Na Foz do Douro, a festa que pedia meças à da Nossa Senhora
da Luz, era o S. Bartolomeu, que tinha também boa aceitação nas praias de Leça
e Matosinhos.
A festa de S.
Bartolomeu realiza-se em 24 de Agosto, na Foz do Douro, centrada,
principalmente, nas praias do Caneiro e do Ourigo.
Pelo S. Bartolomeu,
o povo tem o antigo costume de ir à praia tomar o miraculoso banho santo ou dos
sete mergulhos.
São Bartolomeu,
ligado ao culto das águas, sempre foi invocado contra a gaguez,
enfermidades nervosas, associadas a possessões demoníacas e a doenças da pele.
Também é conhecido por ser o patrono dos alfaiates e das empresas de tratamento
de peles.
No dia de S. Bartolomeu,
é tradição, na Foz do Douro, realizar-se um desfile no qual os participantes
vestem trajes de papel, começados a preparar com meses de antecedência.
Segue-se, então, o Banho Santo para afugentar o diabo.
Bartolomeu foi um dos doze apóstolos de Jesus,
acompanhando-o até à morte. Também é referido nas escrituras como Natanael (que
significa “o dom de Deus” ou “Deus deu”), sendo proveniente de Caná, onde terá
testemunhado o milagre de Cristo da transformação da água em vinho.
É-lhe atribuído um vasto apostolado na Índia, na Arábia e na
Arménia, com dons de exorcismo. Bartolomeu terá morrido esfolado a 24 de Agosto
do ano de 51 d.C., a mando de um governador do Daguestão, sendo mesmo representado
por Miguel Ângelo, na Capela Sistina, segurando nas mãos a própria pele. São
Bartolomeu ficou, assim, para a história, como o padroeiro dos sapateiros,
padeiros, alfaiates e daqueles que trabalham com peles.
No Dia de São Bartolomeu, o diabo anda à solta, segundo a
tradição popular.
Foi, de facto, de 23 para 24 de Agosto de 1572, no dia de
São Bartolomeu, que sucederam inúmeros assassinatos em Paris, num massacre de
protestantes protagonizado pelos católicos.
Durante muitos anos, a imagem de S. Bartolomeu era guardada
na Capela de Nossa Senhora da Luz, no Monte da Senhora da Luz, junto do farol.
Porém, durante o Cerco do Porto (1832/1833), tanto a capela
como o farol sofreram danos consideráveis. Em 1835, o estado de ruína da capela
era tal, que a mandaram demolir.
As imagens de Nossa Senhora da Luz e de S. Bartolomeu
recolheram, então, à igreja paroquial da Foz do Douro.
“ (…) as imagens da
Senhora da Luz e de S. Bartolomeu, que estavam na capela da Senhora da Luz,
haviam sido transferidas para a igreja paroquial da Foz do Douro“.
In jornal “ A Vedeta da Liberdade” de 25 de Agosto de 1835 –
3ª Feira
Como se observa na notícia abaixo, por vezes, quando o dia 24 de Agosto não calhava a um Domingo, o
respectivo arraial estendia-se até ao Domingo seguinte àquele que comemorava o
santo. Foi o caso do ano de 1857, quando o dia de S. Bartolomeu calhou a uma
2.ª Feira.
“Ontem houve imensa
concorrência à Foz, em consequência da festividade que ali se fez a S.
Bartolomeu.
As caleches estacionadas
na Porta Nobre iam e vinham cheios de gente, assim como os estacionados em
outros lugares.
Quem, à tarde, fosse
dar um passeio até ao Ouro gozava um belo panorama. A estrada estava crivada de
gente que ia, ou vinha, a pé, as caleches corriam com presteza, ricas berlindas
particulares conduziam seus donos. Os pobres barqueiros tiveram pouca
concorrência, o que foi devido às caleches, apesar de elevarem ontem quase
todos o preço a 240 réis”.
In jornal “O Monitor” de 31 de Agosto de 1857 – 2ª Feira
“Foi ontem o dia da
romaria de S. Bartolomeu, dia em que a crença popular tem pelo mais aziago de
todo o ano, por aquele em que ao príncipe das trevas é permitido vir ao mundo
praticar as suas diabruras.
É costume muito antigo
da gente do campo aproveitar a manhã do dia de ontem para ir banhar-se ao
oceano, o que faz repetidas e sucessivas vezes, muito fiada em que neste dia a
água do mar tem virtudes curativas que só de ano a ano possuem.
O costume dura e isso
deu lugar a que ontem de manhã na Foz, principalmente na praia dos Ingleses, se
vissem muitas lavradeiras tomando banhos uns após os outros”.
In jornal “O Comércio do Porto” de 25 de Agosto de 1865 – 6ª
Feira
“Fazem-se congressos
sobre congressos, discutem-se questões, resolvem-se problemas e, todavia, ainda
estão por decidir dois pontos importantíssimos que são o de saber a razão por
que se festeja, em S. João da Foz, o S. Bartolomeu, no dia 24 de Agosto e por
que é que a gente das aldeias circunvizinhas do Porto desce às praias da Foz e
imerge no oceano uma e mais vezes, considerando aquela dose de banhos, por
atacado, naquele dia, como uma panaceia anual e eficazíssima.
A multidão invade as
praias da Foz, o largo da Igreja, o Passeio Alegre, os restaurantes e, ao
entardecer, os char-à-Bancs, carruagens, «coupés» e toda a casta de veículos,
acotovelando-se, empurrando, rindo, gesticulando e assim debandam todos para a
cidade, alegres e satisfeitos”.
