódico “ILLUSTRAÇÃO CATHOLICA” dava conta da abertura nas instalações do antigo Hotel Bragança, sito na Rua de Entreparedes, do denominado “ London Club”, que tinha sido inaugurado, algumas semanas antes, no dia 30 de Março.
 
 
 
“Abriu no sabbado da Alleluia esta casa de recreio, instalada no vasto predio do antigo Hotel Braganca á rua de Entreparedes, no Porto, sendo a unica no genero do Norte do Paiz. Deve-se esse melhoramento á iniciativa de rapazes pertencentes á bôa sociedade portuense, na vanguarda dos quaes é justo mencionar os nomes de Alberto Carneiro da Rocha, Casimiro Coelho de Lacerda, Julio Paulo dos Santos e AméricoTeixeira, que não olharam a esforços e sacrificios para preencher essa lacuna na segunda cidade do Paiz e que mereceu as melhores referencias da Imprensa”.
 



Entrada do “London Club” - Ed. ILLUSTRAÇÃO CATHOLICA


 

Sala de Jogos do “London Club” - Ed. ILLUSTRAÇÃO CATHOLICA
 

 
 

London Club
 
 
À esquerda da foto (com a Praça dos Poveiros em fundo) esteve o “London Club”, num prédio que já foi esquadra de polícia.
Uma eficaz legislação para a regulamentação da “Lei de Exploração do Jogo” surgiria, apenas, em 3 de Dezembro de 1927 e, a partir daí, com regras definidas e bem claras. 

terça-feira, 10 de junho de 2025

25.279 Iluminação Pública e Companhia do Gás

 
"Em 1891, o Porto dispõe já de mais de 2 500 candeeiros, instalando-se nesse ano mais 107 em toda a cidade e mais 42 de luz intensiva entre a Batalha e os Clérigos, cabendo 40 destes candeeiros à Rua de Santo António, Praça de D. Pedro e Rua dos Clérigos. Dez anos depois, há já mais de 3 800 candeeiros colocados, registando-se um aumento significativo do consumo particular."
Cortesia de Ana Cardoso Matos - O Porto e a Electricidade, Museu da Electricidade, EDP Lisboa 2003
 
 
 
 
Fábrica do Gás e Central Eléctrica do Ouro
 
 
“A primeira referência à iluminação pública no Porto data de 1771. A Rua Nova, mais tarde Rua dos Ingleses, foi palco da instalação dos primeiros “lampiões” da cidade. Um requerimento, assinado pelos moradores, deu origem a um documento oficial da autarquia que mandava que “se coloquem lampiões na dita rua, sendo a conservação e costeio por conta dos moradores”. No início de 1772 procedeu-se à sua instalação. 
Um artigo do «Jornal de Notícias» do início do século XX transcreveu assim o teor do documento feito pelos moradores da época:
“A grande utilidade que têm os moradores das cidades onde de noute estão as ruas iluminadas, como se pratica nas melhores da Europa, é mais considerável do que se imagina, pois, não somente dá gosto e livra de quedas e maus encontros a quem por elas anda, mas evita os roubos tanto às pessoas como nas casas”. 
Foi particularmente na segunda metade do século XIX que se começou a aproveitar as inovações técnicas e científicas impulsionadas pela Revolução Industrial europeia. 
Em 1851 «quando veio ao Porto a Rainha D. Maria II» viu-se, pela primeira vez, «o gás hydrogénio em arco triunphal armado ao cimo da rua de São João» (in O Tripeiro, 1908), sendo a primeira experiência de iluminação a gás na cidade. 
Em 1855 o gás chegava já à Rua das Hortas (troço inicial da Rua do Almada) à qual se seguiram as ruas de Santo António e Clérigos. Em 1892 a cidade contava já com 2607 candeeiros espalhados por várias zonas, incluindo a Batalha. A entidade encarregue do fornecimento de iluminação à cidade era a Companhia do Gás da qual os moradores se queixavam que deixava as ruas em estado lastimável após a colocação dos candeeiros. Esta argumentava com o facto de não reparar os pavimentos porque teria de os abrir novamente para instalação do gás para utilização dos particulares (em 1893 havia já cerca de mil e oitocentas candidaturas de moradores). 
Os cerca de três mil candeeiros espalhados pelo centro da cidade do Porto, em 1893, por serem novidade foram protagonistas de algumas histórias curiosas. Num artigo de «O Comércio» desse mesmo ano, podia-se ler o seguinte aviso: «Previne-se um sujeito que todas as noutes apaga um dos lampeões de gaz que se abstenha de continuar com esta gracinha, se não quizer passar pelo desgosto de que seja entregue ao domínio público o seu nome”.
Pensa-se que terá sido em 1895, com o advento da electricidade, que se substituiu os candeeiros a gás nas ruas portuenses, já que foi nesta data que começaram a circular os primeiros carros eléctricos (o Porto foi a primeira cidade do país a ter estes veículos que só terão iniciado a marcha na capital em 1901).
Texto de Marta Almeida Carvalho, em Porto Pioneiro
 


