domingo, 14 de maio de 2017

(Continuação 8) - Actualização em 01/11/2017 e 31/05/2018


As Ruas Comerciais

“Na «cidade industrial» de finais do século, certas áreas, praças ou ruas, apresentam um elevado número de estabelecimentos que oferecem um determinado bem ou prestam um mesmo serviço, «procurando atrair o consumidor e facilitando o reconhecimento dos locais onde este pode encontrar determinado bem ou ser­viço».
Assim, a Praça Guilherme Gomes Fernandes (ex Praça dos Voluntários da Rainha, local da antiga Feira do Pão), «...distinguiu-se, outrora, pela abundância ali patente, de cereais e farinhas. A Rua do Bonjardim, pelo grande número de casas de comes e bebes. A Rua dos Clérigos, pela venda, em larga escala, de panos abretanhados. A Rua do Loureiro, pela predilecção marcada dos sirgueiros. A Rua das Flores, pela pro­fusão de arrecadas e trancelins de oiro. A Rua de Cima do Muro, por ser empório de bacalhau, numa cidade em que esse peixe excepcionalmente se consome. A Rua Chã, pelos múltiplos barbeiros que lá houve. A Rua de Santo António, por ser o local predilecto dos luveiros citadinos. A Rua da Assunção, pela fertilidade de cordoeiros e louceiros. A Rua das Hortas, hoje do Almada por nela particularmente se enfardar linho e empilhar ferro».
A Rua das Flores era, comercialmente, a rua mais importante dentro do núcleo antigo da cidade, havendo desempenhado um papel de manifesta importância, enquanto eixo propiciador da migração funcional ocor­rida ao longo do século XIX, entre o núcleo funcional a cota baixa e o novo que se foi afirmando ao longo do século. Para aqui terão vindo, por exemplo, «...os fanqueiros que comerciavam na Rua dos Mercadores, e que ano após ano, foram ocupando as casas da Rua de Santo António, da Rua dos Clérigos (lado esquerdo da subida), das Carmelitas e da Praça da Universi­dade».
Terá sido porventura «a rua mais comercial que teve (...) esta nossa cidade do Porto», onde tinham lugar «...os estabelecimentos elegantes e confortáveis da cidade, quer de bijuterias, quer de modas, [que] fazem [dela] um ponto de reunião agradável para os ociosos». Esta artéria que assegurava a ligação mais fácil entre a proximidade do Douro e a «nova Baixa», «prolonga-se» comercialmente para a Feira de S. Bento (Praça de Almeida Garrett) e, posteriormente, para a Rua D. Maria II (actual de Trindade Coelho) e para o Largo dos Lóios, até ao moderno centro da cidade.
A Rua das Flores era antes de tudo «a rua do ouro», onde, com um pouco de exagero, se podia dizer que «os ourives eram tantos [41] (...) desde a Igreja da Misericórdia até à volta para a Feira de S. Bento [Praça de Almeida Garrett], que raras lojas faziam excepção à ourivesaria». Já em meados do século era clara esta importância e, «...com as suas trinta e nove lojas de ourives, a Rua das Flores, do lado direito de quem a desce vindo de S. Bento, era quase uma sequência ininterrupta de ourivesarias...».
Contudo, a Rua das Flores constituía já um caso anómalo no tecido antigo onde se inscreve, pois que, em 1882, a ocupação funcional deste espaço marca-se já por uma menor importância quantitativa e qualitativa (salvaguardada a significativa importância do sector financeiro). E mesmo as artérias mais intensamente preenchidas comercialmente do antigo núcleo medieval, apresentam uma ocupação onde o elevado número de mercearias e a fraca especialização são aspectos comuns.
Entre estas, a Rua de Belomonte demarca-se pelo número de advogados que alberga (o que se explica naturalmente pela proximidade do tribunal); a Rua de S. João, no prolongamento da Praça da Ribeira (onde as mercearias, em número de 11, constituem os únicos estabelecimentos comerciais que aí existem), pela quantidade extraordinária de mercearias (32); a Rua Chã pelo elevado número de casas de móveis (7) e de algibebes (6), enquanto na Rua do Loureiro são mais numerosos ainda os algibebes (18), ressaltando também as ourivesarias (7) e as casas de artigos religiosos (3).
No núcleo antigo, contudo, é sobretudo o sector financeiro que marca a importância da área; no contexto da ocupação funcional de finais do século. Aí, «...próximo dos navios, no cais, onde há os escritórios, nas ruas adjacentes, e sobretudo na Rua Nova dos Ingleses [actual Rua do Infante, existe uma] espécie de bolsa aberta ao ar livre, [onde] cada um invade o passeio ou a rua, indo, quando chove, até aos portais e escadas das casas».
