quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

25.27 Siza Vieira e o seu primeiro projecto - Actualização em 09/10/2020

“Siza Vieira deu os primeiros passos da sua profícua carreira na sua cidade natal – Matosinhos. A edificação do seu projeto “4 Casas em Matosinhos”, quando era ainda um estudante na Escola Superior de Belas Artes, abriu lugar à polémica, devido à sua audácia e características inovadoras para a época. É em Matosinhos que se encontram alguns dos seus trabalhos mais emblemáticos: a Piscina da Quinta da Conceição (1958-1965), a Piscina das Marés (1961-1966), a Casa de Chá da Boa Nova (1958-1965) e mais recentemente a marginal de Leça da Palmeira (2006) que, para além de unir estas duas últimas obras, resulta num espaço adaptado às suas novas funções e características de centralidade e de espaço de lazer. Uma das suas obras mais afetivas e diretamente a ele ligadas é a remodelação da casa dos seus pais em 1961, recentemente adquirida pela autarquia em sua homenagem, destinada a receber o testemunho da sua obra através da instalação do Centro de Documentação Álvaro Siza.”
Fonte: “cm-matosinhos.pt”


Siza vieira nasceu em Matosinhos. Em 1961, executou um projecto de remodelação do prédio da Rua Roberto Ivens, nº 582, para habitação de seus pais. Em 2009, é ele, novamente, que elabora o projecto de reconversão do edifício para primeira sede da Casa da Arquitectura.



Casa onde viveram os pais de Siza Vieira na Rua Roberto Ivens


O seu primeiro projecto é denominado de “Quatro Casas” e foi executado na Avenida Afonso Henriques em Matosinhos.
Aquele projecto ocorreu em 1954 quando Siza Vieira era ainda um estudante na Escola Superior de Belas Artes, e abriria uma grande polémica, devido à audácia das propostas e pela aplicação de características completamente inovadoras para a época.





As “Quatro Casas de Matosinhos” na Avenida Afonso Henriques que um jornalista da época denominou de “casinhotos”


“Há 60 anos, o gerente de uma empresa de pesca ousou chamar um jovem desconhecido, ainda com o curso de arquitetura por terminar, para lhe desenhar uma casa. Era a primeira encomenda do primeiro projeto para a primeira casa desenhada por aquele que vem a transformar-se num dos mais importantes arquitetos do mundo contemporâneo: Álvaro Siza Vieira.”
Fonte: “expresso.sapo.pt”


O gerente de uma empresa de pesca de seu nome Manuel Neto, mantinha uma relação de amizade com António Vieira, tio de Álvaro Siza Vieira que desempenhava funções na conhecida Refinaria Angola.
Entre algumas conversas havidas entre os dois, um dia surge a revelação de que Manuel Neto comprara um terreno onde pretendia construir casa. António Vieira pergunta-lhe se já tem arquitecto e, face à resposta negativa, sugere-lhe a hipótese de entregar a obra ao sobrinho Álvaro.
Na sequência, um dia Álvaro vai falar com Manuel Neto, que o leva a visitar uma moradia na zona das Antas muito do seu agrado, mesmo se, no final, as duas casas nada têm a ver uma com a outra. Fica acertado que avançarão, embora Neto reivindique a prerrogativa de cancelar tudo, caso o projecto não lhe agrade. Coloca, até, uma condição: teria de haver uma varanda a todo o correr da casa, virada para a Avenida, por causa das festas do Senhor de Matosinhos.



Uso da madeira na fachada nas moradias das de “Quatro Casas de Matosinhos” - Ed. LUCÍLIA MONTEIRO, in “expresso.sapo.pt”


Cozinha de uma moradia  de “Quatro Casas de Matosinhos” com referências a Gaudi e Corbusier – Ed. LUCÍLIA MONTEIRO, in “expresso.sapo.pt”


A polémica sobre a primeira obra de Siza Vieira (com projecto inicial, assinado pelo engenheiro civil Rogério Lobão, dada a circunstância de, então, Siza ainda não ter autorização para assinar projectos), ficou para a posteridade num texto publicado no jornal “Comércio do Porto” que falava nas visitas que estariam a ser feitas a Matosinhos, para ver “os casinhotos” que tinham sido construídos na Avenida D. Afonso Henriques, perto da Igreja de Matosinhos.