Concurso para iluminação a gás no Porto – Caderno de Encargos (Fevereiro de 1853)
 
 
"1ª  O Empresário ou Companhia de iluminação a gás é obrigado a estabelecer o aparelho de destilação, condensadores, depuradores e gasómetros fora de barreiras, em lugar não povoado, e só lhe será permitido o colocar dentro da cidade gasómetros para depósito de gás, precedendo, para isso, autorização da Câmara, e ouvindo o Delegado de Saúde.
2ª A Câmara oferece gratuitamente para este efeito o terreno, que for demarcado da denominada Quinta do Prado do Bispo, próximo do cemitério público, na margem direita do rio Douro, podendo o Empresário ou Companhia utilizar-se dele durante o tempo do seu contrato, findo o qual ficará outra vez pertencendo ao município.
3ª Outro qualquer terreno, que nos termos do artigo 1º melhor possa convir ao Empresário ou Companhia, será por ele obtido e pago à sua custa, precedendo aprovação da Câmara e ouvido o Delegado de Saúde.
4ª O número dos candeeiros a gás não será inferior ao da actual iluminação a azeite…
Seguiam-se as restantes alíneas até à 29ª, antes de 2 condições transitórias e assinava o Escrivão da Câmara, Domingos José Alves de Sousa"
Fonte: “aportanobre.blogspot”
 
 
Em 3 de Outubro de 1855, o jornal “O Porto e a Carta”, na  pág. 2, noticiava que desde o dia anterior, tinha passado a existir iluminação a gás em toda a Rua das Hortas e parte da Rua Nova do Almada.
A 5 de Dezembro de 1855, o jornal “O Porto e a Carta” noticiava que “a iluminação a gás é boa na Rua de Santa Catarina, mas há que reduzir a distância a que se encontram os candeeiros”.
Em 1855, a fábrica do gás estava estabelecida na Arrábida, em local que ficava longe da cidade, para o que deve ter contribuído o baixo valor dos terrenos e factores de segurança.
A aventada possibilidade de ocupar terrenos da Quinta do Prado não se concretizou.
Um dos edifícios deste conjunto, porventura o mais antigo, foi instalado ao lado do já existente gasómetro, e teve a sua planta aprovada na Câmara em Agosto de 1856 (é o que vemos abaixo).