Abundam sobretudo os bancos: na Rua de Ferreira Borges existem 7 e no Largo de S. Domingos 5, entre os quais se conta a filial no Porto do Banco de Portu­gal.
Na ligação da Rua das Flores com A «Baixa» pelo lado Nascente da Praça, na rua D. Maria II, a ocupação é diversificada, avultando apenas as miudezas (4), enquanto o Largo dos Lóios denota uma ocupação muito intensa (44 estabelecimentos), uma clara dominância do conjunto Equipamento Pessoa (designadamente das lojas de tecidos e vestuário) e a ele se associam alguns nomes famosos na cidade, como os de José Bernardo Birra (farmácia), Magalhães e Moniz (livreiros) e Joaquim Pinto Leite (agente bancário e proprietário de um importante estabelecimento de tecidos).
Também no seguimento da Rua das Flores, o Largo da Feira de S. Bento, marcado comercialmente pela antiga feira que lhe deu o nome, pauta-se por uma ocupação feita sobretudo à custa de mercearias, mas onde existem também dois estabelecimentos bancários partilhando o mesmo edifício (Banco do Minho e do Alentejo) e uma casa de câmbios.
Fora de portas, na «Baixa», o eixo Clérigos - Passeio da Cardosa - 31 de Janeiro constitui o eixo comercial por excelência e, como deve ter visualizado João de Almada, actuava como uma via perpendicular à malha radial dominante, permitindo, como antes a Rua do Infante, acolher um tráfego importante e fixar as actividades mais significantes.
A Rua dos Clérigos constituindo fora de dúvidas uma das ruas principais do centro de comércio da cidade, apresentava uma significativa dualidade de características formais, funcionais e, logo, fisionómicas e vocacionais.
Assim, quem subia esta artéria central do burgo, vislumbrava, à sua direita uma vincada imagem citadina: — «...bazares pródigos de brinquedos; casas de modas de aspecto parisiense; montras de flores e de frutos, apetitosos como pomares minhotos; reclamos luminosos, elegância, urbanismo. À sua esquerda, vislumbrava uma nítida fisionomia provinciana: julgar-se-ia passeando numa rua de grande vila, em dia de feira. Do alto das pesadas portas dos estabelecimentos, inesteticamente escuras, banalmente burguesas, pendiam com desgraciosa prodigalidade, chailes de malha, pelúcia ou lã; cobertores matizados; faixas berrantes, carapuças, sombrinhas. Marçanozitos importunos e de ar tímido arreliavam quem passava, oferecendo com insistência os objectos vários do seu vário comércio».
Também os dois passeios da artéria participavam de uma ocupação diversa. Deste modo, «enquanto o da direita era preferido pelos habitantes da cidade que desejavam salvaguardar a sua sensibilidade de
civilizados, a gente de fora, que só visita o Porto de longe a longe, optava pelo da esquerda, onde se sentia mais à vontade, mais integrada no meio próprio».
Na Praça de D. Pedro (da Liberdade) a ocupação funcional marca-se por uma certa importância das actividades ligadas às finanças e às profissões liberais, mas são sobretudo os botequins que fazem desta área o principal palco da vida social de então.
Aqui existem, em 1882, diversos estabelecimentos que eram um misto de café, cervejaria e restaurante.
Do lado poente, onde hoje está o Banco de Portu­gal, a velha cervejaria Sá Reis e a Casa Navarro, está­vamos então em presença sobretudo de casas de pasto e modestos restaurantes, de entre os quais sobressaía apenas o Cascata. De resto, «...na Praça de D. Pedro (praça nova do Porto), que é inquestionavelmente a melhor da cidade, [ao seu] lado ocidental [iam passando] desapercebidos os melhoramentos municipais».
Em contrapartida, do lado oposto, situavam-se algumas das casas do género de maior renome: o Porto­-Club que tinha um ambiente requintado e um óptimo serviço de restaurante; o Portuense (que mais tarde mudou de nome para Suiço) que era considerado o mais «fino» da cidade e o Camanho, o estabelecimento mais marcante na vida desta área na cidade de finais do século, frequentado por muitos dos nomes famosos do Porto de então.
