quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

(Continuação 21)


“Em 1868, nas páginas da “Gazeta Litteraria” Camilo defende a utilidade e a necessidade de se escrever a História da Cidade do Porto. E até aponta o nome da pessoa indicada para tal tarefa: Arnaldo Gama que já havia reunido milhares de cópias de documentos. E acrescenta:
«Obra de tanto fôlego não pode emprehendê-la quem, como o douto scriptor, tem seu tempo captivo, e pautado às necessidades de cada dia. Um frívolo romance tem centenares de leitores espontâneos; a História do Porto, sem subscritores solicitados, seria ao mesmo tempo a “história da ruina d’um literato»”.
Com a devida vénia a Francisco Ribeiro da Silva

“A cidade do Porto obteve autorização em 1582 para realizar uma feira semanal. É verdade. Mas não é a verdade total: incorreria em erro o leitor que pensasse que a feira foi imediatamente concretizada. É que o povo receou que, sendo franca a feira, as receitas fiscais a cobrar sobre as transacções diminuíssem. E nesse caso, recairia sobre o mesmo povo a obrigatoriedade de rateio contributivo até se perfazer o total contratado com a Fazenda Real. Daí as objecções dos Procuradores do Povo que só foram resolvidas nos fins de 1587”.
Fonte: Camilo Castelo Branco, In “Gazeta Litteraria”


“Em tempos idos, a cidade definia vários locais distintos para os seus mercados nas transacções das especiarias e de outros materiais de necessidade humana.
A exemplo desde essas épocas remotas, foram utilizados e alterados vários locais para feiras com características específicas, tais como:
-A Feira de S. Miguel, primeiro na Cordoaria e que passaria para o Largo da Boavista e depois para a Arca d’Água;
-A Feira de carvão, palha e lenha, varas de madeira, tamancos e caixas de madeira de pinho no Largo dos Ferradores;
- A Feira das Caixas na praça de Carlos Alberto;
-A Feira de carvão, palha e lenha, varas de madeira no Largo do Mirante;
-A Feira da Madeira em carros na Trindade;
-A Feira dos Moços primeiro nos Ferradores e depois, em 1876, passaria para a Boavista e em 1900 foi para a Corujeira. Em 1935 a Câmara acabou com esta feira, durante a qual o ajuste entre o “moço” e o lavrador era celebrado com a "cabrita" -uma caneca de vinho que o amo pagava ao criado;
- A Feira do Peixe, inicialmente na praça da Ribeira, posteriormente em frente à Cadeia da Relação ou junto ao mosteiro de S. Bento da Vitória e por fim no mercado do peixe, no local onde actualmente é o Palácio da Justiça;
- A Feira das Flores, Hortaliça e Fruta, junto ao antigo largo da rua da Fábrica com a rua de Aviz e junto à estação de S. Bento;
- A Feira da Erva e da Palha na praça Nova (actual Praça da Liberdade), na Trindade e na praça Coronel Pacheco, Praça da Batalha, Mercado do Bolhão, Alameda do Postigo do Sol e por fim novamente Mercado do Bolhão;
- A Feira de Carne de Porco salgada e Queijo nos Largo dos Lóios;
- A Feira dos carneiros na Trindade (actual estação do metro);
- A Feira do Linho, Fruta e Hortaliça e ainda galinhas na rua do Souto;
- A Feira dos Porcos na praça da Alegria;
- A Feira da Olaria e Louças, no jardim de S. Lázaro (ainda antes da sua existência) e na rua da Assunção;
- A Feira do Gado no Largo dos Ferradores e depois no Poço das Patas e depois na Póvoa de Cima;
-A Feira dos Cavalos no Campo 24 de Agosto e depois na Corujeira;
- A Feira da Farinha e Cereais, na praça (dos Leões) Gomes Teixeira, e por fim a do Pão, na praça Guilherme Gomes Fernandes, antiga praça Santa Teresa.
Nessa época a hortaliça e legumes vinham de Gondomar, a broa vinha de Avintes e o pão tinha a proveniência de Valongo”;
-A Feira das Flores na zona do antigo Largo do Ermitão em frente à igreja dos Clérigos;
-A Feira diária das frutas, cebolas, flores e pão de milho que funcionava à entrada da Rua de Santo Ildefonso na Praça da Batalha;
-A Feira das hortaliças diária, no Largo de Santo André.
In manueljosecunha.blogspot


