sexta-feira, 16 de abril de 2021

25.119 Passeando nas cercanias da Ramada Alta

 1. Do Monte Cativo às Águas Férreas
 
(O texto que se segue, relativo ao percurso acima referido é, em grande parte, baseado no Blogue “ A Vida em Fotos” e uma homenagem à memória daquele que foi o seu administrador - JPortojo)
 
O perímetro Marquês, Antero de Quental, Serpa Pinto e Constituição e para Sul entre S. Brás e Monte Cativo, está todo alterado de há uns anos a esta parte com novas ruas e zonas habitacionais.



Rua Damião de Góis – Ed. JPortojo

 
Seguindo pela Rua Damião de Góis (a nova ligação que une as ruas de João Pedro Ribeiro e Egas Moniz) na direcção do Marquês e metendo à direita, entramos na Rua Alves Redol.
 
 

Um olhar sobre a cidade com o mar à direita – Ed. JPortojo


 

O alto das novas zonas residenciais – Ed. JPortojo


 

Centro Cultural dos trabalhadores da CMP – Ed. JPortojo
 
 
O edifício da foto é actualmente o Centro Cultural e Desportivo dos Trabalhadores da C. M. do Porto. Estamos no velho Monte Cativo.
Por aqui, ainda no fim do século XIX e início do século XX, estava sedeado o Clube de Caçadores.


 

A sede do Clube de Caçadores

 
O postal anterior apresenta a sede do Clube de Caçadores ao Monte Cativo.


 

Clube de Caçadores em 1909, durante visita de D. Manuel II




Monte Cativo que é topónimo muito antigo:

“Era um dos limites do couto do Porto, mencionados na carta da rainha D. Teresa, de 1120; «...até ao monte que chamam Pé de Mula, assim pelo Monte Cativis, assim como divide Cedofeita com Germinade...». Pelo menos até ao século XVII manteve esta forma alatinada de Monte Cativis com que figura nos registos paroquiais, designadamente num assento de 1682”.
Assim refere Eugénio Andrea de Cunha e Freitas.
 
Segundo a Enciclopédia e Dicionários da Porto Editora, Germinade vem do latim Germinati e tem a variante Germalde. 
Germalde é hoje o Monte da Lapa.
 
 

A antiga Tutoria vista do Monte Cativo – Ed. JPortojo


 
Ali próximo, entroncamos com a Rua do Monte Cativo que ainda vem da Rua da Constituição, mas é pelas Escadas do Monte que nos deslocamos (situada em frente ao referido Centro Cultural). Com uma vista por sobre a antiga Tutoria até à Rua da Boavista.


 

Escadas do Monte Cativo e Fontanário na Rua do Melo – Ed. JPortojo


 

Atravessando a Rua do Melo temos o antigo Palacete dos Sousa Melo e a propriedade por onde esteve  a velha Tutoria – Ed. JPortojo
 
 
As Tutorias da Infância foram criadas em 1911 por Alberto de Sousa Costa, bacharel da Universidade de Coimbra mas é o padre António Oliveira que a convite de Afonso Costa elabora a lei publicada por Decreto de 27 de Maio de 1911. 
No entanto já em 1902 existia uma Casa de Correcção do Porto, mas no Convento de Santa Clara em Vila do Conde.
 
 

A Quinta das Águas Férreas – Ed. JPortojo
 
 
Presume-se que a ex-Tutoria está nos terrenos da antiga Quinta das Águas Férreas ou Quinta de Santo António da Boavista, que em 1760, pertencia a Jo­sé de Sousa Melo. Após a morte deste herdou a propriedade um sobrinho de nome João de Mello e Sousa da Cunha Souto Mayor que viria a ser o 2º conde de Veiros, por via do seu casamento com a filha do 1º conde de Veiros e, daí, uma outra designação que se dava a esta propriedade - Quinta de Veiros




