terça-feira, 24 de setembro de 2019

25.64 Comemorações Henriquinas de 1894 e a Corveta Estefânia


Corveta Estefânia no Cais de Massarelos


A corveta Estefânia tinha o seu nome associado ao da jovem rainha, falecida em 1859, tendo tardado, apenas dois anos, para a partida do rei D. Pedro V, para o mesmo destino.


«Já no leito ardia com febre delirante. Em frente do palácio, fundeada no rio, a corveta Estefânia de espaço a espaço soltava um tiro - como o bater do relógio lúgubre da morte. E esses tiros, ouvia-os o rei, chamavam-no, excitavam-no, davam-lhe os desejos de acabar por uma vez com a vida miserável, para ir abraçar no céu a Beatriz do seu delírio. Se a voz dos anjos pudesse ser o troar dos canhões, não era ela que o chamava? Talvez; porque os tiros chegavam à câmara do rei, já brandos, como um eco, um murmúrio, e vinham do navio que tivera o nome dela - Estefânia!»
Oliveira Martins, In “Portugal Contemporâneo


Lançada à água em 1859, a corveta Estefânia viria a substituir, anos mais tarde, como navio-escola, a corveta Sagres (ou "Sagres I", para se distinguir dos navios posteriores com o mesmo nome), a partir de 1898.
A corveta Sagres I foi construída em 1858 e, em 1876, deixou de navegar, ficando ancorada no rio Douro, junto a Massarelos, tendo passado a funcionar como Escola de Alunos Marinheiros, até 1898, quando foi abatida e substituída, naquele local e com as mesmas funções, pela corveta Estefânia.
Uma outra Sagres (Sagres II) lançada à água em 1896 e outra do mesmo tipo, uma Sagres III, lançada à água em 1937, ainda estão ao serviço.
A Sagres II depois de várias peripécias está, actualmente, ancorada no porto de Hamburgo, funcionando como navio-museu e com o nome de “Rickmer-Rickmers”.
A Sagres III, construída em 1937 nos estaleiros da Blohm & Voss, em Hamburgo, na altura, recebeu o nome de Albert Leo Schlageter.
Tendo este navio sido capturado pelos Estados Unidos aos alemães na 2ª Grande Guerra, e depois de uma estadia pelo Brasil, em 1962, foi comprado por Portugal para substituir a antiga Sagres.
Passou, depois, a ser o navio-escola Sagres, ligada à formação dos futuros oficiais da marinha. 
Desde esse ano, tem feito viagens de instrução por todo o mundo, tendo sido sujeita a remodelações de modernização, em 1987 e 1991.
Infelizmente, a corveta Estefânia já não está entre nós, pois, acabou por se afundar próximo do Farol de Felgueiras, à saída da barra do rio Douro, durante a cheia de 1909, percorrendo a últimas centenas de metros pelo rio, antes da saída da barra, já com a tripulação a salvo.
O seu porte majestoso foi fundamental para que fosse escolhida para ir em 1867, ao Egito, representar o país nas célebres e deslumbrantes festas da inauguração do Canal de Suez, mas, apesar de comandada pelo grande Baptista de Andrade, mais tarde, almirante e chefe da casa militar de El-Rei, desarvorou na viagem de ida, regressando a Lisboa sem ter cumprido a missão.
Um violento temporal obrigou a corveta a arribar com grossa avaria a um porto de Espanha.
Durante muitos anos, os portuenses habituaram-se a ver a Corveta Estefânia, com amarras, no Cais do Bicalho.
De notar, que não é ela, na foto abaixo, numa visita da família real para assinalar os 500 anos do nascimento do Infante D. Henrique (1394-1460).


Corveta Sagres integrada em cortejo fluvial, passando no Cais do Bicalho, durante as Comemorações Henriquinas de 1894, sendo que, foi a partir dela, que o rei assistiu aquele cortejo




Vista actual do Cais do Bicalho - Fonte: Google maps



Corveta Sagres fundeada em Massarelos (1886)



Diga-se, a título de curiosidade, que houve uma corveta, a “Corveta Porto”, construída em 1848, que foi o último navio construído nos estaleiros do Ouro. Em 1858, teve um grande incêndio, em pleno Tejo, pelo que foi abatida no ano seguinte.
Quanto às comemorações dos 500 anos sobre o nascimento do Infante D. Henrique, elas começaram no dia 1 de Março de 1894, mas, o ponto alto das mesmas, foi a 4 de Março, com o lançamento da 1ª pedra do monumento do Infante D. Henrique, na Praça do Infante.


“Nascido no Porto, em 1394, o Infante D. Henrique, foi o quinto filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre. 
O Papa Martinho V designou-o para as funções de administrador e governador da Ordem de Cristo, em Maio de 1420. Vinte anos mais tarde, fixa a residência perto de Lagos, rodeia-se de cientistas e navegadores e prepara as viagens marítimas com bases tanto quanto possível, científicas nessa época. 
Acompanha ainda D. Afonso V, na conquista de Alcácer Seguer em 1458 e morre dois anos mais tarde, em Lagos a 13 de Outubro de 1460, deixando efectuado o reconhecimento da Costa Africana até à Serra Leoa.” 
Fonte: “portoxxi.com/”



