sexta-feira, 6 de outubro de 2017

(Continuação 19)


“Foi António Lobo de Barbosa Ferreira Teixeira Girão (1785-1863), 1º Visconde de Vilarinho de S. Romão, quem mandou edificar este magnífico edifício localizado na Travessa do Carregal.
Por sua morte, sem descendência, passou o título para seu sobrinho, Álvaro Ferreira Girão, casado com D. Júlia Clamowse Brown, filha da poetisa por­tuense Maria da Felicidade do Couto Brown (1797 -1861), que aqui viveram muito tempo e onde lhes nasceram os seus quatro filhos.
Faziam gala do uso da sua capela dedicada a Santo António do Carregal, que ficava (e fica) logo a seguir ao portão da entrada, mas perfeitamente autónoma, com porta para a rua, encimada por uma coroa condal e, no granito, sobrepujando a porta, a pedra de armas da família e a data "1487 - 1903".
No século XV (1492) um tal João Martins Ferreira, um homem muito rico, teria fundado nesse local o morgadio do Carregal, também conhecido como o morgadio dos Ferreiras.
A área ocupada, digamos assim, pelo mor­gadio era enorme. Abrangia, tomando como referência a zona urbana dos nossos dias, o espaço compreendido entre as ruas de Ce­dofeita, Miguel Bombarda, Rosário, Restau­ração e o Largo do Prof. Abel Salazar.
Qualquer bom dicionário dará de morga­dio a seguinte definição; "vínculo indivisível e inalienável que passa, numa família, de pri­mogénito em primogénito, mas sempre em linha reta varonil". E a estes vínculos, acres­centamos nós, andavam ligados muitos e rendosos proventos. Isto para dizer que João Martins Ferreira era um homem muito rico e pessoa assaz influente na sociedade do seu tempo. 
Os viscondes de Vilarinho de S. Romão são descendentes deste João Martins Ferreira, mercador muito rico que esteve ligado à Câmara como vereador.
No Palacete, em 1851, esteve alojado o Asilo da Infância, com a particularidade de ter na porta da rua uma caixa de esmolas, solicitando donativos aos transeuntes.
Em 1 de Junho de 1917, foi aqui fundado, sob a direcção de Valentim Moreira de Sá, o Conservatório Superior de Música, que aqui se conservou ate 13 de Março de 1976, quando, sob direcção de Fernanda Wandschneider, foi ocupar o antigo palacete da família Pinto Leite, na Rua da Maternidade, até o D.L. 310/83 o ter transformado em escola secundária”.
In Junta de Freguesia de Miragaia



O morgadio como instituição vincular tem origem na legislação castelhana e, embora seja adoptada pelo reino de Portugal antes, só entra na legislação portuguesa com as Ordenações Filipinas de 1603.
Os morgadios foram extintos em Portugal no reinado de D. Luís I por Carta de Lei de 19 de Maio de 1863, subsistindo no entanto o vínculo da Casa de Bragança, o qual se destinava ao herdeiro da Coroa. Este último morgadio viria a perdurar até 1910.
Sobre aquele João Martins Ferreira, que instituiu o morgadio do Carregal e é citado no anterior texto, sabe-se que:


“João Martins Ferreira viveu na cidade do Porto na viragem do século XV para o século XVI. Foi mercador e exerceu diversos cargos públicos. Serviu o Município como almotacé, procurador do concelho, vereador, juiz e, finalmente, chanceler. Acumulou um vasto património na área urbana e fora do Porto. Ligou-se, através do casamento, a prestigiadas famílias (a segunda mulher, Violante Correia, era filha bastarda de Frei Paio Correia de Lacerda, Bailio de Leça).
No último quartel do século XV, João Martins Ferreira instalou-se numa casa torre, situada na Rua dos Mercadores.
Em 1491, instituiu o morgadio dos Ferreiras. Pantaleão Ferreira, filho do seu casamento com Violante Correia, sucedeu-lhe no morgadio, o qual se transmitiu em linha direta nas três gerações seguintes.
João Martins Ferreira morreu em 1514, tendo sido sepultado na Capela de Jerusalém do Convento de São Domingos”.
Fonte: “gisaweb.cm-porto.pt”


Até há pouco tempo nas instalações do Palacete do Carregal, funcionou um estabelecimento do ensino secundário, o “Colégio Horizonte”.
Desde Maio de 2016, funciona lá um hotel.


Palacete dos Viscondes de Vilarinho de S. Romão já a funcionar como hotel – Ed. “booking.com”


Sobre António Lobo de Barbosa Ferreira Teixeira Girão (descendente de João Martins Ferreira), um liberal que já tinha participado na revolta de 1820, fala-nos o artigo seguinte publicado na "A Voz do Nordeste" em 28/09/2000.