Mas também o comércio especializado e a banca tinham aqui o seu lugar. Entre os estabelecimentos comerciais, destacavam-se as casas de fazendas (em número de 10), as de miudezas, as ourivesarias, as célebres relojoarias de Pierre Girod, Germano Courrège e Azevedo & Cardoso e a famosa Livraria Moré, «...a melhor do Porto, não só pela sua armação de madeira polida e estantes envidraçadas, como pela variedade e bom critério do seu fornecimento de livros», onde eram clientes Camilo Castelo Branco e Augusto Luso e, mais tarde, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro e Ramalho Ortigão. Quanto à banca, se bem que o centro financeiro permanecesse ligado à proximidade do porto, procurando as imediações da Rua do Infante ou do Largo de S. Domingos, existiam já «na praça» algumas casas bancárias, como as de Joaquim Pinto da Fonseca, João Evangelista da Silva Matos e a filial no Porto do Banco de Vila Real.
A Rua de Santo António (hoje de 31 de Janeiro) era porventura a rua mais elegante do Porto de finais do século e, com as anteriores (das Hortas, dos Clérigos, das Flores) e «a praça», constituía o coração da «Baixa», ou mais especificamente do centro de comércio. O requinte das montras, a qualidade dos artigos e o bom nome de muitos dos proprietários, fazia com que, aliado a uma localização central (na articulação entre a principal praça e a Batalha), esta rua, que se mantém hoje como uma das principais do centro comercial, fosse já uma das de maior reputação na cidade.
Aqui existiam quase todas as luvarias da cidade, muitas chapelarias, ourivesarias, relojoarias, grande parte dos mais requintados estabelecimentos e um número elevado de proprietários estrangeiros que favorecia a identificação da artéria com a inovação e a qualidade (entre os quais se contavam Leon Prud'hom­me, as Mademoiselles Bouharde, Baquet, Stuven e Loubière).
Na estrutura radial da cidade, as velhas estradas de saída desde cedo que atraíram a fixação de actividades económicas e, com o processo de cres­cimento da cidade e o extraordinário desenvolvimento do comércio, passaram a sediar um número de estabelecimentos significativo. Directamente ligadas ao novo centro urbano, as velhas estradas melhoradas pelos Almadas, ou as novas que estes conceberam, marcaram-se por uma elevada intensidade da ocupação funcional, por regra tanto mais importante, quanto maior a proximidade do centro.
A Rua do Almada, por exemplo, tinha duas feições distintas: «até à Picaria era toda colmeia activa e daí para cima a residencialidade desacompanhava-se de lojas...».
Predominavam os «... ferrageiros que, o dia inteiro, de guarda-pó, a caneta colada à orelha, comandavam caixeiros e moços entre o antro dos armazéns e o passeio, junto ao qual, com fragor, carros de bois estacionavam a descarregar».
A rua tinha também algo de oriental, «...com os seus toldos de linhagem, as suas matilhas de galgos e de podengos estirados ao sol, [que] parecia aos sábados uma pequena feira de gado, tantos eram os burros dos ferreiros sertanejos, que chegavam ajoujados de ceiras de pregos, e partiam carregados de verguinha de ferro, em feixes ao longo da albarda, levados pela Rua do Almada acima num trotezinho miúdo e diligente, que batia os grandes lajedos sonoros da calçada com um ruído festival de castanholas».
Todavia, nela existiam também 13 livrarias (entre as quais as de Cruz Coutinho e a de José Pinto de Sousa Lello), várias ourivesarias, mercearias, drogarias, 5 casas bancárias, as casas de fotografia de Emílio Biel e dos irmãos Peixoto e um número assinalável de advogados e médicos (entre os quais se contava Ricardo Jorge).
Mais a ocidente, num conjunto de praças importantes na estrutura comercial do Porto e que haviam constituído recintos de diversas feiras, a Praça de Carlos Alberto assume um papel de destaque, enquanto local de chegada de parte significativa do tráfego que se faz de e para Matosinhos e Viana do Castelo (pela Rua de Cedofeita) e Braga (pela Rua de Mártires da Liberdade, antiga da Sovela). Carlos Alberto, términus da malaposta e velho local de tantas feiras, possui 3 hotéis, 4 confeitarias e vários cafés, constituindo um espaço comercialmente importante, sobretudo para o conjunto de estabelecimentos de Equipamento da Pessoa. Na saída desta praça, Cedofeita e Mártires da Liberdade, contando em conjunto com cerca de uma centena de estabelecimentos, pautam-se por uma ocupação fortemente diversificada, onde o vestuário alterna com a padaria, o banco, a mercearia, o consultório médico, a confeitaria, a casa de miudezas ou de tecidos.
