sábado, 11 de fevereiro de 2023

25.178 Procissões, Vias-Sacras, Ladainhas, Superstições, Senhor da Boa Fortuna e Senhor de Fora

Superstições

Uma das superstições mais presentes na religiosidade dos católicos tem que ver com a presença do Demónio nas encruzilhadas dos caminhos para desviar da fé a humanidade. Por esta razão, aqueles locais são servidos por cruzeiros, alminhas e oratórios que servindo para a oração, tinham também por função recolher as esmolas.
Uma outra curiosa superstição é contada, em 1899, pelo escritor e jornalista Alberto Pimentel, na qual foi interveniente, ainda criança, em meados do século XIX. Tratava-se de uma prática exercida por alguns portuenses, muito devotos e supersticiosos, denominada “andar às vozes”, que determinava uma visita à capela da Senhora das Verdades, na Sé.
 
 
“A locução “Andar às vozes” exprime o facto de qualquer pessoa vaguear pela rua à escuta do que os outros dizem, para tirar agoiro do que eles disserem. E, segundo o que ouvir, esperará boa ou má fortuna no negócio que traz no pensamento. Castilho, no “Amor e Melancolia” aludiu a esta tradição relativizando-a apenas com a noite festiva do Santo Percursor;
 
“Qual com bochecho na boca
Aplicando atento ouvido
Espera que á meia-noite
Seja um nome proferido”.
 
No Porto acresce á tradição o costume de, quando alguém “andar às vozes” se dirigir como em silenciosa romagem, à Capelinha da Senhora das Verdades. Tal é o pitoresco especial da versão portuense.
Crê que a Virgem daquela invocação fará com que as pessoas que encontramos pela rua nos revelem involuntariamente ou inconscientemente o porvir dizendo “verdades” que o tempo confirmará.
Eu fui muitas vezes, quando era pequeno, à referida capelinha, para acompanhar uma pessoa da minha família, que acreditava na tradição de que pelas vozes se ficava sabendo a verdade futura.
Saíamos de casa depois das nove horas da noite e íamos atravessando a cidade, sem dizer palavra, em direção à Sé…Eu e a pessoa que eu acompanhava ali, ajoelhávamos no degrau da porta, quando chegávamos ao termo da nossa silenciosa romagem… Chegava a aborrecer-me aquela maçada de atravessar em silêncio a cidade, do Bairro Ocidental para o Bairro Oriental. Quando já, perto de mim, negrejavam as paredes da Sé, na solidão e no silêncio, a minha tristeza, misto de enfado e terror, aumentava a ponto de me fazer tremer às vezes. Não sei se rezava ou o que rezava, enquanto essa querida pessoa orava fervorosamente com os lábios colados a um dos ralos, como se estivesse falando a Nossa Senhora para dentro da ermida… A pessoa que eu acompanhava, ao voltarmos para casa, vinha quase sempre preocupada, a resolver na mente as “vozes”, agradáveis ou desagradáveis, que tinha ouvido. Pobre e crédula criatura, antegosava a felicidade que lhe tinha sido anunciada, ou vergada ao peso de alguma profecia de desgraça, de algum aviso aziago, acreditando, por igual, uma ou outra cousa. Aqui está, pois, como segundo a versão do Porto, a Capela de Nossa Senhora das Verdades é o termo tradicional de “andar às vozes”. Como é do estilo não falar quando se ”anda às vozes” algumas pessoas para evitar o descuido de não guardar silêncio (o que estragaria a romagem) sujeitam-se ao incómodo do bochecho. Mas por isso mesmo que é incomodo, a maior parte da gente dispensa-o, cerrando os dentes uns contra os outros e pondo toda a sua atenção em não dizer palavra”.
Alberto Pimentel
 
 
 

Capela de Nossa Senhora das Verdades, na Sé



 

Escadas das Verdades. Ao cimo destas escadas, à direita, fica a capela das Verdades


 
 
 Procissões

As procissões tiveram lugar desde sempre, mas, no Porto, sobressaem algumas levadas a efeito nos séculos XVI e XVII, explicitadas no texto abaixo.


