terça-feira, 10 de julho de 2018

(Continuação 9)



Revolta contra o bispo Martinho Rodrigues

Em 1209 os cidadãos do Porto revoltaram-se contra o seu bispo Martinho Rodrigues que os sufocava com impostos.

“Vale a pena recordar esta contenda que a cidade travou com o seu bispo. Foi há quase 800 anos. Completam-se em 2009. E o palco dessa luta foi o bairro da Sé. Onde, como escreveu Firmino Pereira, " em cada uma das suas pedras se inscreve uma façanha heróica, porque foi precisamente nessa parte do burgo que mais energicamente se afirmaram as energias da raça na defesa dos seus direitos e dos seus foros tantas vezes afrontados pela cobiça dos bispos".
Um desses bispos foi D. Martinho Rodrigues que governou a diocese do Porto de 1191 a 1235. Por esse tempo o burgo portucalense não ia além do morro da Pena Ventosa em cujo cume se situava a Catedral e a residência do prelado. O senhorio da cidade, como tantas vezes aqui se tem dito, pertencia ao bispo da diocese desde os remotos tempos de D. Hugo. Os cidadãos do Porto, em especial, mas os moradores da cidade, em geral, eram considerados vassalos do bispo. E D. Martinho Rodrigues, especialmente este, era um prelado ambicioso. Como senhor da cidade, arrecadava os impostos sobre todos os géneros e mercadorias que entravam ou saíam no burgo. E lançava cada vez mais impostos sobre o povo que, naturalmente descontente, protestava. Pinho Leal escreveu no seu "Portugal Antigo e Moderno" que a certa altura, o povo, cansado de protestar baldadamente contra as prepotências do bispo, "… amotinou-se e, furioso, acometeu contra o paço episcopal arrombando as suas portas e invadindo-o; e chegados aos aposentos do bispo lançaram-lhe em rosto os vexames de que eram vitimas após o que o prenderam no próprio paço onde ficou pelo espaço de cinco meses..." Passou-se isto em 1209. Há quase 800 anos. É da história que D. Martinho Rodrigues conseguiu, ao fim de cinco meses de encarceramento, fugir da prisão, de noite, e dirigir-se a Roma onde "chegou em miserável estado". Na cadeira de S. Pedro sentava-se por essa altura Inocêncio III a quem o bispo pediu que fulminasse com a pena de excomunhão os chefes do levantamento popular indicando especialmente dois cidadãos João Alvo e Pedro Feudo Tirou (tirou o feudo ou vassalagem). Mas foram apenas dois os burgueses do Porto que participaram no levantamento? Claro que não. 
Os cabeças do motim, se assim se pode dizer, eram ao todo vinte. E estão devidamente identificados João Alvo e seu irmão, Mendo Guilherme; Vicente Mendes, genro de João Alvo; Afonso Gondom das Eiras; Tirou Martins Pires e Vicente, ambos genros de Pedro Feio (Petri Fedi) ; Pedro Soares, filho de Soeiro Monis; João Vai-Vai; Fernando Monis; Gonçalo Godinho; Pedro Mouro; Pirro das Eiras; Pedro Feio (Petrum Fedum); Paio Martins; Mendo Bicas; Soeiro Gulherme; João Ferreira do Monte; João Surdo; Reinaldo Agulheiro; e Miguel Meigenga. Todos estes "cidadãos portucalenses" ficaram sujeitos à sentença canónica que os considerou "infames" e por isso foram excomungados. Só que, quando a sentença chegou ao Porto os cidadãos do burgo, incluindo os directamente atingidos, encolheram os ombros e "altivamente afrontaram a censura eclesiástica" com um simples desabafo: "excomunhão não brita osso" que é como quem diz, "não interessa…" ou seja não é para levar a sério. Sabe-se que os "condenados" se alhearam por completo da sentença e da causa que lhe deu origem. Foram, por isso, julgados à revelia pelos juízes apostólicos e a pena que lhes foi aplicada só podia ser levantada se eles dessem "uma satisfação conveniente" ao bispo e implorassem a Roma a absolvição. Nada disso aconteceu e foi o próprio D. Martinho Rodrigues, anos mais tarde, quando regressou ao Porto, que solicitou de Inocêncio III a absolvição dos excomungados. Consta do "Censual do Cabido da Sé do Porto" que o bispo D. Pedro Salvadores, que sucedeu a Martinho Rodrigues, quando morreu, em 24 de Junho de 1247, contemplou, no seu testamento, Pedro Feio com quatro morabitinos e João Alvo com dois. O que pode significar que havia então bom entendimento entre a Mitra e os homens da cidade”. 
In JN, 31 Dezembro 2006