Quinta das Águas Férreas – Ed. JPortojo


 
Esta Quinta das Águas Férreas foi pertença de José de Sousa e Melo e assim chamada por ter lá existido uma fonte de água medicinal que se dizia ser medicinal de origem ferrosa.
Este senhor, para além de tesoureiro-geral da Alfândega do Porto foi Vice-provedor da Companhia Geral de Agricultura e Vinhas do Alto Douro, Administrador dos Correios do Porto, Inspector das Obras do Edifício da Academia da Marinha e Comércio, Vereador da Câmara do Porto e Provedor da Santa Casa da Misericórdia.
A Quinta de Santo António da Boavista pas­sou por várias vicissitudes. Em 1809, aquan­do da segunda invasão francesa, serviu de re­sidência e de quartel-general do general in­glês Nicolau Trant que comandou as tropas anglo-lusas. Após a expulsão dos franceses do Porto, José de Sousa Melo voltou para a sua residência, mas só esteve até 1832, ano em que D. Pedro IV entrou na cidade à frente do Exército Libertador.
Sousa Melo que era mi­guelista saiu do Porto, indo refugiar-se numa propriedade que possuía na Régua. 
Abandonada pelo seu proprietário, a Quin­ta das Águas Férreas foi ocupada pelos libe­rais que nela montaram o paiol da pólvora, que seria mudado, logo a seguir, para a Quinta da Chi­na junto ao rio Douro. 
Na Quinta das Águas Férreas funcionou no seu arranque o Asilo de Mendicidade. Em 1861 foi lá instalado o Hospi­tal Militar e em 1857, funcionava lá, o célebre Colégio de Nossa Senhora da Guia. 
Por aqui existiu também a quinta chamada Quinta dos Tortulhos, que os liberais sequestraram em 1833 porque pertencia a José Joaquim Machado que lutou ao lado das tropas miguelistas. 
Outra grande propriedade destes sítios foi a Quinta dos Limoeiros, onde esteve instala­do o colégio Moderno, de raparigas, que para aqui veio das antigas e modestas instalações da Rua da Boavista. De alguns pontos desta quinta avistava-se, ao longe, o mar. 
 
 
 
 
Terrenos da antiga quinta das Águas Férreas – Ed. JPortojo

 
Vindo da Lapa à direita, um infantário fechado. Um novo infantário, está logo a seguir e incluído num núcleo residencial.
 
 
 

O Monte da Lapa ou Germalde – Ed. JPortojo

 
Na foto anterior, nos terrenos da antiga Quinta das Águas Férreas, um olhar para o Monte da Lapa, com a sua Igreja construída de forma que fosse visível de qualquer local da cidade.
Atravessada a linha do Metro, encontramos o Conjunto Habitacional da Bouça.
 
 
 

Bairro da Bouça
 
 
Este Bairro da Bouça, na Quinta de Santo António, começou a ser projectado logo a seguir à revolução de Abril mas só foi completado 30 anos depois. A obra é de Siza Vieira.
 
 
Casa da Pedra – Ed. JPortojo
 
 
Em frente ao Bairro, na agora pequena Rua das Águas Férreas, encontramos a Casa da Pedra, propriedade particular, onde residiu o escritor Oliveira Martins enquanto dirigiu a construção do Caminho de Ferro da Póvoa e Famalicão.  Fez parte da Geração de 70, mais tarde "Os Vencidos da Vida".
“A Questão Coimbrã”  foi o tema. Aqui se reunia o Grupo dos 5 (Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro, Oliveira Martins e Antero de Quental). 
Antero de Quental tinha na casa um quarto onde pernoitava muitas vezes, e onde tentou o suicídio pela primeira vez, tendo sido impedido pelo Oliveira Martins.
 
 
 

Marco toponímico – Ed. JPortojo
 
 
Na esquina da casa encontra-se ainda um antigo marco toponímico. 
A Rua das Águas Férreas vai dar à  Rua do Melo, que por sua vez se encontra com a Rua de Burgães e entronca, também, na ainda existente Rua de Salgueiros, que é hoje uma pequena parte do que foi outrora e, cuja continuação, é a nova Rua de Cervantes.
 