“Começaram ontem, 1 de Março, as festas oficiais comemorativas do centenário do Infante D. Henrique.
Logo de manhã a cidade aparece embandeirada. O movimento era desusado nas ruas mais centrais.
Ontem à noite, a título de experiência, houve iluminações em quase todas as ruas e em muitas casas particulares.”
In jornal “A Palavra”, de 2 de Março de 1894 – 6ª Feira


“A presença da família real, no Porto, nesta ocasião solene, tem uma alta significação, que oxalá desabroche em benefícios para a nossa pátria tão ufana hoje do seu passado glorioso e tão simpaticamente saudada de todos os pontos do globo".
In jornal “O Commercio do Porto”, de 2 de Março de 1894 – 6ª Feira



Chegada de D. Carlos à estação ferroviária de Campanhã, a 1 de Março de 1894, para as comemorações Henriquinas



A saudação na gare de Campanhã foi dirigida pelo presidente da municipalidade, António Ribeiro da Costa Almeida, depois de ser ouvido o Hino da Carta e sido proferido, nas diversas intervenções, uma recorrente alusão ao espírito patriótico dos portuenses.
Aquando da recepção no Paço das Carrancas, no dia 2 de Março, onde estiveram já presentes, oficiais ingleses do barco Bellona, que participavam nos festejos, o tema dos discursos versaria o espírito nacional da festa, a fidelidade à monarquia e o espírito patriótico do povo.
Dizia no seu discurso, João Henriques Andresen, presidente da Associação Comercial do Porto:

" (...) a vinda de VV. MM. ao Porto nesta ocasião reveste ainda um cunho da mais alta significação e apreço, pois que se propõem associar o trono às aspirações populares na brilhante comemoração de um dos mais ilustres e dignos filhos da nossa pátria (...)".


Um dos destaques das comemorações seria o desfile de um cortejo cívico, ocorrido a 3 de Março, que percorreu um programado itinerário através da Rua do Anjo, Clérigos, Praça de D. Pedro, ruas Sá da Bandeira, Formosa, Santa Catarina, Santo António, Largo da Feira de São Bento, Rua das Flores, Largo de S. Domingos, Rua Ferreira Borges até à Rua Alfândega Velha.
Compunha o desfile doze carros alegóricos, apresentando-se os prédios com as janelas e varandas, no seu percurso, devidamente engalanadas, bem como as ruas por onde passava.
 Abria o desfile o Carro Triunfal da Cidade do Porto — atrás, o Governador Civil e individualidades da cidade, a representação do clero, os militares, professores da Universidade de Coimbra, membros de múltiplas associações científicas e muitos representantes de profissões liberais.
Seguiam-se o Carro da Agricultura, Carro do Comércio, Carro do Atheneu Comercial, Carro da Indústria, Carro da Exposição Insular e Colonial, Carro dos Bombeiros Voluntários, Carro do Ginásio Lauret, Carro das Belas-Artes, Carro da Sociedade Alexandre Herculano, Carro de Navegação do Século XIV, Carro dos Empregados do Telégrafo, todos eles intercalados com membros de instituições diversas, operários, bandas de música e estudantes. Fechava o desfile o Corpo de Salvação Pública.


Carro alegórico da cidade do Porto



Carro da Agricultura



Cortejo de carros alegóricos, passando nos Clérigos, nas comemorações Henriquinas de 1894 – Fonte: Arquivo Histórico Municipal do Porto


Obelisco montado no Largo dos Lóios, em 1894, para as Comemorações Henriquinas – Fonte: Arquivo Histórico Municipal do Porto


Largo da Feira de S. Bento (Praça Almeida Garrett) – Fonte: Arquivo Histórico Municipal do Porto


Na foto acima é possível observar-se a igreja dos Congregados e o Convento de São Bento de Avé-Maria (local da actual estação de São Bento).
Junto da casa, onde se diz, que teria nascido o Infante, o rei D. Carlos descerrou a respectiva lápide comemorativa.
A cerimónia seria assinalada por girândolas de foguetes e pela música do Hino Nacional.


Casa onde dizem ter nascido o Infante D. Henrique, na Rua Velha da Alfândega – Gravura extraída da revista o “Occidente” de 11 de Março de 1894



Placa cravada sobre a porta, na Casa do Infante, e descerrada por D. Carlos, comemorativa do “V Centenário do Nascimento do Infante” 


“A tradição que relaciona o nascimento do Infante D. Henrique com este local levou ao descerramento de uma lápide sobre a entrada principal, no ano de 1894. A iniciativa partiu da Comissão Henriquina, à qual se associou a Câmara, tornando assim definitiva designação de “Casa do Infante”, atribuída ao edifício. No final de oitocentos inicia-se a última fase de transformações, que se prolongou durante as primeiras décadas do século XX. A fachada foi remodelada, sendo-lhe acrescentado um andar. A classificação da Casa do Infante como monumento nacional dá-se em 1924. No final dos anos 50. O edifício, cujo corpo posterior se encontrava arrendado voltou para a posse do Estado e da Autarquia. Entre 1958-1960 sofreu um profundo restauro, orientado pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, sob direcção do arquitecto Rogério de Azevedo”.
Fonte: “Porto XXI”


O cortejo seguiria, depois, pelas ruas Infante D. Henrique, S. João, Mouzinho da Silveira, D. Maria, Largo dos Lóios, Rua do Almada até à Praça da Regeneração.