“Em 1833 alistou se para combater ao lado de D. Pedro e teve papel preponderante durante o cerco de Lisboa, ao fazer os planos para reabastecer de água a cidade que se encontrava cercada pelas tropas miguelistas. Regressado à vida política foi nomeado Par do Reino e recebeu diversos cargos e honras dos quais se destaca o título de visconde de S. Romão, que lhe foi concedido por decreto de D. Maria II de 17.11.1835. Recebeu e desempenhou ainda outros importantes cargos: Inspector das Águas Livres e das Fábricas Anexas; Provedor do Papel Selado; Presidente Honorário de Instituto de África; Fidalgo e Cavaleiro da Casa Real; Comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição; Administrador da Casa da Moeda: Prefeito de Trás-os-Montes e da Estremadura. Era também importante agricultor e reconhecido economista e nesta qualidade foi sócio da Sociedade Promotora da Indústria Nacional. As ideias económicas dum viticultor O primeiro visconde de S. Romão deixou uma extensa e interessante bibliografia. Nela sobressaem os estudos sobre a agricultura, especialmente das vinhas. sendo o mais conhecido a Memória histórica e analytica sobre a Companhia dos Vinhos denominada da Agricultura das Vinhas do Alto Douro (1833), que, de acordo com Inocêncio Silva, é o que de mais completo se escreveu sobre esta instituição. São também muito interessantes os seus estudos sobre economia, e nomeadamente sobre economia doméstica e até a culinária. Citemos aqui apenas dois títulos: Memória sobre a economia do combustível por meio de vários melhoramentos que se devem fazer nos lares ordinários, fornalhas, fornos e fogões (1834); e Arte do Cozinheiro e do Copeiro, compilada dos melhores que sobre isto escreveram modernamente (...) (1841). Alguns dos seus trabalhos foram publicados nas Memórias da Academia das Ciências e escreveu ainda diversos artigos para a Revista Universal Lisbonense, para os Annaes da Sociedade Promotora da Indústria Nacional e para outros periódicos. A sua obra constitui um bom exemplo do modo como a herança do movimento das luzes, e do reformismo que o caracterizou, se fez sentir entre nós, durante a primeira metade do século XIX. Além da grande variedade de temas abordados, nela perpassa a defesa da instrução e do saber como bases do progresso e do desenvolvimento económico do país. Dotado de espírito prático e inventiva, para ele a aquisição de conhecimentos tinha, acima de tudo, um sentido pragmático e operativo. Divisamos na obra e intervenção política de Teixeira Girão duas ideias bases: em primeiro lugar a defesa do desenvolvimento agrícola e sobretudo o aumento da produção vinícola. A quantidade e a qualidade eram para ele conciliáveis. Deveriam, assim, eliminar-se todos os entraves que bloqueavam a expansão da produção e do comércio livre e por isso insurge se contra os tributos e monopólios. Em segundo lugar, considerava que para conseguir este desenvolvimento económico do país, a instrução e inovação científica e tecnológica, que ela origina, eram as estratégias indispensáveis. Era preciso pôr em prática os ensinamentos dos economistas, modernizar e inventar novas máquinas, divulgar e introduzir novas culturas agrícolas, como a batata e, enfim, aprofundar os estudos agronómicos.
O romantismo e ardor que colocou na defesa das novas ideias conduzem a situações que podem parecer paradoxais, tais como, vermos um morgado a combater os morgadios e a reclamar a liberdade das terras, o fim dos vínculos dos dízimos e de todas as formas que entravem a produção. Valorizando a terra livre e o trabalho livre, base da inovação, as ideias económicas de Teixeira Girão continuam a ser uma referência obrigatória para todos os que consideram o sector vinícola e, em especial a vitivinicultura duriense, como uma das melhores apostas para o progresso moral e económico da nação. Muito teríamos a escrever sobre a vida e obra de Teixeira Girão, que aguardam, tal como a de muitos outros portugueses, por investigadores ou até por cineastas em busca de inspiração”.
In "A Voz do Nordeste" 28/09/2000; Fonte: “ruasdoporto.blogspot.pt”


Capela de Santo António do Carregal anexa ao palacete – Ed. JPortojo


Bem perto do Palacete situado na Travessa do Carregal, fica o Jardim do Carregal, cujo topónimo deriva de ser um local alagadiço infestado de uma planta, as carregas, que proliferam em terrenos húmidos.
Este jardim é considerado um dos últimos de concepção romântica (visível no traçado da ponte que atravessa o seu lago), da responsabilidade de Jerónimo Monteiro da Costa, que chegou a ter responsabilidades na Câmara Municipal no sector de parques e jardins, com intervenções, nomeadamente, no Jardim do Passeio Alegre, entre outros.



Jardim do Carregal


Os terrenos desse jardim, junto ao Hospital de Santo António pertenciam à Santa Casa da Misericórdia do Porto, quando foram cedidos em 1857 à Câmara para levantar o jardim que hoje se chama Jardim de Carrilho Videira e que, começou por se chamar, Praça do Duque de Beja.
Este Duque de Beja era o infante D. João, filho de D. Maria II.  
No subsolo do jardim e por baixo do Hospital de Santo António passa o chamado Rio Frio ou Rio do Carregal, com nascente na Rua da Torrinha.
O Jardim do Carregal já comunicou com a Rua do Rosário, no tempo da tracção eléctrica e até Outubro de 1925, por um túnel, que desembocava no prédio da actual Rua de Clemente Meneres, nº 16, quando os eléctricos traziam os passageiros  provenientes da Praça da Boavista e vice-versa.
Por aquele túnel já passavam, antes, vindos do Carmo, os “Americanos” que se dirigiam à Boavista.
Aquela Rua do Rosário foi aberta em terrenos cedidos, em parte, pelo empresário chapeleiro, tio de Almeida Garrett, Domingos de Almeida, que fervoroso devoto de Nossa Senhora do Rosário alteraria o seu nome, para Domingos do Rosário de Almeida. Este sujeito era dono de uma quinta enorme denominada Quinta do Paço, que deu origem ao topónimo Rua do Paço de que existe hoje um troço que é o Beco do Paço ligando ao Jardim do Carregal.




Parada militar do Regimento nº 18, junto ao Jardim do Carregal, em 1900, podendo observar-se, à esquerda, a entrada do túnel que fazia a ligação à Rua do Rosário -Ed. Photo Guedes




Vista actual do local da foto anterior - Fonte Google maps



Pode observar-se por comparação das duas fotos anteriores, que os prédios mais próximos ainda existem.
Antes da construção do jardim existia no local uma Rua D. Pedro V cujo topónimo foi deslocado em 1883 para outro local, para as bandas de Massarelos. 
No dia 31 de Janeiro de 1932, o ministro do Comércio, Antunes Guimarães, abre solenemente o Instituto de Puericultura em terrenos do Jardim Carrilho Videira.
 
 
 

Instituto de Puericultura no Jardim do Carregal



Em 31 de Janeiro de 1938, comemorou-se o 6.ºaniversário da fundação do Instituto de Puericultura, quando a instituição era dirigida pelo Dr. António de Almeida Garrett (1884-1961), director da Faculdade de Medicina entre 1931 e 1954.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

(Continuação 18)

21.19 Palácio de S. João Novo ou Palacete do Costa Lima


Palácio de S. João Novo – Fonte: “gisaweb.cm-porto.pt”