 
 
Imagem do Google da zona dos Montes Cativo e da Lapa – Fonte: JPortojo
 
 
 
 
 
 
Junto do fontanário, ao fundo das Escadas do Cativo, poderemos em alternativa, derivar para a Rua de Burgães e iremos sair umas centenas de metros à frente, à Ramada Alta. O topónimo Burgães, de provável origem francesa, significa arrabalde ou lugar pequeno junto a uma vila e aparece já, em 1715, referido em emprazamento feito à colegiada de Cedofeita.
Não se sabe ao certo a origem do topónimo Ramada Alta.
Sabe-se que, existiu aí uma quinta da família Barros Lima, denominada de Quinta da Ramada Alta, que nada tem a ver com um  Francisco José Barros Lima, que daria o nome a uma rua ao Bonfim.
José Pedro Barros de Lima, nasceu em Refóios do Lima, Ponte de Lima em 1790.
Morreu no Porto, na Quinta da Ramada Alta (Cedofeita), a 24/10/1847, com testamento feito na Rua 9 de Julho, a 5/10/1847.
José Pedro Barros de Lima era também exportador de vinhos, e como tal aparece já, em 1818, enviando vinho do Douro para a Bahia, e de novo em 1827, exportando 13 pipas de vinho para o Brasil.
Em 1834, é um dos subscritores da carta dos negociantes do Porto agradecen­do a D. Pedro IV a revogação dos privilégios da Companhia do Alto Douro.
A cons­trução de uma casa na “Quinta da Ramada Alta, Rua 9 de Julho”, da iniciativa de Barros Lima, ocorre em 1841, transferindo-se da anterior residência, na Rua de S. João.
Um dos filhos de José Pedro de Barros Lima, nascido em 1817, terá o mesmo nome de seu pai, mas fará a sua vida em Lisboa, onde seguiu a carreira política, tendo sido Governador Civil do Distrito de Castelo Branco (1860-1861), Par do Reino, e Conselheiro real.
Foi acionista da Companhia de Viação Portuense que teve, por decisão régia, o alvará da ligação terrestre do Porto a Braga.
 
 
 

Vista do Porto desde a Ramada Alta- Desenho de Cesário Augusto de Araújo Cardoso de Mendonça
 
 
 
No desenho acima temos uma vista da cidade, tomada do mirante da casa de José Pedro Barros Lima, na Ramada Alta. É a única gravura que conhecemos que mostra o Porto de Norte para Sul e longe do Douro. Lugar privilegiado em que aparece a Colegiada de Cedofeita (à direita) os Conventos de S. João Novo e de S. Bento da Vitória, a Igreja da Vitória, o Hospital de Santo António, a Torre dos Clérigos, a Igreja de S. Lourenço (Grilos e a Sé). Ao fundo, do lado esquerdo, parece ser a Serra do Pilar e, à direita a Capela de Santa Catarina.     
Ao Largo da Ramada Alta onde está uma capela no seu meio, vão dar, a Rua de Burgães, a Rua de Nossa Senhora de Fátima, a Rua 9 de Julho, a Rua de Serpa Pinto e a Rua de Barão Forrester.
A Rua de Nossa Senhora de Fátima foi em tempos a Rua das Valas. Nasceu de uma tortuosa e estreita Viela das Valas, que teve existência desde 1835 e que descia do lugar da Falperra, nome anterior da Ramada Alta, até ao sítio do Bom Sucesso.
O sítio das Valas já é referido em 1731, "defronte da capela do Bom Sucesso", num auto de vistoria e por isso não tem nada a ver com balas de lutas do Cerco do Porto acontecido só em 1832/33.
A Rua 9 de Julho que antes foi Rua da Ramada Alta, existe em memória do dia em 1932 em que D. Pedro IV passou por lá depois de desembarcado nas praias de Pampelido.
Antigamente ia-se para o Carvalhido (antes da abertura da Rua Oliveira Monteiro em 1868) pela actual Rua 9 de Julho.
A Rua Oliveira Monteiro ficou conhecida pela “Estrada do Carvalhido à Boavista”.
Aquando do levantamento da Praça da Boavista em 1872, depois de arranjos nas imediações dela, e da abertura da nova Rua de Oliveira Monteiro, a partir de 1877 surge a nova denominação de Rua das Valas, por edital camarário.
A partir de 20 de agosto de 1942 a Rua das Valas seria finalmente a Rua Nossa Senhora de Fátima.
No início do séc. XIX, a Falperra foi escolhida, por razões que se desconhecem, como bairro dos pescadores de Ovar que para aqui imigraram, bem como, para a Afurada e Ouro. Estes vareiros portuenses passaram a ser conhecidos como vareiros do Carvalhido e, a Falperra, englobando a Rua 9 de Julho era um bairro de mercadores de peixe e mariscos, que se organizavam em ranchos como devotos do Senhor da Pedra quando se deslocavam à romaria gaiense.
A Rua 9 de Julho ao chegar ao Carvalhido apresenta um cruzeiro chamado, o Senhor do Padrão, paragem de caminhantes que demandavam Viana ou a Maia.
 