Quartel de Infantaria 18



Na foto acima observa-se a família real, à varanda do quartel de infantaria 18, no Campo da Regeneração (Praça da República), durante as Comemorações Henriquinas, em 3 de Março de 1894.
Neste local, os liberais em 24 de Agosto de 1820, proclamaram a Liberdade e a "salvação da pátria",  no que então era chamado de Campo de Santo Ovídio.


Campo da Regeneração com bancada em semi-círculo para execução do hino composto por Alfredo Keil, nas Comemorações Henriquinas de 1894 - Cliché da “Fotografia Santos” (Travessa da Fábrica, nº 32 - Porto)



Após o cortejo cívico, à noite, aconteceria o jantar que decorreu no Palácio da Bolsa e que esteve, segundo as crónicas, deslumbrante.
Para além daquele cortejo, ocorreria, na tarde do dia 4 de Março, um outro, neste caso, fluvial, com início na Foz do Douro, tendo como destino a Ribeira e, no qual, uma caravela quinhentista, construída para o efeito, transportou na parte terminal do trajecto fluvial, a primeira pedra para o monumento a ser erguido ao Infante D. Henrique, na praça que ganhou o seu nome.


Cortejo Fluvial em 4 Março de 1894 – Gravura de J.R. Christino da Silva, In Revista “O Ocidente” (11 de Abril de 1894, 17º ano, XVII Volume, nº 551)


A gravura acima mostra o cortejo dos barcos que acompanharam a caravela que levava a primeira pedra do monumento ao Infante D. Henrique.
Observa-se, em realce, a barra do Douro, a Igreja de Massarelos, o cortejo fluvial, o fogo-de-artifício e a torre dos jardins do Palácio de Cristal.
A manhã desse dia tinha sido passada pela família Real ouvindo missa na capela do Colégio das Orfãs, a S. Lázaro, rezada pelo cardeal D. Américo, a que se seguiu, após o almoço, uma presença no Palácio de Cristal, para assistirem a umas corridas promovidas pelo “Real Velo Club do Porto”.
Pelas 15 horas, estavam a assistir ao desfile fluvial a bordo da corveta Sagres e, depois, presidiriam ao lançamento da 1ª pedra do monumento dedicado ao infante D. Henrique.
À noite, houve récita de gala, no Teatro S. João.


“Lançamento da primeira pedra do monumento ao infante a 4 de Março de 1894.
Veio do promontório de Sagres a bordo da canhoeira «Tavira». Fez-se a bênção sobre um altar levantado no centro da praça, ao lado da Rua Ferreira Borges.
SS. MM. Procederam à colocação da 1ª pedra.
El-rei recebeu o martelo da mão do sr. Vice-Presidente da Câmara de Lisboa e a colher da mão do sr. Presidente da Câmara do Porto.”
In o jornal “O Primeiro de Janeiro”, de 6 de Março de 1894 – 3ª Feira



“Se a cidade se coloriu e alindou para festejar o Infante e rememorar o ciclo da expansão e o gérmen do Império, também o rio Douro foi centro das atenções dos organizadores do centenário. "Efeito mágico" o do desfile dos vapores embandeirados (Veloz, Liberal, Galgo, Tritão, Águia, Lince, Tito e Flávio, Leão, Hercules e Ligeiro) que escoltavam a caravela quinhentista, expressamente construída, que transportava a primeira pedra, vinda de Sagres, para o monumento henriquino. O cortejo fluvial seguiu da Foz até à Ribeira, onde o esperava apinhada multidão. Tocou-se uma vez mais o hino do Infante. Em cortejo organizado com os membros da Câmara Municipal, os responsáveis do centenário, membros da imprensa, sócios do Club Fluvial, entre outros, foi conduzida a pedra fundamental para a Praça Infante D. Henrique. O Cardeal-Bispo do Porto, D. Américo, "lançou a bênção e o rei colocou a primeira colher de cal" na "pedra mandada extrair pela Câmara de Vila Boa do Bispo, do histórico promontório de Sagres, em 25 de Setembro de 1893".
Cortesia de Maria Manuela Tavares Ribeiro, In “O Centenário Henriquino”



Caravela quinhentista, similar à descrita no texto acima



Aspecto do Cais da Ribeira, no términos do cortejo fluvial, durante as Comemorações Henriquinas de 1894


A Ribeira no dia do cortejo fluvial, durante as comemorações dos 500 anos do nascimento do Infante D. Henrique, com a Sagres em lugar de destaque


Cerimónia do lançamento da 1ª pedra destinada ao monumento do Infante D. Henrique (4 de Março de 1894)





(Continua)

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

(Conclusão)


Delfim Ferreira. Um capitalista com rectaguarda familiar


A actividade hoteleira era para Delfim Ferreira (Riba-d’Ave, 1888 – Porto, 1960) uma gota de água num imenso oceano e, nestas águas, vogava o sector energético que, para além da pioneira indústria têxtil, compreendia muitas outras que foi abraçando ao longo da sua vida.
Tudo começou pela iniciativa de seu pai, Narciso Ferreira, que depois de ter começado como tecelão (actividade de cariz familiar), foi abraçando outros empreendimentos menores no sector têxtil, até que, viria a constituir uma sociedade em 1894, com o empresário Manuel Joaquim Oliveira, o banqueiro José Augusto Dias, o engenheiro Ortigão Sampaio e com o proprietário José Fernandes, legalizada por escritura em 1896, denominando-se Sampaio Ferreira & Cia. Lda. (Riba-d’Ave, Famalicão), com duzentos teares mecânicos, alimentados pela energia de um açude construído no rio.