Fonte: Estevão Samagaio, in revista o "Tripeiro", Série Nova, Ano VI, N.º 8



Algumas procissões eram de Graças e, a partir do início do século XIX, uma delas tinha grande adesão popular, que o texto abaixo destaca.



Fonte: Estevão Samagaio, in revista o "Tripeiro", Série Nova, Ano VI, N.º 8


Segundo, ainda, Alberto Pimentel:
 
"Burguês e religioso, o Porto não deixava de fazer nenhuma das suas grandes procissões, aliás muito dispendiosas".
 
 
O dinheiro para que aquelas manifestações de fé se realizassem, acabava sempre por aparecer.
O texto que se segue refere-se ao período, de 1850 a 1890, vivido pela sociedade portuense, no que concerne à expressão prática da sua religiosidade.
 
 
“ A burguesia, que chegara a andar um tanto arredada das igrejas, arrependera-se, parece, como já notámos; mas por voltar a praticar os actos externos do culto católico, não se deve concluir que tivessem recrudescido nela a Fé e o verdadeiro espírito religioso...
...Porém, o que é facto é que os burgueses eram, quase todos, segundo Ramalho Ortigão, “irmãos de Confrarias, mesários de Irmandades, fidelíssimos às pomposas procissões da Trindade, do Carmo e de S. Francisco, fervorosos devotos do Senhor de Matosinhos e do Senhor da Pedra, e grandes festeiros de S. João. Alguns iam à Missa das Almas em cada dia. Todos frequentavam regularmente os Sacramentos e visitavam aos domingos de tarde o Senhor Exposto...
...Quase todas as lojas comerciais tinham na parede do fundo um nicho com a imagem de Santo António, ...
...E na casa de qualquer bom burguês havia sempre um santuário, com relíquias de Santos, figuras de Cristo na Cruz, da Mater Dolorosa, de S. João – diante do qual uma lâmpada permanentemente ardia, “ nos lutos de família, nas duras atribulações domésticas e nas ocasiões de alguns júbilos inesperados, conta-nos Alberto Pimentel falando da casa de seus pais na Rua da Sovela, era diante do santuário, abertas de par em par as cortinas de seda vermelha, que todos ajoelhavam, de mãos postas, rezando a Deus”…
...Em benemerência não tinha o Tripeiro quem o ultrapassasse. Além da Misericórdia que os portuenses muito auxiliavam eram numerosos os estabelecimentos de caridade que o Porto sustentava”.
Artur de Magalhães Basto, em “O Porto do Romantismo”
 
 
 
Naqueles tempos, a sociedade portuense, por tradição, não deixava de marcar presença no chamado Lausperene.
No Porto, desde o séc. XVIII e durante muitos anos, havia Lausperene todos os dias, em diferentes igrejas: à Terça-Feira nos Terceiros Carmelitas; à Quarta-Feira na Igreja do Terço e Caridade; à Quinta-Feira na Capela das Almas; à Sexta-Feira na Igreja da Misericórdia e no extinto Convento de S. Domingos, até 1832; aos Domingos na Trindade.
A Igreja dos Clérigos foi a única que manteve esta tradição aos Sábados.
O Lausperene consiste na exposição da hóstia consagrada, chamada de Santíssimo Sacramento, na igreja, aos fiéis. O sagrado Lausperene tem, normalmente, uma duração de 40 horas, em referência ao período em que o corpo de Jesus Cristo permaneceu no túmulo até acontecer a ressurreição.
 
