sexta-feira, 28 de julho de 2017

(Continuação 18)

Continuando pela Rua de Santa Catarina, seguia-se, ainda, o Salão de Chá Império, outro estabelecimento histórico que abriu as suas portas em 1944, em frente ao Majestic.
Grande parte dos terrenos a Poente da rua, nomeadamente onde mais tarde foi erguido o Grande Hotel do Porto, na primeira metade do século XIX, eram quintas e terrenos lavradios pertencentes à grande empresária D. Antónia Adelaide Ferreira, a Ferreirinha do vinho do Porto.
Como se pode observar mais abaixo, na planta de Baldwin & Cradock (Londres 1833), grande parte daquela área estava por urbanizar.
O Grande Hotel do Porto, inaugurado em 1880, é um dos hotéis de maior prestígio da cidade e nasceu por vontade de Daniel Moura Guimarães um rico comerciante de arte que foi para o Brasil com 17 anos e regressou ao porto, em 1867, que desafiou o arquitecto Silva Sardinha para traçar um hotel de referência na cidade.
O quarteirão entre o que são hoje as ruas de Santa Catarina, Sá da Bandeira, Passos Manuel e Formosa pertencia a Francisco da Cunha Magalhães e a D. Antónia Ferreira.
Os terrenos onde foi levantado o Grande Hotel do Porto, pertenceram a D. Adelaide Ferreira, vulgo a “Ferreirinha” da Régua que tinha uma casa apalaçada no local que viria a ser do hotel.
Essas terras eram atravessadas por um ribeiro que vinha desde a Rua das Carvalheiras na Fontinha onde nascia e junto à Estação de S. Bento era um dos cursos de água que formavam o rio da Vila e alimentava uma fonte, já demolida, na esquina da Rua de Santa Catarina e da antiga Viela das Pombas (actual António Pedro) que por isso se chamava Fonte das Pombas.
Na frontaria essa fonte tinha gravada uma alusão à batalha efectivada na Ponte Ferreira durante o Cerco do Porto.
O terreno onde ficava a fonte foi a partir de 1904 disputadíssimo, tendo saído vencedor o proprietário da vizinha Camisaria Confiança que indemnizou um outro pretendente que aí já tinha começado a construir, tendo acabado um ano depois por vendê-lo a outro, de nome Avelino Correia, num negócio deveras escuro, que acabaria com a Fazenda a processar o Cunha da camisaria e o Avelino, por simulação de negócio.
A água daquele ribeiro viria mais tarde a ser utilizada nos sanitários do Café Brasil ao fundo da Rua da Madeira.


Rua Santa Catarina (ao meio na vertical) em planta de Baldwin & Cradock (Londres 1833)

Na planta acima é possível ver o percurso do ribeiro referido que nasce nas Carvalheiras e o traçado da Rua de Santa Catarina a meio, na vertical, partindo dos largos de Santo Ildefonso e da Batalha e ainda, notar, como é óbvio, que as ruas de Sá da Bandeira, começada em 1877 e de Passos Manuel começada em 1874 e o Mercado do Bolhão (por cujo solo passa o referido ribeiro), ainda não tinham surgido. Para urbanizar a actual Rua do Ateneu Comercial do Porto foi necessário encanar o ribeiro.
Quando o imperador D. Pedro II e sua mulher, a imperatriz Teresa Cristina Maria, vieram exilados para a cidade do Porto, em 1889, aquando da implantação da República no Brasil, foi no Grande Hotel do Porto, na Rua de Santa Catarina que se hospedaram e, num dos seus quartos, que a imperatriz morreu na manhã do dia 28 de Dezembro de 1889.
Eça de Queirós era seu hóspede frequente, e o Duque de Windsor também aqui esteve, e tem sala com o seu nome. Nele esteve também preso o primeiro-ministro Afonso Costa, em Dezembro de 1917, aquando do golpe de estado de Sidónio Pais.
Foi o hotel, ainda, local do aparecimento à varanda de Gago Coutinho e Sacadura Cabral em 8 de Dezembro de 1922, depois da travessia do Atlântico Sul, para uma saudação à população, após terem aí jantado.