No lado oposto, a Praça da Batalha assume papel idêntico à de Carlos Alberto, possibilitando ligações regionais a leste, por Santo Ildefonso (ou Entreparedes), e a norte, por Santa Catarina.
Do Águia d'Ouro, da estátua de D. Pedro V e do Palácio dos Guedes também, a Batalha é contudo, antes de mais, a praça dos hotéis. A este facto não será por certo estranho o posicionamento junto ao centro, mas no caminho para a Estação do Pinheiro (de Campanhã). E aos hotéis Estrela, Oriental, Universal, Portuense e Águia d'Ouro (por cima do café), somam-se, no caminho para a estação, o Bragança e o Mindelo, em Entreparedes, e os Novo Universal, Grande Hotel Central e América, em S. Lázaro.
Santo Ildefonso e Santa Catarina, ruas de saída de importância desigual, apresentam perfil ocupacional igualmente diverso, com esta a assumir melhor a inserção na «Baixa», enquanto na primeira uma grande diversidade não disfarça o predomínio do conjunto Alimentação e a escassez de profissionais liberais e de comércios de maior especialização (como as luvarias, chapelarias, livrarias ou relojoarias). Em contraponto, das 58 unidades localizadas ao longo da Rua de Santa Catarina, avulta o elevado número de profissionais liberais (14 advogados, 7 solicitadores e 1 arquitecto) e uma maior especialização funcional.
Mas, se por Santa Catarina se podia fazer parte do tráfego, que do Largo do Marquês de Pombal seguia para a Rua de Costa Cabral pela estrada de Guimarães, o certo é que a velha Rua do Bonjardim conservaria ainda durante décadas um papel importante (que havia assegurado em exclusivo durante séculos), enquanto artéria propiciadora da mais fácil ligação entre o centro da cidade e a cidade de Guimarães. Sinuosa, estreita e extraordinariamente longa, Bonjardim estava polvilhada de 144 estabelecimentos comerciais os mais diversos, mas onde o conjunto Horeca assumia especial representatividade.
Sá da Bandeira, (cujo tramo mais meridional era então parte de Bonjardim, mas incluía o que hoje é designado por Rua de Sampaio Bruno), estava já parcialmente aberta. Como via radial, era também parcialmente aproveitada como alternativa às do Bonjardim e de Santa Catarina. Comercialmente, sobressai o Equipamento da Pessoa e também o conjunto Horeca, merecendo destaque o número de cafés e confeitarias, assim como o dos hotéis (4), entre os quais se contam o Cisne (que hospedou Camilo e Ana Plácido) e o Aliança (onde viria a estar Barry Parker, o arquitecto da Avenida dos Aliados).
Como Santa Catarina, a Rua de Sá da Bandeira revela uma ocupação mais facilmente associável com o centro de comércio da cidade, que outras radiais como Bonjardim ou Santo Ildefonso, com as suas casas de vestuário, tecidos e artigos musicais e um grande número de livrarias e papelarias, estando quase ausentes as mercearias, os talhos e as padarias.
Na periferia, a ocupação funcional era manifesta­mente rarefeita, constituindo excepção as ruas de Costa Cabral (com notável diversidade no âmbito dos conjuntos Alimentação e Equipamento da Pessoa) e do Freixo (quase só com mercearias).
Neste cenário, em que a periferia se marca por um muito deficiente aparelho comercial, a Foz, como se disse, constituía um caso excepcional. Este núcleo populacional que, aparte o que era então identificável com a cidade Porto, era o principal agrupamento habitacional no que é hoje o território municipal, possuía em finais do século passado 3777 habitantes, aos quais se somavam, nos meses de Verão (entre Julho e Outubro), os muitos que vinham da cidade ou do interior do país, a banhos, em busca da amenidade conferida pela proximidade do mar, ou simplesmente para acompanhar as exigências da moda. 
A Rua Central (do Padre Luís Cabral), a de Senhora da Luz e a Esplanada do Castelo, concentravam a maioria dos estabelecimentos que aqui existiam. A diversidade funcional é assinalável, merecendo destaque as unidades que o Verão, o mar, os banhos ou a moda justificavam, numa Foz que, de pequena povoação «...  agrupada à ilharga do Castelo, habitada (...) quase só por humildes pescadores...», se havia tornado  cosmopolita, dotada de bons hotéis (o da Boa-Vista e a antiga «pension-house» de Mary de Castro ainda se  mantém), cafés, confeitarias e restaurantes e servida por médicos, casas de banhos e numerosas sociedades de recreio”.
Fonte: José Alberto Rio Fernandes, In “O Tripeiro” - 7ª Série (Série Nova) Ano X/Nº12, 1991