A feira dos criados ou moços e moças da lavoura que se realizava na Praça dos Ferradores (actual Carlos Alberto) há muitos anos, havia de mudar-se para a Boavista em 1876. Em 1900 passaria para a Corujeira e em 1936 deixava de se realizar para sempre.
Realizava-se duas vezes por ano. Em Novembro para os trabalhos de Inverno e, em Abril, para os de Verão. Esta feira era muito concorrida. Apareciam os lavradores e os criados que pretendiam trabalho. Havia um diálogo entre eles e quando chegavam a acordo davam um aperto de mão e tomavam um copo de vinho acompanhado de pão ou broa, que era oferecido pelo patrão, seguindo de imediato para os locais de trabalho. 
Há cerca de 140 anos, na Praça da Boavista, havia um amplo logra­douro público, rodeado por muros que de­limitavam hortas e campos de cultivo, onde se realizavam algumas das mais im­portantes feiras que se faziam no Norte do país como, por exemplo, a Feira de S. Miguel, que se realizava na Cordoaria des­de, pelo menos, 1682 e que, em 1876, veio transferida para a Rotunda da Boavista. 
Sobre a feira de S. Miguel que se realizava, na Cordoaria, diz Firmino Pereira no livro “O Porto d’Outros Tempos” que para os lados do Carregal, negociavam-se as cebolas, os largos chapéus bragueses, os varapaus e os gadanhos; junto ao hospital da Misericórdia os tamancos e as cabeçadas e jugos para os carros de bois; na Rua do Anjo as barracas de comes e bebes com as espetadas, os doces de Paranhos e as barracas de nozes; junto da Roda estavam as diversões e próximo à Rua de Trás era a atracção do cosmorama a antecipar o cinema; nos baixos do edifício da Academia as louças de todos os géneros e feitios.
Por deliberação de 1906 foi decidido que a feira passasse para a Arca d’Água, o que não foi acatado e ela passaria a estar no terreno alugado pelos feirantes onde tinha estado uma praça de touros na Praça da Boavista, o Coliseu Portuense.
Foi, a feira de S. Miguel, transferida em 1909 para a Arca d’Água, onde esteve até 1917. 

Feira de S. Miguel, na Cordoaria pintura do Barão de Forrester de 1835



“A Cordoaria foi, podemos dizê-lo, um local de concentração de feiras que se estendeu no tempo.
Já vimos as mais importantes, mas outros mercados existiram por aqui.
Sabe-se que em 1833, em plena crise do Cerco do Porto, todas as manhãs aqui se vendia o peixe, os miúdos de bovinos e aves vivas. Havia também local definido para a venda de hortaliças e frutas.
E quando a Câmara decidiu que a feira das hortaliças deveria mudar para a zona hoje das Carmelitas, logo uma verdadeira guerra estalou, com vitória das hortaliceiras, que não aceitaram e lavraram um protesto escrito, com peso tal, que a Câmara recuou”.
In marabo2012.wordpress.com

Sobre a feira de S. Miguel lê-se no "O Tripeiro" série VI, Ano X. 

