quinta-feira, 30 de março de 2017

(Continuação 5) - Actualização em 11/06/2019

O Teatro Águia d'Ouro e o Cinema Águia d’Ouro


Em Janeiro de 1839, o Águia d'Ouro, ao Largo de Santo Ildefonso (a partir de 1860, passaria a fazer parte da Praça da Batalha), abriu as suas portas como café, tendo sido frequentado por clientes famosos como Camilo Castelo Branco e Antero de Quental, entre muitas outras personalidades da época.
No rés-do-chão do prédio, o café tinha o complemento de um restaurante, célebre pelas ostras que servia aos clientes e, por cima, funcionava uma hospedaria - a Hospedaria Águia d'Ouro.
Camilo, um grande apreciador de ostras, chegou a dar conta de que o depósito das Ostras do Montijo, em 1874, no Porto, se situava na Praça D. Pedro (Praça da Liberdade).
Ainda, no século XIX, passou a existir, no edifício da Praça da Batalha, um teatro inaugurado em 17 de Junho de 1899, que partilhava com o café o espaço, embora as entradas fossem separadas.
Naquele dia de festa, foi incumbida da inauguração a companhia de variedades de Louis Banquard, então director artístico do «theatro Alhambra» de Madrid (O Comércio do Porto, 15.06.1899, p. 2).
Três anos depois, em 1902, no espaço dedicado a sala de espectáculos, passou a funcionar um circo de cavalinhos, onde várias companhias equestres se exibiram.



Gravura do interior do teatro, em 1902



Teatro Águia d'Ouro, em 1903



A partir de Março de 1904, instalar-se-ia no edifício o “Club Fenianos Portuenses”.
Em Agosto de 1907, foram levadas a cabo as primeiras sessões de cinematógrafo e, em 1908, o teatro acabaria por dar lugar ao cinema. 
A novidade era o “cronomegaphone”, antecedente do cinema sonoro que só surgiria 20 anos mais tarde.
Em 1/1/1914 eram arrendatários do espaço, Arnaldo Rocha Brito, Pimenta da Fonseca e António Castro.
Em 7 de Fevereiro de 1919, o cinema reabriria, após sofrer obras de remodelação, exibindo 15 filmes.








À direita, o Café Águia d’Ouro e o Teatro Águia d’Ouro, em 1900



Teatro Águia d’Ouro e Café Águia d’Ouro, em 1905




Em Julho de 1922, o Teatro Águia d’Ouro sofre obras no seu interior, o mesmo acontecendo em 1928, ano em que é encomendado um novo projecto da nova fachada.



Desenho da nova fachada do Teatro Águia d’Ouro e Café Águia d’Ouro integrante de projecto de licenciamento




O Teatro Águia d’Ouro era considerado, nos anos 30, uma das melhores salas do Porto.
Em 15 de Setembro de 1930, inaugurou o cinema sonoro com o filme "The Jazz Singer", com Al Jolson, enquanto, o Café Águia d’Ouro, nesse ano, era alvo de obras, concluidas no ano seguinte.
A nova fachada do edifício e restantes obras, da responsabilidade do arquitecto Joaquim Augusto Martins Gaspar, foram inauguradas em Fevereiro de 1931.



Teatro Águia d’Ouro e Café Águia d’Ouro, em 1931



Sobre a foto anterior, é de notar que os azulejos da igreja só seriam colocados em 1932.





Grande plano da foto anterior



Assim, em 7 de Fevereiro de 1931, após obras de remodelação, determinadas pelos seus proprietários, à data a “Sociedade Nacional de Projecção, Lda”, da família Neves & Pascaud, viu o interior modernizado e ganhou uma nova fachada ao estilo “Art Déco” e, ainda, a célebre escultura da águia no seu pórtico.
Em 1932, o Teatro Águia d’Ouro volta a ser objecto de obras, realçando-se a colocação de um guarda-vento no vestíbulo, mas o fim desse ano seria tumultuoso.
À época, a sala de espectáculos estava arrendada ao tenente-coronel Ressano Garcia e o Banco da Estremadura e seria alvo de um arresto dos seus móveis e outros utensílios, promovido e concluído, em 5 de Dezembro de 1932, pela gerência do Jardim Passos Manuel, sob a orientação do capitalista António Maria Lopes.