“Sampaio & Ferreira”, actualmente desactivada – Fonte: jornal “O Minho”


Em 1905, Narciso Ferreira (07 /07/1862 – 23/03/1933) fundaria a “Empresa Têxtil Eléctrica, Lda.” (Bairros, Famalicão), concebida desde o início para utilização da electricidade, produzida a partir de uma pequena central instalada no Ave.
O seu objecto era o de "exploração da indústria de fiação e tecelagem de algodão e de electricidade, e quaisquer outros ramos inerentes.
Outra grande fábrica (do grupo empresarial) seria montada por Narciso Ferreira, a “Oliveira Ferreira & Cia. Lda.”, criada em Riba de Ave em 1909.
Em sequência, em 1909, Narciso Ferreira electrificou as suas duas outras empresas de Riba d'Ave - a “Sampaio & Ferreira” e a “Oliveira & Ferreira”, erguendo, para isso, a Central de Amieiro Galego, no rio Ave.
Esta central começa a funcionar em 1909 e permitiu o trabalho por turnos, e electrificar a freguesia de Riba d'Ave que, por essa razão, foi uma das poucas do concelho a dispor de energia eléctrica para consumo doméstico.
O fornecimento energético ao complexo industrial (em censo de 1928 tinha no total, 1400 trabalhadores), e o consumo doméstico viria a ser reforçado, pela exploração da central do Varosa, da “Companhia Hidro-Eléctrica do Varosa”, concessionada em 1907 e construída para iluminação da Régua e de Lamego.
Esta central energética foi sendo transformada, desde 1918, pelo grupo empresarial de Narciso Ferreira, que faz chegar a energia ao Vale do Ave, proveniente do Varosa, reforçando-a com o funcionamento da Central Termoeléctrica de Caniços (Bairro) e, a partir de 1925, a energia chega ao Porto, por concessão de uma linha de abastecimento a partir da barragem do rio Varosa e da sua Central do Chocalho.
(Note-se que, a barragem do Lindoso, determinante para a região Norte, apesar de concessionada em 1907, só começaria a funcionar em 1922, fornecendo energia para Porto, Gaia e Braga.)



Barragem de Varosa, em Lamego – Cortesia de Vítor Oliveira


Narciso Ferreira também montou e organizou, já com a ajuda dos seus filhos, a “Fábrica de Fiação e Tecidos (Ferreira & Irmão, 1924)” de Vila de Conde e a “Empresa Têxtil Algodoeira de Arcozelo”,  em V. N. de Gaia.
Porém, entre os seus filhos, na condução dos negócios, a herança do comando de Narciso Ferreira (falecido em 1933), vai para o filho Delfim Ferreira que, face ao eclipsar natural de Narciso Ferreira, vai lançar outros projectos, em diferentes áreas.
Assim, Delfim Ferreira terá um papel fundamental no fabrico de seda artificial, em Portugal, com a criação, em 1930, da “Empresa Nacional de Sedas” (sedeada em V. N. de Gaia, Arcozelo, Aguda) e, em 1951, funda a “Sociedade Industrial do Mindelo”, em Vila do Conde.
A grande capacidade de inovação industrial revelada por Delfim Ferreira foi reconhecida, a nível nacional, tendo o Governo convidado o industrial a aproveitar as águas do rio Ave, nascendo então a Companhia Hidro-Eléctrica de Portugal”, apoiada na Barragem do Ermal (funcionando por gravidade) e na sua Central de Guilhofrei, com funcionamento a partir de 1938.



Barragem do Ermal e albufeira – Fonte: “portugalfotografiaaerea.blogspot.com”


Pela associação em 1943 da “Companhia Hidro-Eléctrica de Portugal” e da “Companhia Hidro-Eléctrica do Varosa” (que tinha associado as centrais eléctricas de Chocalho e do Caniço) resultaria o aparecimento da “CHENOP” – “Companhia Hidro-Eléctrica do Norte de Portugal que, tendo sido nacionalizada em 1975, ficou sob a alçada da EDP.
Em 1953, e novamente a convite do Governo, Delfim Ferreira explorou as águas do rio Douro, dando origem à “Hidroeléctrica do Douro”.
Delfim Ferreira, noutras áreas de negócio, foi ainda o responsável pela construção de grandes edifícios na Avenida António Augusto Aguiar e Sidónio Pais (em Lisboa) e na Rua Sá da Bandeira (Porto).
Entre todos eles, destaca-se o Palácio do Comércio (na parte nova da Rua Sá da Bandeira) projectado em 1944, pelos arquitectos David Moreira da Silva e Maria José Marques da Silva Martins (respectivamente genro e filha do arquitecto Marques da Silva).
A escultura “O Triunfo da Indústria”, que assenta na sua platibanda, é da autoria de Henrique Moreira.



Palácio do Comércio – Fonte: Fundação Marques da Silva (“arquivoatom.up.pt/”)


Outra área que Delfim Ferreira explorou, foi a da produção vinícola, nomeadamente a ligada ao vinho do Porto, tendo criado, nas suas explorações vinhateiras, no Douro, novos métodos de produção vinícola e de arroteamento, nomeadamente nas suas propriedades de “Quinta dos Frades” (Armamar) e “Quinta do Castelo” (Santa Marta de Penaguião).

