sexta-feira, 28 de agosto de 2026

25.316 O S. Bartolomeu na Foz do Douro

 
Na Foz do Douro, a festa que pedia meças à da Nossa Senhora da Luz, era o S. Bartolomeu, que tinha também boa aceitação nas praias de Leça e Matosinhos.
A festa de S. Bartolomeu realiza-se em 24 de Agosto, na Foz do Douro, centrada, principalmente, nas praias do Caneiro e do Ourigo.
Pelo S. Bartolomeu, o povo tem o antigo costume de ir à praia tomar o miraculoso banho santo ou dos sete mergulhos. 
São Bartolomeu, ligado ao culto das águas, sempre foi invocado contra a gaguez, enfermidades nervosas, associadas a possessões demoníacas e a doenças da pele. Também é conhecido por ser o patrono dos alfaiates e das empresas de tratamento de peles.
No dia de S. Bartolomeu, é tradição, na Foz do Douro, realizar-se um desfile no qual os participantes vestem trajes de papel, começados a preparar com meses de antecedência. Segue-se, então, o Banho Santo para afugentar o diabo.

 
 

Desfile de S. Bartolomeu, no Passeio Alegre, em 1965
 
 
 
Bartolomeu foi um dos doze apóstolos de Jesus, acompanhando-o até à morte. Também é referido nas escrituras como Natanael (que significa “o dom de Deus” ou “Deus deu”), sendo proveniente de Caná, onde terá testemunhado o milagre de Cristo da transformação da água em vinho.
É-lhe atribuído um vasto apostolado na Índia, na Arábia e na Arménia, com dons de exorcismo. Bartolomeu terá morrido esfolado a 24 de Agosto do ano de 51 d.C., a mando de um governador do Daguestão, sendo mesmo representado por Miguel Ângelo, na Capela Sistina, segurando nas mãos a própria pele. São Bartolomeu ficou, assim, para a história, como o padroeiro dos sapateiros, padeiros, alfaiates e daqueles que trabalham com peles.
No Dia de São Bartolomeu, o diabo anda à solta, segundo a tradição popular.
Foi, de facto, de 23 para 24 de Agosto de 1572, no dia de São Bartolomeu, que sucederam inúmeros assassinatos em Paris, num massacre de protestantes protagonizado pelos católicos.
Durante muitos anos, a imagem de S. Bartolomeu era guardada na Capela de Nossa Senhora da Luz, no Monte da Senhora da Luz, junto do farol.
Porém, durante o Cerco do Porto (1832/1833), tanto a capela como o farol sofreram danos consideráveis. Em 1835, o estado de ruína da capela era tal, que a mandaram demolir.
As imagens de Nossa Senhora da Luz e de S. Bartolomeu recolheram, então, à igreja paroquial da Foz do Douro.
 
 
 
“ (…) as imagens da Senhora da Luz e de S. Bartolomeu, que estavam na capela da Senhora da Luz, haviam sido transferidas para a igreja paroquial da Foz do Douro“.
In jornal “ A Vedeta da Liberdade” de 25 de Agosto de 1835 – 3ª Feira
 
 
 
Como se observa na notícia abaixo, por vezes, quando o dia 24 de Agosto não calhava a um Domingo, o respectivo arraial estendia-se até ao Domingo seguinte àquele que comemorava o santo. Foi o caso do ano de 1857, quando o dia de S. Bartolomeu calhou a uma 2.ª Feira.
 