 “ (…) como se Matosinhos fosse terra sertaneja e não houvesse aqui pessoas (…) que têm noções de arte (…) terá desaparecido o bom senso de gente que tem o dever de velar pela estética da vila e evitar atentados arquitetónicos como esse (…) numa cidade servida por um porto de mar, com aeródromo próximo e vizinha da cidade do Porto”.




Duas das obras mais conhecidas atribuídas ao arquitecto Siza Vieira são a Piscina das Marés e a Casa de Chá da Boa-Nova, em Leça da Palmeira.

 

 


Piscina das Marés, em 1947, antes da intervenção de Siza Vieira


Piscina das Marés, após a inauguração ocorrida em 1966



Piscina das Marés, c. 1970

 

 

 

Piscina das Marés, nos nossos dias




Casa de Chá da Boa-Nova em construção é uma das mais conhecidas obras de Siza Vieira


Casa de Chá da Boa-Nova em construção



Casa de Chá da Boa-Nova



Como curiosidade, diga-se que Siza Vieira viveu num edifício localizado na esquina das ruas do Arquitecto Marques da Silva (antiga Rua da Friagem) e Barbosa du Bocage, ao Bom Sucesso, cujo projecto (1959) se ficou a dever ao arquitecto Alfredo Matos Ferreira (1912-2015), filho de pai médico e mãe pintora, nascido em Lisboa, mas com as suas raízes profundamente mergulhadas em Trás-os-Montes.

 
 

Alfredo Matos Ferreira projectou, em 1959, o edifício em primeiro plano
 
 
 
Na década de 1950, alguns alunos de arquitectura da Escola de Belas-Artes do Porto, reuniam-se na Sala 35 do edifício do Café Imperial.
Entre eles estavam Siza Vieira, Alberto Neves, António Menéres, Joaquim Sampaio, Luís Botelho Dias, Vasco Macieira Mendes e, o mais velho de todos, Alfredo Matos Ferreira.
Mais tarde, alguns dos mencionados mudaram-se para uma outra sala situada na Rua do Duque da Terceira, mais perto das Belas-Artes e quase todos acabaram a trabalhar no escritório do arquitecto Fernando Távora.
Alfredo Matos Ferreira, que devia ter outras condições, estabeleceu-se por conta própria e, só no início da década de 1970, se associou a Arménio Losa e, entre 1972 e 1981, a Fernando Távora.
Entretanto, tinha estado associado a Mário Abreu.
Após a revolução de 25 de Abril de 1974, Alfredo Matos Ferreira integrou, entre 1974 e 1976, a equipa que compunha o SAAL (Serviço de Apoio de Ambulatório Local), juntamente com Beatriz Madureira e Jorge Barros, para a Associação de Moradores da Lapa, que ele considerou a obra da sua vida.

 
 

Em 1976, área de expansão de novos edifícios em fase de construção, do SAAL, Lapa - Fotografia de Alfredo Matos Ferreira
 
 
O auditório da Fundação Eng.º António de Almeida é, também, da sua autoria.
Alfredo Matos Ferreira teve intervenção decisiva no projecto final do edifício da sede das Caixas de Previdência, na Rua António Patrício, cujo projecto inicial (1968) foi de Arménio Losa, para um edifício destinado a habitação colectiva.

 
 

Sede das Caixas de Previdência
 
 
Fora do Porto, nomeadamente, na Régua e em Viana do Castelo, Alfredo Matos Ferreira deixou, também, a sua marca.

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