Os arcos que se veem agora na Rua de S. Sebastião, na Sé, foram encontrados bem perto na Calçada de Vandoma



Revolta contra D. Vasco Martins


Uma outra revolta que ficou contada aconteceu quando os burgueses da cidade afrontaram D. Vasco Martins, 18.º Bispo do Porto (1327/1342).
Este bispo nunca foi do agrado do rei D. Afonso IV.
A situação agudizava-se pelo facto do prelado viver praticamente na Curia Romana junto do Papa João XXII, razão pela qual a sua igreja se encontrava na opinião do monarca ao abandono.
Quando no ano de Cristo de 1334, Benedito XII substitui João XXII, por morte deste, foi dada ordem para que todos os bispos que o apoiavam voltassem às suas igrejas.
Chegou o bispo e viu que todos os réditos do bispado tinham sido embargados pelo rei.
Exigências daqui e, dali, invasões de exércitos galegos, disputas por coutos e pedaços de territórios, a paz tardava a reinar entre este bispo, os burgueses da cidade e o rei.
Numa dada ocasião, em consequência do exercício de certos privilégios que o bispo dizia possuir sobre coutos, caso de Crestuma, por exemplo, que lhe permitiriam a nomeação de juízes, para administração da justiça, e que não tinham a anuência da Câmara da cidade, o conflito agudizou-se.

«Também no "Catálogo dos bispos do Porto", escrito em 1623 pelo prelado D. Rodrigo da Cunha (bispo da diocese portucalense entre 1619 e 1627), se abordam as questões que aconteceram entre o austero bispo D. Vasco Martins e os homens do Senado (leia-se Câmara) que tanto agitaram a cidade aí por 1341. Escreveu D. Rodrigo:
"chegou o negócio (os acontecimentos) a termos tais, que em certo alvoroço se juntaram alguns do povo e com mão armada se foram ao paço do bispo apostados em o afrontarem e maltratarem, mas ele, que soube do motim primeiro que os conjurados chegassem à Sé em que assistia a um ofício fúnebre de certa pessoa nobre, se recolheu ao castelo que era a fortaleza da Igreja do Porto".»
Fonte: Germano Silva

sexta-feira, 6 de julho de 2018

(Continuação 8)



Em 11 de Novembro de 1931 houve um violento temporal que derrubou um histórico pinheiro existente na aldeia de Maceda, no lugar do ilhéu em S. Roque da Lameira. Tinha 4,8 metros de diâmetro e 30 metros de altura, e era-lhe atribuída uma idade de sete séculos.
Já anos antes, em 1897, no último dia do ano, rajadas ciclónicas, especialmente durante a tarde, tinham fustigado a cidade e infligindo inúmeros prejuízos aos seus habitantes.
Assim, chaminés, claraboias e beirais de telhados voaram pelos ares.
Árvores seculares foram arrancadas; à Rua da Carcereira, uma casa da firma Campos & Morais, desabou.
Os prejuízos nos jardins do Palácio de Cristal e nos restantes, sejam públicos ou privados, são imensos.
A cobertura da torre norte da igreja do Bonfim vai pelos ares, bem como a esfera e a cruz de ferro da torre da igreja do convento de S. Bento da Avé Maria.
Interrompidos ficaram os serviços de telefone, telegráficos e eléctricos.
No rio Douro, sobem as águas e o temporal no mar origina vários acidentes.



Ciclone de 1937
 
 
O violento ciclone que passou pela costa portuguesa, a 27 de Janeiro de 1937, teve um impacto destrutivo sobre toda a cidade do Porto e arredores, sendo as estruturas do porto de Leixões e a cidade de Matosinhos, particularmente fustigadas.
Dentro do porto de abrigo, várias embarcações afundaram-se e, outras, ficaram totalmente destruídas.