 
 

Senhor do Padrão com Praça do Exército Libertador (Carvalhido), ao fundo

 

Carvalhido, em 1930
 
 
 
Por outro lado, a Rua Barão de Forrester, que até fins do século XIX foi continuação de Cedofeita, fazia parte do antigo Sítio do Ribeirinho, nome que tomo por aí passar um pequeno regato que corria ao longo de várias quintas: a Quinta das Águas Férreas dos Sousas e Melos, viscondes de Veiros; a Quinta da Pedra onde viveu no séc. XIX Oliveira Martins; a Quinta dos Tortulhos ocupada pelos liberais em 1833 ao miguelista José Joaquim Machado; a Quinta dos Limoeiros onde esteve o Colégio Moderno; e outras.
A magnífica casa do barão de Forrester perto da Ramada Alta foi, por sua vez, demolida há muitos anos, mas, em 1854 ainda era habitada pelo visconde da Trindade.

 
Quando habitei a casa na Ramada Alta actualmente ocupada pelo patriótico e filantropo (termo de que me sirvo-em lugar de ill.mo e exc.mo) visconde da Trindade, tinha um relógio de mesa muito lindo, de três e meio palmos de altura, sendo o assunto um preto segurando um cavalo bravo e fogoso. Quando saía da minha casa pela manhã, e voltava à noite, costumava sempre conferir o meu relógio de algibeira com aquele; mas aconteceu-me um dia, que, voltando a casa, dei pela falta do relógio, manga de vidro, preto, e cavalo branco, e até a própria chave. Em vão, pergunto a minha mulher, filhos e criados, pela falta; mas ninguem me podia esclarecer o negócio; porém tendo motivos de suspeitar de algumas pessoas, relacionadas com os criados, paguei, a cada um deles, um mês adiantado, e mostrei-lhes a porta. Foi justamente, Sr. Redactor, nesta ocasião que alguem me falou na bela organização do corpo dos ladrões na cidade do Porto, debaixo da autoridade do ladrão-mór a que acima me referi”.
Excerto da carta dirigida ao redactor do jornal Commercio pelo Barão de Forrester em 1854


 

Entrada da Quinta da Boa Vista


 
Na foto acima vemos a entrada da Quinta da Boa Vista que pertenceu ao Barão de Forrester e onde viveu, a alguns quilómetros da Galafura.
Há quem afirme que o Barão de Forrester teria vivido, também, no edifício do antigo Restaurante Comercial, situado na Rua do Infante D. Henrique.

