António da Silva
Cunha (da fábrica Confiança)
Sobre o palacete da foto abaixo, com projecto de 1904, localizado
na esquina das avenidas Jorge Correia, n.º 296, e Sacadura Cabral, Aguda, Vila
Nova de Gaia, diz o arquitecto José Pedro Tenreiro:
“Esta habitação terá
sido originalmente edificada para o industrial portuense António da Silva
Cunha, proprietário da Camisaria Confiança, conforme consta do processo de
licenciamento de 1904, mas pouco depois será habitada por João Jorge Correia,
uma das principais figuras responsáveis pela edificação e dinamização desta
praia do litoral de Vila Nova de Gaia. O
seu projecto é atribuível, tanto pelas suas características como pelos seus
elementos gráficos, ao arquitecto José Teixeira Lopes, igualmente responsável
pelo risco de outras casas nas imediações. Com efeito, Teixeira Lopes, então em
pleno início da sua actividade como arquitecto, dedica-se ao desenvolvimento de
modelos de habitação económica, os quais ensaia nas estâncias balneares do
litoral gaiense”.
Cortesia de José Pedro Tenreiro
A escultura, ao cimo das escadas, será, possivelmente, do
escultor António Teixeira Lopes.
António da Silva Cunha (1858–1925) foi um republicano de
Vila Meã, Amarante, que foi vereador da Câmara do Porto, comendador e fundador
do Centro Democrático do Norte e do Clube Fenianos Portuenses, do qual será o
seu primeiro presidente.
Sem descendentes, foi casado, em segundas núpcias, com Ana
Joaquina Fernandes da Silva Cunha e morador na Rua do Pinheiro Manso, n.ºs
301-305.
António da Silva Cunha regressou do Brasil ainda novo e com
bens de fortuna, instalou-se no Porto.
Ficou conhecido, sobretudo, por ter sido o fundador, na Rua
de Santa Catarina, da “Camisaria Confiança”.
A primeira denominação da camisaria, onde chegaram a
trabalhar, diariamente, mais de mil operárias, foi de “Bela Jardineira”.
Em 1883, a camisaria começou por ser uma modesta indústria,
mas, em 1894, depois de um grande esforço de modernização, em maquinaria, é
inaugurada a “Fábrica Confiança”, cujo edifício teve o traço do
arquitecto Joel da Silva Pereira (1861-1899).
“Em 1883, António Silva e Cunha instalou na Rua de Santa
Catarina, um pequeno estabelecimento comercial de camisas e roupa branca,
lançando as base para a confeção de roupa branca, progredindo pouco a pouco e
ampliando as suas instalações, adquirindo as mais modernas máquinas, para em
1894 inaugurar a “Fábrica Confiança”. A primitiva “Camisaria Confiança” ocupava
o estabelecimento de vendas e oficinas anexas. Estava localizada ao lado do
Grande Hotel do Porto. Nesta fábrica trabalharam cerca de mil mulheres, que com
o seu trabalho nas 125 máquinas de costura movidas a eletricidade produzida por
uma central a vapor, permitiram conquistar o mercado do ultramar português e
brasileiro.
Numa área de 1300 metros quadrados, a fábrica dividia-se
nas seguintes secções: ateliers de corte; ateliers das costureiras; lavandaria
com secador a vapor; oficina de brunis; ateliers de roupa branca para homem e
em especial para roupas de senhora e criança; fabrico de caixas de cartão e
finalmente, o luxuoso e vasto salão de vendas”.
Fonte: AHMPorto
Uns bons anos depois do envolvimento de António da Silva
Cunha na política, em 1907, toma posse como vereador, na Câmara do Porto, em
representação da sensibilidade republicana, na presidência de Jacinto de
Magalhães e, em 1911, é deputado à Constituinte.
Jacinto da Silva Pereira Magalhães (empresário têxtil da
Fábrica do Jacinto) assumiu, portanto, a presidência a partir de 2 de Janeiro
de 1907 e exerceu funções até 28 de Novembro de 1907, por despacho do
Ministério dos Negócios do Reino.
Na vereação em causa, António da Silva Cunha ficou com o
pelouro de Limpeza e Águas.
Os restantes pelouros foram assim distribuídos: Polícia
Municipal e Foro - Jacinto Magalhães; Impostos, Mercados, Matadouro,
Atilamentos e Iluminação - Nunes da Ponte e Bernardino Vareta; Jardins e
Cemitérios - Tito Fontes; Órfãos e Asilo Escola - Antero de Araújo; Obras e
Saneamento - Duarte Leite e Xavier Esteves; Águas, Lactações. Balneários,
Higiene e Instrução - Cândido de Pinho; Biblioteca, Museu, Laboratório de
Química, Posto Fotométrico - Correia Pacheco; Incêndios - Pereira da Costa.
A Jacinto Magalhães irá suceder José Nunes da Ponte, que
iniciará o seu mandato a 14 de Dezembro de 1907, estendendo-o até 1908.
A partir de 21 de Dezembro de 1910, António da Silva Cunha vai
fazer parte da “Empresa Artística Limitada”, que fará a gestão artística do
Jardim Passos Manuel, ao lado dos sócios, Luiz Faria Guimarães, Arnaldo Arthur
Ferreira Braga, Francisco Pereira Balga e o general Francisco Leite Arriscado.
Começado a construir em meados de 1907, o Jardim Passos
Manuel, com o seu cinematógrafo e os jardins envolventes, foi inaugurado em 17
de Março de 1908, para a imprensa, com imenso sucesso.