 
 

Estragos que o ciclone de 27-01-1937 provocou, junto à Torre Semafórica do Porto de Leixões, em Leça da Palmeira
 
 
 
Em consequência do violento ciclone, afundaram-se dentro do porto de abrigo 2 iates, 1 lugre, 4 fragatas, 2 vapores de pesca, 10 traineiras e numerosas barcaças, além de pequenas embarcações. Um navio de carga de grande porte encalhado e 4 vapores em perigo iminente de soçobrarem. Os prejuízos foram avultados.
Na ajuda prestada às tripulações que se viram envolvidas na tempestade, em Leixões, teve actuação de mérito o salva-vidas CARVALHO ARAÚJO.
 
 
 

Estragos que o ciclone de 27-01-1937 provocou, na margem esquerda do rio Leça, já dentro do porto de abrigo
 
 
 
Sobre os efeitos do temporal no estuário do rio Douro narra o texto seguinte.
 
 
“O temporal fez grandes estragos por toda a costa, e o rio Douro levava uma grande cheia. A escala da Régua marcava 14 metros acima do nível das águas.
No porto comercial do Douro, os pilotos e seu pessoal andavam em grande azáfama, reforçando as amarras dos navios ali surtos, que eram os seguintes:
Vapores Portugueses SECIL e OUREM, vapores de pesca FAFE e ESTRELA DO MAR, canhoneira NRP ZAIRE; vapores Alemães SIRIUS e AQUILES e o Checoslovaco PETER, e ainda alguns lugres bacalhoeiros.
Sob as ordens do piloto Manuel de Oliveira Alegre, que fazia as vezes de cabo-piloto, os seus colegas Eurico Pereira Franco, José Jeremias dos Santos, José Fernandes Amaro Júnior, Francisco Piedade, Aires Pereira Franco, Francisco Soares de Melo, Joel da Cunha Monteiro e o praticante António Natalino Cordeiro.
O piloto Joel da Cunha Monteiro foi para bordo da canhoneira NRP ZAIRE amarrada no Quadro do Navios de Guerra, em Massarelos, onde permaneceu 3 dias”.
 
 
 
Ciclone de 1941



Mas seria o ciclone de 1941, que durante muitos anos, ficaria gravado na memória de quem o viveu.


“Lembrámo-nos muito bem do chamado “ciclone”, de 15 de Fevereiro de 1941, que fez grandes estragos em Portugal. Cerca da 20,30 h o Porto estava debaixo de chuva e vento indescritíveis, que atingiu os 145 km/h. Os prejuízos foram enormes por toda a cidade, especialmente pela queda de centenas de árvores. O Porto ficou às escuras porque muitos cabos de alta tensão e dos eléctricos caíram e corria-se o risco de electrocussão.  O ciclone provocou, na zona do Porto e arredores, uma meia dúzia de mortos, e foram centenas as pessoas levadas ao Hospital de Santo António. Mas a nossa cidade não foi dos locais mais atingidos, já que na zona de Lisboa, Sintra e Setúbal contaram-se por centenas as vítimas mortais.
Na nossa memória ficou a queda do Pinheiro Manso, na Boavista, centenária árvore que deu o nome à rua. Ficava na casa da família Gilbert, à esquerda de quem entrava na rua, e ao cair destruiu uma cabine telefónica e apanhou a traseira de um automóvel dos Bombeiros do Porto, em que seguia o conhecido Major Serafim Morais, que nada sofreu. No dia seguinte vimos o pinheiro no chão, atravessado na rua e meu avô Augusto fotografou-o”. 
Testemunho: Rui Cunha (portoarc.blogspot.pt)




"Pinheiro Manso" por terra na Avenida da Boavista em Fevereiro de 1941




Jardim da Cordoaria após ciclone de 1941 – Ed. “O Tripeiro”; Foto: Manuel Alves de Azevedo



Em Massarelos os lugres Ana Maria, Paços de Brandão e Oliveirense, embateram uns contra os outros e sofreram danos consideráveis.
Outras embarcações no rio Douro foram também afectadas.
Diga-se que a cidade do Porto não foi a que sofreu mais estragos.

terça-feira, 3 de julho de 2018

(Continuação 7) - Actualização em 29/11/2019 e 02/04/2020


24.4 Cheias





É curioso o facto de que, em todas as descrições destas catástrofes naturais, se mencionar o carácter repentino da sua formação como, por exemplo, o registo do Padre Rebelo da Costa (1789, p.299), referindo-se a esta cheia de 1727, considerada como a maior de todos os tempos, até àquela data: 
“O caudaloso rio Douro no dia vinte e oito de Dezembro de mil setecentos e vinte e sete formou uma enchente tão grossa, repentina, e precipitada…”


Convento Corpus Christi, em V. N. Gaia, que já estava neste seu novo local, aquando da cheia de 1727



Uma outra cheia, de 5 de Dezembro de 1739, terá atingido, na Régua, um caudal de 18000 m3/s.
Referem-se diversos documentos, que abordam esta cheia extraordinária em dimensão e efeitos, descrevendo-a nos seguintes termos:
«Foi muito superior à de 1729, e em todas as suas funestas consequências perfeitamente igual, ou excedente àquela de 1727; pois consta por todas as tradições, que esta cheia fora a maior, de que há memória».

