segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

(Continuação 3)


“Os primeiros botequins chegam a Portugal em pleno século XVIII. No entanto, antes de 1755 o hábito português de frequentar estes estabelecimentos ainda não se encontrava muito enraizado, verificando-se uma afluência mais generalizada entre os negociantes estrangeiros, que desenvolviam os seus negócios na cidade de Lisboa. A capital portuguesa será, portanto, o berço da tradição dos cafés em Portugal, que se irá, ulteriormente, expandir pela cidade do Porto e depois, por todo o país. Na cidade de Lisboa notabilizaram-se, neste período de finais da primeira metade do século XVIII, e como verdadeiros pioneiros do café como estabelecimento de comércio em Portugal, o Botequim do Rosa na Rua Nova dos Mercadores e o Botequim de Madame Spencer, ambos fundados por volta de 1740. Mas será com o violento terramoto de 1755 e a ulterior reorganização urbana da cidade lisboeta, levada a cabo pelo Marquês de Pombal, que os botequins passarão a ter um valor relevante na Baixa Pombalina”.
Fonte - Nuno Fernando Ferreira Mendes; In: Dissertação de Mestrado em História da Arte Portuguesa


Por sua vez, os cafés portuenses dos séculos XIX e XX foram, verdadeiros locais de intervenção social, cultural, económica, política e até religiosa. Encarados como espaços sociais que se enquadram na sua época e mentalidade, conferindo pertinência à reconstituição das suas clientelas mais fiéis, os cafés do Porto do Século XIX, foram frequentados por clientes, que se enquadravam em classes sociais ou estatutos profissionais diferenciados, levando a que estes estabelecimentos se ajustassem as estas condicionantes, compreendendo-se, assim, “a existência de cafés de elite económica, de contestação, do operariado, de pequenos comerciantes, de marítimos ou de professores”.
Na sua grande maioria, concentravam-se nos espaços de maior acessibilidade, como por exemplo, a Praça de D. Pedro (antiga Praça Nova e actual Praça da Liberdade), mas em muitos casos a sua vocação era em larga medida decorrente da proximidade dos focos de origem da clientela (o Pepino e o Amaro eram frequentados por marítimos, enquanto o Âncora d’Ouro era o pouso dos estudantes).
O Botequim do Pepino de António Pereira Porto ficava no Muro dos Bacalhoeiros na Ribeira, e o Botequim do Amaro no Muro da Ribeira.
António Porto faleceu aproximadamente em 1850, mas a viúva conservou o célebre botequim (mas já muito decadente) até 1871, data da demolição daquela rua e das ruas adjacentes.
Em 18 de Outubro de 1845 o “Periódico dos Pobres no Porto “ dava conta de que, António Porto tinha casado em 16 de Outubro:
"Anteontem de tarde atravessava a todo o trote a Praça de S. Lázaro um cabriolé a quatro, carregado de pessoas do sexo feminino em grande luxo, e acompanhado de cavaleiros. Era o botequineiro Pepino de Cima do Muro que tinha ido casar, e que se recolhia a casa em grande estado”.

Um leitor de “ O Tripeiro” escrevia também, no mesmo jornal:

"O Botequim do Pepino, em Cima do Muro, era muito concorrido da marinhagem estrangeira e de mulheres de má nota do Forno Velho e immediações. As desordens alli eram frequentes. O predio, juntamente com os demais do mesmo lanço do muro, foi demolido, quando se construiu a rua que segue da dos Inglezes para a Alfandega. O botequim transferiu-se para o Forno Velho. Não sei se ainda lá existe ou algum seu descendente. O Rodrigues Sampaio, o Sampaio da Revolução, era accusado pela imprensa adversaria por ter sido freguez do mesmo cafe, quando era guarda da Alfandega ou coisa que o valha. Cito este facto de memória mas creio não estar em erro”.
Um tripeiro da gêmma, baptisado em S. Nicolau