Projecto da fachada do novo edifício da Fábrica de Gás – Fonte: “aportanobre.blogspot”

 
 
 
“O projecto do edifício foi entregue ao engenheiro electrotécnico parisiense Lucien Neu, proprietário da empresa Vieillard & Touzet, tendo-lhe sido também incumbida a direcção da obra. Atendendo à distância a que se encontrava a sede, localizada em Lisboa, para operacionalizar algumas obras foram subcontratadas com empresas da cidade do Porto: os trabalhos de alvenaria foram realizados por Manuel Ferreira da Silva Janeira, mestre-de-obras da Foz do Douro, a elaboração do plano de cobertura e a realização de toda a parte metálica da construção foi entregue à Companhia Aliança de Massarelos e executada, sob a direcção de Henrique Carvalho da Assunção.”
Com a devida vénia a  Ana Cardoso de Matos (A Companhia do Gás e a  Sociedade Energia Eléctrica do Porto (1889- 1920) Universidade de Évora

 
 
A História do Porto, coordenada por Luís A. Oliveira Ramos, afirma que o gás “começa a cobrir a cidade a partir de 1855”.
Assim, em 3 de Janeiro de 1855, é autorizada a instituição da “Companhia Portuense de Iluminação a Gás”.
Em Abril de 1856, várias ruas da cidade recebem a iluminação a gás.
É o caso da Praça Carlos Alberto que, em 1 de Abril de 1856, passaria a ser servida pela iluminação a gás.
“Em 1862, há 1157 candeeiros públicos, e no ano seguinte 1373”. 
Em 1 de Novembro de 1869, o jornal “Comércio do Porto” noticiava que o inspector da iluminação contava 1394 lampiões na cidade, 94 na Foz e em Lordelo.
Em 1 de Setembro de 1889, a “Companhia de Gaz do Porto”, constituída em 25 de Junho de 1889, toma conta da fábrica antiga.
Em 1890, eram mais de 2500 lampiões e, em 1900, mais de 3500. Entretanto, começou o fornecimento de gás a particulares.

 
 
 
Publicidade ao “Bico Auer”, com representação no Porto na rua Rainha D. Amélia (actual Rua de Cândido dos Reis)

 
 
No fim do século XIX, começaria a ser usado na iluminação o “Bico de Auer”, com uma eficiência superior, às tradicionais formas de queima do gás.
Por este novo processo, a combustão gasosa de uma mistura de gás e oxigénio do ar levava à incandescência, não do carbono em suspensão, mas de uma matéria sólida que emitia mais luz que o carvão.
Aquela combustão gasosa originava uma chama muito quente, mas sem brilho que, no entanto, tornava incandescente uma “camisa” constituída por sais terrosos de certas terras raras, como o óxido de tório.
Em 26 de Março de 1897, começavam a ser colocados os candeeiros de iluminação a gás, nas ruas de Santa Catarina, Formosa e Santo Ildefonso.
Em 31 de Janeiro de 1898, começava a ser montada a canalização para a iluminação a gás na Rua da Madeira e a 3 de Outubro daquele ano era inaugurada, com 36 candeeiros, a iluminação da parte ajardinada da Praça Mouzinho de Albuquerque.
Entrado o século XX, continuava a expansão da iluminação pública, a gás.
Em 29 de Outubro de 1901, é inaugurada com animadas festas populares, a iluminação a gás na Praça Coronel Pacheco.
 
 
 
 
Iluminação a gás, na Praça da Batalha – Postal


 
 
Iluminação a gás, na Rua dos Ingleses (Rua do Infante), em 1893 – Gravura de T. M. Johnson
 
 
 
 
A iluminação a gás, na Rua de Santo António, no final do século XIX
 
 
 
Candeeiro a gás (mais tarde, electrificado) localizado na Sé 


 
Mais recentemente, praticamente, em frente a Massarelos, no chamado Cais do Cavaco, esteve uma outra empresa ligada também ao fornecimento de gás e não só – “A Mobil”.