Situado junto a um pano da antiga muralha da cidade, o palácio do Largo de S. João Novo foi mandado edificar, c.1727, por Pedro Costa Lima, casado em segundas núpcias com D. Maria Teresa de Melo e Alvim, fidalgo da Casa Real e administrador da Fábrica dos Galeões do Ouro do Porto, que para aqui veio residir para umas casas que comprou na então Rua de São João Novo, em 1676.
Mais tarde, mandaria construir neste mesmo local um edifício imponente, dentro do tradicional palacete de estilo barroco, com os seus jardins em socalcos e com tanques de água que viriam a ser alimentados pela mina de Arca d'Água.
No local onde se ergueu o palacete havia, em tempos remotos, pequenas casas pertencentes a António Bravo, contratador das enxarcias da cidade do Porto e feitor das ribeiras do Ouro.
Essas casas passaram para o domínio régio e o rei D. Afonso VI fez presente delas, em Julho de 1665, D. Gaspar Cy, natural de Sevilha como serviços prestados no norte de África, mais propriamente, em Marzagão, com a incumbência do pagamento ao Senado da Câmara do Porto, do foro anual de 40 réis.
Como não tinha interesse em fixar residência em Portugal, o sevilhano vendeu, em Outubro de 1665, as casas, a Domingos Antunes Portugal que, em 1676, as venderia a Pedro da Costa Lima.
O Palácio de S. João Novo é um típico exemplar de arquitectura urbana barroca, com os volumes desenvolvidos horizontalmente e fachada sumptuosa, evidenciando a entrada nobre do edifício.
O seu projecto foi durante muitos anos atribuído a Nicolau Nasoni, devido à exuberância dos elementos exteriores, nomeadamente os frontões interrompidos e as volutas. No entanto, actualmente, confirma-se que a traça do palácio foi elaborada pelo mestre António Pereira, vindo de Lisboa, plausivelmente em 1719, para refazer estuques da Catedral e que, haveria de ser chamado para executar o projecto no Recolhimento das Orfãs de Nossa Senhora da Esperança.
A intervenção em S. João Novo seria, então, o seu terceiro trabalho na cidade.



“Com planta em L, dividido interiormente em três pisos, o palácio apresenta uma fachada de dois registos, cujo ritmo é marcado pela repetição de janelas a espaços regulares em ambos os registos. No primeiro, abre-se ao centro o portal principal, de moldura rectangular encimada pela pedra de armas da família proprietária, ladeado por duas janelas com guarda de ferro e moldura em frontão invertido alternadas por porta rectilínea com óculo e frontão. O registo superior possui sete janelas de sacada, das quais seis são encimadas por frontões quebrados e a central, mais alta, é ladeada por volutas na parte inferior. Todas são precedidas por guarda de ferro forjado. À esquerda, foi edificado um corpo menor dividido em três registos, que possui no primeiro porta em arco pleno, no segundo janela semelhante às do primeiro registo do corpo principal e no último registo janela, também em arco de volta perfeita, com guarda de ferro.
Interiormente, o corpo principal possui escadaria central de dois lanços paralelos, que sobe até ao terceiro piso. As salas são cobertas por tecto de masseira”.
Catarina Oliveira, In “patrimoniocultural.pt”



O texto que se segue fala-nos sobre o primeiro responsável pela construção do palácio, Pedro Costa Lima, nascido em Viana do Castelo, na freguesia de Monserrate em 26 de Abril de 1648.


“Além de Administrador da Fábrica dos Galeões do Ouro do Porto, terá exercido igualmente: o cargo de Juíz de Fora e de Vereador da Câmara do Porto, Administrador da Casa da Moeda, Guarda-Mor dos Lastros e Tabacos, Governador da Cidade do Porto, Familiar do Santo Ofício, Cavaleiro na Ordem de Cristo e Fidalgo da Casa Real, por alvará de 13 de Novembro de 1710.
Apesar da escritura do casamento de Pedro da Costa Lima com D. Maria Teresa de Melo e Alvim registar que Pedro da Costa Lima já residia na rua de S. João Novo em 1693, desconhece-se porém, quando começou a residir nas casas sitas na rua de S. João Novo e como as adquiriu. O próprio contrato de obrigação da obra lavrado a 20 de março de 1725 indica que Pedro da Costa Lima pretendia inovar as casas em que residia, sem, contudo, especificar a que corresponderiam as pré-existências da Casa de S. João Novo. Inédita é, porém, uma provisão e petição de Pedro da Costa Lima à Câmara (...) do Porto e ao rei D. João V “sobre a serventia do muro que fica dentro do seu quintal” datada de 27 de setembro a 29 de outubro de 1710. Manuel Álvaro Bessa, um vizinho de Pedro da Costa Lima, pretendia construir umas casas e pretendia usar a muralha e uma das torres de que Pedro da Costa Lima detinha direito, possivelmente para a passagem de recursos materiais e de mão-de-obra. Pedro da Costa Lima, com o intuito de impedir que o seu quintal fosse devassado, pediu licença para tapar uma porta que detinha na muralha.
(…) Em 1725, Pedro da Costa Lima pretendia inovar as casas em que residia, na rua de S. João Novo. No contrato de obrigação da obra, redigido a 20 de março de 1725 – dois anos após a escritura para instituição de vínculo e de morgado – nas suas residências sitas na “rua de S. João Novo”, Pedro da Costa Lima encomenda a feitura da obra aos mestres pedreiros: António da Silva, mestre pedreiro de Perosinho em Gaia, Domingos Pinto e Pedro Pereira, ambos mestres pedreiros de Campanhã do Porto.
(…) Numa idade avançada, a 15 de outubro de 1723, Pedro da Costa Lima e sua mulher, D. Maria Teresa de Melo e Alvim mandaram lavrar uma escritura para instituição de vínculo e morgado de modo a que os seus bens inalienáveis e indivisíveis se conservassem na sua descendência. Devemos atentar no fato de esta escritura intitular-se “Instituição de vínculo, e morgado […]”. Juridicamente, vínculo será o “conjunto de bens constituídos em fundação para fazer face às despesas de uma capela e do respectivo culto.” Morgado corresponde ao “conjunto de bens inalienáveis e indivisíveis legados ao filho mais velho ou, na falta deste, a outras pessoas segundo uma ordem de sucessão estritamente estabelecida.” Contudo, facilmente se encontra a expressão morgadio associado a uma capela. Porém, este documento torna-se peculiar pelo fato de usar os dois termos vínculo e morgado, o que nos sugere que o casal instituidor pretendia distinguir os bens móveis e imóveis que transitariam como morgado pelos herdeiros da família e os bens que ficavam associados à administração de uma capela. Deste modo, aquela escritura, apesar de não descriminar os bens que estariam associados quer ao vínculo, quer ao morgado, impõe-nos uma questão relativa à provável existência de uma capela administrada por Pedro da Costa Lima e sua mulher D. Maria Teresa de Melo e Alvim.
(…) Segundo a escritura, a sucessão do vínculo e do morgado só ocorreria para o sexo feminino, quando não existissem descendentes do sexo masculino”.
Com a devida vénia a Catarina Sousa Couto Soares; In Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em História da Arte Portuguesa, 2016


Falecidos que foram os dois filhos de Pedro Costa Lima, Pedro da Costa Lima e Melo, e depois o irmão deste, Miguel da Costa Lima e Melo, Reverendo e Tesoureiro-Mor da Sé do Porto, que terá estabelecido a sua residência na Casa de S. João Novo, uma vez que, ao registo da sua morte a 23 de Março de 1758, é dado como morador na Rua de S. João Novo, os bens existentes por herança, passaram para a sua irmã mais nova e quinta filha do casal instituidor do vínculo e morgado, D. Ana Casimira de Lima e Melo (1702-1792).
Esta havia casado a 8 de Novembro de 1726 com Diogo Francisco Leite Pereira (1698-1768), tendo o casal estabelecido residência no Palácio de S. João Novo.
Como curiosidade o facto de, a partir de 1792, ano do falecimento de D. Ana Casimira de lima e Melo, a Rua de S. João Novo já ser designada por “Largo de S. João Novo”.


