segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

25.29 Madame Rattazzi – “A Questão Rattazzi”


Madame Rattazzi visitou Portugal em 1876, 1878 e 1879, e sobre essas viagens escreveu um livro que em Paris foi publicado com o título de  "Le Portugal A Vol D’Oiseau" e que entre nós se chamou, "Portugal de Relance".


Le Portugal A Vol D’Oiseau, 1880 – Madame Rattazzi


“Poucos personagens terão sido mais polémicos do que esta escritora, Madame Rattazzi (1831/1902). Nascida na Inglaterra, filha de Sir Thomas Wyse e da mãe francesa, Letícia Bonaparte, era de naturalidade francesa e sobrinha neta de Napoleão I. 
Casou em 1849 com um alemão, Frederico de Solms de quem enviuvou em 1863. Nove dias depois casou com um italiano, Conde Urbano Rattazzi, que faleceu em 1873. Sete anos mais tarde casou com um espanhol, D. Luis de Rute de quem também enviuvou em 1889.
Por causa dos seus livros deu tantos problemas aos seus dois últimos maridos, que várias vezes se tiveram de bater em duelo, que não encontrou um quarto que a quisesse. Pode dizer-se que foi uma cidadã europeia”.
Fonte: “portoarc.blogspot.com”



“Em 20 de Janeiro de 1876, madame Rattazzi chegou a Lisboa indo hospedar-se no hotel Braganza. Era uma mulher dos seus quarenta e tal anos, muito frescalhota ainda, alta, desempenada, de uma notavel distinção de maneiras, cabelo todo preto, palida como uma andalusa e com uns impressionantes olhos languidos cheios duma grande expressão apaixonada.
(…) Em março de 1878, a princeza Rattazzi efectuou a segunda visita a Portugal. Como da primeira vez, assistiu a diferentes sessões no Parlamento, a varios espetaculos e deu algumas festas e jantares aos literatos e aos políticos dessa epoca que, por fim, lhe ofereceram, tam- bem, um explendido banquete no salão nobre do teatro de D. Maria. Em 17 de Junho do ano seguinte chegou, novamente, a Lisboa. Desta vez, porem, não deu festas nem jantares, limitando-se a visitar varias localidades e o Porto. Demorou, apenas, um mez entre nós, tendo assistido em 16 de Julho - vespera da sua partida para a Espanha – á corrida por curiosos na praça do Campo de Santa Ana(…)
(…) Em 1886- por ocasião do casamento do príncipe D. Carlos com a prin· ceza D. Amelia de Orleans, veio assistir aos festejos, chegando a Lisboa a 20 de maio, e retirando para Madrid em 2 de Junho. Foi esta a quinta visita a Portugal (…)”
Fonte: Ilustração Portuguesa II Série – Nº 808, Lisboa, 13 de Agosto de 1921


Ainda antes de 1881, em que a obra que descrevia Portugal seria publicada, por cá, com o título Portugal de Relance, já, em 1880, Antero de Quental se referira ao texto publicado em França, em carta para João Lobo de Moura, nestes termos: 

“A Rattazzi, que passou dois Invernos a desfrutar os literatos de Lisboa, publicou agora um livro sobre Portugal, delicioso. Imagine uma parisiense descrevendo ao vivo, estes mirmidões. Não se fala noutra coisa e está tudo furioso”.


Portugal de Relance


A propósito do olhar de Marie Solms (condessa de Solms) ou Senhora Rattazzi sobre o nosso país e, nomeadamente, sobre a cidade do Porto, onde se demorou 8 dias, Camilo Castelo Branco criticou a sua obra, violentamente. A polémica na qual se envolveu a intelectualidade nacional ficou conhecida como a “Questão Ratazzi”.

“Depois de estudar os portugueses e as portuguesas com frequentes visitas celebradas por “menus” económicos e risos de ironia larga, a Sra. Rattazzi concebeu das suas impressões viris e másculas um livro que deu à luz em Janeiro, e denominou Portugal à vol d'oiseau. Portugais et portugaises.
Eu, criado no velho noticiário, tendo de anunciar o produto d'uma dama dado à luz, antes quisera, em vez d'um livro bom, anunciar um menino robusto. Acho muito mais simpática a feminilidade das mães pálidas, com olheiras, emaciadas, que aconchegam dos seios exuberantes a criancinha rosada, recém-nascida. Não me comove nem alvoroça o espetáculo d'uma autora que se remira e envaidece na brochura que deu à luz, obra entre cinco e sete tostões- 740 reis com estampilha. Por isso, antes quero noticiar um menino robusto que um “oitavo” compacto.” – A Senhora Rattazzi – Camilo Castelo Branco.

Camilo haveria, em sequência, de escrever um livro de desafronta.


“A Senhora Rattazzi” de Camilo Castelo Branco – Fonte: “tertuliabibliofila.blogspot.com”


Madame Rattazzi haveria de responder a Camilo com o opúsculo seguinte.


Carta a Camilo Castelo Branco de Madame Rattazzi – Fonte: “tertuliabibliofila.blogspot.com”



Marie Solms em retrato de  André Adolphe Eugène Disdéri


A publicação da obra entre nós, denominada Portugal de Relance, provocou algum desconforto no meio intelectual da época, pelo retrato que nela era feito do país e dos portugueses.
Pelos excertos que se seguem, será fácil ajuizar-se da razão desta polémica:

"A mais activa occupação da realeza em Portugal é a instituição dos títulos." (I, pg. 12) "Exceptuando a Belgica, Portugal tem sobre todos os paízes catholicos a primazia do carrilhão." (I, pg. 28) "O portuguez é hispanophogo, e se de tempos a tempos não trinca, sob a fórma de costelleta, o hespanhol que lhe cahe nas unhas, é simplesmente por timidez, e não porque lhe escasseie o appetite." (I, pg. 69) "Os usos e costumes theatraes em Portugal estão ainda em estado primitivo." (I, pg. 106) "As casas em Lisboa, como em todo o resto de Portugal, são habitadas, principalmente, de verão por um enxame de baratas (...) Disseram-me que todos acabavam por habituar-se." (II, pg. 19).


(Continua)

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