Entrada do Teatro, em 1934


Cinema Águia d'Ouro, em 1942




Em 14 de Março de 1945, o cinema Águia d'Ouro foi ampliado e os proprietários dos prédios vizinhos foram indemnizados com 1.516 contos.
Nos anos 80, o café viria a falir e a ausência de espectadores ditou o encerramento do cinema em Dezembro de 1989. 
Durante duas décadas o edifício foi votado ao abandono, atingindo um estado de ruína bastante acentuado. Durante este período foi comprado pela empresa Solverde com o objetivo de ali abrir um bingo, mas o  projeto foi reprovado pela Câmara. Finalmente, em Agosto de 2006 a Solverde põe o imóvel à venda e o mesmo viria a ser adquirido por uma cadeia de hotéis que após obras de restauro da fachada e renovação do interior fez renascer das cinzas o edifício. Em outubro de 2011, o novo Hotel abriu portas. Na decoração do interior podem ser vistas algumas peças recuperadas dos escombros, tais como, suportes de partituras, microfones, bobines de filmes e posters entre outros.




Fachada do cinema Águia d’Ouro nos anos sessenta




Hotel Moov, actualmente



Pela foto acima adivinha-se, que nos últimos anos, a porta da esquerda era a entrada para a sala de espectáculos e, a da direita, para o café.





Inaugurado a 18 de Maio de 1912, o “Olympia Kinema Teatro”, na Rua de Passos Manuel, foi mandado construir por um retornado do Brasil, Henrique Ferreira Alegria, sob projeto do arquiteto João Queirós.
O “Olympia” fica marcado pela sua programação cultural, como por exemplo a estreia do filme “Amor de Perdição” de Georges Pallu, em 1921.
Henrique Alegria foi o responsável pela construção da sala e, foi ele quem, durante os primeiros anos de vida geriu o espaço, em parceria com a Invicta Filmes.
Durante os anos 10, 20 e 30 foram comuns na sua programação as estreias de cinema alemão. É bom relembrar que até aos anos 30 a Alemanha era uma das principais potências cinematográficas.
A sala tinha lotação para 600 pessoas, e foi classificada como tendo instalações modernas e luxuosas. Para além das sessões de cinema, o Olympia também recebeu eventos musicais e peças de teatro. Depois de ter sido comprado pela empresa Neves & Pascaud continuou a prosperar. Durante os anos 60 teve uma programação muito virada para os westerns, na década de 70 para o cinema de acção e de artes marciais, seguindo a tendência da época.
Durante os anos 80, nos últimos anos de vida como cinema, chegou mesmo a passar filmes porno. Mas o cinema já se encontrava em fase de decadência e acabaria por fechar portas reabrindo como bingo.
A crise dos últimos anos levou ao seu encerramento em 2010. Depois disso, vários projectos ligados aos sectores da diversão ou da restauração têm sido tentados.




Olympia Kinema Teatro em finais dos anos 30, antes da construção do Coliseu




Fachada do Olympia



Anúncio da reabertura do Salão Olympia, em 1921





Cine-Teatro Avenida de V. N. de Gaia




Cine Teatro Avenida


Notícia sobre a inauguração do Cine Teatro Avenida - Fonte: jornal "O Comércio do Porto" de 25 de Dezembro de 1946



Esta sala de espectáculos foi inaugurada em 28 de Dezembro de 1946, sendo seu fundador Alberto Ferraz Carneiro, sócio gerente da Sociedade do Cine-Parque da Avenida, Ldª e que, em 1945, solicitou às entidades competentes a construção de um cine-teatro num terreno pertença da referida sociedade.
Tinha o cine-teatro uma área coberta de 1380 metros quadrados e uma luxuosa sala de espectáculos, com aquecimento e dotada de um equipamento de projecção, à data, de última geração.
A sua lotação era de 1090 lugares, podendo estendê-la até aos 1200. Possuía um salão de festas, três bares, servindo a plateia, balcão e geral.
Na sua construção foram gastos 6800 contos.
A “Fábrica de Fiacção e Tecidos de Ermesinde, SARL”, foi a empresa proprietária e exploradora do Cine-Teatro de V. N. de Gaia.
No início dos anos 80 do século passado foi demolido.