Palácio de Álvaro Leite - Desenho de Joaquim Cardoso Vitória Vilanova em 1833



À data do desenho acima, Álvaro Leite Pereira de Melo e Alvim, quarto filho de seus pais, segundo filho varão do casal, sucedeu no vínculo e morgado de S. João Novo. É assim que estes Leite Pereira (que não são os ligados à Casa de Ramalde) entram na história desta casa.
Álvaro Leite Pereira casou com Maria Cristina Faria de quem teve uma filha, que morreu nova e solteira.
Na qualidade de vereador da Câmara, foi quem procedeu à quebra do “Terceiro escudo” no Largo da Feira, em frente da Rua do Loureiro, por ocasião da cerimónia da “Quebra dos Escudos”, realizada após o falecimento do rei D. João VI, ocorrido em 10 de Março de 1826.
O Regimento do Senado, feito na época de D. Manuel I, regulamentou esta cerimónia, que consistia em quebrar os escudos do rei falecido para os substituir pelos do novo monarca. Acabou com a morte de D. Pedro V, em 1861.
O palacete de S. João Novo acabaria por ir ter às mãos de uma sua sobrinha, Maria Helena Leite do Outeiro Pereira de Melo e Alvim, casada com o industrial, Vasco Ferreira Pinto Basto.
Deste casamento houve Joaquim Augusto Leite Ferreira Pinto Basto, casado com Maria das Dores Ribeiro de Faria.
O palacete passou, então, para a posse do filho deste casal, o engenheiro Álvaro Ferreira Pinto, que tendo fixado residência em Lisboa o alugou à Junta de Província do Douro Litoral.




Escadaria do Palácio de S. João Novo – Fonte: “gisaweb.cm-porto.pt”


Vestíbulo do Palácio de S. João Novo – Fonte: “gisaweb.cm-porto.pt”



Durante o Cerco do Porto, Pinho Leal refere que a propriedade tinha sido abandonada pelos seus proprietários e serviu como hospital militar, mas que teria sido devolvida e novamente ocupada pelos proprietários, findo que tinha sido o conflito.
No palacete, em meados da década de 1830, já estava instalada a Typographia Commercial Portuense, que por aqui se manteria por tempo impossível de precisar.
Muito depois, já em pleno século XX, o proprietário da Casa de S. João Novo em 12 de Dezembro de 1942, Álvaro Leite Pereira de Melo Ferreira Pinto, celebrou um contrato de arrendamento com a Junta de Província do Douro-Litoral, para sede e funcionamento, na Casa de S. João Novo, do “Museu Etnográfico do Douro-Litoral” que abriu portas em 1945.
O proprietário começou por recusar uma proposta de compra por 500 contos, acabando por fazer um arrendamento por 2500 escudos por mês. Em 1951, aquela renda foi revista, passando a 4500 escudos.
No primeiro semestre de 1992, o museu encerra, quando era dirigido pelo arquitecto Fernando Lanhas e, no início do novo século, é comprado pelo Estado.
Em 2023, é assinado um protocolo entre a Direcção de Cultura Regional do Norte e a Câmara Municipal do Porto para passar o imóvel para a alçada desta edilidade que, aí, vai instalar o Museu do Livro.



“Sofreu ampliações no século XIX, um incêndio em 1984 e obras de conservação em 2000. Arrendado à Junta distrital do Porto em 1941, em 1945 é inaugurado o Museu de Etnografia e História com peças regionais, originalmente organizado por Pedro Vitorino, permanecendo aberto ao público até 1992. É Imóvel de Interesse Público.”
In balcaovirtual.cm-porto



Sala de Medicina e Farmácia Popular do Museu de Etnografia e História da Província do Douro-Litoral – Fonte: “O Tripeiro”, VI série, ano IX, n.º 12 (Dez. 1969)



O acervo do Museu de Etnografia e História foi depositado em diversos museus com vista à sua protecção.
Diz-se que outra parte daquele espólio teria sido guardada no também desactivado quartel de S. Brás, à Rua da Constituição, ignorando-se o que lhe teria acontecido depois.
Este quartel à data das lutas liberais e do Cerco do Porto era uma fortaleza.
Seria, depois, em complemento ao quartel do Carmo, quartel da Guarda Municipal (por aqui estaria na década de 1870) e sede dos telegrafistas, tornando-se, mais tarde, em Casa da Reclusão da 1ª Região Militar, no ano de 1963.
Em 1993, o quartel foi desactivado pelo Estado-Maior do Exército. A partir desse ano, nunca mais foi dada função alguma ao quartel, quase tão esquecido quanto abandonado. 



Quartel de S. Brás, na esquina da Rua de S. Brás e Rua João Pedro Ribeiro

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

(Continuação 17)