“A Quinta dos Frades, primitivamente designada de Quinta da Folgosa, como é referida nos documentos mais antigos, localiza-se na freguesia da Folgosa, concelho de Armamar. As suas origens remontam ao século XIII, tendo sido doada aos monges do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas em 1256, como comprovam os dois Brasões da Congregação Autónoma dos Cistercienses de São Bernardo de Alcobaça que a quinta possui. Foi uma das mais ricas e produtivas quintas deste Mosteiro.
(…) Com a extinção das Ordens religiosas e dos seus mosteiros em 1834, como foi o caso do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, ao qual pertencia a Quinta dos Frades, os bens destes mosteiros foram inventariados e colocados à venda em hasta pública. A Quinta dos Frades, acabaria por ser arrematada a 6 de Novembro de 1841 pelo 1º barão da Folgosa, Jerónimo de Almeida Brandão e Souza, mantendo-se na posse dos seus herdeiros, sua filha e marido (Conde da Folgosa) até 1941.
Em 1941, o Comendador Delfim Ferreira, um importante industrial e impulsionador da economia portuguesa, adquire a Quinta dos Frades, levando a cabo um projecto de reabilitação da mesma, da autoria do arquitecto Rogério de Azevedo, também responsável pelo projecto do emblemático Hotel Infante Sagres, mandado construir por Delfim Ferreira. A quinta passava agora a estar dotada de infraestruturas modernas de produção e de lazer e Delfim Ferreira introduziu também o método de plantação das vinhas em declive livre.
Já nos anos 70 do século XX a Quinta dos Frades, vê a sua área reduzida pela construção da Barragem de Bagaúste e pelas obras de desvio da E.N. 222, tendo sido expropriada uma grande área incluindo os terrenos abaixo do solar onde estavam implantadas as vinhas mais antigas. Actualmente a quinta possui cerca de 200 hectares de área.
Após décadas a produzir para outras casas exportadoras de vinho e de um período de reestruturação, finalmente em 2008 os bisnetos de Delfim Ferreira, aproveitando as potencialidades das vinhas da quinta, iniciam um projecto de produção do primeiro vinho de mesa com a marca “Quinta dos Frades”, contando presentemente com mais marcas e uma edição especial dedicada ao Comendador Delfim Ferreira”.
Fonte: “quintadosfrades.pt”


Marco Pombalino da Quinta dos Frades



Quinta dos Frades, na Folgosa, Armamar


Delfim Ferreira morreu em 1960, na sua casa na Quinta de Serralves, que tinha adquirido nos anos 50 ao conde de Vizela.


Casa de Serralves





2. Hotel Aliados


O Hotel dos Aliados, que já foi Pensão dos Aliados, é o único de 3 estrelas existente na Avenida dos Aliados.


“Numa zona onde existiam outrora duas ruas muito movimentadas e um conjunto de ruas curtas e vielas a que chamavam “os lavadouros”, a demolição em 1916 do palacete barroco da Praça da Liberdade — que desde 1816 alojara a Câmara do Porto — representou o primeiro passo para a edificação do que viria a ser a Avenida dos Aliados, que deriva de Avenida das Nações Aliadas com que foi baptizada aquando da sua inauguração em homenagem à vitória aliada na 1ª Guerra Mundial (1914-1918).
Desde meados do século XIX, a Praça da Liberdade era já o “ponto predilecto de reunião dos homens graves da política e do jornalismo, da alta mercancia tripeira e dos brasileiros”. Projectada pelo arquitecto inglês Barry Parker, a Avenida dos Aliados veio estabelecer a ligação entre esta praça e a da Trindade, convertendo-se prontamente numa espécie de “sala de visitas da cidade”.
A avenida está rodeada de edifícios monumentais e coroada na sua parte superior pelo edifício da Câmara Municipal, constituindo um conjunto harmonioso com fachadas decoradas de forma a criar um ambiente monumental e luxuoso, entre as quais se encontra o edifício que alberga desde 1932 o Hotel Aliados..
É neste contexto efervescente que Fernando Guimarães inaugura, em 28 de Maio de 1932, a Pensão dos Aliados. O seu filho, Manuel Guimarães, viria a ser um nome de marca da relevância no cinema português, sobretudo enquanto realizador, (Costureirinha da Sé) mas também enquanto assistente de realização, operador ou repórter cinematográfico. O seu potencial artístico ver-se-ia no entanto ferozmente travado pela censura e pela falta de financiamento.
Visitada por gente ilustre, frequentemente ligada à arte e à cultura, a Pensão dos Aliados viu também crescer o filho de Manuel Guimarães, Dórdio. Poeta, cineasta, ficcionista e jornalista, Dórdio Guimarães celebraria em 1990 um casamento de conveniência com a sua colaboradora e amiga, a célebre intelectual, poeta e activista social Natália Correia, que contava por essa altura 67 anos de idade”.
Fonte: “hotelaliados.com”