Aqui, no gaveto formado pela Avenida da República e a Rua Parque da República, ficava o Cine Teatro Avenida de V. N. de Gaia – Fonte Google maps


Cine Teatro da Avenida de Vila Nova de Gaia


Houve, desde Abril de 1924, uma outra sala de espectáculo em V. N. de Gaia, um “Cine-Parque da Avenida”, sito na Avenida da República.
Álvaro A. Carvalho foi proprietário dessa sala de espectáculos, edificada no gaveto da Avenida da República e da Rua do Parque da Avenida.
Aliás, Álvaro A. Carvalho era proprietário de uma quinta que confrontava as ruas Joaquim Nicolau de Almeida e Parque da República e, ainda, a Avenida da República.
Durante a presidência de Ângelo Mendonça da Cunha Morais (1897 - 1968), entre 22 de Maio de 1923 e 26 de Maio de 1925, a Câmara de V. N. de Gaia tentou adquirir o edifício do Cine-Parque da Avenida para aí instalar a “Escola Mourão”, dando cumprimento ao legado do empresário Pinto Mourão, o que não chegou a verificar-se.
Álvaro A. Carvalho acaba então por vender o terreno em que se encontrava o “Cine-Parque da Avenida” (seria demolido) a Ferraz Carneiro, para a construção do "Cine Teatro da Avenida", e lotear a restante área da quinta. 

quarta-feira, 29 de março de 2017

(Continuação 4)

Jardim Passos Manuel



Na Rua Passos Manuel, em 18 de Março de 1908, seria inaugurado o Jardim Passos Manuel, construído por iniciativa de um empresário do mundo do espectáculo, Luiz Alberto Faria Guimarães, em terrenos que, umas décadas antes, tinham estado ocupados com uma espécie de Tivoli, com entrada pela Rua Formosa, onde era habitual assistir-se a ascensões aerostáticas.
Na realidade, o Jardim Passos Manuel foi inaugurado em 17 de Março de 1908, para a imprensa, com imenso sucesso.
Porém, aquando da abertura para o público em geral, no dia seguinte, aconteceu uma falha de energia eléctrica, que implicou a não exibição dos quadros cinematográficos em cartaz.
Três dias depois, no dia 21 de Março, já tudo estava reparado e a funcionar normalmente.
O Jardim Passos Manuel, para lá dos seus jardins com esplanada e o cinematógrafo, conhecido como Salão Jardim Passos Manuel, chegou a ter uma sala de bingo, um cinema ao ar livre, uma central elétrica, que fornecia, também, energia às ruas limítrofes, um restaurante, um salão de festas, que chegou a permitir a patinagem, um quiosque de venda de jornais e revistas, um salão exclusivo para reuniões de negócios, um café-concerto que tinha em permanência uma orquestra, um clube nocturno e um recreio para crianças. No jardim, um coreto servia de palco.
Este espaço foi demolido em 1938, nascendo no seu lugar o Coliseu do Porto e o Cinema Passos Manuel.





Entrada do Salão Jardim Passos Manuel



À direita, a frente do Coliseu do Porto que, anteriormente, nesse local, exibia a frente do Jardim Passos Manuel – Ed. MAC




Pela foto anterior, poder-se-á concluir que a frente do Jardim Passos Manuel que confinava com a Rua de Passos Manuel, corresponderá, nos nossos dias, à frente do Coliseu do Porto e, ainda, a um prédio construído a montante.
O Jardim Passos Manuel era um lugar elegante, sofisticado, moderno, baseado nos jardins parisienses da época, e proporcionava todo o tipo de entretenimentos: café-concerto, music-hall, esplanada e cinematógrafo.
Tudo começou quando o empresário do mundo do espectáculo, que já exercia funções no Teatro Príncipe Real, arrendou o parque e jardins da casa do banqueiro Joaquim Pinto da Fonseca, morador na Rua Formosa, para instalar um pavilhão na Rua de Passos Manuel, denominado Paraíso no Porto, onde Luiz Alberto de Faria Guimarães, pretende dar espetáculos públicos de cinematógrafo e outros.
Na realidade, a denominação do espaço como Paraíso no Porto não vincou e foi sempre o Jardim Passos Manuel.
No final de 1910, constituiu-se uma entidade para capitalizar a actividade do Jardim Passos Manuel.
 