 
 

A Igreja dos Clérigos continuou a manter a tradição do Lausperene, todos os Sábados

 
 
Por sua vez, as grandes procissões eram as de Cinza, que saía de S. Francisco, a do Carmo, a da Trindade e a do Terço.
Havia duas outras procissões, menos aparatosas que aquelas, mas também muito concorridas, a de Passos e a da Paixão, que obrigavam as damas a toilettes pretas. 
Por último, a procissão do Corpus Christi, atraía muita gente pela presença da Câmara Municipal, do bispo, do Governador Civil e de toda a guarnição militar.
Esta procissão do Corpus Christi era grandiosa, mas nas últimas décadas do século XIX, já tinha perdido parte do seu fulgor.
O “Jornal do Porto”, de 7 Junho de 1871, na sua pág. 2, dava conta disso mesmo ao anunciar, para o dia seguinte, a saída de uma delas, descrevendo, ao mesmo tempo, como tudo se passava cerca de 150 anos, antes.

 
 



Procissão do Corpo de Deus, c.1910, passando na Praça da Batalha

 
 

Cortesia de Rui Cunha

 
 
Muito curiosa e divertida é a narrativa sobre as peripécias vividas por uma jovem durante uma procissão para as bandas dos Carvalhos do Monte (actual Largo 1º de Dezembro) e que o jornal "A Nação" publicou, baseado em notícia, originalmente saída no periódico portuense "O Nacional".



In jornal "A Nação" em 9 de Julho de 1856




Gravura da capela de Santo António do Penedo, aos Carvalhos do Monte



As vias-sacras e as ladainhas sempre foram, também, as cerimónias religiosas da maior predilecção das gentes portuenses.
Por exemplo, nas procissões dos Senhores dos Passos iluminavam-se as várias capelas dos Passos que estavam espalhadas pela cidade, de que restam ainda duas delas.
Uma está na Rua de S. Sebastião e, a outra, em frente à Igreja de S. Nicolau, na Rua do Infante D. Henrique. Esta última estava inicialmente na Rua de S. Francisco e passou, ainda, pela Rua Ferreira Borges.
As Procissões dos Senhores dos Passos eram realizadas pelos frades do convento dos Grilos, donde saíam na Segunda-Feira da Quaresma em direcção à igreja de S. João Novo.
O primeiro oratório era em S. Sebastião, seguindo-se dois na Rua do Loureiro, que foram demolidos para edificar a estação de S. Bento.
Um outro existia no Largo de S. Domingos, a que se seguia um na Rua das Congostas (encostado à cota mais alta à Fonte das Congostas) e, o tal, na Rua de S. Francisco. O último estava na Ferraria de Baixo, hoje Rua Comércio do Porto.

 
 

Capela do Senhor dos Passos na Rua de S. Sebastião

 
 

Capela do Senhor dos Passos em frente à Igreja de S. Nicolau – Fonte: Google maps
 
 
 