“Prolongava-se esta feira por uns dias (um mês, aproximadamente) e nela apareciam à venda as alfaias agrícolas, os tamancos, os jugos e cangas, os móveis de madeira de pinho em cru,  os cestos, varapaus, chapéus de palha, louça-de-barro grosseiro, cereais,  muita cebola e muita abóbora, os típicos doces de Paranhos e da Teixeira, as fritadas, todo o género de quinquilharias, etc.
As barracas de comes e bebes também não faltavam no recinto bem assim como as diversões. Em matéria de comestível, além das regueifas de Valongo e das nozes, sobrelevavam-se aos restantes produtos, as características espetadas, constituídas por carne de porco assada em espetos e vendida ao público, espetada num pauzinho. 
Na feira de S. Miguel do ano de 1906, como novidade sensacional e como número de invulgar atracção, apareceu o primeiro animatógrafo ou cinematógrafo portuense – o salão High Life – instalado num modesto barracão de madeira coberto de folha zincada, ali mandado construir por Manuel da Silva Neves, que em Novembro desse ano de 1906, depois de terminada a feira de S. Miguel, passou a dar sessões de cinema mudo no largo fronteiro à Torre dos Clérigos, na Cordoaria, onde se conservou bastante tempo e para além da inauguração, em Fevereiro de 1908, do novo salão High-Life, na Praça da Batalha, do mesmo proprietário.
No ano de 1906, a Câmara Municipal anunciou a mudança da feira de S. Miguel para o largo da Arca d’Água. Todavia, os feirantes, de comum acordo e fazendo orelhas moucas, deliberaram tomar de arrendamento um terreno particular na mesma rotunda da Boavista (onde estivera uma praça de touros) e aí continuaram a realizá-la pelo curto período de 2 ou 3 anos”. 

Uma outra feira, a Feira de S. Bento, tinha lugar junto ao convento de S. Bento da Ave-Maria e realizava-se à terça-feira supondo-se ter começado em 1587 por acordo da Câmara e da Casa dos 24.
Manuel Pereira de Novais já a ela se refere em 1690. A partir de 1736 passou a ser diária. Em 27/7/1838 foi extinta tendo os feirantes passado para o novo Mercado do Bolhão. Por alguma razão esse local foi conhecido por Largo da Feira de S. Bento.
Em 1862 ainda se realizava no Largo de S. Roque ou Largo de Sant’Ana a Feira dos Panos, mas, a 5 de Fevereiro daquele ano, por deliberação da Câmara, ela haveria de ser transferida para o mercado do Bolhão.
Para as bandas, do Campo 24 de Agosto, em tempos, havia duas feiras - a do gado bovino, que se realizava às terças e sextas-feiras, já funcionava em 1833 e passou, em 1868, para o Largo da Póvoa de Cima, actual Praça da Rainha D. Amélia e a feira de cavalos, que era mensal e que só em 1892 foi mudada para a Praça da Corujeira.