 
 
“Ontem houve imensa concorrência à Foz, em consequência da festividade que ali se fez a S. Bartolomeu.
As caleches estacionadas na Porta Nobre iam e vinham cheios de gente, assim como os estacionados em outros lugares.
Quem, à tarde, fosse dar um passeio até ao Ouro gozava um belo panorama. A estrada estava crivada de gente que ia, ou vinha, a pé, as caleches corriam com presteza, ricas berlindas particulares conduziam seus donos. Os pobres barqueiros tiveram pouca concorrência, o que foi devido às caleches, apesar de elevarem ontem quase todos o preço a 240 réis”.
In jornal “O Monitor” de 31 de Agosto de 1857 – 2ª Feira
 
 
 
 
“Foi ontem o dia da romaria de S. Bartolomeu, dia em que a crença popular tem pelo mais aziago de todo o ano, por aquele em que ao príncipe das trevas é permitido vir ao mundo praticar as suas diabruras.
É costume muito antigo da gente do campo aproveitar a manhã do dia de ontem para ir banhar-se ao oceano, o que faz repetidas e sucessivas vezes, muito fiada em que neste dia a água do mar tem virtudes curativas que só de ano a ano possuem.
O costume dura e isso deu lugar a que ontem de manhã na Foz, principalmente na praia dos Ingleses, se vissem muitas lavradeiras tomando banhos uns após os outros”.
In jornal “O Comércio do Porto” de 25 de Agosto de 1865 – 6ª Feira
 
 
 
 

S. Bartolomeu em 1910 – Ed. Emílio Biel
 
 
 
“Fazem-se congressos sobre congressos, discutem-se questões, resolvem-se problemas e, todavia, ainda estão por decidir dois pontos importantíssimos que são o de saber a razão por que se festeja, em S. João da Foz, o S. Bartolomeu, no dia 24 de Agosto e por que é que a gente das aldeias circunvizinhas do Porto desce às praias da Foz e imerge no oceano uma e mais vezes, considerando aquela dose de banhos, por atacado, naquele dia, como uma panaceia anual e eficazíssima.
A multidão invade as praias da Foz, o largo da Igreja, o Passeio Alegre, os restaurantes e, ao entardecer, os char-à-Bancs, carruagens, «coupés» e toda a casta de veículos, acotovelando-se, empurrando, rindo, gesticulando e assim debandam todos para a cidade, alegres e satisfeitos”.
In “Jornal do Porto” de 23 de Agosto de 1873 – Sábado
 
 
Em plena época balnear, a gente a banhos na Foz tinha, então, a possibilidade de participar na festa do S. Bartolomeu.
 
 
 
 

Praia do Caneiro em dia de S. Bartolomeu
 
 
 

Praia do Ourigo e Rua da Praia
 
 
Na foto acima, ao longe, pode ver-se o Molhe de Carreiros e, em primeiro plano, uns jovens de uma colónia balnear.
A decoração festiva e a observação de uma multidão de banhistas, reportará à festa do S. Bartolomeu, em meados do século XX. 
 
 
 
“Bons, saudosos e primitivos eram esses tempos em que a romaria de S. Bartolomeu, na Foz, era, como então se dizia, de “arromba”. De alto lá com ela, diríamos nós agora.
Os carroções do Manuel José d’Oliveira, puxados por bois transparentes como rebuçados, os barcos da Porta Nobre e o «ómnibus» do Cadete começavam logo de madrugada a árdua tarefa, golfando na Foz o seu conteúdo – o Porto em peso, clero, nobreza e povo.
Uma enorme multidão de aldeões e de gentis camponesas assaltava a praia tomando banho. E não menos numerosos eram os espectadores, atraídos pela curiosa cena e pela simplicidade e transparência das «toilettes» de banho, quase paradisíacas.
Em todo o dia, a animação era extraordinária naquela praia. A festa durava até o anoitecer, hora em que principiava a debandada.
O rio tornava a coalhar-se de barcos empavesados e da Foz ao Porto a multidão de romeiros, descantando alegremente, pejava a estrada, dificultando a passagem dos pesados veículos.
Hoje tudo está mudado.
Meia dúzia de desgraciosos aldeões de ambos os sexos, tomando banho na praia solitária; mais tarde, a festa da igreja, simples, modesta. Junto ao Castelo, algumas tendas de doce e tascas ambulantes.
E, finalmente, a concorrência de banhistas e de famílias da cidade no Passeio Alegre, como em todos os dias santificados, durante o estio.
Os «americanos» e as «tipoias de praça» mataram os barcos, os carroções e o óminbus. E a lindíssima e pitortesca estrada do Porto à Foz já não regurgita de bandos festivos de irrequietos e alegres camponeses.”
In jornal “Gazeta de Notícias” de 25 de Agosto de 1890 – 2ª Feira