“Por falecimento dos pais — Fernando Guimarães e D. Bibelinda Pinheiro de Guimarães — respectivamente a 25 de Março de 1946 e a 27 de Maio de 1945, sucede-lhes a 16 de Agosto de 1946, Álvaro Pinheiro de Guimarães, que já exercia a gerência da pensão desde 15 de Novembro de 1934.
Quando, a 15 de Setembro de 1971, falece Álvaro Pinheiro de Guimarães, a gerência passa para o Sr. Acácio Martins. A Pensão dos Aliados seria adquirida a 28 de Janeiro de 1987 por Agostinho Barrias, tendo actualmente como sócio-gerente e director o Sr. Fernando Barrias, e viria a ser finalmente restaurada em 2012, convertendo-se no Hotel Aliados ao abrigo da nova lei da Direcção Geral de Turismo.
A família Barrias é também responsável por locais de referências como os cafés Guarany e Majestic, o Hotel Internacional, o Hotel Vera Cruz, e o Hotel Pão de Açúcar”.
Fonte: “portonosso.pt”


Pensão Aliados - Fonte: “hotelaliados.com”



Natália Correia numa varanda da “Pensão dos Aliados” – Fonte: “hotelaliados.com”


“Hotel Aliados” e, no rés-do-chão, o “Café Guarany”

terça-feira, 17 de setembro de 2019

25.63 Um hotel de luxo e uma pensão histórica, que hoje é hotel


1. Hotel Infante de Sagres

O “Hotel Infante de Sagres” está instalado num edifício histórico, datado dos anos 50, mandado construir pelo comendador Delfim Ferreira, com projecto do arquitecto Rogério de Azevedo, podendo ser considerado, no Porto, como um exemplo da fase de transição para o modernismo.
O hotel foi inaugurado em 21 de Junho de 1951, na Praça D. Filipa de Lencastre e foi o primeiro hotel de luxo da cidade do Porto.
O local em que foi levantado tinha sido anteriormente a morada dos Souto e Freitas, que nas últimas décadas do século XVIII, aí tinham mandado construir a chamada “Casa da Fábrica”, nome que ganhou por ser vizinha duma importante fábrica de tabaco, da cidade, que haveria de dar também nome à rua – a Rua da Fábrica.
Mandada então construir, a “Casa da Fábrica”, por Luís António do Souto e Freitas, por sua morte, em 1770, ela passaria sucessivamente para a posse dos seus herdeiros e das famílias respectivas, que se constituíram a partir daquele patriarca, até meados do século XX.
Nessa ocasião, venderam o edifício ao capitalista Delfim Ferreira, que aí mandaria construir o “Hotel Infante de Sagres”.


Casa da Fábrica (perspectiva obtida a partir da Rua da Fábrica) – Ed. Foto Beleza


Até à esquina (em primeiro plano) da foto acima, viriam a estender-se, as traseiras do “Hotel Infante de Sagres”.



Traseiras do “Hotel Infante de Sagres”, em perspectiva semelhante à de foto anterior – Fonte: Google maps



O projecto deste hotel é de 1943 e a sua construção foi iniciada em 1945, parecendo que, inicialmente, teria sido pensado para aí instalar uma estalagem.
A decoração do hotel esteve a cargo de Artur Barbosa, e os ornatos e decorações dos tectos e paredes, da firma “Baganha & Irmão”.
Na noite de inauguração tocaram duas orquestras no “Salão Luís XVI”.
Tinha 67 quartos, entre eles, 37 tinham quarto de banho privativo e os restantes, bidé e lavatório.
Na cave, localizava-se a cozinha, pastelaria, casas das máquinas, vestiários do pessoal, despensas e rouparia.


Publicidade com indicação dos preços praticados, em 1951, no “Hotel Infante de Sagres”


Hotel Infante de Sagres, em 1953 – Fonte: Fundação Instituto Arquitecto José Marques da Silva


A decoração apontava para o estilo “Luís XV”, exceptuando o salão de baile e a suite de luxo do 1º andar, que eram ao estilo “Luís XVI”.
As esculturas eram de,


“Barata Feyo, as telas de Abel Moura e Artur da Fonseca, e vitrais de mestre Leone.
(…) A gerência do “Hotel infante de Sagres”, ficou entregue a Alexandre Soleiro, sócio da sociedade arrendatária e proprietária da “Ferreira & Filhos, Lda.”.
Após a morte de Delfim Ferreira, seu filho, o Dr. Alexandre Ferreira deu-lhe continuidade”.
Cortesia de José Leite (“restosdecoleccao.blogspot.com”)


Hall de entrada do “Hotel Infante de Sagres”


Hall da Recepção do “Hotel Infante de Sagres”


Sala de Jantar do “Hotel Infante de Sagres”


Salão de Baile do “Hotel Infante de Sagres”



Quarto do “Hotel Infante de Sagres”


Quarto-de-banho do “Hotel Infante de Sagres”


O Hotel Infante de Sagres contribuiu, em muito, para o reconhecimento da hotelaria Portuguesa, visto já ter hospedado várias personalidades reconhecidas internacionalmente, como o Dalai Lama, os Reis da Noruega, a Rainha Beatriz da Holanda, Bob Dylan, Catherine Deneuve, o Príncipe Eduardo de Inglaterra, John Malkovich e, mais recentemente, em 2010, os U2.
Era o preferido do Dr. Mário Soares.