 

Edifício Forrester/Restaurante Comercial
 
 

Interior do edifício Forrester com vista para o Palácio da Bolsa

 
Para o lado sul da Ramada Alta temos então a Rua Barão de Forrester. O Barão de Forrester, José James Forrester de seu nome, escocês, escritor, artista e viticultor, que tanto se notabilizou na expansão e propaganda do Douro e dos seus vinhos e que com quase 52 anos, morreu afogado no rio Douro, em Maio de 1861 no lugar do Cachão da Valeira.
 
“Nascido em 1809 em Inglaterra e falecido em 1861 num acidente de barco no fatídico Cachão da Valeira, em pleno Alto Douro, foi uma figura de destaque em todos os assuntos do vinho. Enquanto comerciante consagrou a reputação internacional dos vinhos da firma Offley Forrester, que ele próprio se encarregava de seleccionar criteriosamente na região demarcada. Como enófilo lutou pela preservação do carácter genuíno dos vinhos do Douro contra as adulterações tidas, à época, como inevitáveis e até desejáveis – combateu ferozmente as práticas de adicionar baga de Sabugueiro, como artifício para intensificar a cor, e (espante-se!) a aguardentação dos mostos, por considerar uma deturpação das naturais qualidades do vinho. À cartografia nacional legou o primeiro mapa da Região Demarcada do Douro. Como pintor, fotógrafo e aguarelista, deixou-nos imagens vibrantes da intensa vida burguesa do Porto de oitocentos”.
In blogue: webook
 
A sua morte, que muito impressionou o país, foi descrita assim, magistralmente, por Camilo Castelo Branco:
 
'' A morte desastrosa do barão de Forrester, em 12 de Maio de 1861, é uma das mais notáveis vinganças que o rio Douro tem exercido sobre os detractores dos seus vinhos. A família Ferreirinha da Régua, composta de dona Antónia Adelaide, de seu marido Silva Torres, o milionário, digno de o ser pela bizarria das suas generosidades, de sua filha e genro, condes da Azambuja, tinham ido, rio acima, à sua celebrada quinta do Vesúvio, e convidaram o barão de Forrester a passar uma semana em sua companhia. No dia 12, um alegre domingo, saíram todos do Vesúvio, na intenção de jantarem na Régua. O Douro tinha engrossado com a chuva de dois dias, e a rapidez da corrente era caudalosa. Aproando ao ponto do Cachão, formidável sorvedouro em que a onda referve e redemoinha vertiginosamente, o barco fez um corcovo, estalou, abriu de golpe e mergulhou no declive da catadupa.
O barão sofrera a pancada do mastro quando se lançava à corrente, nadando. Ainda fez algum esforço por apegar à margem; mas, fatigado de bracejar no teso da corrente ou aturdido pelo golpe, estrebuchou alguns segundos de agonia e desapareceu. Salvaram-se os outros, não todos, com a protecção de uns barcos que aí estavam para recolher o despojo de outro naufrágio de um transporte de cereais. Livrou-se Torres, o futuro par do reino, agarrado a um barril de azeite, até que o recolheram a um dos barcos. Dona Antónia e o conde de Azambuja aferraram-se às dragas do barco. A condessa foi salva por um marinheiro. Um juiz de direito, Aragão Mascarenhas, agarrou-se à vara do barco rijamente, qual o temos sempre visto filado à vara da Justiça, em naufrágio de trapaças. Mas nem todos saíram com vida. Um criado de Torres foi logo tragado pela cachoeira; e, abraçada com a vela, já quando se lhe estendia um braço redentor, afogou-se uma criatura a quem os noticiaristas não deram a mínima importância. Pois foi uma perda insubstituível. Era a Gertrudes, um tesouro de jóias culinárias que a voragem engoliu...''.
 
Este desastre, pelas circunstâncias em que se deu (Dona Antónia Ferreirinha, que viajava com ele, e mais outras senhoras, salvaram-se graças ao fole das suas saias) e ainda, pelo facto de ter vitimado o Barão de Forrester, foi durante muito tempo motivo de estranhas e singulares versões, tanto mais que o seu cadáver nunca apareceu (dizia-se, na altura, que era usual o Barão carregar muitas moedas de ouro no forro de cabedal do seu largo cinto). Admitiram-se ou criaram-se lendas e fantasias à volta do sinistro Cachão do Douro e, no caso, chegou-se a conjecturar um crime. De tudo, porém, nada se averiguou e nada se provou...