Esta situação foi confirmada, em meados do século XX, por TATO, J.F. (1966, p.157) quando refere:

«Célebre cheia de 1739, aquela que até agora ainda não foi ultrapassada».

Esta enchente subiu aos 6 metros acima do cais da Ribeira, pelo que, teria ultrapassado em vinte centímetros, a ponte Pênsil (que ainda não existia) e quase atingiria hoje, a ponte Luís I.
A impetuosidade desta cheia varreu o Cabedelo trezentos metros para Sul.
Outras cheias importantes ocorreram a 10 de Abril de 1769 e 11 de Dezembro de 1774.
De uma cheia ocorrida em 1785, nos dá conta Pinho Leal na sua obra “Portugal Antigo e Moderno” (7º vol.).


 





Em 25 de Fevereiro de 1788, durante uma cheia no rio Douro, começada no dia 22 do dito mês e, em que, o seu maior caudal, acima dos 31 palmos, ocorreu nos dias 24 e 25, foram três navios portugueses pela barra fora, e despedaçaram-se na costa. Denominavam-se “Socorro”, “Monsarrate” e “Manoelinho”, tendo a primeira embarcação 360 toneladas.  
Sobre o episódio se disse:

 
“ (…) um daqueles navios se viu ir pelo rio abaixo com a quilha para o ar.”


Foi nesta cheia que ficou arruinada a baliza da Cruz de Ferro, um importante sinal de orientação da navegação para quem entrava na barra do Douro. Estava situada num rochedo em frente da capela/farol do Anjo, onde, antes, já tinha estado uma estátua togada mandada erigir para o mesmo fim pelo Bispo D. Miguel da Silva.
Acabaria essa marca de navegação por ser reposta com a intervenção do arquitecto militar português com origens francesas, José Champalimaud de Nussane.









Em 10 e 11 de Janeiro de 1821, uma cheia ficaria na história, não pelos caudais que transportava, mas por ter impedido os deputados eleitos da região Norte de tomar o barco para Lisboa que, como se sabe, naqueles tempos, subiam a bordo de barcos, no Cais da Estiva, dado não existirem ainda estradas ou o comboio a unir o Porto a Lisboa.
As cheias no final desse ano foram, também, muito destrutivas, como se pode ler no artigo publicado no dia 26 de Dezembro de 1821, dando nota do inverno rigoroso, que se fazia sentir, na época natalícia daquele ano.





Cheia de Dezembro de 1821 - In "Borboleta Constitucional"



Os próprios barcos a vapor a unir as duas cidades só, mais tarde, seriam um facto, embora, no Verão daquele ano, tenham sido feitos uns primeiros ensaios experimentais.
Esta cheia no rio Douro que ficou célebre, não sendo das maiores provocou, no entanto, que os deputados à assembleia constituinte, provenientes da região, se tenham atrasado na sua chegada à capital, para a importante sessão das Cortes que daria origem ao primeiro texto constitucional português.
Numa carta enviada por uma personagem oriunda do Porto, identificada por J.B.G., a um seu amigo de Lisboa, que “osaldahistoria.blogs.sapo.pt” deu a conhecer, era descrita a tempestade ocorrida em 10 e 11 de Janeiro de 1821:


“Todos os navios que se achavam surtos neste rio estiveram em iminente perigo de se perderem”, diz, esclarecendo que pelo menos seis tiveram um “desgraçado fim”. Na funesta lista estão os bergantins ingleses Fair-Hibernian e Mathilda, ambos já carregados com vinho para zarparem, que forram arrastados pela corrente, despedaçando-se. O mesmo aconteceu à galeota alemã Anna-Margaretha, aos hyates portugueses Senhor da Pauta e Triunfo da Inveja; ao espanhol San Josef el Vencedor, a inúmeros botes, lanchas e barcas.
(…) A enchente foi muito grossa e subiu a grande altura”, comunicando “da porta da Ribeira com o postigo da Lingueta; e do postigo dos Banhos com a porta Nobre”, afetando por isso muitas pessoas e edifícios: a casa do despacho do Cais da Alfândega “veio a terra”, porque um bergantim inglês encalhou sobre ela; o cais novo de Sobreiras e outros aluíram e, em Vila Nova de Gaia, “houve grande perda de vinhos”.