21.18 Palacete Monteiro Moreira (demolido)

Neste palacete localizado na antiga Praça das Hortas, durante quase 100 anos, funcionou a Câmara.
Esse edifício era uma casa nobre destinada a habitação, manda­da fazer por volta de 1721 por Monteiro Moreira e sua mulher, Josefa Joana Salazar, moradores, ao tempo, na velha Rua de S. Miguel. Pela morte deste casal, o edifício passou à pos­se de seu filho, o capitão Manuel Eleuté­rio Monteiro
Entretanto, já no fim de Maio de 1752, o palacete da Praça das Hortas já não era habitado pelos seus proprietários e tinha recebido o tribunal da Relação que, à data, peregrinava por vários locais da cidade.
Aquele tribunal depois de mais um périplo por outros locais, aqui tinha voltado e, aí estava em 1788, segundo o Padre Agostinho Rebelo da Costa.
A vontade da Câmara para se instalar no palacete era já antiga.
Primeiro, foi a Administração do Tabaco que, em 1794, dese­java comprar o palacete, para nele instalar, as fornalhas de uma fábri­ca de charutos. Protestou a Câmara e, em reunião de 30 de Dezembro, daquele mes­mo ano de 1794, apresentou os argumentos que julgou importantes para a aquisi­ção do imóvel. 
Além de considerarem como ideal a lo­calização da casa da Câmara na Praça Nova das Hortas,  os vereadores argu­mentavam que o edifício iria acolher, além dos serviços camarários, o Depósito Público, instituído havia pouco, e o Sena­do da Relação, que tinha sido obrigado a abandonar as instalações que tinha para os lados do Olival.
Mas, só em Outubro de 1815, a Câmara do Porto obte­ve autorização para dispor da verba neces­sária para a  aquisição do edifício, dada pelo príncipe regente, que era o futuro D. João VI. Seriam utilizados na transacção os di­nheiros do cofre da cidade onde se reco­lhiam "os sobejos das sisas". 
Por essa altura, o edifício pertencia a Inácio Leite Pereira de Almada Pinheiro Moreira, que residia em Guimarães.
Entretanto, a Companhia de Agricultu­ra das Vinhas do Alto Douro também apa­receu à última hora como interessada na compra do pa­lacete, que acabou mesmo por adquirir, efectivamente, em 13 de Março de 1816, mas devido ao protesto da Câmara, acabaria por cedê-lo pela verba de 26 contos de reis pelo qual o tinha comprado.
As obras de adaptação do edifício às novas funções duraram três anos. Os senhores vereadores instalaram-se nos novos paços do concelho em 21 de Agosto de 1819.


Palacete a funcionar como Câmara e encimando o frontão a estátua “Porto” – Gravura de J. Villanova de 1833


A Câmara – Ed. Alberto Ferreira - P. da Batalha – Porto


Palacete de Monteiro Moreira da 1ª metade do século XVIII


Em 1 de Fevereiro de 1916 começariam os trabalhos de demolição do edifício da Câmara Municipal, que seria acolhida no Paço Episcopal na Sé, para que fosse possível a abertura da actual Avenida dos Aliados.


O Palacete Monteiro Moreira está por terra em 1916

terça-feira, 3 de outubro de 2017

(Continuação 16) - Actualização em 22/10/2020

21.17 Palacete dos Souto e Freitas, Casa da Fábrica ou Palacete do visconde de Laborim - Rua da Fábrica


Tinha este palacete, há muito demolido, a designação de “Casa da Fábrica”, por estar situado na esquina da Rua da Fábrica e da Travessa da Rua da Fábrica, hoje, Rua de Avis.
Aquela rua deve, por sua vez, o seu nome, à mais antiga fábrica de tabaco que se conhece na cidade, a Real Fábrica do Tabaco e, sabe-se que, já tinha existência no século XVIII, pois, a ela, em 1789, se refere o padre Agostinho Rebelo da Costa.
Há, todavia, quem garanta, que já teria existência desde o início do século XVIII.
O Padre Agostinho Rebelo da Costa referiu sobre aquela unidade industrial, que ela originava um rendimento assinalável, em impostos, a Sua Majestade e que, tinha sofrido quer em quantidade quer em qualidade, um assinalável incremento, após a entrada para a sua administração do cidadão espanhol, Vicente Gregório Garcia.
A Rua da Fábrica (antiga Rua da Fábrica do Tabaco) fazia, em tempos, a ligação do Campo da Via Sacra ou Calvário Velho, depois, sucessivamente, Praça do Pão, Praça de Santa Teresa e Praça Guilherme Gomes Fernandes à Praça Nova, depois, Praça D. Pedro e Praça da Liberdade.
 
 

Representação do declive da Rua da Fábrica e dos alçados das fachadas dos prédios situados do lado Norte, em 1824, entre cota superior e a Travessa da Fábrica – Fonte: AHMP
 
 

Representação do declive da Rua da Fábrica e dos alçados das fachadas dos prédios situados do lado Norte, em 1824, entre a Travessa da Fábrica e a Rua Nova do Almada – Fonte: AHMP
 
 
Legenda:     
 
1. Casa do Vicente dos Canos, possivelmente, Vicente Gregório Garcia, administrador da Real Fábrica do Tabaco
2. Propriedade da Fábrica do Tabaco
3. Propriedade da Fábrica do Tabaco
4. Antiga propriedade da Fábrica do Tabaco e, desde 1823, propriedade de Manuel José Gomes do Vale que a remodelava para sua habitação
5. Embocadura da Travessa da Fábrica
6. Casa de João Luís da Silva Souto Freitas
7. Casa dos herdeiros Sampaio
8. Largura da Rua Nova do Almada


Em 1860, a imprensa da época dava conta de uma arrematação da propriedade que tinha sido afecta à Real Fábrica de Tabaco, donde se poderia inferir da sua localização e grandeza.
 
 


 

A área envolvida pelo quadrilátero, em destaque, seria o chão ocupado pela Real Fábrica de Tabaco




Fachada da Casa da Fábrica voltada para a Travessa da Fábrica, J. Villanova 1833



Na esquina das actuais Rua de Avis e Rua da Fábrica - Ed. Foto Beleza



O mesmo local, actualmente - Fonte: Google maps




Na foto acima, por comparação com a anterior, pode constatar-se que o prédio contíguo ao da esquina é o mesmo.
A Casa da Fábrica foi mandada construir, nas últimas décadas do século XVIII, por Luís António de Souto e Freitas, filho de humildes lavradores de Rebordões, onde nasceu em 1702, tendo ganho uma fortuna após ter emigrado para o Brasil. 
Tendo vivido no Terreiro da Alfândega, junto à capela de Nossa Senhora da Piedade, depois de chegado do outro lado do oceano, comprou em 1754 a um cónego da colegiada de Guimarães, José Bernardo Carvalho, umas casas que este possuía próximo da fábrica do tabaco, para no lugar delas construir um rico palacete.
Nesta morada, em 19 de Abril de 1770, morreria Luís Freitas, dono de uma fortuna considerável, tendo sido Cavaleiro da Ordem de Cristo, Capitão dos Privilegiados da Ribeira das Naus do Ouro, fidalgo de cota de Armas, etc.
O palacete da Rua da Fábrica, nos anos seguintes, foi sendo tomado por herança dentro da mesma família.
Durante os primeiros meses do Cerco do Porto (1832/1833), a Casa da Fábrica foi re­sidência de Mouzinho da Silveira, aliás Jo­sé Xavier Mouzinho da Silveira, o grande reformador do liberalismo. 
Sujeito o imóvel, a bombardeamentos importantes, sofreu danos de monta, durante o Cerco do Porto.
No tempo que antecedeu aquele cerco, durante o governo do rei usurpador, D. Miguel, havia na cidade um caceteiro de nome Pita Bezerra, que agredia com o grupo de energúmenos que o acompanhavam, todos aqueles que ele suspeitasse não serem da sua cor.
Após a vitória dos liberais, em 20 de Março de 1835, começou a ser julgado o tal Pita Bezerra, precisamente na Casa da Rua da Fábrica, que funcionaria como tribunal.
É facto histórico, que no fim de uma das audiências, quando a sinistra personagem era levada para a prisão pelos carcereiros, o povo tomou o Bezerra em suas mãos e matou-o à pancada, desmembrando o corpo que acabou por ser lançado ao Douro.
Da ocupação da Casa da Fábrica, por Mouzinho, nos dá conta o texto seguinte, publicado na revista "O Tripeiro Vª série, Ano VIII.