 
 
“Ao fim de algum tempo os responsáveis sentiram necessidade de criar uma sociedade por quotas formando assim, a 21 de dezembro de 1910, a Empresa Artística Limitada que tinha como sócios Luiz Alberto Faria de Guimarães, dono do negócio e gerente técnico e artístico, Arnaldo Arthur Ferreira Braga, sócio-gerente do Jardim Passos Manuel, António da Silva Cunha, proprietário da icónica Camisaria Confiança e membro da Sociedade Comercial de Exportação Limitada, bem como Francisco Pereira Balga, capitalista, e Francisco Leite Arriscado, general reformado”.
Cortesia de Liliana Isabel Sampaio fortuna Duarte (Tese de Mestrado da UP)
 
 
 
Em 21 de Abril de 1911, falece o Luís Faria Guimarães que, no Porto, durante a sua vida empresarial tinha apresentado mercê da sua fortuna e iniciativa inúmeros celebridades mundiais da época, como Kubelik, Paderewsky, Vitalianni, Coqquelin, etc e as mais famosas orquestras da europa.
O lugar de Luis Faria Guimarães passa, então, a ser desempenhado por Arnaldo Ferreira Braga.
Após a morte de Luís Faria Guimarães, em 1911, o Salão Jardim Passos Manuel, propriedade da “Empresa Artística Limitada”, da qual Luís Faria Guimarães era director e empresário teatral, é renovado e ampliado, passando também a incluir jardim-esplanada, salão de festas, pavilhão restaurante, hall e um pequeno teatro.
Antes, a 5 de Maio de 1911, a “Empresa Artística S.A.” adquiriu estes terrenos a Joaquim Pinto da Fonseca e à sua mulher Alzira Ramalho Pinto da Fonseca.
Os terrenos entretanto adquiridos para a ampliação eram áreas que faziam parte integrante do prazo denominado “Casal e Quinta do Adro”, do qual a Mitra era senhoria directa.
 
 
 
“A 30 de agosto de 1911 é formada uma sociedade por quotas entre a Empresa Artística Limitada, gerida por Arnaldo Braga, a Sociedade Animatographica Limitada, gerida por Raúl Lopes Freire, e Sabino Correia Júnior, empresário responsável pelo Chiado Terrasse em Lisboa.
Esta empresa ficou conhecida como União Cinematographica Limitada e teria a sua sede em Lisboa na rua dos Restauradores”.
Cortesia de Liliana Isabel Sampaio fortuna Duarte (Tese de Mestrado da UP)
 
 
 
A partir de 1912, o Jardim Passos Manuel já está a ser gerido pela “União Cinematographica Limitada”, de Raúl Lopes Freire, que geria, também, outros espaços em Lisboa.



 
 

Em 1912, começa a gestão da “União Cinematographica Limitada”


 
 

Publicidade, em 1912, ao Jardim Passos Manuel
 
 
 
 
No ano de 1912, o produtor portuense Alfredo Nunes de Matos, que tinha a sede de uma modesta empresa, fundada em 1910, no nº 135 da Rua de Santo Ildefonso, no Porto, muda-se para uma dependência do Jardim Passos Manuel, dando à firma o nome de "Nunes de Matos & Cia – (Invicta Film)".
Não passou muito tempo para que no cinema do Jardim Passos Manuel começasse a passar os seus filmes.
 