Bergantim (Barco a remos e vela)



Galeota (Barco a remos e vela)




Em 2 de Fevereiro de 1823, segundo AZEVEDO, J.M. (1881), a enchente, de «imensas areias» subiu mais alguns palmos que o ocorrido em 1821, embora com crescimento mais vagaroso e corrente menos impetuosa.
Na Régua, o caudal de cheia atingiu os 15600 m3/s (LNEC, 1994; ap. MINISTÉRIO DO AMBIENTE, 1996).
Segundo TATO, J.F. (1966), esta cheia atingiu os 3,74 metros sobre o cais da Ribeira e cerca de 14 milhas/s de velocidade.
Uma cheia ocorrida em 1829 foi marcante pelo facto de ter destruído a ponte então existente na Ribeira - a ponte das Barcas.
«Subiram as águas tão inesperadamente, [...] foi por último arrebatador pela furiosa corrente, largando as barcas do seu ponto umas depois d'outras sem governo» (AZEVEDO, J.M., 1881, p.138).
Em 20/21 Novembro de 1837, a cheia obrigou à retirada da Ponte das Barcas (AZEVEDO, J.M.,1881).
Em 17 Fevereiro de 1843, a enchente levou à retirada da Ponte das Barcas, obrigando à abertura precipitada da circulação na nova ponte Pênsil, sem as formalidades adequadas.
A água chegou a estar a um metro da ponte Pênsil (COSTA, C, 1938; OLIVEIRA, J.M., 1973). Os estragos foram avultados e o Cabedelo foi destruído quase na totalidade (COSTA, C, 1938). Segundo TATO, J.F. (1966), esta cheia atingiu 22,95 metros na Régua e 4,38 na Ribeira, deslocando-se a uma velocidade de cerca de 15 milhas/s e acarretando grandes prejuízos. O caudal de cheia terá chegado aos 15100 m3/s na Régua (LNEC, 1994).
No dia 2 de Janeiro de 1856, levantar-se-ia um grande temporal, razão pela qual, o vapor D. Pedro V não pode entrar na barra do Douro, e com os seus passageiros em perigo, teve que zarpar para Vigo, pois não foi obtida a necessária autorização, para desembarcarem os passageiros, em "catraias".
Nos dias seguintes, o caudal do rio Douro atinge valores elevados, com o galgamento das margens pelas suas águas no dia 7 de Janeiro.
Assim, os tubos de canalização do gás de abastecimento à cidade ficam submersos e a cidade fica às escuras e os teatros com as portas fechadas. Passados quatro dias, a água desce 4 palmos, e o abastecimento de gás é restabelecido.
Na costa, o temporal continuou e, em 22 de Janeiro, o caixamarim "Santo António e Almas", que caiu sobre o vapor "Cid", vai a pique e nas praias de V. N. de Gaia o "Hiate Camões 2º", varou, salvando-se os seus 11 tripulantes.
Com o rio a continuar a descer, no último dia daquele mês, o vapor D. Pedro V, o vapor "Duque do Porto", mais quatro embarcações de bandeira estrangeira, entram na barra do Douro vindos de Vigo.
Na zona da actual ponte de Luís I (Porto), a cheia de 1860 alcançou os 10,38 metros (ap. MINISTÉRIO DO AMBIENTE, 1996).
Das cheias do século XIX marcadas a picão nos "Arcos da Ribeira", a maior é, sem dúvida, a de 1860, seguindo-se-lhe a de 1823.
Mas ao longo do século muitas outras cheias se sucederam, até que já entrados no século XX e a 1909, ocorreu aquela que se diz ter sido das maiores.