 
Vista parcial das instalações da Mobil, no Cais do Cavaco, em V. N. de Gaia – Fonte: Biblioteca da Câmara Municipal de V. N. de Gaia

 
 
 
Produção e distribuição de energia eléctrica
 
 
 
Em 1886, foi introduzida a luz eléctrica no Porto, com uma pequena central da Companhia Luz Eléctrica, que se situava no pátio das traseiras do edifício do Ateneu Comercial do Porto, na Rua Passos Manuel e fornecia uma restrita zona da baixa da cidade correspondente às ruas de Santo António, Clérigos, Praça da Liberdade e Santa Catarina.
Depois da central eléctrica da Companhia Eléctrica ter sido alvo de um incêndio em 1898, transitou para a Companhia do Gás do Porto que, em condições muito precárias, continuou a assegurar, o fornecimento de electricidade a esta rede.
Tendo sido fundada em 1907, com o fim de assumir todos os direitos e obrigações vigentes entre a Câmara do Porto e a Companhia do Gás, no que dizia respeito à concessão da luz eléctrica necessária à iluminação pública e ao consumo doméstico, a Sociedade de Energia Eléctrica do Porto construiu a Central do Ouro, junto à Fábrica do Gás.
No que diz respeito aos transportes públicos, já em 1911, decorriam as obras da Central Termoeléctrica de Massarelos tendo, em 1915, encerrado a antiga Central da Arrábida, que teria uma parte dos seus equipamentos absorvidos pela nova unidade, permitindo iniciar uma nova fase de alimentação da rede urbana de carros eléctricos.
O edifício de Massarelos foi sendo, ao longo dos anos, estruturalmente melhorado. Entre 1921 e 1924, a Central de Massarelos sofreu as primeiras obras de ampliação. Dando lugar às novas caldeiras e chaminé. 
 
 
 
“Luz elétrica na rua de Santo António: começou ontem a ser instalada. Vai ser o rendez-vous da nossa sociedade. Para isso, devem desaparecer os casebres demolidos do início da rua.”
In “Jornal do Porto”, 3 Setembro de 1890, p. 2
 
 
 
Só, em 1908, se construiu a Central Eléctrica do Ouro, que foi substituindo a iluminação a gás por eléctrica.
Junto ao cais do Ouro, encontrava-se já a Fábrica do Gás, quando a esta se juntou a Central de Electricidade em 1908, e que veio substituir a Central da Rua Passos Manuel, pertencente à Sociedade de Energia Eléctrica do Porto, criada em 1907.
 
 
 
 
“A partir de 1888 a Companhia Luz Eléctrica, que possuía uma central eléctrica na rua Passos Manuel, passou a fornecer energia eléctrica aos particulares num perímetro compreendido entre a estrada de Bonjardim, passando pela rua de Santo António, até a entrada da rua de Santa Catarina.
Apesar de se tratar de uma zona restrita da cidade não deixa de ser importante o vanguardismo desta iniciativa.
Em 1898, após ser afectada por um incêndio, a central eléctrica da Companhia Eléctrica transitou para a Companhia do Gás do Porto, que continuou a assegurar, ainda que em condições cada vez menos satisfatórias, o fornecimento de electricidade a esta rede.
Em 1907 foi fundada a Sociedade de Energia Eléctrica do Porto com o fim de assumir todos os direitos e obrigações vigentes entre a Câmara do Porto e a Companhia do Gás no que dizia respeito à concessão da luz eléctrica.
Para garantir a produção de electricidade necessária à iluminação pública e ao consumo doméstico, esta Sociedade construiu a Central do Ouro.
Cortesia de Ana Cardoso Matos - O Porto e a Electricidade, Museu da Electricidade, EDP Lisboa 2003
 
 
A Fábrica do Gás e a nova Central Térmica do Ouro (destinada à produção de electricidade) eram abastecidas de carvão desembarcado no cais do Ouro, como se observa na foto abaixo.
Aquela Central Térmica do Ouro foi equipada com quatro caldeiras fornecidas pela casa "Biétrix", e na sala das máquinas foram instalados três grupos geradores (dois de 750 KW e outro de 250 KW), e posteriormente uma turbina de 1 500 KW.
 