Em 1838, documentos e publicações da época, dão conta de que o palacete era a residência de José Joaquim Geraldo Sampaio (1781-1864). Esta personagem tinha sido membro da Junta do Porto, em 1828, extinta pelos miguelistas e viria a ter o seu nome ligado ao referido palacete, que após a vitória dos liberais funcionou, então, como tribunal.
José Joaquim Gerardo de Sampaio, que viria a atingir a presidência do Supremo Tribunal de Justiça, foi um dos condenados à morte, a 29 de Novembro de 1829, tendo, no entanto, escapado àquele destino.
Tinha nascido no Porto, a 24 de Setembro de 1781 e veio a falecer, já conde de Laborim, a 4 de Janeiro de 1864, em Lisboa.
Em 1835, a rainha D. Maria II atribui-lhe o título nobiliárquico de visconde de Laborim. 
Entretanto, Domingos Augusto da Silva Freitas de Menezes e Vasconcelos sucedeu, na Casa da Fábrica, ao seu pai João Luís da Silva Souto e Freitas, em 1846.
Domingos Augusto havia sido também herdeiro do seu tio paterno José Luís sendo, à data, um dos grandes proprietários da cidade e seria, também, um dos fundadores do Club Portuense, que teve, aliás, a sua primeira reunião, precisamente na sua residência, a Casa da Fábrica, onde os estatutos daquela agremiação veriam a luz do dia, antes de ocupar o palacete da Ferreirinha, na Praça da Trindade.
Uma das últimas proprietárias da Casa da Fábrica foi D. Mariana Augusta da Silva Freitas de Meneses Cirne e Sousa (1846-1903) que tinha casado com Pedro da Silva Fonseca de Cerveira Leite e Bourbon (1836-1886), senhor da Casa de Ramalde e da Casa das Taipas ou solar dos Leite Pereira.
Em 23 de Novembro de 1909, instala-se em parte das instalações da Casa da Fábrica, com o acesso pelo nº 10, da Travessa da Fábrica, um hotel com o mesmo nome de um outro, que tinha funcionado até 1880, na Rua do Triunfo, com o nome de Hotel do Louvre.
Alguns anos após o falecimento de D. Mariana, as filhas venderam a casa a Delfim Ferreira, o maior capitalista, à data, em Portugal, que a mandou demolir para no seu lugar construir um imponente imóvel do qual fazia parte o Hotel Infante de Sagres.


Casa da Fábrica, em 1932


As pedras da frontaria do palacete foram oferecidas à Câmara para serem erguidas noutro local, o que nunca chegou a ocorrer.
Um desses locais era em frente à cadeia da Relação na Cordoaria onde estivera durante anos um correr de prédios, entretanto demolidos.
Sem possibilidade de confirmação, diz-se hoje, que as pedras respectivas, estarão dispersas pelo parque do Monte Aventino.

 




segunda-feira, 2 de outubro de 2017

(Continuação 15)


Este palacete fica à entrada da Rua de Cima de Vila, à esquerda para quem entra pela Rua Chá. Conhecido também por “Palácio dos Condes de Matosinhos” e “Paço dos Sás”, o edifício foi construído em 1494 pelo alcaide-mor do Porto, João Rodrigues de Sá e Meneses, descendente do Sá das Galés” (do tempo de D. João I), pai de Francisco de Sá e Meneses, primeiro conde de Matosinhos.
(A alcaidaria-mor do Porto tinha sido dada, cerca de 100 anos antes, por D. João I, a João Rodrigues Sá, o famoso Sá das Galés, em 21 de Fevereiro de 1392).
Por sucessão, o palacete haveria de passar aos condes de Penaguião.
Em 1600, o primeiro conde de Penaguião to­mou posse como alcaide-mor da cidade do Porto, por nomeação do rei, mas sob protesto dos verea­dores que consideraram aquela nomeação ilegal e atentatória dos seculares privilégios da cidade.
A nomeação do alcaide da cidade era da exclusiva competência da Câmara do Porto.
O primitivo Paço, mandado fazer por João Rodrigues de Sá e Meneses, foi, no seu tempo, uma das mais sumptuosas re­sidências senhoriais do Porto. 
Arquitectonicamente parecia-se, muito, com o primitivo edifício da Alfândega, ou seja - a Casa do Infante. 
Na última década do século XVIII, vi­veu naquela casa, durante vários anos, D. Helena de Vasconcelos e Sousa, segunda filha dos segundos marqueses de Caste­lo Melhor e a penúltima marquesa de Abrantes. Daí o nome por que ainda hoje é conhecido o edifício – Paço da Marquesa.
Em 1810 (um ano depois da segunda invasão francesa), aquela segunda mar­quesa de Abrantes concedeu" por esmo­la" que nele se fundasse o Recolhimen­to das Meninas Desamparadas de Nossa Senhora das Dores e S. José, para interna­mento das muitas raparigas que, na se­quência da passagem dos franceses pelo Porto, tinham ficado sem pais e vaguea­vam, esfomeadas e com as roupas esfar­rapadas pelas ruas da cidade.
Em 1825, aquela instituição já ocupava instalações no Postigo do Sol. 
Entre 1853 e 1864, esteve no Paço da Marquesa, o Seminário dos Meninos De­samparados, que acabaria em instalações próprias em Pinheiro de Campanhã.  
Neste último ano, o último marquês de Abrantes, D. José Maria da Piedade Lencastre, colocou à venda o edifício. 



