quarta-feira, 22 de julho de 2026

25.312 Derrubando confusões sobre a identidade de personagens

 
António da Silva Cunha (da fábrica Confiança)
 
Sobre o palacete da foto abaixo, com projecto de 1904, localizado na esquina das avenidas Jorge Correia, n.º 296, e Sacadura Cabral, Aguda, Vila Nova de Gaia, diz o arquitecto José Pedro Tenreiro:
 
 
“Esta habitação terá sido originalmente edificada para o industrial portuense António da Silva Cunha, proprietário da Camisaria Confiança, conforme consta do processo de licenciamento de 1904, mas pouco depois será habitada por João Jorge Correia, uma das principais figuras responsáveis pela edificação e dinamização desta praia do litoral de Vila Nova de Gaia. O seu projecto é atribuível, tanto pelas suas características como pelos seus elementos gráficos, ao arquitecto José Teixeira Lopes, igualmente responsável pelo risco de outras casas nas imediações. Com efeito, Teixeira Lopes, então em pleno início da sua actividade como arquitecto, dedica-se ao desenvolvimento de modelos de habitação económica, os quais ensaia nas estâncias balneares do litoral gaiense”.
Cortesia de José Pedro Tenreiro
 
 
 

Villa Palmeira – Fonte: José Pedro Tenreiro

 
 
A escultura, ao cimo das escadas, será, possivelmente, do escultor António Teixeira Lopes.

 
 

Vila Palmeira, em 2026 – Fonte: Google maps
 
 
 
António da Silva Cunha (1858–1925) foi um republicano de Vila Meã, Amarante, que foi vereador da Câmara do Porto, comendador e fundador do Centro Democrático do Norte e do Clube Fenianos Portuenses, do qual será o seu primeiro presidente.
Sem descendentes, foi casado, em segundas núpcias, com Ana Joaquina Fernandes da Silva Cunha e morador na Rua do Pinheiro Manso, n.ºs 301-305.
António da Silva Cunha regressou do Brasil ainda novo e com bens de fortuna, instalou-se no Porto.
Ficou conhecido, sobretudo, por ter sido o fundador, na Rua de Santa Catarina, da “Camisaria Confiança”.
A primeira denominação da camisaria, onde chegaram a trabalhar, diariamente, mais de mil operárias, foi de “Bela Jardineira”.
Em 1883, a camisaria começou por ser uma modesta indústria, mas, em 1894, depois de um grande esforço de modernização, em maquinaria, é inaugurada a “Fábrica Confiança”, cujo edifício teve o traço do arquitecto Joel da Silva Pereira (1861-1899).
 
 
“Em 1883, António Silva e Cunha instalou na Rua de Santa Catarina, um pequeno estabelecimento comercial de camisas e roupa branca, lançando as base para a confeção de roupa branca, progredindo pouco a pouco e ampliando as suas instalações, adquirindo as mais modernas máquinas, para em 1894 inaugurar a “Fábrica Confiança”. A primitiva “Camisaria Confiança” ocupava o estabelecimento de vendas e oficinas anexas. Estava localizada ao lado do Grande Hotel do Porto. Nesta fábrica trabalharam cerca de mil mulheres, que com o seu trabalho nas 125 máquinas de costura movidas a eletricidade produzida por uma central a vapor, permitiram conquistar o mercado do ultramar português e brasileiro.
Numa área de 1300 metros quadrados, a fábrica dividia-se nas seguintes secções: ateliers de corte; ateliers das costureiras; lavandaria com secador a vapor; oficina de brunis; ateliers de roupa branca para homem e em especial para roupas de senhora e criança; fabrico de caixas de cartão e finalmente, o luxuoso e vasto salão de vendas”.
Fonte: AHMPorto


 

Fábrica de Camisas Confiança, na Rua Santa Catarina – Foto Guedes

 
 

Secção de embalagem de camisas da Fábrica Confiança, na Rua de Santa Catarina – Foto Guedes
 
 
 