1. Farmácias

Farmácia Moreno

No Largo de S. Domingos, mesmo encostado ao local em que esteve a fonte encimada pelo brasão (a Fonte do Largo de S. Domingos) encontra-se, ainda hoje, um estabelecimento icónico. Trata-se da Farmácia Moreno.

A Pharmácia e Drogaria Félix & Filhos começou a funcionar em 1804 no Largo de São Domingos, onde ainda hoje se mantém, como uma “botica” (designação comum no século XIX) que tratava maleitas através da produção e venda de produtos de origem vegetal e mineral, desde pós e ervas a extratos de plantas.
Quando há 210 anos abriu portas, farmácia ainda se escrevia com “ph” e a Moreno ainda não pertencia à família que lhe deu a designação. Em 1928, mais de um século após a fundação, o médico e farmacêutico António Moreno adquiriu o estabelecimento e a farmácia ganhou reputação através da produção de medicamentos e campanhas de publicidade nos jornais da cidade. Fórmulas exclusivas foram produzidas nos laboratórios dos pisos superiores do edifício de cinco andares no centro histórico do Porto, onde havia dezenas de técnicos especializados e onde ainda hoje se conservam em exposição artefactos de outros tempos, como máquinas de misturar pós e de encher pomadas e xaropes.


Fachada da Farmácia Moreno

O laxante Doce Alívio e o calicida Dr. Moreno resistiram aos tempos e hoje são comercializados por todo o País. Tal como noutros tempos o foram os pós indianos Dr. Moreno para a asma, ou as pastilhas vegetais de Moura para os “males de estômago” e outros medicamentos criados de propósito em tempos de guerra, por exemplo, quando havia surtos de doenças venéreas.
Por trás da bela fachada de ferro ao estilo Arte Nova, encimada pelo símbolo de Hígia (taça que representa a cura) com uma serpente (da sabedoria), surgiam fórmulas inovadoras ao longo de décadas. Porém, há cerca de 40 anos, a produção teve de mudar de instalações devido às exigências da legislação, “que obrigou a implementar métodos de fabrico e de controlo mais avançados”.
Com a devida vénia a Sérgio Pires, In Diário de Notícias


No fim do século XIX a farmácia era conhecida por Pharmacia de S. Domingos



Na década de 80 do século XX a farmácia mudou de mãos, mas os novos donos mantiveram a designação da firma, como Farmácia Moreno que, na sua fachada, apresenta elementos de decoração de estilo arte-nova.
Embora a zona comercial de atendimento público esteja a nível térreo, antigamente a farmácia desenvolvia-se por todos os andares do prédio, pois neles eram confeccionadas as diversas drogas e remédios.
Como curiosidade, O Jornal “O Oriente” em 19 de Fevereiro de 1858 publica um anúncio a Chocolates Medicinais da Farmácia de Félix da Fonseca Moura na Rua de S. Domingos.