Grande Hotel do Porto na homenagem aos aviadores - Fonte: monumentosdesaparecidos

Terraço do Grande Hotel do Porto - Fonte: monumentosdesaparecidos



À direita o Grande Hotel do Porto com os carros estacionados à sua porta

Como “caixa” da famosa Camisaria Confiança aí trabalhou durante uns tempos, o artista Amadeu de Souza Cardoso.
O fundador da “Camisaria Confiança”, António José da Silva Cunha era um republicano de Vila Meã, Amarante que foi vereador da câmara do Porto, e fundador do Centro Democrático do Norte e do Clube Fenianos Portuenses.
A primeira denominação da camisaria onde chegaram a trabalhar diariamente mais de mil operárias foi de, “Bela Jardineira”, tendo sido levantada no local de um outro edifício, entretanto demolido, onde funcionou o Teatro de Santa Catarina.
Em 1883 a camisaria começou por ser uma modesta indústria para fazer face a uma necessidade do mercado nacional e, em 1894, depois de um grande esforço de modernização em maquinaria, é inaugurada a “Fábrica Confiança”.
Em 1896, Aurélio Paz dos Reis realizou nesta rua, aquele que é considerado o primeiro filme do cinema português, a “Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança”, cujas instalações eram contíguas às do Grande Hotel do Porto.
Há quem diga, porém, que o pioneiro do cinema é, todavia, Francisco Pinto Moreira que em 1896, se antecipou uns meses a Aurélio Paz dos Reis.


Cartaz publicitário da Fábrica Confiança em 1894

Fábrica Confiança

Loja de exposição e de vendas da Camisaria Confiança

Instalações fabris da Fábrica Confiança na retaguarda da loja

Publicidade em 1910

Depois de passarmos o Grande Hotel do Porto, na esquina da Rua de Santa Catarina com a então denominada, Travessa do Grande Hotel (antes Viela das Pombas), encontrávamos a Grande Confeitaria Parisiense no nº 167/171, de Bastos Lemos Faria & Pedroso.
Este foi o local onde existiu a Fonte das Pombas e onde esteve também a Papelaria Progresso, agora em cave do mesmo prédio com entrada pela Rua de António Pedro. Presentemente funciona lá, uma loja de comércio de roupa interior.


Grande Confeitaria Parisiense


Interior da Grande Confeitaria Parisiense

A Grande Confeitaria Parisiense era aqui - Ed. MAC

Papelaria Progresso actualmente – Ed. JPortojo


Ao aproximarmo-nos da Rua Formosa, no nº 206 da Rua de Santa Catarina, deparamo-nos com a casa onde nasceu em 1 de Agosto de 1828, o escritor Arnaldo Gama.


Casa onde nasceu e viveu Arnaldo Gama – Ed. J Portojo

Casa onde nasceu e viveu Arnaldo Gama

Na viagem que começamos na Praça da Batalha, iremos encontrar agora, a Rua Formosa, que começou a ser aberta por iniciativa do Corregedor João de Almada e Melo em 1784.
Antes e só junto ao mercado do Bolhão, existia a desaparecida Viela do Enforcado em memória de um galego que tinha morto a sua patroa para a roubar e tinha sido executado junto da casa dela.
Na zona desapareceram vários outros topónimos curiosos como Campo da Cavada e Campo da Manada.