Uns bons anos depois do envolvimento de António da Silva Cunha na política, em 1907, toma posse como vereador, na Câmara do Porto, em representação da sensibilidade republicana, na presidência de Jacinto de Magalhães e, em 1911, é deputado à Constituinte.
Jacinto da Silva Pereira Magalhães (empresário têxtil da Fábrica do Jacinto) assumiu, portanto, a presidência a partir de 2 de Janeiro de 1907 e exerceu funções até 28 de Novembro de 1907, por despacho do Ministério dos Negócios do Reino.
Na vereação em causa, António da Silva Cunha ficou com o pelouro de Limpeza e Águas.
Os restantes pelouros foram assim distribuídos: Polícia Municipal e Foro - Jacinto Magalhães; Impostos, Mercados, Matadouro, Atilamentos e Iluminação - Nunes da Ponte e Bernardino Vareta; Jardins e Cemitérios - Tito Fontes; Órfãos e Asilo Escola - Antero de Araújo; Obras e Saneamento - Duarte Leite e Xavier Esteves; Águas, Lactações. Balneários, Higiene e Instrução - Cândido de Pinho; Biblioteca, Museu, Laboratório de Química, Posto Fotométrico - Correia Pacheco; Incêndios - Pereira da Costa.
A Jacinto Magalhães irá suceder José Nunes da Ponte, que iniciará o seu mandato a 14 de Dezembro de 1907, estendendo-o até 1908.
A partir de 21 de Dezembro de 1910, António da Silva Cunha vai fazer parte da “Empresa Artística Limitada”, que fará a gestão artística do Jardim Passos Manuel, ao lado dos sócios, Luiz Faria Guimarães, Arnaldo Arthur Ferreira Braga, Francisco Pereira Balga e o general Francisco Leite Arriscado.
Começado a construir em meados de 1907, o Jardim Passos Manuel, com o seu cinematógrafo e os jardins envolventes, foi inaugurado em 17 de Março de 1908, para a imprensa, com imenso sucesso.
Porém, aquando da abertura para o público em geral, no dia seguinte, aconteceu uma falha de energia eléctrica provocou que os quadros cinematográficos não fossem exibidos.
Três dias depois, no dia 21 de Março, já tudo estava reparado e a funcionar normalmente.

 
 
 

Jardim Passos Manuel, c. 1910
 
 
 
 
Numa época de grande agitação, após a implantação da República, António da Silva Cunha vai exercer, ainda, a presidência da Associação Comercial do Porto durante o período de 1912 a 1915.
Então, sem morada própria, a instituição vai reunir em 1912, na Rua de Santa Catarina, em instalações da Fábrica Confiança, depois de já ter reunido, provisoriamente, na Rua do Infante D. Henrique e na Rua Ferreira Borges.
O desempenho de António da Silva Cunha, na Câmara do Porto e na Associação Comercial do Porto, em tempos de confrontação política, vai permitir desanuviar as relações tensas entre as instituições e proporcionar que a Associação Comercial do Porto retorne ao Palácio da Bolsa, após a subida breve ao poder de Sidónio Pais.
António da Silva Cunha será, ainda, vogal do Conselho de Administração dos Caminhos de Ferro do Estado.
 
 
 
 
António José da Silva Cunha (da Rasa)
 
 
 
António José da Silva Cunha (1833-1901) foi um homem de negócios, que juntou uma grande fortuna e mandou construir a Vila Rosa, na Rua da Rasa, em V. N. de Gaia.
O projecto será de 1891, quando a arquitectura destas moradas tipo chalet começaram a ocupar a cidade do Porto e arredores.
O nome remete-nos para a nora do proprietário.
 
 
 

Villa Rosa
 
 
 
Anexo, junto à estrada, mais tarde, passou a existir a chamada casa dos caseiros.
Os jardins da propriedade apresentavam árvores gigantescas, caminhos, labirinto e fonte, canteiros e tanque.