Farmácia Estácio

A Farmácia Estácio foi inaugurada em 1924 e encontrava-se na Rua de Sá da Bandeira nº 120.


A Farmácia Estácio é agora uma agência bancária - Fonte: Google Maps

“A Farmácia Estácio, situada na Rua Sá da Bandeira no Porto, deve o seu nome a Emílio Faria Estácio (1854-1919), farmacêutico da Universidade de Coimbra.
Nos armários da farmácia, estão representados os bustos de ilustres farmacêuticos e químicos, que ocuparam cargos de destaque nas instituições do Porto, no início do século XX. No final dos anos 40, surgem anúncios à balança falante da Farmácia Estácio, tornando-se um ex-libris da baixa portuense dessa época, chegando mesmo a formarem-se filas à sua porta a fim de se pesarem. O cliente subia para a balança e o seu peso era-lhe transmitido por uma funcionária “escondida” no piso inferior. Nos anos 70, a afluência era de tal ordem que existia uma funcionária destacada unicamente para este serviço. Em 1975, um fogo de grandes proporções na Rua Sá da Bandeira, atingiu a Farmácia Estácio e destruiu grande parte do seu interior, incluindo a célebre balança”.
Fonte: portoarc.blogspot

Em 1883 Emílio Estácio funda a Farmácia Estácio no Rossio em Lisboa e em 1888 a Fábrica a Vapor de Produtos Químicos e Farmacêuticos. Foi ainda fundador da Companhia Portuguesa de Higiene (CPH) em 1891, onde esteve até 1908 como director. Em 1913 a CPH passou a sociedade por quotas com novos sócios e Emílio Estácio seria afastado, tendo-se estabelecido com uma farmácia na Rua de Santa Marta com o nome de Estácio & Filhos.
Em 1924 a CPH abre uma sucursal no Porto denominada Farmácia Estácio
cujo director-técnico é um dos sócios, João Augusto dos Santos.
Em 1926 a Farmácia Estácio do Porto deixa de pertencer à CPH e em 1943 é feito o primeiro registo no grémio das Farmácias.
Em 1935 já existiam os Laboratórios Estácio do Porto, fabricando produtos “galénicos e injectáveis” sobre a direcção-técnica de Manoel Rodrigues Ferro, assistente da Faculdade de Farmácia do Porto.
Os armários Farmácia Estácio são encimados por medalhões com os bustos de farmacêuticos ou cientistas de destaque da cidade como, Agostinho da Silva Vieira, António Joaquim Ferreira da Silva, Moraes Caldas, Flores Loureiro, Manoel Nepumoceno e Raúl Frias.


Publicidade à balança falante



Reconstituição da Farmácia Estácio no Museu da Farmácia


Farmácia Lemos


Farmácia Lemos


Interior da Farmácia Lemos

A Farmácia Lemos situa-se na Praça Carlos Alberto, 31.
A sua fundação data de 1780, pertencendo desde essa época até 1801, aos Frades Carmelitas do Carmo.
Em 1801 (data da fundação do Hospital do Carmo) passou a ser propriedade da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo.
Em 1862 adquiriu-a Joaquim Baptista de Lemos.
Em 1889 associou-se seus filhos António Baptista de Lemos e Joaquim Baptista A. de Lemos.
Em 1892 ficaram só os dois últimos (por falecimento do primeiro).
Em 1928 ficou a ser dirigida pelo sócio António Baptista Lemos e pelo Gerente Técnico J. J. Fernandes Pinto (farmacêutico).
Em 1931, por falecimento de António Baptista de Lemos, ficou seu director Augusto de Lemos.
Em 1963, por falecimento de Augusto de Lemos ficaram directores seus filhos D. Maria de Lurdes de Lemos Rodrigues e António de Lemos. A direcção técnica é exercida por Dr. A. Luís Moreira (Farmacêutico).
Em 1984 adquiriu-a a farmacêutica Maria Idília Gomes Alves de Oliveira como proprietária e Directora Técnica.
Primeiro em 1991 depois em 2005, sob a mesma direcção, a farmácia é totalmente remodelada.
Pinho Leal refere a botica da ordem no seu Portugal Antigo e Moderno:

“No edificio que defronta com a praça de Carlos Alberto (Feira das Caixas) está o rico hospital da ordem terceira do Carmo, no pavimento superior. Nos baixos, está a botica da ordem, e ricas lojas de commercio”. 