Local do Liceu Central contíguo a prédio na esquina - Ed. MAC

No edifício da foto acima, após cruzarmos a Rua Formosa, esteve o Liceu Central do Porto ou Liceu Portuense e, ainda, alguns departamentos do ministério das Obras Públicas.
O edifício pegado a ele, na esquina, chegou em tempos (1891), a ter no seu rés-do-chão o Café Lusitano e, no 1º andar uma agremiação de cariz republicano. Teria sido entre aquele andar e o café que foi congeminada a revolta de 31 de Janeiro de 1891, sendo que esses locais foram muito frequentados por Alves da Veiga.
No edifício da última foto funcionou, na segunda metade do século XIX, o Liceu Central do Porto onde leccionou Antero Quental.
O referido Liceu Central do Porto ou Liceu Portuense, foi inicialmente instalado na Academia Politécnica e, aí funcionou, entre 1840 até 1866 e esteve depois instalado, num edifício da Rua de Entreparedes, onde já tinha funcionado a Companhia Vinícola e viria a funcionar o Instituto Comercial e ainda, o Instituto de Contabilidade e Administração do Porto.
O liceu Central esteve também aqui, no edifício da Rua de Santa Catarina, onde viria a funcionar a repartição de Obras Públicas e passaria, ainda, pela Rua de S. Bento da Vitória, onde hoje se encontra Polícia Judiciária.
Entre 1878 e 1884 o Liceu Central do Porto funcionou no Palacete do Cirne ou Casa do Poço das Patas.
A partir de 1906 o liceu foi dividido em dois. Um para a zona oriental da cidade e outro para a ocidental.
Um pouco mais adiante encontra-se o centro comercial Via Catarina do grupo Sonae, inaugurado em 1996, após uma das maiores intervenções urbanísticas da zona, conservando a fachada da antiga sede do jornal portuense “O Primeiro de Janeiro”, é um edifício de destaque no percurso encetado.
Este jornal veio para este edifício em 1921, tendo sido fundado em 1868 inspirado na revolta a Janeirinha ocorrida cerca de um ano antes, a 1 de Janeiro.
A 1 de Janeiro de 1868 nasceu o jornal “A Revolta de Janeiro” lançado por António Augusto Leal. Suspenso em 31 de Agosto, reabriu em 1 de Dezembro com o nome “O Primeiro de Janeiro”. Em 1870 dá-se o grande salto, passando a dispor de boas instalações na Rua de Santa Catarina, em prédio pertencente a Inácio Pinto da Fonseca.

Instalações na Rua Santa Catarina do Jornal “O Primeiro de Janeiro”

A Capela de Santa Catarina ou das Almas, na esquina com a Rua de Fernandes Tomás, construída nos inícios do século XVIII é um perfeito ex-libris da cidade. Revestida de azulejos de Eduardo Leite de 1929, são um chamariz de visitantes à capela.


Capela das Almas


Rua Fernandes Tomás

Já na Rua Fernandes Tomás e muito próximo da Santa Catarina existe ainda, um arruamento primitivo, o Beco de S. Marçal.
Na parte a Norte do mercado do Bolhão face ao Beco do Marçal, em tempos foi levantado, e aí colocado, um obelisco, por operários da Estamparia e Fundição do Bolhão em memória da visita de D. Pedro V àquelas unidades industriais designada por “ Memória do Bolhão” e que foi mais tarde removido e colocado no cemitério do Prado do Repouso.

Fábrica de Estamparia do Bolhão no Porto em 1900

Na imagem apresentada acima, fora o obelisco, são ainda visíveis as rampas de acesso ao antigo mercado do Bolhão a partir da Rua de Fernandes Tomás, e a Estamparia do Bolhão.


O Beco de S. Marçal à direita em primeiro plano


Esquina da Rua Fernandes Tomás e Rua D. João IV em 1950

Mesmo local da foto anterior actualmente - Fonte: Google Maps

A Rua Fernandes Tomás só tem esse topónimo desde 1835.
A rua foi aberta primeiro em duas fases: o primeiro troço ligou a Rua de Santa Catarina a Malmerendas (Dr. Alves da Veiga) e a segunda fase a Rua Sá da Bandeira ao Bonjardim.
Só em 1882 se fez a ligação à Trindade.
O troço que vai da Rua do Dr. Alves da Veiga até ao Campo 24 de Agosto é, mais recente, pois, em 1902 ficava-se pelo Poço das Patas (Rua Coelho Neto, que foi também Rua do Meio).
Este troço foi aberto ao longo dos terrenos da Quinta da Ponte. Houve, efectivamente, nesta propriedade, uma ponte que acabou por dar o nome à quinta. Tratava-se, no en­tanto, de uma pequena ponte de madeira, mais um passadiço, que possibilitava a tra­vessia do rio de Mijavelhas a quem se di­rigia para a feira do gado que em 1840 se fazia no Campo Grande, nome que, por aquele tempo, era dado ao actual Campo 24 de Agosto.  O rio de Mijavelhas ainda existe. Só que agora a sua água corre devidamente enca­nado no subsolo.
Uma outra ponte existiu, mais para Nascente, junto ao edifício da Junta de Freguesia. Sabe-se que essa ponte foi construída, por iniciativa da Câmara do Porto, em 1700, pelo mestre pedreiro André Martins, para facilitar a circulação na estrada que do Porto ia para Valongo e daqui para Amaran­te e Vila Real. Foi feita em granito com um arco e quatro metros de largura. E tinha bancos de pedra. 