Praça D. Filipa de Lencastre e “Hotel Infante de Sagres”


Na foto acima, o aspecto da praça, quando nos prédios fronteiros ao hotel, se localizavam os escritórios de várias empresas de camionagem.
Em Janeiro de 2008, o “Hotel Infante de Sagres”, foi comprado pelo grupo “Lágrimas - Hotels & Resorts”, do advogado José Miguel Júdice.
Em 2016, foi adquirido pela empresa “The Fladgate Partnership”.
“The Fladgate Partnership” é proprietária das casas de vinho do Porto Taylor's, Fonseca, Croft e Krohn e dos hotéis “The Yeatman” e  “The Vintage House”.
Entre Novembro de 2017 e Abril de 2018, o hotel esteve encerrado para obras. Após os trabalhos, ganhou uma piscina no terraço, mais 15 quartos e um Vogue Café. Foram investidos 7,5 milhões de euros e teve como autor do projecto o arquitecto portuense António Teixeira Lopes, de 85 anos, discípulo do mestre Rogério Azevedo, autor do projecto original.
Após as intervenções e remodelações a que foi sujeito, tendo mudado um pouco de visual (reabriria com 21 suítes e 64 quartos), viu o seu nome passar de “Hotel Infante de Sagres” a “Hotel Infante Sagres” e passado, ainda, a fazer parte da cadeia de hotéis “Small Luxary Hotels of the world”.
Em termos de classificação, o hotel trocou as suas cinco estrelas pela insígnia “Tradition & Luxury Hotel”.


Aspecto actual do Hall de entrada do “Hotel Infante Sagres”


Aspecto actual de um Quarto do “Hotel Infante Sagres”


Sala de Jantar, actualmente, do “Hotel Infante Sagres”


(Continua)



terça-feira, 10 de setembro de 2019

(Conclusão)


Passados cerca de 450 anos sobre aquela viagem com começo no Postigo da Praia, já um viajante sairia pela Porta Nobre, resultante da transformação daquele postigo e que antes se tinha chamado Porta Nova, a partir do reinado de D. Manuel I.
Com Filipe I seria, junto dela, erigido um fortim.
A viagem poderia ser então feita por “Carroção”. Um meio de transporte, com o qual se demandava a Foz do Douro, que era alugado na cidade pelos interessados, a partir de c. 1840.
Famílias de posses tinham o seu próprio carroção, que consistia numa grande caixa de madeira com rodas, que uma junta de bois puxava pachorrentamente.
Miragaia, Massarelos, Lordelo do Ouro, iam-se sucedendo, acabando a viagem, finalmente, por terminar na Cantareira junto da capela da Senhora da Lapa.
Ao Cais da Estiva, na Ribeira, desembarcavam dos vapores e lugres e de outros tipos de embarcações, os oriundos de Lisboa, Brasil e de outras paragens.
Desses desembarques, nos é dado conta das peripécias a eles inerentes, no texto seguinte do jornalista Júlio César Machado, na sua obra literária “Scenas da Minha Terra” e que foram por ele vividas, em 1861, durante uma visita que fez ao Porto.



Júlio César Machado


O Hotel Luzitânia referido no texto acima ficava na foz do Douro, no Passeio Alegre, nº 54 e tinha portas abertas desde 21 de Junho de 1857.
Sobre os transportes daquela época nos falam os textos que se seguem.


“Os automóveis desse tempo eram a sege e o carroção, este assente em fortes correias de couro, que balançavam sobre quatro rodas enormes, perfeitamente adaptadas, por sua grande solidez, às ruas escabrosas da cidade do Porto, desses tempos.
O carroção servia para adormecer os vivos em dia de romaria ao Senhor de Matosinhos e também um luxo de famílias abastadas nas noites de récita ao Real Teatro de S. João.
Puxavam a sege dois cavalos lazarentos, um dos quais era montado pelo boleeiro, um tipo de grandes botas de montar, com esporas amarelas, calções esticados, colete vermelho e jaqueta verde ou azul muito apertada nos punhos.
O carroção era puxado a bois, partindo da cidade do Porto pelas cinco horas da madrugada para estar em Matosinhos ao meio dia em ponto.”
In jornal “O Pharol” de 1 de Novembro de 1909


“O meio de transporte habitual das famílias, para o Teatro de S. João, para os bailes, para as romarias, era o famoso carroção, veículo de 4 rodas da forma de um prédio, com duas fachadas laterais de cinco janelas cada uma, e porta ao fundo, a que o passageiro subia por quatro degraus de escada guarnecida por um corrimão. Uma junta de alentados bois de Barroso puxava pelo «monumento».
(…) Havia famílias enormes que não cabiam em duas salas e que se acomodavam num carroção. No Inverno, uma dessas ingentes moles chegava à porta do Teatro S. João. A portinhola abria-se, havia uma escada com corrimão para descer; o carroção começava a despejar senhoras. O pátio do Teatro enchia-se e o carroção continuava sempre a deitar gente. Pasmava-se que ele pudesse conter tantas pessoas, ia-se olhar e encontrava-se ainda, lá dentro, no escuro, a mexer-se e a preparar-se para sair, tanta gente como a que estava fora”.
Ramalho Ortigão, In “As praias de Portugal” (1876)



Carroção semelhante ao descrito por Ramalho, que tinha, porém, 5 janelas laterais em cada lado


Por seu lado, Camilo Castelo Branco refere-se ao carroção do seguinte modo:

“O carroção tinha, por aquelle tempo, dois séculos de moda. Fôra inventado na rua das Congostas para uso de uma família obesa, formada de quinze pessoas adiposas. Esta família derreteu·se no estio de 1650; mas o carroção, parado no largo da Batalha, com a lança vermelha atravessada nas sogas dos ramalhudos bois, viu passar e desapparacer todos os vehiculos adelgaçados pelo cepilho do progresso. O carroção escancarou as guellas, e riu do americano, da victoria, do phaetont, do landau, da caleche, do Daumont, do brougham, do mail-coach, do poney-chaise, do groom, do break”.