In jornal "O Commercio do Porto" de 23 de Maio de 1864



Acabou por concretizar o negócio "por oito contos de réis", com o seu procurador Jo­sé Ferreira de Azevedo e Castro, que, onze anos depois, em 1875, o vendeu "por quin­ze contos de réis" a um capitalista chama­do João Bernardino de Morais. 
A primeira transacção, atrás referida, teve como condição imposta pelo vendedor, que o comprador não exigisse ao reitor do Seminário dos Meninos Desamparados as rendas, em débito, correspondentes a 11 anos de ocupação das instalações.
Com os acontecimentos políticos da primeira metade do século XX e da instauração da República, e das sucessivas mudanças de proprietário, o palacete perdeu todo o seu valor, não só patrimonial como arquitectónico, sucumbindo às transformações que nele foram feitas à medida dos novos destinos que lhe eram dados e que foram os mais variados.
Um dos últimos valores artísticos que perdeu, foram os lambris de belos azulejos neoclássicos que cobriam o corredor que ligava a porta de entrada às escadas de acesso ao andar nobre da casa. 





Paço da Marquesa - Fonte: Google Maps




Paço da Marquesa em Cima de Vila, 21-25 – Fonte: “floret.pt”


Na foto acima observa-se uma tabuleta de publicidade a uma filial da “Companhia União de Crédito Popular”, cuja sede é na Praça Carlos Alberto e que, por aí, continua nos dias de hoje. São as conhecidas “Casas de Prego”.

domingo, 1 de outubro de 2017

(Continuação 14)


Este palacete situa-se na esquina da Rua da Alegria e da Rua Formosa estando, hoje, sob a alçada do Núcleo do Porto da Liga dos Combatentes.  
Guilherme Augusto Machado Pereira (Porto, 1822-1868) nele habitou, após ter concluído a sua construção. 
O jovem Guilherme Machado Pereira, com apenas 15 anos, parte para o Brasil onde, no Rio de Janeiro, com a ajuda de um tio que lá residia há alguns anos, realiza uma fortuna colossal. 
Em 1852, de volta à cidade que o viu nascer, antes ainda de se fixar primeiro, na Rua do Almada e, depois, na Praça da Aguardente, faz uma viagem pela Europa.
Logo de seguida, vai contrair matrimónio com uma herdeira da família Fartura, que não lhe ficava atrás em posses, resultando do enlace quatro filhos.
Seu sogro, António José Vieira Rodrigues Fartura, vai oferecer ao casal um palacete inacabado, com frente para a Rua Formosa e para a Rua do Caramujo (Rua da Alegria), começado a fazer treze anos antes, em 1840, sob a licença de construção nº 15/1840.
No final da intervenção de Guilherme Machado Pereira, vai resultar um dos palacetes mais imponentes do Porto dessa época.
Entretanto, enquanto a nova morada não estava acabada, a família de Guilherme teve residência, na Praça da Aguardente, num prédio que antecedeu, no local, um outro, que hoje está ocupado pelo Asilo do Terço, que foi, também, construído por Guilherme Machado Pereira.
Em 1858, o palacete passa a ser abastecido com duas penas de água  captadas junto da nova Fonte da Rua Firmeza e compradas à Abadessa de Santa Clara, ficando o adquirente responsabilizado por todas as despesas e trabalhos na condução da água desde esse local até à sua futura residência. O precioso líquido era proveniente do chamado manancial das freiras do convento de Santa Clara, que as religiosas tinham comprado, em 1855, ao bispo do Porto, que se abastecia num outro manancial. Ambos os mananciais localizavam-se no que é, hoje, a zona do Lima, ao cimo da Rua da Alegria.
Guilherme Augusto Machado Pereira seria feito visconde por D. Pedro V, em 1861, e na respectiva carta real de mercê, pela qual foi agraciado com aquele título, em vez de Machado Pereira escreveram Pereira Machado, e foi com esta designação que passou a usar o título. Por causa disso, o povo denominava-o de "visconde às avessas”.
Para além desse título, era Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, Comendador da Ordem de Cristo e da Rosa, do Brasil. Foi ainda Presidente da Associação Comercial do Porto e fez parte da empresa que ergueu o Palácio de Cristal.
O 2.º Visconde de Pereira Machado,  filho de Guilherme Augusto Machado Pereira, que tinha o mesmo nome do pai, era um amante de cavalos e equipagens e foi cavaleiro exímio e experimentado picador e um elegante da época. Foi também Cavaleiro da Casa Real, nascido em 1865, falecido em 1930, tinha casado em 1904, com D. Rosa Furtado de Antas.
Nos terrenos, para além dos jardins do palácio da Rua Formosa e que se desenvolviam até à actual Praça dos Poveiros (antes Largo de Santo André), diz-se que teria existido um picadeiro utilizado pelo 2º visconde de Pereira Machado.
Diga-se também, como curiosidade, que a Rua Formosa embora já totalmente aberta em 1813, com o objectivo inicial de estabelecer uma ligação da Cancela Velha a Santa Catarina, no local da Viela da Quinta, era mais estrada do que rua, pois havia muito poucas casas, tendo sido um dos projectos de João de Almada e Melo em 1784. 


“A edificação deste palacete, em meados do século XIX, deve-se ao Visconde Pereira Machado, que aqui habitou, celebrizando o imóvel pelas festas e bailes que organizava e que tanta fama granjearam na sociedade portuense de então. Nascido na cidade invicta, viveu no Brasil até aos 30 anos, época em que regressou à terra natal, onde desenvolveu, graças à sua imensa fortuna, uma acção benemérita a favor de várias instituições, o que lhe mereceu, em 1861, o título de Visconde.
O seu palacete testemunha uma época de desenvolvimento do Porto, marcada pelo gosto neoclássico e algum eclectismo. A fachada principal, dividida em três panos, é aberta por um conjunto de vãos simétricos, cujos ritmos convergem na secção central, destacando o frontão com o brasão dos Pereira Machado. Se no piso térreo, onde anteriormente funcionaram os serviços de apoio ao palacete, os vãos são de linhas rectas, salientando-se a porta central pela sua maior altura, no andar nobre observam-se uma série de janelas de sacada, com varandas que respeitam a divisão tripartida do alçado. A central é abaulada, variando também os remates das janelas, com frontões triangulares e circular, ao centro. A balaustrada esconde o terceiro piso, onde antigamente se situavam os quartos da família.
Apesar dos recortes, a cantaria preenche quase a totalidade do alçado, que não prescinde do habitual frontão triangular, e cuja janela central exibe motivos de grinaldas claramente filiados num gosto neoclássico.
No interior, ganha especial importância a escadaria de granito que liga os primeiros dois pisos, rematada por uma clarabóia com decoração em estuque, de imponente efeito decorativo. De entre os muitos compartimentos, boa parte dos quais com trabalhos de estuque, destaca-se o denominado Salão Nobre (hoje parte do Museu), com pinturas a óleo da autoria do italiano Polo Pizzi. O esplendor destes interiores era, a avaliar pelos elementos desaparecidos de que há notícia, bastante mais aparatoso. Em muitas salas existiam fogões de sala, em mármore de Carrara, e no Salão Nobre, as falsas colunas eram coroadas por figuras douradas..”
Com a devida vénia a Rosário Carvalho-IPPAR