Por iniciativa de João de Almada e Melo de 1784, a Rua de Santa Catarina foi prolongada até à Alameda da Aguardente, hoje Praça do Marquês de Pombal.
A este prolongamento se deu o nome de Rua Bela da Princesa.

Na estratégia dos Almadas de reorganizar as vias de acesso à cidade entre 1774 e 1779 foi aberta uma rua que partia da Batalha até ao sítio de Aguardente, uma rua em dois tramos e que ligava a cidade intra-muros com a estrada de Guimarães.
Ao primeiro tramo da rua foi atribuído o nome de Rua de Santa Catarina.
De acordo com o desenho de embelezamento da cidade foi desenhado e aprovado em 1778 o projecto de Francisco Pinheiro da Cunha para os alçados desse primeiro troço.
O tramo norte da rua aberto a partir da sua aprovação em 1784 foi inicialmente designado por Rua da Boa Hora (1802) mas em 1807 passou a chamar-se de Rua Bella da Princeza.
Rua Bella já que pertencia ao plano de Embelezamento da cidade e da Princeza já que Carlota Joaquina se casou no ano seguinte (1785) com o Príncipe D. João (1767-1826).
Não cumpre aqui fazer a biografia de Carlota Joaquina, mas de facto a Princesa da Rua Bella era Carlota Joaquina Teresa Cayetana de Borbón y Borbón (1775-1830), casada quando tinha apenas dez anos, com o príncipe D. João que se tornaria príncipe herdeiro em 1788, por morte de seu irmão primogénito D. José.
O casamento foi realizado em simultâneo com o casamento da infanta portuguesa D. Mariana Vitória Josefa (1768-1788) com o filho do rei de Espanha Carlos III (1716-1788) D. Gabriel António Francisco Xavier de Bourbon (1752-1788), em Março/Abril de 1785.
Mas só entre 11 e 29 de Junho desse ano se realizam na cidade do Porto os festejos comemorativos do duplo consórcio, promovidos pelo Corregedor e Provedor da Comarca do Porto, Francisco de Almada e Mendonça (1757-1804) o que poderá explicar a atribuição do nome da rua.
D. João em 1799 pela interdição de sua mãe D. Maria I tornou-se oficialmente Príncipe Regente (o que de facto já vinha acontecendo desde 1792) e em 1816, com a morte da rainha, torna-se Rei de Portugal com o nome de D. João VI até à sua morte em 1826.
Carlota Joaquina era filha do rei de Espanha Carlos IV (1748-1819) e de D. Maria Luísa Tereza de Parma e Bourbon (1751-1819). O casamento de conveniência correspondeu a uma aliança entre os dois reinos num período em que para além das disputas de territórios coloniais entre os dois reinos, de França chegavam notícias de convulsões políticas e sociais que eclodiriam na Revolução Francesa.
E se a jovem princesa era retratada (por conveniência?) de uma forma simpática, na realidade de belo, como a Rua, pouco ou nada tinha”.
Com a devida vénia a Ricardo Figueiredo

Rua Bela da Princesa em 1833 (planta da cidade do Porto, publicada por Baldwin & Cradock em Londres, 1833)

De notar no mapa acima o troço da Rua do Bonjardim passando nas Musas e Bairro Alto e, ainda, a antiga Rua do Bolhão (hoje, e desde 1835 Fernandes Tomás) e Fradelos.


Rua Bela da Princesa (colorida) na planta de Perry Vidal 1844/65.

Planta de Teles Ferreira em 1892


Na planta acima de 1892, a Rua Bela da Princesa (desenvolve-se na vertical, vendo-se às esquerda o Largo da Fontinha) é já denominada Rua de Santa Catarina, desde a Praça da Batalha até à Praça do Marquês de Pombal. 

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