 
 
“A Central Térmica do Ouro foi construída entre Abril de 1907 e Julho de 1908, junto dos gasómetros da Companhia Portuense de Iluminação a Gás (CPIG), em Lordelo do Ouro, por uma empresa sua subsidiária - a Sociedade Energia Eléctrica do Porto (SEEP) -, a fim de produzir e distribuir electricidade. Em Outubro de 1906, a Câmara Municipal do Porto tinha autorizado a CPIG - uma empresa que veio a integrar as Companhias Reunidas de Gás e Electricidade (CRGE), de Lisboa, por sua vez, dependentes, a partir de 1913, do grupo franco-belga Société Financière des Transports et d'Entreprises Industrielles (SOFINA) - a transferir a concessão para a produção e distribuição de energia eléctrica para uma sociedade anónima a criar, a já referida SEEP, com o objectivo de explorar a referida concessão. O projecto arquitectónico das instalações da Central Térmica do Ouro foi da responsabilidade de Fernand Touzet, um engenheiro especializado na construção de edifícios industriais, particularmente na região de Lisboa, e que veio a construir também a primeira Central Tejo, concluída nos finais de 1911. Não obstante as dificuldades decorrentes do terreno disponível terem imposto alguns constrangimentos, nomeadamente a colocação do edifício com uma orientação oblíqua em relação à via pública, como apontou António Santos num recente artigo sobre a "Arquitectura da Electricidade em Portugal", não permitindo um "tratamento uniforme e valorizador do conjunto a partir do único alçado susceptível de qualificar a sua arquitectura", o edifício da Central apresenta uma harmonia de linhas e proporções que lhe conferem uma identidade particular”.
Cortesia de José Manuel Lopes Cordeiro; Jornal “Público” de 29 de Abril de 2001
 
 
 
 
 
A Central Eléctrica e a Fábrica de Gás, no cais do Ouro

 
 
 
Central Eléctrica, anexa à Fábrica do Gás, em primeiro plano



Na foto acima, a cerca de 100 metros da Ponte da Arrábida, o que restou das instalações da Central Eléctrica do Ouro (em primeiro plano) e das referentes à Fábrica do Gás, tendo já sido demolidas todas as estruturas em volta da pequena construção (central), que ainda se mantem de pé.
 
 
 
 
“De facto, com o decorrer dos tempos, as dificuldades de abastecimento de coque, agravadas durante a I Guerra Mundial, e a crescente incapacidade das caldeiras cuja potência não satisfazia o crescente aumento da procura, ditaram a municipalização da SEEP, em 17 de Maio de 1918 - tanto mais que a concessão tinha terminado em 1917 -, dando origem aos Serviços Municipais de Gás e Electricidade. No entanto, e apesar de ter existido um plano para a sua recuperação e ampliação, a Central do Ouro só continuou a produzir até 1923, em virtude da autarquia ter entrado em negociações com a União Eléctrica Portuguesa para o abastecimento de energia eléctrica à cidade, com base na produção da central do Lindoso, o que veio a suceder a partir de Novembro daquele ano”.
Cortesia de José Manuel Lopes Cordeiro; Jornal “Público” de 29 de Abril de 2001