Na quinta-feira à noite, a imagem do Senhor dos Passos fazia percurso inverso, saía de S. João Novo para a Sé.
Acompanhava-a uma personagem paga em dinheiro e com uma refeição de polvo e feijão fradinho, vestido com uma capa escarlate e um capacete romano que, de tempos-a-tempos, tocava uma buzina, simbolizando um judeu, que chamava os seus, para virem cruxificar Cristo.
Essa personagem era o “Fagote”, que era continuamente apupado pelo povo.
Noutros tempos, outro cortejo saía na Sexta-feira Santa da igreja de S. Francisco para o convento de Santa Clara, na “procissão do Senhor Morto”.
Uma outra Procissão do Senhor dos Passos, na segunda metade do século XIX, acontecia no Domingo de Páscoa em Paranhos, durante a qual, numa cerimónia que consistia na reunião de dois andores, vindos de lados opostos, um do Senhor dos Passos e outro da Senhora das Dores, era produzido um sermão por um orador.
Algumas destas personagens, com grandes dotes de oratória ficaram célebres, pelo efeito produzido. Hoje, nas imediações duma capela próxima da qual se dava o “encontro” existe, ainda, a Rua do Encontro.
Também, na Semana Santa, organizou a Misericórdia do Porto uma procissão até 1835, chamada dos Fogaréus.
Os fogaréus eram grandes tigelas feitas de arcos de pipas girando sobre dois eixos a fim de poderem suster-se equilibradas sobre a haste.
Dentro delas ardiam pinhas para darem bom lume.
A Procissão das Endoenças (indulgências) ou dos Fogaréus, realizava-se, através das ruas do Porto, na noite de Quinta-feira Santa.
O préstito, fechando com a insígnia de Cristo Morto, partia da igreja da Misericórdia e dirigia-se ao Convento da Ave-Maria, em cuja igreja entrava, e seguia pela Rua do Loureiro acima, atravessava a Rua Chã e de Santo António do Penedo, e entrava na Igreja de Santa Clara. Subia a Calçada de Vandoma e, depois de passar sob o Arco, entrava na Sé Catedral. Descia, então, até à Rua Nova, entrando na Igreja de S. Francisco, e subia depois pela íngreme Ferraria de Baixo até S. Domingos. Daí, recolhia à Misericórdia já perto da meia-noite. 
Em 2018, a procissão das Endoenças voltou a sair da Rua das Flores, da Igreja da Misericórdia, subindo até à Sé. 

 
 

Gravura de Gouveia Portuense da Procissão dos Fogaréus– Fonte: “portoarc.blogspot.pt”



 

Última Procissão, promovida pela Venerável Ordem Terceira de São Francisco, na Quarta-Feira de Cinzas, em 1905, descendo a Rua de Sá da Bandeira - Cortesia do padre Vítor Ramos

 
 
Muitas outras procissões que percorreram as ruas da cidade eram dedicadas à Virgem Maria, à Nossa Senhora da Saúde e outras referências do calendário litúrgico.

 
 
 

Procissão, em 1905, passando na Rua dos Clérigos – Ed. Aurélio da Paz dos Réis


 
 

Procissão, em 1906, passando na Rua dos Clérigos – Ed. Aurélio da Paz dos Réis

 
 

Procissão, em 1908, descendo a Rua das Carmelitas – Ed. Aurélio da Paz dos Réis
 
 
 
Outras procissões eram levadas a cabo, como sejam as “Procissões de Graças” e as “Procissões de Preces”. Como exemplo, se refere no texto seguinte as que tinham a presidir o “Senhor Jesus d’Além”, adorado numa capela do lado de lá do rio, em V. N. de Gaia, que o povo costumava glosar numa cantoria:

 
“Capela do Senhor d’Além
Lá se foram as romarias
Estás do lado errado da ponte
Deus te dê melhores dias"
 
 
 
 
"A capela do Senhor d'Além, que fica nas abas da Serra do Pilar, mesmo em frente aos Guindais, além-Douro, portanto, e daí o nome, e a respectiva irmandade foram, durante muitos anos, "administradas pela cidade" (do Porto). Em determinadas ocasiões os edis portuenses, na qualidade de administradores do templo e da confraria, iam ao lado de lá buscar a imagem do Senhor d'Além para que participasse nas chamadas "Procissões de Preces". Acontecia, por exemplo, em tempos de seca ou de inundações. A Câmara organizava então "procissões de preces", para pedir chuva, se fosse o caso, ou para solicitar o termo de calamitosas cheias. Mas também se realizavam, com a presença da imagem do Senhor d'Além, "Procissões de Graças". Como aquela que aconteceu no dia 18 de Novembro de 1755. Dias antes a cidade de Lisboa havia sido destruída por um terrível terramoto. A cidade do Porto saíra praticamente ilesa dessa catástrofe. Aqui caíra apenas o tecto da capela de S. Roque, que ficava perto da Sé; a torre da igreja dos padres da Congregação de S. Filipe de Nery (Congregados) e pouso mais. Logo naquele dia, segundo consta da acta da reunião municipal que então se realizou, "… sendo convocados na forma do estilo a Nobreza e Povo foi proposto pelo Procurador da cidade que, não tendo acontecido entre nós nem ruína nem mortandade, era justo fazer-se uma Procissão de Graças e que estas deviam ser rendidas especialmente à Veneranda Imagem do Senhor d'Além…"
Cortesia de Germano Silva
 