 
 
 

Praia do Ourigo e a roupa a corar no areal

 
 

Praia do Ourigo em 1964
 
 
 

Praia dos Ingleses no começo do século XX
 
 

Farol de Felgueiras observado desde a Praia dos Ingleses
 
 
Muitas memórias, sob a forma de documentação diversa, ligadas aos festejos do S. Bartolomeu na Foz do Douro, são preservadas pela família de apelido Picarote que, por vezes, as dá a conhecer publicamente, em sessões levadas a cabo na freguesia, com destaque especial para o cortejo de trajes de papel.
Na preparação deste emblemático desfile, têm intervindo diversas colectividades como a Associação Comissão de Moradores do Bairro Social de Aldoar, da Associação de Moradores do Bairro Social da Pasteleira, do Orfeão da Foz do Douro, entre outras, com a colaboração da União das Freguesias da Foz do Douro, Aldoar e Nevogilde (UFAFDN).
 
 
 
 
“O uso dos trajes de papel, como surgiu na Foz do Douro?
 A partir de 1907 foi nomeada uma comissão de festas para a organização de um “tal” arraial da Foz do Douro. O banho terminava sempre na praia dos Banhos, hoje conhecida como a praia do Ourigo. Não se sabe se foi nesse ano que se começou a usar o traje de papel nas ditas festividades. O que ficou enraizado na memória popular é que, na década 20-30 do século passado, um banheiro, antigo embarcadiço de nome Costa Padeiro, ter-se-á inspirado na tradição do julgamento da travessia do Equador (rito ancestral que testemunha a primeira passagem de marinheiros na linha do Equador), e iniciou o costume do banho em vestes de papel. Consta que “dava umas moeditas aos jovens rapazes  [alguns noviços da comunidade marítima] vestidos de jornal que se dirigiam ao mar para entreter a assistência que se reunia na praia”, revela a historiadora Marisa Pereira Santos.
Mas, o uso dos trajes de papel na Foz do Douro é difícil de explicar. É “quando o diabo anda a solta” que o culto a São Bartolomeu e o cortejo encontram o seu contexto devocional. As vestes são, afinal, a metáfora da pele que se dissolve na água do mar para assumir numa nova “roupagem”, vestida de esperança e boa aventurança”.
Fonte: agoraporto.pt
 
 
Em 1955, a Junta de Freguesia da Foz do Douro associa-se aos festejos populares com a atribuição de um subsídio e, em 1963, por intermédio de Joaquim Picarote, o cortejo de trajes de papel renasceu.
Entre 1988 e 1992, o cortejo teve um interregno.
A partir de 1992, a Banda Marcial da Foz do Douro passou a abrir o cortejo.
A partir da edição de 2000, as colectividades começaram a escolher a temática a apresentar no desfile.
O Cortejo dos Trajes de Papel de São Bartolomeu, da Foz do Douro, já foi inscrito no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (INPCI) e é candidata à UNESCO, juntamente com três municípios espanhóis que têm tradições próprias de arte em papel.
Assim, os municípios espanhóis de Mollerussa e Amposta (na Catalunha) e Güeñes (no País Basco), embora não façam o cortejo do dia de S. Bartolomeu, juntaram-se à Foz do Douro numa candidatura conjunta para elevar esta arte a Património Imaterial da UNESCO.
No presente ano (2026), o cortejo irá para a rua no dia 30 de Agosto, um Domingo, seguindo desde da Rua das Sobreiras até à praia do Ourigo, onde acontecerá o “Banho Santo”.
 
 

Cortejo dos Trajes de Papel de São Bartolomeu, da Foz do Douro – Fonte: União das Freguesias da Foz do Douro, Aldoar e Nevogilde (UFAFDN)

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