Também pela Ribeira, ficava a “Taberna Vidraças”.
A 13 de Outubro de 1833 abria na Rua Nova dos Ingleses o Café do Comércio na casa onde mais tarde se instalaria a sede da Companhia de Seguros Garantia. Este café, anos depois, viria a mudar-se para a Praça da Batalha com o nome de Café Águia Douro.
Em meados do século XIX, a Praça D. Pedro no Porto era já o "ponto predileto de reunião dos homens da política e do jornalismo, do comércio e dos brasileiros".
Aqui predominavam os botequins Porto Clube, Europa, Antiga Cascata, Internacional, entre outros, progressivamente desaparecidos.
Na área onde se situava a antiga Porta de Carros, desapareceram o Botequim da Porta de Carros também conhecido pelo Botequim do Senhor Frutuoso.
Por aquele local havia também o Café Brasil, que ainda hoje, se encontra de portas abertas.
Por outros locais da cidade estavam espalhados os cafés e botequins.
O Botequim das Hortas (esteve na esquina da Rua do Almada com a Rua da Fábrica), o Guichard (situado na Praça Nova), o Botequim da Porta do Olival (no Olival), o Botequim de S. Lázaro (próximo do jardim e que depois, foi Café América), estes dois últimos os preferidos pela juventude e intelectuais, o Botequim do Martinho (situava-se no que é hoje, a actual Praça Parada Leitão) e o Botequim da Rua de Santo António.
O Botequim da Rua de Santo António, inaugurado em 1851, tinha a sua entrada naquela rua, pela porta de acesso ao Teatro Circo, depois Príncipe Real, do lado esquerdo quem sobe. Aquela porta daria também acesso mais tarde, ao Teatro de Sá da Bandeira, e manteve-se durante muitos anos.
Era um café luxuoso e o preferido dos libertinos da época e, 13 anos depois, em 1864, passou a chamar-se Café da Neve, quando começou a servir sorvetes.
Este café era dotado de salão de bilhares e por ele transitaram muitos dos actores que declamavam nos vizinhos Teatro Circo e Baquet. Desconhece-se a data do seu encerramento.
Sobre o Botequim da Rua de Santo António o Dr. Artur de Magalhães Basto diz-nos, no “O Tripeiro”, Série VI, Ano IV:                

”Era a inveja dos lisboetas pelo seu gosto e luxo e um viveiro de “libertinos”; quem ali entrasse a tomar capilé e demorasse dez minutos saía cínico. Havia quem fosse lá para jogar “candidamente”, o quino e o bilhar, mas, em geral, quem se sentava àquelas mesas marmórias espostejava “a sã moral”… como cadáver combalido em teatro anatómico”.

Na Praça de D. Pedro como se vê em anúncio abaixo, em 1859, existia o Café dos Dous Amigos.


In “O Jornal do Porto”, 21 junho 1859


O Botequim “O Pátria” ficava na Porta do Olival e era frequentado pelos lentes da Academia Politécnica e da Escola Médica.
Nas proximidades da Escola Politécnica existiu também o Botequim do Adães que se pensa ter existido no mesmo local do Botequim da Porta do Olival, ainda hoje existente.
O jornalista e historiador Fir­mino Pereira acerca do Botequim do Adães, dizia que nele era frequente encontrarem-se, "encostados ao botequim de Adães os galegos em mangas de camisa, que espe­ravam os fretes dos armadores do bairro". 
Na Cordoaria havia ainda, em tempos, o Botequim da Graça e bem perto, em frente à Igreja dos Carmelitas, o Botequim da Pomba vizinho da célebre “Estalagem A Lisbonense”.
O Café da Porta de Carros ou Botequim do Senhor Frutuoso localizava-se no Largo da Porta de Carros, “nos baixos de um prédio de primeiro andar, que se achava (no meio de mais dois) encostado à demolida muralha Fernandina”, mesmo em frente à Igreja dos Congregados.
Horácio Marçal informa-nos que, em 1852, aquele estabelecimento já era considerado muito antigo.
Este café pertencia ao senhor Frutuoso, pai dos distintos, arcebispo de Calcedónia que foi também ministro da justiça em 1892 e dos Negócios Estrangeiros, D. António Frutuoso Ayres de Gouveia Osório (1828-1916) e de José Frutuoso Ayres de Gouveia Osório (1827-1887), médico e lente da Escola Médica e político e Presidente da Câmara Municipal do Porto em 1886-1887.
Este professor da Escola Médica casou (em 16 de Julho de 1866) com Virgínia de Brito e Cunha (nascida a 2 de Novembro de 1836 na casa do Ribeirinho, em Matosinhos e falecida a 16 de Agosto de 1905 na praia da Granja) e, desse casamento, tiveram uma filha, Maria Benedita de Brito e Cunha Aires de Gouveia Osório.