Durante muitos anos a Farmácia Lemos foi conhecida por publicitar e vender a Fosfiofoglicina.


Publicidade à Fosfiofoglicina


Farmácia Vitália


Farmácia Vitália-Ed. Google Maps

A Farmácia Vitália fica situada em plena baixa portuense no velho Palácio das Cardosas. A sua fachada é uma incrustação de ferro e vidro, do estilo art-déco, desenhada em 1932 pelos arquitectos Amoroso Lopes e Manuel Marques.
Foi inaugurada a 23 de Março de 1933 pela sociedade Comercial Farmacêutica. Desde então o nome da sociedade mantém-se mas os sócios tem vindo a mudar. Actualmente é dirigida pelo Dr. Armindo Cosme, como director técnico e pelo Dr. Paulo Pinho.
As instalações da farmácia eram anteriormente ocupadas pelo Banco Pinto da Fonseca & Irmão que viria a abrir falência em 1933.




Botica do Hospital Real de Santo António


Botica do Hospital de Santo António

“A Botica da foto acima faz parte do Museu do Centro Hospitalar do Porto, que está instalado no Hospital de Santo António
Era ali que funcionava a "Botica do Hospital Real de Santo António", onde se fabricavam os remédios para os pacientes do Hospital e também para venda ao público. Uma sala com um histórico de 200 anos. Onde podemos conhecer o seu desenho oitocentista com um raro conjunto de armários de botica.
Há ainda um espaço dedicado à Farmácia do Hospital Joaquim Urbano, um hospital dedicado à doenças infecciosas. E na sua farmácia eram manipuladas  inúmeros medicamentos destinados principalmente ao tratamento das diversas epidemias que foram surgindo no decorrer da história.
Ali encontramos diversos elementos ligados à produção de vários medicamentos para o tratamento hospitalar destas doenças infecciosas”.
Fonte: “oportoencanta”


Outras Farmácias e Similares

A Farmácia Antiga da Porta do Olival situa-se na freguesia da Vitória, no Campo Mártires da Pátria, 122.

Farmácia Antiga da Porta do Olival


Interior da Farmácia da Porta do Olival - Ed. “O Tripeiro”


A Antiga Farmácia do Bolhão situa-se na Rua Formosa nº 329.


Antiga Farmácia do Bolhão


A Farmácia Falcão situava-se na Rua de Santo Ildefonso nº 61, no antigo sítio da Pocinha.

Publicidade à Farmácia Falcão 


Pasta Medicinal Couto, Restaurador OLEX e Petróleo OLEX e Fundação Couto

A firma, Flôres e Couto sedeada no Largo de S. Domingos nº 106/108, foi criada no Porto em 1918, pelo gerente de farmácia, Alberto Ferreira do Couto em colaboração com um amigo dentista, que o incentivou a fabricarem uma pasta de dentes.
Em 1931 Alberto Ferreira do Couto, casado com Maria da Conceição Couto, tornar-se-ia o único administrador, sendo a designação alterada para Couto Lda.
A fórmula da "Pasta Medicinal Couto" foi registada em 13 de Junho de 1932, altura em que a sua administração da firma subjacente, passa a ser da exclusiva responsabilidade de Alberto Ferreira do Couto. Desde aí que a agora “Couto, Lda.” foi passando de geração em geração, mantendo a tradição e os valores familiares que sempre a caracterizaram.
O produto nasceu para lavar os dentes, visando evitar, nomeadamente, as infecções das gengivas, sendo também importante para combater os malefícios da sífilis, uma doença proveniente de relações sexuais, que “maltratava as gengivas e em consequência os dentes.”
A pasta Couto é elaborada com 15 ingredientes, como água, glicerina, sódio, cálcio, o eugenol (desinfectante com qualidades bactericidas), hortelã-pimenta, mentol ou cloreto de potássio e outros ingredientes.
Após a morte do único proprietário, o negócio manteve-se na família, sendo gerido pelo seu sobrinho Alberto Gomes da Silva, já que a única filha do casal Couto, faleceu ainda jovem.
Em Novembro de 1996, a firma Couto Lda, transforma-se em Sociedade Anónima, alterando o nome para Couto S.A..
Em 2001 a marca nacional “Couto - O dentífrico que evita afeções da boca”, teve um momento em que foi obrigada a alterar, por causa de regras da União Europeia, o nome “Pasta Medicinal Couto” para “Pasta Dentífrica Couto”.
Actualmente, mais de 500 mil bisnagas de pasta “Couto” são produzidas anualmente a partir de uma área da zona industrial da UTIC em Vila Nova de Gaia, sendo que 10 por cento dessa produção segue para exportação. Itália e EUA são os principais destinos estrangeiros do dentífrico.