 

Nunes de Mattos & Cia, em 1912, antes da mudança para o Salão Jardim Passos Manuel






Publicidade ao Salão Jardim Passos Manuel, em 1913




Hall do Salão Jardim Passos Manuel






Edifício do restaurante e palco coreto



Jardim Passos Manuel



Esplanada e palco coreto do Salão Jardim Passos Manuel






Salão de Festas do Jardim Passos Manuel - Fonte: AHMP




Com a descoberta de mais de 2.000 partituras com o carimbo do Arquivo Musical do Jardim Passos Manuel, veio comprovar-se que neste salão actuavam, permanentemente, uma orquestra e dois sextetos, o que revela a importância e a popularidade deste espaço.
Uma exposição de Amadeo de Souza-Cardoso, em 1916, foi apresentada nas magníficas instalações do Jardim Passos Manuel.
Mas não foi bem recebida por uma parte significativa da intelectualidade portuense daquele tempo – apesar de ter sido moderadamente elogiada pela imprensa da época. Dois casos, pouco conhecidos do grande público, que Álvaro Pinto relata no número 108 (1947) da revista “Ocidente” que ele dirigia, dão-nos uma ideia do que foi a reação desse sector da intelectualidade portuense daquele tempo. O primeiro foi protagonizado por Eduardo Artayete, misto de poeta romântico e boémio noctívago.
No dia da inauguração da mostra no Jardim Passos Manuel, quando a cerimónia ia no seu auge, ouviu-se, vindos de um canto da sala, gritos de “acudam-me, acudam-me, que horríveis tonturas …” Era Artayete que, agachado e com as mãos a agarrar a cabeça, protestava, à sua maneira, contra o tipo de pintura ali exposta.
O segundo caso aconteceu dias depois da exposição. Amadeo de Souza-Cardoso apareceu no serviço de urgência do Hospital de Santo António onde foi atendido pelo médico Júlio Abeillard Teixeira.
Tinha sido agredido ao sair da exposição, como contou no hospital: 


“Descia a rua de Passos Manuel e já tinha passado o cruzamento com a rua de Santa Catarina quando notei que alguém me seguia monologando. Apressei o passo. Perto da travessa (actual rua do Ateneu Comercial do Porto) a pessoa que me seguia interpelou-me: olhe lá, o senhor é que pintou aquilo que está lá em cima? Sim, fui eu … não pude dizer mais nada. O homem agrediu-me com rancor e eu nem tive tempo de me defender. Quando apanhei o chapéu já o sujeito se tinha raspado…”


O jornal "A Montanha", que costumava publicitar, diariamente, o programa do Jardim Passos Manuel, também não apreciou o estilo apresentado pelo pintor, dizendo:

"Aquilo não é abstracionismo, é obstrucionismo"


Envolvendo a citada exposição, alguns cuidados foram tomados no âmbito da logística. Assim, os quadros do artista após serem recebidos em caixotes na estação ferroviária de S. Bento, foram transportados, em carros de bois, para a Travessa Passos Manuel, onde se situavam os armazéns da «Fábrica Confiança», empresa com entrada pela Rua de Santa Catarina, ficando lá depositados, porque esta ficava a escassos metros do local onde iria decorrer a exposição.
Como curiosidade, diga-se que Amadeo tinha trabalhado algum tempo na fábrica Confiança como caixeiro.
Abaixo, pode ler-se o anúncio da Exposição de Pintura (abstracionismo) de Amadeo de Souza-Cardoso, realizada de 1 a 12 de Novembro de 1916, no Salão de Festas Jardim Passos Manuel, no Porto.


 

Programação do Jardim Passos Manuel no jornal “A Montanha”, 1 de Novembro de 1916
 
 
 
No dealbar da década de 1920, acompanhando a evolução dos hábitos e dos tempos, o Salão Jardim Passos Manuel renova-se.
 
 