 
 
 

Local de implantação da Vila Rosa (1), casa dos caseiros (2) e chafariz do labirinto (3)
 
 
 
António José da Silva Cunha foi figura de relevo em Mafamude.
Vivendo em V.N. de Gaia, tinha negócios no Porto e grande influência na política. Sobre ele dizia-se: Meia rasa era dele, e dele era meias votação de Mafamude.
Era pai, entre outros, de Alfredo José da Silva Cunha (1863-1948), com a alcunha de o “Cunha da Rasa”, uma figura típica de Gaia e do Porto.
Em 04 de Junho de 1890, Alfredo José da Silva Cunha, casa com Rosa Josefina de Brito Antunes, filha do visconde da Nazaré, de cujo enlace houve o filho Alfredo Antunes da Silva Cunha (1892-1938), muitas vezes confundido com seu pai.
Sobre Alfredo José da Silva Cunha, o “Cunha da Rasa”, o galanteador, o original, dizia, na revista “O Tripeiro”, Emílio Castelo Branco:
 
 
 

Apreciação de Emílio Castelo Branco à figura de Alfredo José da Silva Cunha, o “Cunha da Rasa”, in revista “O Tripeiro”, António José da Silva Cunha série, Ano IV, Novembro de 1948
 
 
 
Quando apareceram as primeiras bicicletas, “Cunha da Rasa” foi velocipedista. Quando o ténis surgiu, “Cunha da Rasa” foi tenista.
No Clube Ginástico de Mafamude praticou a esgrima.
Galanteador por excelência e, por essa razão, a sua pessoa até foi quadro de revista teatral, trilhou, também, a estrada da poesia, mas a sua grande paixão era cuidar do seu jardim, sendo a flor que portava na lapela o anúncio ao mundo dessa sua faceta.
Na peça de teatro “ A Pátria das Camélias”, baseada em textos de Hélder Pacheco, num dos quadros diziam os actores:
 
 
 
NAS ANTAS, SÃO TANTAS, TANTAS
EM CORIM, ASSIM-ASSIM
VENDA NOVA, RIO TINTO E PARANHOS
MEU PEITO ABRASA
EU SOU O CUNHA DA RASA
MEU PEITO ABRASA
EU SOU O CUNHA DA RASA
 
 
 
De facto, ficou famoso na cidade pela sua personalidade singular — um homem elegante, conhecido por ser galanteador, de piropo fácil e de andar sempre com uma flor na lapela.

 
 
 

Praia do Molhe. Da esquerda para a direita: Ermelinda Ramos Pinto (casou com Alfredo Allen, visconde de Villar d’Allen) e Otilia Ramos Pinto (casou com Alfredo Antunes da Silva Cunha, filho do “Cunha da Raza”), Ilda Paz dos Reis e Adriano Ramos Pinto (1859-1927)
 
 
 
Adriano Ramos Pinto era, portanto, genro do Alfredo Antunes da Silva Cunha, filho do “Cunha da Rasa”.
Alfredo Antunes e Otília eram proprietários, entre muitos outros bens, do conhecido prédio da Rua do Breiner, n.º 121, onde, em 1937, funcionava o Tribunal do Trabalho.
Do enlace houve cinco filhos: Alfredo Ramos Pinto da Silva Cunha, Maria Amélia Roza Ramos Pinto da Silva Cunha, Maria Isabel Ramos Pinto da Silva Cunha, Gonçalo Ramos Pinto da Silva Cunha e Cristóvão Ramos Pinto da Silva Cunha.
 
 
 

Casa dos caseiros da Vila Rosa, ao abandono, em 2026

 
 
Em 17 de outubro 2011, era dada a notícia da ocorrência de um incêndio na chamada casa dos caseiros.
Dizem que, por lá, ao longo dos tempos, se situava a garagem da família, que exibia inúmeras viaturas de marcas consagradas.


 
 

Vila Rosa, em ruínas, na Rua da Rasa, em 2026, nas imediações do campo de jogos do Vilanovense Futebol Clube - Fonte: Google maps
 
 
 

Villa Rosa, ao abandono

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