In “Jornal do Porto” de 23 de Agosto de 1873 – Sábado
Em plena época balnear, a gente a banhos na Foz tinha,
então, a possibilidade de participar na festa do S. Bartolomeu.
Na foto acima, ao
longe, pode ver-se o Molhe de Carreiros e, em primeiro plano, uns jovens de uma
colónia balnear.
A decoração festiva e
a observação de uma multidão de banhistas, reportará à festa do S. Bartolomeu,
em meados do século XX.
“Bons, saudosos e
primitivos eram esses tempos em que a romaria de S. Bartolomeu, na Foz, era,
como então se dizia, de “arromba”. De alto lá com ela, diríamos nós agora.
Os carroções do
Manuel José d’Oliveira, puxados por bois transparentes como rebuçados, os
barcos da Porta Nobre e o «ómnibus» do Cadete começavam logo de madrugada a
árdua tarefa, golfando na Foz o seu conteúdo – o Porto em peso, clero, nobreza
e povo.
Uma enorme
multidão de aldeões e de gentis camponesas assaltava a praia tomando banho. E
não menos numerosos eram os espectadores, atraídos pela curiosa cena e pela
simplicidade e transparência das «toilettes» de banho, quase paradisíacas.
Em todo o dia, a
animação era extraordinária naquela praia. A festa durava até o anoitecer, hora
em que principiava a debandada.
O rio tornava a
coalhar-se de barcos empavesados e da Foz ao Porto a multidão de romeiros,
descantando alegremente, pejava a estrada, dificultando a passagem dos pesados
veículos.
Hoje tudo está
mudado.
Meia dúzia de
desgraciosos aldeões de ambos os sexos, tomando banho na praia solitária; mais
tarde, a festa da igreja, simples, modesta. Junto ao Castelo, algumas tendas de
doce e tascas ambulantes.
E, finalmente, a
concorrência de banhistas e de famílias da cidade no Passeio Alegre, como em
todos os dias santificados, durante o estio.
Os «americanos» e
as «tipoias de praça» mataram os barcos, os carroções e o óminbus. E a
lindíssima e pitortesca estrada do Porto à Foz já não regurgita de bandos
festivos de irrequietos e alegres camponeses.”
In jornal “Gazeta de Notícias” de 25 de Agosto de 1890 – 2ª Feira
Muitas memórias, sob
a forma de documentação diversa, ligadas aos festejos do S. Bartolomeu na Foz
do Douro, são preservadas pela família de apelido Picarote que, por vezes, as
dá a conhecer publicamente, em sessões levadas a cabo na freguesia, com destaque
especial para o cortejo de trajes de papel.
Na preparação deste
emblemático desfile, têm intervindo diversas colectividades como a Associação
Comissão de Moradores do Bairro Social de Aldoar, da Associação de Moradores do Bairro Social da
Pasteleira, do Orfeão da
Foz do Douro, entre outras, com a colaboração da União das Freguesias da Foz do Douro, Aldoar
e Nevogilde (UFAFDN).
“O uso dos trajes
de papel, como surgiu na Foz do Douro?
A partir de 1907
foi nomeada uma comissão de festas para a organização de um “tal” arraial da
Foz do Douro. O banho terminava sempre na praia dos Banhos, hoje conhecida como
a praia do Ourigo. Não se sabe se foi nesse ano que se começou a usar o traje
de papel nas ditas festividades. O que ficou enraizado na memória popular é
que, na década 20-30 do século passado, um banheiro, antigo embarcadiço de nome
Costa Padeiro, ter-se-á inspirado na tradição do julgamento da travessia do
Equador (rito ancestral que testemunha a primeira passagem de marinheiros na
linha do Equador), e iniciou o costume do banho em vestes de papel. Consta que
“dava umas moeditas aos jovens rapazes [alguns noviços da comunidade
marítima] vestidos de jornal que se dirigiam ao mar para entreter a assistência
que se reunia na praia”, revela a historiadora Marisa Pereira Santos.
Mas, o uso dos trajes
de papel na Foz do Douro é difícil de explicar. É “quando o diabo anda a solta”
que o culto a São Bartolomeu e o cortejo encontram o seu contexto devocional.
As vestes são, afinal, a metáfora da pele que se dissolve na água do mar para
assumir numa nova “roupagem”, vestida de esperança e boa aventurança”.
Fonte: agoraporto.pt
Em 1955, a Junta de Freguesia da Foz do Douro associa-se aos
festejos populares com a atribuição de um subsídio e, em 1963, por intermédio
de Joaquim Picarote, o cortejo de trajes de papel renasceu.
Entre 1988 e 1992, o cortejo teve um interregno.
A partir de 1992, a Banda Marcial da Foz do Douro passou a
abrir o cortejo.
A partir da edição de 2000, as colectividades começaram a
escolher a temática a apresentar no desfile.
O Cortejo dos Trajes
de Papel de São Bartolomeu, da Foz do Douro, já foi inscrito no Inventário
Nacional do Património Cultural Imaterial (INPCI) e é candidata à UNESCO,
juntamente com três municípios espanhóis que têm tradições próprias de arte em
papel.
Assim, os municípios espanhóis de Mollerussa e Amposta (na Catalunha) e Güeñes
(no País Basco), embora não façam o cortejo do dia de S. Bartolomeu,
juntaram-se à Foz do Douro numa candidatura conjunta para elevar esta arte a
Património Imaterial da UNESCO.
No presente ano (2026), o cortejo irá para a rua no dia 30
de Agosto, um Domingo, seguindo desde da Rua das Sobreiras até à praia do
Ourigo, onde acontecerá o “Banho Santo”.









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