Nova Fachada do Jardim Passos Manuel – Fonte: AHMP



Numa óptica de renovação, o Jardim Passos Manuel passaria a abrir as portas ao fim da tarde, como café-concerto. Às nove e meia começavam as sessões de cinema. No jardim, durante o Verão, havia exibições ao ar livre. Mas a grande boémia começava depois da meia-noite. O music-hall recebia uma clientela masculina de todas as idades e extractos sociais atraída, pela sedução das danças das coristas e, pelo salero e sapateado das dançarinas espanholas.
Era, assim, um espaço polivalente, que acolhia sucessos do cinematógrafo, saraus, reuniões culturais e conferências. As festas carnavalescas foram as mais atractivas e as que mais abrilhantaram o recinto, ficando na memória de todos aqueles que estiveram presentes.
Este Salão chegou mesmo a ganhar fama de casamenteiro, pois os rapazes e as raparigas de então não tinham muitas outras oportunidades de se conhecerem. Dizem que muitos dos namoros aqui iniciados acabaram em casamentos.
Mais do que um mero espaço de diversão, o Salão Jardim marcou uma época, sendo um pólo de animação cultural e recreativa, dinamizando a cidade com espectáculos e atracções de todo o tipo, trazendo ao Porto grandes nomes da música e do espectáculo.
Entretanto, no dia 3 de Julho de 1932, era tentada uma experiência e o Jardim Passos Manuel passou a ser explorado pela Associação dos Bombeiros Voluntários da Invicta, com cinema ao ar livre e espectáculos de variedades todas as noites. As entradas custavam 2$50 para o jardim e 4$00 para o recinto reservado.
No final dos anos 30, a actividade do Jardim Passos Manuel começou a decair, o que em parte se deveu à aparição de novas formas de entretenimento: rádio, indústria fonográfica e os salões de baile. 
No entanto, o Salão Jardim Passos Manuel permaneceu para sempre vivo na memória de muitos. Foi neste local mítico que o Porto viu nascer o Coliseu.



Sala de concertos e teatro do Salão Jardim Passos Manuel



Palco no Exterior




Sala de Concertos do Jardim Passos Manuel


Mais para as bandas da Rua Formosa, existia uma central eléctrica, um restaurante e as instalações do Clube Português, depois denominado, Gong-Clube.



Central Eléctrica

 
 
No dia 9 de Janeiro de 1935, no Salão de Concertos do Jardim Passos Manuel, denominado Salão Orpheu, actuava o pianista e compositor Luís Costa (Barcelos-Monte de Fralães, 1879 - Porto, 1960), com o seu primeiro “Concerto Romântico”.
As obras de Luís Ferreira da Costa foram largamente aplaudidas na Alemanha, França, Bélgica e Estados Unidos e numa actuação em Londres, em 1922, recebeu da crítica os mais rasgados elogios.








O Salão Chiado do Porto foi uma pequena sala de cinema inaugurada em Agosto de 1907, tendo encerrado por volta de 1934. Localizava-se na Rua das Carmelitas e foi pioneiro na utilização de “cupões de desconto”. Os “cupões” eram publicados diariamente no "Jornal de Notícias" e davam um desconto de 20% na aquisição de um bilhete.
 
 
 
 

Vista aérea de demolições, em 1953, para reconversão do Mercado do Anjo. Por aqui, esteve, entre 1907 e 1934 o Salão Chiado – Fonte: AHMP
 
 
 
 
A entrada no Mercado do Anjo, a partir da cota mais baixa da esquina da Rua das Carmelitas com São Filipe de Néri, realizava-se através de uma escada existente nessa esquina.
A escada era ladeada por dois edifícios projetados pelo arquitecto Marques da Silva na sua proposta para o "Novo Mercado do Anjo", de 1905.
 
 

Neste local, Junto à Igreja dos Clérigos, funcionou o Salão Chiado – Fonte: Google maps





Este cinema esteve na esquina das Ruas Alexandre Herculano e Duque de Loulé, no local onde existe um belo edifício que foi ocupado pela EDP e antes tinha sido pela "Eléctrica del Lima".

 “O Metropolitano era engraçado porque representava uma estação de caminho do ferro, com o seu cais e uma carruagem a entrar em túnel. A Carruagem era o salão em que passavam os filmes, que representavam uma viagem qualquer, em caminho de ferro. A tela estava ao fundo da carruagem e todos os lugares estavam virados para a tela. Quando começava o espectáculo, fechava-se a carruagem e dava-se o sinal de partida, ouvia-se um apito e a carruagem começava a estremecer como se fosse andar, dando-se ao espectador a ilusão de que andava”. 
Um leitor de O Tripeiro


Edifício da "Eléctrica del Lima"






Inaugurado em Agosto de 1907 na confluência da Rua da Conceição e Rua José Falcão, antiga Rua D. Carlos, o Salão Pathé gozou de grande popularidade nos primeiros anos da sua existência. Segundo notícias publicadas na época, as sessões com lotação esgotada eram comuns. Tal sucesso era devido, em grande parte, ao facto de ser frequentado maioritariamente pela burguesia, atraída pelas excelentes instalações do salão, que eram consideradas na altura as mais completas, confortáveis e elegantes da cidade do Porto. Inicialmente eram projetadas duas a três sessões diárias. 
Em 2 de Julho de 1909, o Pathé exibiu "O Homem dos Bonecos", primeiro filme colorido, passado no Porto.
Com o surgimento do cinema sonoro, o Pathé foi entrando em declínio e acabaria por encerrar por volta de 1932.