 
 
 


 
 
 
Por vezes, para as “Procissões de Graças”, o Porto lançava mão de ajudas divinas externas e o Senhor Jesus de Bouças (Matosinhos) estava, ali, à mão de semear.
Assim, a imagem do Senhor de Bouças seria levada várias vezes em procissão solene à cidade do Porto, em situações fatídicas para o Porto e a pedido das gentes da cidade, fosse por calamidades de origem climatérica, fosse por doenças infecto-contagiosas.
A primeira vez foi em 1526, ano de tanta chuva, em Portugal, que levou à perda da maior parte das searas e a muitas cheias fluviais.
A segunda vez, de que se tem conhecimento, foi a 07/06/1585, seguindo-se a 31/05/1596 e a 20/06/1644.
Nesta última visita, em 1644, no dia 20 de Junho, a presença da imagem foi solicitada à irmandade do Bom Jesus, pelo Senado do Porto, que pediu auxílio para que tivesse fim um dilúvio, tornado calamidade pública e que afectara a cidade. Nesta procissão ter-se-ão incorporado cerca de quarenta mil pessoas.
Outro tipo de cortejo religioso era o chamado “Senhor de Fora”.
Estes cortejos, dirigidos por uma entidade religiosa, atravessavam as ruas da cidade e dirigiam-se a casa de moribundos, que estavam prestes a exalar o último suspiro.

 
O “Senhor de Fora” era um dos quadros mais sentimentais, de mais suave ternura e maior unção religiosa, tocante e pequeno na sua modesta simplicidade, mas grande e sublime no seu significado cristão, era a passagem do “Senhor de Fora”, através das ruas da nossa cidade.
 
 
 

O “Senhor de Fora” percorrendo as ruas do Porto – Desenho de Manuel Monterroso

 
 
A saída do cortejo religioso, para dar o viático a um moribundo, era sempre acompanhada pelo "toque do Senhor de Fora", badalado por um sino da igreja da paróquia.
Qualquer que fosse a hora, dia ou noite, os vizinhos acompanhavam o cortejo, mesmo não sabendo quem era a pessoa que ia ser assistida.
Viático é, na Igreja Católica, a comunhão eucarística dada àqueles que estão prestes a morrer.




Cruzeiros


Outras provas de devoção aconteciam dos cruzeiros dedicados ao Senhor da Boa Fortuna, a grande maioria já retirados e desaparecidos.
Pelo sítio dos Carvalhos do Monte e da Porta do Sol esteve, em tempos, um cruzeiro dedicado ao Senhor da Boa Fortuna.
Este ficava junto da actual Rua Saraiva Carvalho, onde se situa hoje o Largo 1º de Dezembro; o segundo ao cimo da Rua de Ferraria de Cima, actual Rua dos Caldeireiros, onde era feita uma festa; um terceiro pode ser observado na Rua do Barredo.

 
 
 

Largo de Santo António do Penedo e, à direita, o cruzeiro onde estava exposto a imagem do Senhor da Boa Fortuna – Gravura (antes de 1875) de Gouvêa Portuense





Senhor da Boa Fortuna
 
 
 
Na foto acima está a imagem do Senhor da Boa Fortuna, que encimava o cruzeiro existente nos Carvalhos do Monte e que, agora, se encontra junto do jazigo de Freitas Fortuna, no cemitério da Lapa, onde também está sepultado Camilo Castelo Branco.