A Sociedade de Energia Eléctrica era propriedade da Companhia do Gás que, por sua vez, estava na órbita das Companhias Reunidas de Gás e Electricidade de Lisboa, empresa da ingerência da franco-belga Société Financière de Transport et Enterprises Industrielles (Sofina).
A municipalização da produção do gás e da energia eléctrica para as mãos do, primitivamente, designado por “Serviços Municipais de Gás e Electricidade”, não foi, porém, a panaceia universal.
Passados poucos meses, a Companhia de Águas do Porto teve problemas e cortou o fornecimento de água potável, necessário para o funcionamento das caldeiras da central elétrica.
Como estava fora de hipótese fazer uso das águas do rio Douro, devido à sua salinidade elevada, que arrasariam com as caldeiras da central, foi tentado fazer a recolha de água, a cerca de dois quilómetros, na Ribeira da Granja, no Sítio do Olho Marinho, junto do local onde esteve a Fábrica de Lanifícios de Lordelo, mas, ao fim de três dias e três noites, o sistema colapsou.
Na realidade, a Central do Ouro tinha os dias contados, acabando por encerrar, definitivamente, em 31 de Outubro de 1923, passando o Porto a ser abastecido de energia elétrica pela União Eléctrica Portuguesa (UEP) e pela Companhia Carris de Ferro do Porto (CCFP).
Quanto à Fábrica do Gás que, ano após ano, dava prejuízos colossais à edilidade portuense, o seu encerramento deu-se em 30 de Junho de 1941, quando suspendeu o funcionamento por falta de carvão e acabou por não mais abrir.

sábado, 7 de junho de 2025

25.278 As minas de S. Pedro da Cova e o carvão

 
“As Minas de São Pedro da Cova (São Pedro da Cova, Gondomar) datam a sua descoberta de 1795, no lugar da Ervedosa, tendo sido reconhecida a existência da bacia carbonífera em 1804/05. Eram minas de carvão, do tipo antracite (de origem mineral), em geral de boa qualidade”.
In: portoarc.blogspot.pt

 
 
A descoberta do carvão de pedra (antracite) na Vila de S. Pedro da Cova acontece em 1795, mas só nas primeiras décadas de 1900, é que a exploração das minas atingiria o pico, com uma extracção de cerca de 330 mil toneladas por ano.
O carvão extraído no couto mineiro de S. Pedro da Cova teve como destino as aplicações tradicionais, mas, a partir de certos momentos, abasteceu, principalmente, a central de energia da Companhia Carris de Ferro, em Massarelos e a Central Térmica da Tapada do Outeiro, em Gondomar.
 
 
 
“Com a criação da Intendência Geral das minas e metais do Reino em 1801 passou a existir um órgão que administrava directamente as minas e a sua exploração, tendo sido nomeado para o cargo de Intendente Geral José Bonifácio de Andrade e Silva que passou a ser, em simultâneo, administrador das minas de Buarcos e de S. Pedro da Cova. Esta última foi aberta em 1802 e, a partir daí, a exploração directa foi prosseguindo através da abertura de novos poços. Por esta altura sabe-se que houve necessidade de contratar mestres estrangeiros para esse efeito, e em S. Pedro da Cova, algumas das minas foram abertas sob a direcção de mestres Alemães. Com a saída para o Brasil de José Bonifácio, a Intendência Geral terá passado por alguma indefinição, assim como se verificou uma crise na exploração mineira com muitos dos poços a serem encerrados, embora as minas de S. Pedro da Cova não fossem tão abaladas quanto tantas outras, porque continuaram a funcionar”.
Cortesia de Cátia Alexandra Nunes Rocha (relatório de mestrado, 2016)
 