Porém, aquando da abertura para o público em geral, no dia
seguinte, aconteceu uma falha de energia eléctrica provocou que os quadros
cinematográficos não fossem exibidos.
Três dias depois, no dia 21 de Março, já tudo estava
reparado e a funcionar normalmente.
Numa época de grande agitação, após a implantação da
República, António da Silva Cunha vai exercer, ainda, a presidência da
Associação Comercial do Porto durante o período de 1912 a 1915.
Então, sem morada própria, a instituição vai reunir em 1912,
na Rua de Santa Catarina, em instalações da Fábrica Confiança, depois de já ter
reunido, provisoriamente, na Rua do Infante D. Henrique e na Rua Ferreira
Borges.
O desempenho de António da Silva Cunha, na Câmara do Porto e
na Associação Comercial do Porto, em tempos de confrontação política, vai
permitir desanuviar as relações tensas entre as instituições e proporcionar que
a Associação Comercial do Porto retorne ao Palácio da Bolsa, após a subida
breve ao poder de Sidónio Pais.
António da Silva Cunha será, ainda, vogal do Conselho de
Administração dos Caminhos de Ferro do Estado.
António José da Silva
Cunha (da Rasa)
António José da Silva Cunha (1833-1901) foi um homem de
negócios, que juntou uma grande fortuna e mandou construir a Vila Rosa, na Rua
da Rasa, em V. N. de Gaia.
O projecto será de 1891, quando a arquitectura destas
moradas tipo chalet começaram a ocupar a cidade do Porto e arredores.
O nome remete-nos para a nora do proprietário.
Anexo, junto à estrada, mais tarde, passou a existir a
chamada casa dos caseiros.
Os jardins da propriedade apresentavam árvores gigantescas,
caminhos, labirinto e fonte, canteiros e tanque.
António José da Silva Cunha foi figura de relevo em
Mafamude.
Vivendo em V.N. de Gaia, tinha negócios no Porto e grande
influência na política. Sobre ele dizia-se: Meia
rasa era dele, e dele era meias votação de Mafamude.
Era pai, entre outros, de Alfredo José da Silva Cunha
(1863-1948), com a alcunha de o “Cunha
da Rasa”, uma figura típica de Gaia e do Porto.
Em 04 de Junho de 1890, Alfredo José da Silva Cunha, casa
com Rosa Josefina de Brito Antunes, filha do visconde da Nazaré, de cujo enlace
houve o filho Alfredo Antunes da Silva Cunha (1892-1938), muitas vezes
confundido com seu pai.
Sobre Alfredo José da
Silva Cunha, o “Cunha da Rasa”, o galanteador, o original, dizia, na
revista “O Tripeiro”, Emílio Castelo Branco:
Apreciação de Emílio Castelo Branco à figura de Alfredo José
da Silva Cunha, o “Cunha da Rasa”, in revista “O Tripeiro”, António José da
Silva Cunha série, Ano IV, Novembro de 1948
Quando apareceram as primeiras bicicletas, “Cunha da Rasa”
foi velocipedista. Quando o ténis surgiu, “Cunha da Rasa” foi tenista.
No Clube Ginástico de Mafamude praticou a esgrima.
Galanteador por excelência e, por essa razão, a sua pessoa
até foi quadro de revista teatral, trilhou, também, a estrada da poesia, mas a
sua grande paixão era cuidar do seu jardim, sendo a flor que portava na lapela
o anúncio ao mundo dessa sua faceta.
Na peça de teatro “ A Pátria das Camélias”, baseada em
textos de Hélder Pacheco, num dos quadros diziam os actores:
NAS ANTAS, SÃO TANTAS, TANTAS
EM CORIM, ASSIM-ASSIM
VENDA NOVA, RIO TINTO E PARANHOS
MEU PEITO ABRASA
EU SOU O CUNHA DA RASA
MEU PEITO ABRASA
EU SOU O CUNHA DA RASA
De facto, ficou famoso na cidade pela sua personalidade
singular — um homem elegante, conhecido por ser galanteador, de piropo fácil e
de andar sempre com uma flor na lapela.
Praia do Molhe. Da esquerda para a direita: Ermelinda Ramos
Pinto (casou com Alfredo Allen, visconde de Villar d’Allen) e Otilia Ramos
Pinto (casou com Alfredo Antunes da Silva Cunha, filho do “Cunha da Raza”),
Ilda Paz dos Reis e Adriano Ramos Pinto (1859-1927)
Adriano Ramos Pinto era, portanto, genro do Alfredo Antunes
da Silva Cunha, filho do “Cunha da Rasa”.
Alfredo Antunes e Otília eram proprietários, entre muitos
outros bens, do conhecido prédio da Rua do Breiner, n.º 121, onde, em 1937,
funcionava o Tribunal do Trabalho.
Do enlace houve cinco filhos: Alfredo Ramos Pinto da Silva
Cunha, Maria Amélia Roza Ramos Pinto da Silva Cunha, Maria Isabel Ramos Pinto
da Silva Cunha, Gonçalo Ramos Pinto da Silva Cunha e Cristóvão Ramos Pinto da
Silva Cunha.
Em 17 de outubro 2011, era dada a notícia da ocorrência de
um incêndio na chamada casa dos caseiros.
Dizem que, por lá, ao longo dos tempos, se situava a garagem da família, que exibia inúmeras viaturas de marcas consagradas.
Vila Rosa, em ruínas, na Rua da Rasa, em 2026, nas
imediações do campo de jogos do Vilanovense Futebol Clube - Fonte: Google maps












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