“O visconde Pereira Machado foi um notável benemérito e promotor da arte musical no Porto quer pelas realizações que promovia em sua casa, sobretudo depois de se instalar no magnífico palacete da Rua Formosa, quer como administrador do Real Teatro de S. João e membro da Sociedade Filarmónica, condição que fez dele sócio fundador e vice-presidente do Club Portuense”.
Com a devida vénia a João-Heitor Rigaud 


Em 1868, com 46 anos, morre o 1º visconde de Pereira Machado, sendo sepultado num magnifico mausoléu em mármore, do cemitério da Lapa, executado em 1861 pelo canteiro lisboeta, a trabalhar há alguns anos no Porto, de seu nome António Almeida Costa, que viria a fundar a Fábrica Cerâmica das Devesas.




Notícia do falecimento do visconde Pereira Machado no Jornal do Porto em 15 de Abril de 1868



Falecido, mais tarde, o 2º Visconde de Pereira Machado, sem descendência, após a utilização como residência pelos herdeiros da família e ocorrida a implantação da República, em 1910, a propriedade acaba nas mãos de uns sobrinhos do 2º visconde, que decidem arrendar o imóvel ao Estado e vender todo o recheio. Deste, destacavam-se três imponentes lustres, que decoravam o magnífico salão de baile, que acabarão adquiridos pela Câmara do Porto e que, por lá, ainda se encontram ao serviço.
Assim, a partir da década de 1930, fazem morada no antigo palacete, o Tribunal da Relação, o Arquivo de Identificação do Porto (Bilhete de Identidade, que transitaria, na primeira metade da década de 60 do século passado, para o Palacete Sandeman, na Rua de Cedofeita, conhecido também por ter albergado uma esquadra de polícia) e, a partir do dia 17 de Novembro de 1964, o Tribunal de Polícia.
Sobre o Bilhete de Identidade, a partir de 2008 gradualmente substituído pelo cartão de cidadão, fala-nos o texto seguinte:



“Mas foi em 1914, que o bilhete de identidade ganhou forma. Esta medida foi desenvolvida porque se percebeu que era preciso ter um registo dos cidadãos, dado o crescimento em grandes dimensões da população urbana, e eram necessárias igualmente informações sobre óbitos.
Nas primeiras décadas da sua existência, o bilhete de identidade era composto por 3 páginas. Os dados eram preenchidos à mão. Para além dos dados "normais" como a estatura, impressão digital ou fotografia, existiam outras referências, como, por exemplo, a cor do cabelo e da barba”.
Fonte: “pt.blastingnews.com”




Mais abaixo, dá-se conta da ceia seguida do respectivo baile, que ocorreu no palacete, durante as comemorações do 4º aniversário da menina Guilhermina Cândida Vieira Machado Pereira, nascida em 1855, filha de Guilherme Augusto Machado Pereira e de Cândida Guilhermina dos Santos Vieira Fartura e que, haveria, anos depois, de casar com o conhecido Delfim Lima, provedor da Ordem do Terço, comerciante e fundador do Asilo do Terço.




“Um bom e magnífico baile não é realmente uma coisa muito frequente na sociedade portuense, porque se as fortunas avultadas são no Porto em grande número, o gosto e a elegância, e a bizarria de gastar larga e profusamente, nem sempre as acompanham. O sr. Guilherme Augusto Machado Pereira é um cavalheiro retirado da vida militante comercial, onde realizara a grande fortuna que possui, mas que por isso mesmo adora os cómodos da civilização e aprecia as maravilhas do luxo. O seu palacete da rua Formosa prova eloquentemente em favor dos seus instintos de fidalgo. Dizer que é uma das residências mais luxuosamente decoradas do Porto, é manifestar uma verdade, que os oito centos de convidados que povoavam as sua salas no seu baile de ontem à noite reconheceram e proclamaram (…)
(…) Ignoramos quem foi o Vattel que preparou a ceia = o que sabemos é que a de ontem à noite regalou o paladar dos convidados. É sempre agradável este episódio. A neve refresca os que se abrazam de calor: o Porto e Madeira restauram as forças dos ‘polkistas’ e dos ‘lanceiros’. O ‘champagne’ anima o espírito daqueles que o tem de o fazer à força; o fiambre, os pastelões, os perus, e as galinhas indemnisam o estômago daqueles cuja bolsa sofreu num desastrado voltarete ou boston. Diga-se a verdade, que neste caso não é um crime; é num baile que a ‘liberdade, igualdade, e fraternidade’ se realiza, sobre tudo quando todos os partidos dançam, deixando em casa a história das suas passadas discórdias. 
O baile acabou era alto dia; os convidados deixavam com saudades aquelas salas de baile, onde a par da riqueza e do luxo, tinham encontrado as maneiras mais sedutoras dos donos da casa, que assim festejaram os anos da sua querida filha (...)." 
Fonte: “facebook.com/Comer-por-escrito”; In Folhetim de “O Nacional”, de 9 de Julho de 1859



Sobre uma outra festa, desta vez, para comemorar o 6º aniversário da mesma filha, Guilhermina, realizada em 8 de Junho de 1861, o jornal “O Commercio do Porto”, de 10 de Junho, noticiava.

 

 






Desde 1974, que o antigo palacete está na posse do Núcleo do Porto da Liga dos Combatentes que resolveu transformar algumas das salas em espaços museológicos, que podem ser visitados.




Palacete do Visconde Pereira Machado – Ed. “pt.m.wikipedia.org”




Interior do Palacete Pereira Machado – Ed. “vamoreira.blogspot.pt/”