 

Quinta do Vesúvio em foto de Emílio Biel no fim do século XIX


 
Quinta do Vesúvio
 
 
 

Cachão da Valeira
 
 
“O Barão de Forrester, radicado em Portugal, no Douro e na cidade do Porto, onde possuiu uma riquíssima moradia para as bandas da Ramada Alta, proprietário, produtor e comerciante, foi uma destacada figura da cidade do Porto, naquela época. Dedicou o seu tempo e saber procurando por todas as formas fazer acreditar e qualificar o Vinho do Porto. Entre 1843 e 1860 publicou vários trabalhos, escrevendo-os e ilustrando-os com excelentes desenhos, sobre o cultivo e a produção dos vinhos durienses. Os seus trabalhos “A crise comercial explica-se” e “A verdadeira causa da crise comercial do Porto” contribuíram grandemente para debelar o pânico e estimular as energias das gentes do Douro seriamente abaladas com o flagelo que devastou grande parte dos vinhedos, em 1859.
Ficaram famosos os seus mapas e notas, em “O país vinhateiro do Alto-Douro”, publicado em Português e Inglês e, mais tarde, reeditado pela Câmara dos Comuns, em Londres.
Na que tinha sido a sua casa apalaçada da Ramada Alta, mesmo depois de desaparecido, continuaram as famosas reuniões que, antes, ele organizava. A sua memória serviria, nessa altura, para oportunismos e negócios pouco claros, de tal modo que, em 1884, Camilo publicou algumas tremendas críticas àquelas reuniões, o que provocou um ruidoso escândalo devido à forma como ele tratava as gentes da Assembleia Portuense, os do Palheiro como os qualificou, que se serviam das memórias do falecido, para provarem e abusarem das libações do magnifico vinho, que tanto o Barão de Forrester procurou dignificar”.
Fonte: coisasdoarco-da-velha.blogspot.pt


 
Voltando ao lugar da Ramada Alta, a Rua de Serpa Pinto foi rasgada entre 1837 e 1844, a fim de ligar a Ramada Alta e o Matadouro Municipal.
O grande ex-libris do Largo da Ramada Alta é, todavia, sem dúvidas, a sua Capela do Senhor da Agonia que tem como orago o Senhor do Calvário. É um templo modesto que, em 1838, beneficiou de obras de restauro e ampliação, que foram financiadas tais como a edificação da torre sineira por um cidadão espanhol de nome António Miguel Garcia que tem o seu retrato pintado a óleo no interior da capela e uma lápide na frontaria. A Capela da Ramada Alta, como é conhecida, ficava num dos caminhos percorridos pelos romeiros que desde a Torre de Pedro Sem se dirigiam sobretudo às festas da Senhora da Hora, em Bouças (Matosinhos), depois de passarem por Ramalde.
Em 28 de Maio de 1907, D. Carlos concedeu-lhe o título de "Capela Real".

 

Capela do Senhor da Agonia, em 1960

 
Na foto acima a placa ajardinada atrás da capela já não existe, bem como o edifício ao fundo à direita.
A Ramada Alta foi ainda um posto de barreira para cobrança do “ Real de Água” desde 1836, quando o governo decidiu colocá-los em redor da cidade em locais estratégicos tais como Massarelos, Pena, Vilar, Bom Sucesso, Valas (Nossa Senhora de Fátima), Carvalhido, Águas Férreas, Salgueiros, Sério (Antero de Quental), Aguardente (Marquês), Congregados (Rua da Alegria), Doze Casas, S. Jerónimo (Santos Pousada), Bonfim, Corticeira, Campanhã e Guindais.

 
 

A Ramada Alta nos começos do século XX, vendo-se ao fundo à esquerda a igreja da Lapa – Fonte: JN


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