“A de Dezembro de 1727 foi a maior do século XVIII. A água subiu a tal ponto que de cima do muro da Ribeira chegava-se com as mãos à água. Foi nesse ano que o Douro galgou a margem esquerda e inundou o mosteiro do Corpus Christi não obstante este ter sido alteado cem anos antes… por causa das cheias. Mas a cheia de maiores proporções, aquela que mais estragos causou e em que as águas atingiram alturas até aí inimagináveis, foi a de 1739. 
A água atingiu alturas tais que cobriu o cimo do muro da Ribeira e chegou ao até ao altar-mor da capela de Nossa Senhora da Piedade, vulgarmente conhecida por Senhora do Ó, que fica no Largo do Terreirinho. Foi, exactamente há um século, nos começos do Inverno de 1909, que no rio Douro se verificou uma das maiores cheias de sempre. Para se avaliar do que foi o volume dos estragos, causados pela violência da corrente registada no rio, por essa altura, bastará referir que entre vapores de carga, chalupas, iates, patachos, barcos de pesca e de recreio, afundaram-se ou saíram barra fora, desgovernados, por efeitos da enchente, nada mais nada, menos do que quarenta embarcações e mais treze rebocadores.” Já, em tempos, lemos que foram arrastados barcos e uma grande quantidade de destroços até Leixões e alguns mesmo até Vila do Conde.
Fonte: Germano Silva


“Através dos tempos foram muito frequentes as cheias do Rio Douro. Há registos pelo menos desde o séc. XIII. Consideram-se cheias extraordinárias às que ultrapassam a cota de 6,00 metros junto da ponte Luis I. Nesta cota já Miragaia, a Ribeira e a baixa de Gaia estão inundados. Segundo se sabe as cheias de 1526, a primeira de que há registo, 1585,1625,1727,1729, 1739 (violentíssima), 1769, 1788, 1860 e 1909, esta, uma das mais altas de que há memória. A do nosso tempo, 1962, foi muito alta e destrutiva”.
Com o devido crédito a Rui Cunha de “portoarc.blogspot.pt”



A cheia de 1526, acima referenciada, ficou para a posteridade como sendo a primeira de que há registos e, ainda, por em consequência dela, a povoação de Arnelas, hoje fazendo parte da freguesia de Santa Maria do Oliva, situada entre Crestuma e Avintes, em V. N. de Gaia, na margem esquerda do rio Douro, ter desaparecido do mapa.
Nessa data, a povoação seria insignificante, mas foi com as águas.
Antes, Arnelas pertenceu ao couto de Crestuma (a partir de 1233) e evoluiu de uma quinta designada Casal do Curral, que esteve aforada ao 3.º conde da Feira, D. Manuel Pereira, entre 1511 e 1552, ano da sua morte.
Possivelmente, teria sido ele quem reconstruiu o pequeno povoado de Arnelas destruído pela cheia.




In jornal “O Commercio do Porto” de 7 de Janeiro de 1856 – 2ª Feira




A grande cheia de 1860 ficaria 1 m abaixo da de 1909. Mesmo assim, no dia 26 de Dezembro de 1860, atingiria a sua cota máxima e provocaria uma grande devastação nas margens do Douro e, ainda, na Vila da Régua, onde o seu teatro seria arrasado. Esta sala de espectáculos funcionava numa casa situada ao fundo da rampa João Macedo, hoje Rua 1.º de Dezembro.
Manuel Pinheiro Chagas numa sua viagem ao Porto, no longínquo mês de Janeiro (e Fevereiro) de 1865, escreve in Contos e descrições - Leitura para Caminhos de Ferro:


“O Douro galgou por cima do cais, tomou as ruas, e intercetou em muitos pontos as comunicações. Como um leão, que se espreguiça sem a mínima intenção feroz, e que não outro direito senão o de estar à vontade, o Douro, sentido-se incomodado pela estreiteza do seu leito, invadiu pacifica mas irresistivelmente os sítios, que encontrou mais à mão, estabeleceu-se ali serenamente, lambendo com toda a amabilidade as paredes das casas, dando mostras de se querer portar como bom vizinho, de estar até resolvido a respeitar as posturas da cãmara municipal, contanto que nestas não haja alguma disposição, que o contrarie.
Se o Douro fosse menos bem educado, o que seria feito das árvores e dos candeeiros do cais! Podia muito bem arranca-los brutalmente, e ir oferece-los ao oceano próximo. Era possível que o fizesse, se estivesse de mau humor; não estava. As árvores bracejam sossegadamente os seus ramos por sobre as águas. Os candeeiros contemplam com serenidade, e até com certo orgulho, os seus irmãos da terra firma, como pacíficos burgueses, que, ao princípio, todos apavorados por se verem metidos num barco entre as ondas, se recobram afinal do susto, reconhecendo a pacatez do mar, e olham desdenhosamente para os seus companheiros, que se ficaram na praia.
Depois das copiosas chuvas de janeiro, amanheceu finalmente, sereno e esplêndido, o dia vinte e oito, sábado. Toda a cidade soltou um suspiro de satisfação. Despovoaram-se as casas, e, como as lajes das ruas se enxugaram com uma rapidez verdadeiramente maravilhosa, as senhoras, não temendo macular as suas galas, correram pressurosas a visitar o Douro, que se dignara hospedar-se no Porto, determinado a espairecer algum tempo por aqui.
Aproveitemos o dia, leitor, e vamos ver a cheia.
Prepare-se para algumas surpresas. (...)
(...). Se formos renovar a nossa excursão a Miragaia, e quisermos passar pela Porta Nobre, antes de lá chegarmos, encontraremos o rio, que, sabendo talvez do que intentávamos, se deu pressa em vir ao nosso encontro. Agradeçamos-lhe a amabilidade, e voltemos para trás. Vamos a Cima do Muro, e vejamos isto.
O Douro, trepando até pouca distância dos primeiros andares, proibiu o uso das portas, e pôs fora os habitantes das lojas. Sumamente romanesco, só consente que se saia pelas janelas. A escada de corda, a aventurosa companheira dos ladrões e dos namorados, tem agora foros de legalidade. As escapades estão agora autorizadas.
Oh arrojo dos galanteadores! Escadas aéreas que as auras baloiçam! Capas flutuantes ao vento! Vultos gentis de mulheres, encostadas ao peitoril das janelas, esperando ansiosamente o resultado da intrépida excursão, empreendida pelos seus galãs! Oh! Mistério suavíssimo destas entrevistas! Lições ocultas de amor, cujos segredos enlevam tanto mais, quanto mais a furto se revelam! Afoitezas de amantes, perdestes o vosso prestígio!
Sobem e descem os Bartolos pela escada dos Almavivas! Nas varandas das Rosinas encostam-se as cozinheiras! Os vultos, que deslizam ao longo das muralhas, não usam capa, usam capote de barregana! Tem obesidade, em vez da proverbial magresa! É nas bochechas do sol, indignado com tamanha audácia, que se executam estas façanhas, que só a lua costuma iluminar! É à face dos regedores, e dos tios, que estas coisas se praticam! Que digo? São os mesmos regedores, são os próprios tios, que perpetram estes descomedimentos! E descem para os barcos, e os barqueiros cortam a água com os remos, e o bote lá voga, lá foge, como se aquela casa esguia fosse um castelo roqueiro com os fossos profundíssimos, aquela janela uma gótica ventana, aquela rubicunda senhora uma pálida castelã, aquela casca de noz uma ligeira gôndola, aquele negociante um enamorado trovador!
(...)
Se o leitor está disposto a continuar a digressão, tem ainda muito que ver! Paremos aqui.
Há neste ponto uma prancha, que dá passagem de Cima do Muro para uma janela do primeiro andar! Ponte levadiça! Lá passa um vulto com passo firme.
(...)
Correi, homens de armas! Apressai-vos, dom castelão, vinde receber o nobre visitante! Pagens e donzeis, fazei honra! Pouco se demorou o cavaleiro! E ei-lo sai!... Trás um pacote de de velas de sebo!
Agora a explicação do enigma!
Na loja deste prédio havia uma mercearia. O Douro exigiu do merceeiro que lhe trespassasse a casa, e não houve remédio senão ceder! Mas o merceeiro não era homem que descoroçoasse por tão pouco. Viu-se expelido do rez-de-chaussée, estabeleceu-se no primeiro andar! Se o Douro continuasse a subir, o digno portuense iria para o telhado, e faria concorrência aos gatos! No primeiro andar improvisou um balcão, e armou a tenda. Os fregueses, não menos intrépidos do que ele, não o abandonaram. A ponte levadiça foi estabelecida. A frágil tábua chamou os habituais compradores, e, daqui por diante, a par do denodo militar e do denodo civil, há-de fulgurar com igual brilhantismo o denodo merceeiro!
Desçamos a escada que de Cima do Muro conduz à Porta Nobre, transformando-a em gruta aquática. Saltemos para um bote, e demo-nos ao prazer de passearmos embarcados no sítio onde, há pouco tempo andamos a pé.”
Com o devido crédito a Nuno Cruz, admin. do blogue” A Porta Nobre”



Cheia de 1860, na Ribeira – Cliché Alvão


Cheias de 1860 e de 1909 (um pouco mais acima)



Em 16 de Fevereiro de 1880, ocorreu um tremendo temporal que derrubou muitas árvores e com o caudal do rio Douro a atingir no dia seguinte, 9 milhas por hora. Houve desabamentos e interrupções na circulação do comboio na linha do Douro.