Embalagem da Pasta Medicinal Couto


Publicidade à Pasta Medicinal Couto – Fonte: Fonte: “couto.pt”


"Palavras para quê? É um artista português e só usa Pasta Medicinal Couto!" Dizia o anúncio televisivo e das telas de cinema nos anos 70 do século passado, e que ficou na memória de muitos.
Por sua vez o “Restaurador Olex” e o “Petróleo Olex” são produtos para usar no tratamento do cabelo, e eram produzidos há uns largos anos, numa farmácia da Praça da República por um cidadão brasileiro.
Na década de 60 do século passado, Alberto Ferreira do Couto acaba por comprar a farmácia e passa a produzir aqueles produtos.
No que diz respeito ao restaurador, como primitivamente continha acetato de chumbo, foi entretanto proibido o seu uso, e teve que ser encontrada uma nova fórmula para o seu fabrico.


Embalagens do Olex Petróleo e do Restaurador Olex


Publicidade ao Petróleo OLEX e Restaurador OLEX – Fonte: “couto.pt”


Alberto Ferreira do Couto e Maria da Conceição Couto que habitavam desde 1921 até 1963, uma vivenda no nº 2223 da Avenida da República em Vila Nova de Gaia, acabariam por resolver colocar a moradia desabitada à disposição da freguesia de Mafamude para ser utilizada como creche e infantário, tendo-se inaugurado em 1967 o que foi inicialmente denominado “ Regaço de Maria “. O casal Couto decidiu então constituir a 11 de Abril de 1974 uma,

«Fundação sem fins lucrativos afectando desde logo à Instituição para além da sua vivenda implantada num terreno com cerca de 4.000 m2 na Avenida da República em Vila Nova de Gaia, um prédio com lojas e oito andares na Avenida de Roma em Lisboa, e um prédio de rés do chão e cinco andares na Rua Duque de Loulé no Porto, ambos totalmente arrendados e cujo proveito das rendas era suficiente para a Fundação cumprir o seu objectivo:  “prestar assistência a crianças pobres ou remediadas, sem olhar a ideias politicas ou confessionais, ou preconceitos de raça ou de cor das assistidas e seus familiares” .
Em 2 de Maio de 1975 é atribuída utilidade pública Administrativa à Fundação Couto, e em 21 de Setembro de 1982 a Fundação passa a estar registada na Direção Geral de Ação Social no Livro 1 das Fundações de Solidariedade social. Com a publicação do Decreto-Lei nº 119/83 de 25 de Fevereiro, a Fundação Couto passa a ter o estatuto de Instituição Particular de Solidariedade Social.
A Fundação Couto celebra então acordos de cooperação com a Segurança Social, inicialmente na valência de creche e Jardim de infância, e posteriormente na Valência de ATL. 
Em 1982 dá-se inicio à construção de dois novos edifícios que vão dotar a Fundação Couto com 9 salas de aulas, refeitório, Ginásio e Piscina.
Mais recentemente em 2005 procedeu-se a uma total remodelação quer dos espaços interiores quer dos espaços exteriores da Instituição, construindo-se de raiz um novo edifício destinado aos serviços administrativos, sala de professores e ludoteca,  sendo que a vivenda original foi objecto de uma reconstrução total que passou pela implosão do seu interior, dando lugar a uma creche para 66 crianças ultra moderna.»
Fonte: “fundaçãocouto.pt”

Vivenda na Avenida da República em V. N. de Gaia da Fundação Couto – Fonte: Google maps

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