Aqui esteve o Salão Pathé - Fonte: Google Maps



Cartaz de filme a passar no Phaté








O Cinema da Carvalhosa situava-se ao lado do edifício da Faculdade de Farmácia na Rua Aníbal Cunha e em 1905 já exibia películas. Chegou a ser conhecido como Salão da Carvalhosa e encerrou a sua actividade cerca de 1926, sendo, durante os anos 30, convertido em garagem. Algumas décadas depois, o edifício foi demolido sendo substituído por outro mais moderno e curiosamente voltou a funcionar como garagem.


Edifício original do Cinema da Carvalhosa, já como estação de serviço


Publicidade do Salão da Carvalhosa no “Voz Publica” em 29/09/1909




O Edifício actual é uma garagem





Em 8 de Julho 1907 ao Largo Marquês de Pombal/Rua da Constituição, julga-se que mais propriamente na Rua do Lindo Vale é inaugurado o Salão Marquez de Pombal, sendo empresário Armindo José Fernandes.



Por aqui esteve o Salão do Marquês na Rua Lindo Vale







Este “Pavilhão Cinematographico Cine Palais”, como lhe chamava o seu proprietário, Don António Manresa, teve licença de construção da Câmara do Porto n.º 625/1907 de 27 de Setembro de 1907.
No entanto, em Janeiro de 1907, já tinha sido feito um requerimento à Câmara do Porto, que teve de ser instruído com novos documentos.
Por isso, parece que o Cine Palais foi inaugurado em 27 de Abril de 1907 e ficou a aguardar a licença definitiva.
O pavilhão era ambulante, com esqueleto de madeira ligada por parafusos e coberto com pano e lona, com duas entradas frontais, pela Rua de Alexandre Herculano e três portas de saída, duas de um lado e a outra do lado oposto.
Ficou situado na esquina sul-nascente das ruas de Loulé e Alexandre Herculano, num terreno arrendado para o efeito.
E, nada mais se sabe.







Nos baixos do prédio, à Praça dos Voluntários da Rainha e que tinha também acesso pela Rua da Galeria de Paris, foi possível aos fregueses da conhecida loja, transpondo esta entrada, a partir de 9 de Maio de 1907, frequentar uma sala de espectáculos (concertos musicais e animatógrafo), que podia comportar 1000 espectadores.
A construção do referido prédio, que ainda sobrevive nos nossos dias, foi executada sob a direcção de José Isidro de Campos, pelo conselheiro Boaventura Rodrigues de Sousa.
Este animatógrafo teve licença de funcionamento até Junho de 1909.
 
 
 

Grandes Armazéns do Chiado






Em 30 de Março de 1907, é inaugurado na Rua do Bonjardim ao Pátio do Paraíso, o Salão Cinematográfico Portuense que, em Julho, passou a chamar-se Animatographo do Paraíso e em Outubro Salão D’Élite.
 

Pátio do Paraíso da Associação Humanitária Bombeiros Voluntários do Porto – Ed. Foto Guedes





São poucas as informações sobre esta velhinha sala de cinema. Parece ter sido inaugurado em 10 de Fevereiro de 1907. Como o nome indica, ficava localizada na Rua de Santa Catarina e era uma sala de pequenas dimensões e sem grandes luxos. A sua memória perdeu-se com o tempo, mas, talvez se possa dizer, que ficava no local de que nos fala um texto do “O Comércio do Porto”.


“Começam a realizar-se sessões de cinematógrafo no Salão de Santa Catarina, na rua do mesmo nome, em frente à Rua Firmeza, também com sessões triplas à noite”.
Fonte: “O Comércio do Porto”, 23.02.1907, p. 3



In jornal "A Voz Pública" de 23 de Abril de 1908