“Desde tempos imemoriais, mas não sempre no mesmo sítio se efectuavam nesta cidade duas feiras anuais de moços e moças da lavoura. Uma para os trabalhos de verão; outra para os de inverno. A primeira realizava-se no mês de Abril; a segunda em Novembro. Como é mais ou menos sabido, um dos lugares em que mais tempo se conservou esta feira, foi no Largo dos Ferradores (actual Praça de Carlos Alberto), para onde tinha sido removida em Abril de 1858. No ano de 1876, todavia, por determinação camarária, levaram-na para a Rotunda da Boavista; e, mais tarde, estacionou ainda na Praça da Corujeira.
Igualmente no Largo dos Ferradores em tempos mais recuados (1676), se efectuava uma feira de gado, feira esta que também conheceu vários locais. Em 1838, por exemplo, realizava-se no Campo Grande, próximo do Poço das Patas.
Já que falamos em feiras, diremos que a feira da erva e palha funcionou, durante longos anos, juntamente com a feira da madeira, na Praça das Hortas. Daqui, em 1823, transitou para a Praça do Mirante, actual Praça do Coronel Pacheco (Os terrenos desta Praça, assim como aqueles em que se abriu a Rua dos Bragas, pertenciam a um casal rústico chamado dos Carvalhos do Monte já referido em documentos da Misericórdia do Porto de 1508 - «casal de Carvalhos do Monte, prez da cidade» à beira da estrada de Braga).
Anos depois, implantaram-na na Praça da Batalha e a seguir foi para o mercado do Bolhão.
Em Outubro de 1838, saltou ainda para a Alameda do Postigo do Sol, junto do mirante das freiras de Santa Clara e, por último, voltou novamente para o Bolhão onde finalmente se conservou até à sua extinção.
Desde não se sabe quando até 1843, funcionou no Largo dos Ferradores, às terças e sextas- feiras uma feira de carvão, palha e lenha, varas de madeira, tamancos e caixas de madeira de pinho e por isso esse largo foi chamado de Largo da Feira das Caixas. A partir de 1843 só os tamancos e caixas serão vendidos aí, passando os restantes artigos para a Praça do Mirante.
A da madeira em carros passou para a Praça da Trindade por edital de 28 de Dezembro de 1838.
Com a abertura dos mercados do Anjo e do Bolhão estas feiras foram perdendo importância.
Na esquina entre o Largo dos Ferradores (Praça Carlos Alberto) e a Praça de Santa Teresa, existiam várias mercearias, tendo-se notabilizado a mercearia dos Penas, como a mais famosa na época (“As casas eram quase todas baixas, com um andar e trapeiras”).
Nas escadas que ligavam com a praceta do Moinho de Vento ficava um outro motivo de atração, a Arca (hoje Sá Noronha), que recebia, com a água dos mananciais de Salgueiros, a de Paranhos, “a melhor água do Porto”(…).
No Porto os mercados públicos tiveram sempre grandes tradições, fossem eles de artigos de consumo corrente ou de velharias. 
No século XVIII, mais concretamente em 26 de março de 1784, foi aprovado pela Câ­mara o projeto da construção de uma arcada no Largo de Santo Elói, "para a venda de peixe". Esse projeto nunca foi por diante. Mas funcionaram por ali outros mercados e feiras. Num deles, o mais con­corrido, segundo as crónicas da época, vi­nha de antes de 1822 e nele se vendia “ queijo e carne de porco a retalho”; na atual Praça da Liberdade fazia-se um mercado de pão e de doces; à en­trada da Rua do Souto, onde agora passa a Rua de Mouzinho da Silveira, monta­vam banca as vendedeiras de galinhas e de teias de pano de linho; e no antigo Largo do Correio, agora Rua de Cândido dos Reis, vendiam-se flores e fazia-se o mercado dos ferros-velhos. 
A história do Mercado dos Ferros-ve­lhos, que podemos considerar como an­tecessor da atual Feira de Vandoma, co­meçou em 1839. No relatório da Câmara do Porto desse ano, lê-se o seguinte:
« (...) vendo que uma cidade como a nossa, a segunda capital do reino, e primeira das provindas do Norte, não tem, como a de Lisboa, um sítio para os vendedores am­bulantes exporem e venderem os objetos que não são novos, mas velhos e usa­dos, resolveu destinar para esse fim todo o local junto ao Postigo do Sol, fronteiro ao muro da cidade e sobranceiro aos Guindais, dando-lhe o título de Feira da Ladra.»
Aquele nome de "Ladra" não tem nada a ver com o feminino de la­drão. Tem a ver, sim, com a palavra "lá­zaro" ou "ladro", que têm o significado de "lazarento", ou "miserável". Ainda hoje, quando associamos miséria a imundície, dizemos "lazeira". E as feiras da ladra, em alguns casos, eram esten­dais de miséria. 
A feira junto aos Guindais deve ter du­rado muito pouco tempo, porque, ainda em 1839, já no fim do ano, ela se realiza no tal Largo do Correio, onde já havia um antigo "lugar das adeleiras ou seja das mulheres que vendiam artigos usados.
No bairro das Carmelitas, que era onde ficava o tal Largo do Correio e onde depois se abriu a Rua de Cândido dos Reis, a Feira da Ladra, ou dos Ferros-Velhos, como popularmente era conhe­cida, funcionou até 1901, ano em que foi definitivamente extinta. 
Definitivamente, não. Porque ressur­giu, já nos nossos dias, junto à Sé, na cal­çada de Vandoma, de que tomou o nome. Não tardou a crescer. Estendeu-se pelo terreiro da Sé e, mais tarde, alongou-se até à Rua de D. Hugo. E como não parasse de crescer, mudou-se para as Fontainhas”.
Com a devida vénia a Germano Silva


A Feira de Vandoma foi transferida, depois de muita contestação, em 2016, para a Avenida 25 de Abril, para os lados da Corujeira.

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