Aqui foi a Porta de Carros

Na foto acima pode observar-se, à direita colado à muralha, o local onde esteve o Café do Senhor Frutuoso. Ao centro vê-se o local do antigo e actual Café Brasil. À esquerda, em frente, a Rua de Santo António.
O Café das Hortas encontrava-se sedeado na Rua Nova das Hortas (actual Rua do Almada), na esquina com a Rua da Fábrica.
Horácio Marçal indica-nos que este café “pertencia a Domingos José Rodrigues e foi fundado no ano de 1820, com secção de bilhares no primeiro andar”.
Além de uma ampla sala de bilhares no primeiro andar, tinha três grandes salões: um para a burguesia, outro para os artistas e o ter­ceiro para a plebe. Um dos mais assíduos fre­quentadores do segundo salão era Camilo Castelo Branco, que aparecia sempre com o seu inseparável cão terra-nova.
Ramalho Ortigão escreve a propósito deste botequim:

“O velho botequim das Hortas em que à noite se jogava o Loto, a vintém o cartão, e que, ao abrir-se uma das suas portas envidraçadas, guarnecidas da cortininha de cassa branca, enchia de um picante perfume de calda de capilé e de café torrado a rua toda”.

Um dos mais assíduos fre­quentadores do Café das Hortas era um tal José Fer­reira, natural do Carvalhido, mas que o Porto conhe­cia, popularmente, pela al­cunha de "O cartolas ", por causa do tipo de chapéu que nunca deixava de usar. Era um notável poeta improvisador.
Segundo um dos seus biógrafos nasceu plebeu, e é bem possível que fre­quentasse o salão, que no referido café, era destinado a esta classe. O "Cartolas" acabou os seus dias como guarda da Fonte das Águas Férreas, muito frequentada pelas meninas dos meados do século XIX, porque as suas águas, dizia-se, provocavam o tom anémico muito em voga naqueles recuados tempos. 
A partir de 1850, no piso superior do café, passou a fun­cionar a Filarmónica Portuense
Em 1 de Março de 1859 o jornal “O Braz Tisana” anunciava que o Café das Hortas, “(…) abriu-se novamente depois de reparados os estragos que sofreu por causa do incêndio que, ultimamente, ali teve lugar”.
O Café das Hortas durou 60 anos.
Em 1880, já com outros proprietários, o café foi transformado em restaurante, denominado Restaurante do Porto e os pisos superiores deram lugar ao Hotel Internacional, que ainda hoje subsiste, e que começou por se chamar, Hotel Real.


Local onde existiu o Botequim das Hortas


Pela Praça da Batalha desde 1857 existiu um café que era o local de encontro de liberais, republicanos e socialistas, denominado Café da Comuna.
Por razões de ordem política, era aquele, um local de forte vigilância policial, o que levou ao seu encerramento em 1889, após fuga dos seus proprietários às autoridades.
Nesse mesmo ano abriria um outro no seu lugar, mas, obviamente, teve que mudar o nome para Café Leão D’Ouro.

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