Ao carroção sucederia o “Ónibus” ou “Omnibus”, que fazendo o mesmo percurso da nova Alfândega à Cantareira, era movimentado por quatro burros.

“Caixa com feições de arca de Noé – Seis vidraças e sobre o tecto um assento a que chamam varanda; puxado por quatro machos azamelados, guiados por um boleeiro de jaqueta de chita e chapéu de ferro. É o ónibus do Porto.”
Augusto Gama, In “Dois escritores coevos”


“Quanto ao omnibus, contemporâneo do carroção, terá sido introduzido na cidade aquando da constituição da Companhia de Transportes União, em 1839, que importou quatro coches denominados omnibus para transporte de passageiros. A sua forma seria em muitos aspetos semelhante ao carroção, ou seja, uma enorme caixa de madeira envidraçada, assente em dois pares de rodas, mas puxada por "machos” ou cavalos e não por bois.
Existiam ainda na cidade, em meados do século passado, outros meios de transporte público como o char-à-Bancs, muito semelhante ao omnibus, e os Trens de Praça que poderiam ser considerados os táxis da época, já que se fixavam nos principais pontos da cidade para aí tomarem os seus clientes e mesmo bagagens.”
Fonte: “stcp.pt”


E eis que surge o “Charabã” ou “Char-a-Bancs” uma carruagem mais evoluída e puxada por cavalos.


Charabã ou char-à-bancs


Miragaia. A Porta Nobre está a ser sacrificada (1871). No ano seguinte, em Maio de 1872, o carro americano partirá já da Rua dos Ingleses que estará ligada à Alfândega Nova por uma nova artéria



Passadas mais umas dezenas de anos, precisamente em 1872, o viajante começaria a viagem para a Foz do Douro, partindo em frente à nova Alfândega (Miragaia) e fá-lo-ia a bordo de um “carro americano”, em carreiras diárias e regulares.
As rodas do americano rolam em carris de ferro e a tracção tem origem na força animal, caindo a escolha nos cavalos.
Logo que a ligação entre a Rua dos Ingleses (Infante D. Henrique) e a Alfândega ficou concluída, desaparecida já, do local, a velha muralha medieval, a partida daquele transporte passou a fazer-se daquela rua, sob a administração da “Companhia Carril Americano à Foz e Matosinhos”.

“De hoje em diante, os carros daquela empresa farão as suas viagens para a Foz e Matosinhos, saindo da rua dos Ingleses.”
In o jornal “O Comércio do Porto”, de 24 de Maio de 1872 – 6ª Feira

A exploração regular deste meio de transporte efectivou-se, a partir de 9 de Março de 1972 e foi prolongado a Matosinhos, em 15 de Maio, do mesmo ano.
Longe iam os tempos do termo do Porto, já ali.


Carro americano na Praça Infante D. Henrique puxado por mulas para vencer a inclinação da Rua Mouzinho da Silveira. De notar que no jardim ainda não foi levantada a estátua do infante, pelo que, a foto, é anterior a 1894



O carro americano (após 1 Julho de 1875) à porta da Estação de Campanhã – Desenho de Christino


“No dia 1 de Julho terá princípio o serviço para Campanhã desde a Praça D. Pedro”.
In jornal “O Comércio do Porto”, de 29 de Junho de 1875 – 3ª Feira

Para o Bonfim, a linha aprovada em 1876, apenas se efectivaria, em 1894.

“Os moradores da rua do Bonfim festejaram ontem ruidosamente a inauguração da nova linha americana na referida rua.
Durante o dia, tocou ali a banda do corpo de salvação Pública achando-se a rua vistosamente embandeirada.
Quando o primeiro carro americano chegou ao extremo da linha, em frente à igreja do Bonfim, subiu ao ar uma girândola de foguetes. Outro tanto aconteceu quando o carro partiu de novo.”
In jornal “O Comércio do Porto”, de 22 de Junho de 1894 – 6ª Feira


Massarelos em 1887 – Fonte: Eduardo Pires de Oliveira, In OLIVEIRA, 1985,


Em 1907, já era o carro eléctrico, desde há 12 anos, a fazer o percurso ribeirinho até Leça da Palmeira.
A partir de Março de 1906, a “Companhia Carris de Ferro do Porto” explorava, apenas, transportes de viação americana, já que a “Companhia Viação Eléctrica do Porto”, tinha ganho o concurso para a exploração dos transportes colectivos eléctricos, urbanos.
Porém, em Agosto de 1908, aquelas duas companhias fundem-se, e o carro americano tinha o seu destino traçado.



Cais de Massarelos em 1907



Movimento de barcos junto da Alfândega do Porto – Ed. “Illutração Portugueza” (14 Out. 1907)



Miragaia – Ed. “Illutração Portugueza” (14 Out. 1907)


Rua do Infante D. Henrique, antes foi a Rua dos Ingleses tendo começado como Rua Formosa