 
Em 1825, as minas foram arrendadas, por 20 anos, a uma companhia privada de Lisboa formada por Silvério Tabner e o Conde de Farrobo, dois negociantes da capital.
A administração das minas de S. Pedro da Cova, por decreto de 1841, seria feita através do seu arrendamento a uma companhia privada de Lisboa, que viria os seus estatutos serem aprovados pelo Estado, em Fevereiro de 1847, passando a designar-se por Companhia das Minas de Carvão de Pedra do Reino, de S. Pedro da Cova.
Em 14 de Janeiro de 1849, a concessão da mina de S. Pedro da Cova é atribuída, temporariamente, ao Conde de Farrobo.
Em 1854, é-lhe concedida definitivamente.
O capitalista e filantropo Joaquim Pedro Quintela (Lisboa, 11 de Dezembro de 1801 — Lisboa, 24 de Setembro de 1869), foi o 1º detentor daquele título nobiliárquico.
Devido ao fausto das suas festas, saraus e demais peripécias, que foram muito comentadas em Lisboa, na época que se seguiu a Joaquim Pedro ter sido feito Conde do Farrobo, começou a usar-se como sinónimo de pandega o epíteto de Farrobodó, derivado de Farrobo.
Anexo ao palácio onde vivia, em Lisboa, construiu o teatro Thália, onde actuavam artistas de renome internacional.
O Palácio Condes de Farrobo, mais conhecido por palácio das Laranjeiras, está edificado na Quinta com o mesmo nome onde, em 1905, se instalou o Jardim Zoológico. É uma construção seiscentista, restaurada e transformada na primeira metade do século XIX.
Na Exposição Industrial de 1861, as minas de S. Pedro da Cova vão estar presentes, com exemplares de antracite expostos à entrada da mesma.
Voltando ao tema da posse das minas, por alvará de 29 de Setembro de 1885, a concessão passa a ser detida por Cândida Líbia Pimenta e Manuel Joaquim Pimenta.
Nos tempos áureos, davam trabalho a gente do Douro Litoral, Minho e até do Alentejo. Chegaram a empregar mais de 1800 pessoas, entre homens, mulheres, rapazes e raparigas.
Já no séc. XX, seria criada a Companhia das Minas de S. Pedro da Cova, a qual explorará este sítio até ao encerramento de toda a actividade.
No início do século XX, as minas vão ser propriedade de Afonso Henrique Sobral Mendes, um brasileiro de torna-viagem que, mais tarde, vai estar ligado a uma empresa do sector dos petróleos - a SACOR.
Seria, então, criada a Companhia das Minas de S. Pedro da Cova, a qual explorará este sítio até ao encerramento de toda a sua actividade.
Em 2 de Dezembro de 1950, falece João Henrique Andresen Júnior (1891-1950), pai de Sofia Andresen, até aí, o administrador das minas.
Em 5 de Junho de 1918, o Arcebispo de Mitilene tinha unido pelo matrimónio, na capela do Palácio da Junqueira, em Lisboa, João Henrique Andresen e Maria Amélia Burnay de Melo Breiner, paraninfando a Rainha D. Amélia, representada pela Condessa de Sabugosa, e Condessa de Burnay, madrinha de baptismo e avó da noiva e Severiano José da Silva e Irineu Pais, padrasto e padrinho de baptismo do noivo.
A baixa dos preços do petróleo conduz ao fecho das minas, a 25 de Março de 1970.
 
 
 
Complexo industrial mineiro de S. Pedro da Cova

 
 
“Situada a 10 km da cidade do Porto e a 4 km da sede do concelho, a Vila de S. Pedro da Cova tem uma área de 14,42 km2 e 17 324 habitantes (Censos 2001). Confronta a Norte com Alfena e Valongo (Valongo); a Sul com as freguesias de Jovim e Foz do Sousa (Gondomar); a Oeste com a Vila de Fânzeres e a cidade de Gondomar (S. Cosme) e a Este com as freguesias de Aguiar do Sousa (Paredes) e Campo (Valongo). As referências históricas sobre S. Pedro da Cova remontam aos princípios da fundação de Portugal: em 1138, o Couto de S. Pedro da Cova foi doado por D. Afonso Henriques a D. Pedro Rebaldis, sucessor de D. Hugo, Bispo do Porto. Em 1379, D. Afonso III confirmou a doação do Bispo do Porto do Couto de S. Pedro da Cova, no julgado de Gondomar. Com a extinção dos coutos em 1820, a freguesia de S. Pedro da Cova adquiriu a designação de concelho, que foi extinto em 1836, (…) passando a pertencer definitivamente ao concelho de Gondomar.
Em 1989, a freguesia foi elevada a Vila. Sem ter perdido o cariz agro-pecuário, a partir de 1802, S. Pedro da Cova tornou-se um importante pólo industrial na sequência da descoberta de jazidas de carvão (e também manganês e volfrâmio), materiais imprescindíveis ao arranque e desenvolvimento da industrialização oitocentista. 
Durante muitas gerações, foram as minas de S. Pedro da Cova um dos grandes alicerces da economia do país e da Região Norte. A sua dinâmica tornava-se visível a quem percorresse a região do Grande Porto, confrontando-se com o vaivém incessante de cestas metálicas, movimentando-se ao ritmo febril da actividade do complexo mineiro, percorrendo cabos paralelos que se sobrepunham aos povoados, vias de locomoção e a todo o género de acidentes orográficos do concelho (Câmara Municipal de Gondomar, 1999). Nos anos 30 do séc. XX, a exploração mineira intensificou-se em grande escala, então na posse da Companhia das Minas de Carvão e S. Pedro da Cova e transformou-se num pólo importante de migração, localidade que passaria a ser conhecida por "terra mineira", por excelência, até que a década de 1970, trouxe o encerramento da mina”.
Fonte: portoarc.blogspot.pt