“Temporal: na Ribeira usaram-se pranchas para passar para o Cimo do Muro. O rio anda a 9 milhas por hora.”
In “Jornal da Manhã”, 18 de Fevereiro de 1880, p. 2




A grande cheia de 1909



Uma das maiores cheias de que há memória ocorreu no dia 21 de Dezembro de 1909 quando, pela madrugada, já a ribeira se encontrava inundada.
Durante a tarde, 2 barcaças afundam-se, em V.N. de Gaia, com toros de pinheiro e carvão. Mais tarde, 11 barcas de carga na mesma margem vão soltar-se e embater com uns navios estacionados no Cais do Cavaco.
No dia 22, a Ribeira está completamente submersa. 



Ribeira, na cheia de 1909 – Ed. Alvão


Ribeira, em 1909 – Cliché Alvão


Cheia de 1909



Ribeira, no dia 23 de Dezembro de 1909


Cheia de 1909, junto da ponte Luís I



No dia 23, o rio galgou o Muro dos Bacalhoeiros e a Foz era um cemitério de embarcações. O rio ficou, então, a 0,80 m do tabuleiro da ponte Luís I.
Na manhã do dia 24, as águas param de subir. Dia 25, está sol e é Natal. Amargo para muitos que perdem os seus bens, enquanto outros perderam a vida.
No dia seguinte, chega à cidade o rei.

 
“A 26 chega de surpresa o rei D. Manuel II ao Porto, acompanhado de alguns ministros do seu governo, para averiguar estragos e tomar primeiras providências. À chegada, dirige-se imediatamente para Carreiros, a verificar o desolador espectáculo, seguindo depois para os Pilotos onde felicita os esforços dos mestres da barra no salvamento dos tripulantes do «Cintra» e segue para Miragaia, Ribeira e Barredo onde visita algumas famílias e verifica os estragos. De imediato dá início à constituição de um fundo para apoio aos mais necessitados e o governo em Lisboa toma as primeiras medidas de emergência, as quais incluem o envio de alimentos e afectação de verbas de emergência para obras mais urgentes. A vereação da cidade recorda ao rei a absoluta necessidade de dar seguimento rápido à construção dos acessos viários ao Porto de Leixões, para salvaguarda dos bens e comércio em geral de toda a região, evitando-se dessa forma, «os humores do rio».
A cidade, mesmo fortemente abalada, recompôs-se. O rio voltou, mesmo quando depois foi «regulado» pelas barragens, a fazer estragos na décadas seguintes. Mas nunca como em 1909, naquele que foi certamente o momento de maior fúria destruidora do rio da sua história, mas que, apesar disso, manteve o Douro a marca de personalidade imprescindível da cidade”.
Fonte: Grande Porto, 24/12/2009


O rio Douro, nos Guindais, nas cheias de 1909


Cheia de 1909, em Miragaia


Estragos da cheia de 1909, junto à Alfândega Nova – Fonte: AHMP



O navio inglês “Gascon” encalhado na Cantareira



Vapor Cintra, na cheia de 1909


Lista da reparação e quantificação, em moeda da época, dos estragos da cheia de 1909, – Fonte: António Avelino Batista Vieira e Francisco da Silva Costa



Comparação da cheia de 1909 com a mais recente, de 1962 – Fonte: Américo Brandão




Capela da Afurada (destruída na cheia de 1909) e o mesmo local actualmente - Cortesia de "Gaia à la Carte"




Outras cheias mais recentes



Em 1946, ocorreram graves cheias no rio Douro.  Decorrente das mesmas, a 1de Maio desse ano, o navio inglês Izarra foi apanhado pela corrente na ponte Luís I e só é apanhado, na Afurada, pelos rebocadores.
Durante o resto do século, muitas outras cheias aconteceram com prejuízo em bens e vidas humanas.



Miragaia durante a cheia de 1962