 
Zorra do carvão nas minas


 
Vagonetas de carvão


 
É visível na foto acima, ao fundo, o “Cavalete do Poço de S. Vicente” de entrada do elevador que levava à mina, que começou por ser em madeira.
O da foto seria erguido em 1934.

 
 
Cestas de transporte aéreo do carvão – Ed. J. Portojo

 
 
Na foto anterior vê-se que o carvão era transportado para a cidade por “cestinhas” aéreas, desde 1914, quando foi instalado um cabo aéreo com a extensão de 9 quilómetros que fazia o seu transporte até ao Monte Aventino, no Porto, no Lugar das Antas e também para a Estação dos Comboios de Rio Tinto.
O monte Aventino era, assim, um parque de armazenamento de carvão com 42000 m2, que depois era distribuído para o consumo da cidade, por zorras, carros de bois e camionetes.
 
 
“O carvão era transportado para o Monte Aventino (zona das Antas), no Porto, nas “cestinhas do carvão” suspensas de um cabo aéreo, com nove quilómetros de extensão. Daí se fazia a distribuição para toda a cidade, que o utilizava nas cozinhas (fogões, lareiras e aquecimento). No regresso, as vagonetas paravam na estação de comboios de Rio Tinto, para carregar a madeira que servia para escorar as paredes subterrâneas. Na segunda metade do século XX, a chegada do petróleo põe fim à história do carvão. Quase 40 anos depois, S. Pedro da Cova é hoje um dormitório da Área Metropolitana do Porto, freguesia praticamente estagnada, com poucas aspirações e muitos dependentes do Rendimento Social de Inserção”. 
Texto de Rui Bica

 
 
Cestas de transporte de carvão, c. 1930, passando em Rio Tinto, junto à estação ferroviária
 
 
 
Cestas de transporte de carvão, em 1938, passando por cima da Rua Nau Vitória
 

 
A linha aérea de transporte de carvão, com as suas cestas, sobrevoava a bancada poente do Estádio das Antas

 
 
Movimentação do carvão no parque do Monte Aventino – Fonte: Cinemateca Portuguesa


 
Uma zorra esperando a carga de carvão no Monte Aventino – Fonte: Cinemateca Portuguesa

 
 
À esquerda, os carros de bois que faziam a distribuição do carvão no Monte Aventino – Fonte: Cinemateca Portuguesa
 
 
 
Actualmente, toda a área do parque de carvão do Monte Aventino foi transformada num complexo desportivo e de lazer.
 



Vista do complexo desportivo do Monte Aventino – Fonte: Google maps

 
 
Antes de ser montada a linha aérea para transporte de carvão, este chegava à cidade, com a mesma proveniência, em carroções puxados por bois, como Dorothy Wordsworth contou, em 1845, na sua obra “Diário de uma Viagem a Portugal e ao Sul de Espanha”.