 
 
 

Anúncio de festa do Senhor da Boa Fortuna, ao Postigo do Sol - In trisemanário "O Curioso", de 11 de Setembro de 1846 (6ª Feira)

 
 
Hoje, a festa da Rua dos Caldeireiros decorre no mes­mo sítio, mas junto  de um crucifixo que se encontra exposto num nicho existente na fachada de um prédio da Rua dos Caldeirei­ros, na esquina com a Travessa do Ferraz, já que os cruzeiros foram há muito retirados das ruas da cidade.
 
 
 
 

Na fachada do prédio, mais próximo, na Rua dos Caldeireiros, observa-se o nicho dedicado ao Senhor da Boa Fortuna – Fonte: Google maps



O trajecto das procissões era marcado por estações assinaladas por cruzeiros de pedra. Na cidade do Porto, eram às dezenas, essas cruzes implantadas nos percursos daqueles cortejos religiosos.
A cidade chegou a um ponto que, teve, no seu desenvolvimento natural, de as fazer recolher. Não foi fácil.
 
 
 
“(…) os chamados cruzeiros ou padrões, que estavam fixados na via pública. Eram produto da devoção popular e correspon­diam, em alguns casos, a promessas feitas por devotos.  Por exemplo: em 1643, três anos depois da restauração de independência de Portu­gal, um devoto do Santo António mandou levantar, nos Carvalhos do Monte, o atual largo do 1.° de Dezembro, junto da capela que aí existia dedicada ao Santo António, um cruzeiro da invocação deste santo com uma legenda na base em que se pedia "um Padre Nosso e uma Ave-Maria pela alma dos leais ao nosso reino". 
Durante muitos anos a única iluminação pública que à noite havia na cidade provi­nha da chama, mortiça, na maioria dos ca­sos, que tremulava em lampiões ou lampa­rinas colocados na base em que assentavam os cruzeiros que estavam espalhados um pouco por toda a cidade. Só na Rua do Bon­jardim havia quinze. 
Logo a seguir ao Cerco, ou seja, a partir de 1834 o Porto começou a progredir de uma forma até aí nunca vista. É o tempo do iní­cio da industrialização. Começam a ser construídas inúmeras fábricas. Da provín­cia vem gente para trabalhar na indústria. Aumenta a população e aumenta o consu­mo. Todos os dias abrem novos estabeleci­mentos de comércio. Constroem-se merca­dos públicos, abrem-se novas ruas, rasgam-se amplas avenidas, surgem os primeiros transportes coletivos. A cidade, especial­mente às terças-feiras, dia de feira semanal, abarrota de gente. O trânsito de "america­nos", de carroças e de carros de bois faz-se com dificuldade. 
Perante o cenário acima exposto, a edili­dade portuense chega a uma conclusão: os cruzeiros na via pública são um estorvo ao desenvolvimento da urbe. E em 1838, uma ordem camarária manda que se retirem da via pública. A imposição não foi bem rece­bida pela população. E levou muitos anos a ser executada. 
Entretanto, no que se refere ao cruzeiro do Senhor da Boa Fortuna que estava nas portas do Sol, como era conhecido o sítio, atrás referido, da atual Rua de Augusto Rosa, foi de lá retirado por João António de Frei­tas Fortuna, com a alegação de que o cruzei­ro era dele. Ninguém protestou. Nem a Câ­mara. Afinal, cumprira-se o que a edilidade pretendia: que o cruzeiro fosse retirado da via pública.  O cruzeiro está agora no jazigo da família Freitas Fortuna, no cemitério da Ordem da Lapa onde, para além dos membros daque­la respeitada família portuense, também está sepultado Camilo Castelo Branco, que foi grande amigo de António de Freitas For­tuna. Com o cruzeiro da Rua dos Caldeireiros, sucedeu exatamente a mesma coisa. Du­rante uma determinada noite de 1869, a cruz, representado o Senhor da Boa Fortu­na, que estava ao topo da antiga Ferraria de Cima, desapareceu misteriosamente. Ou talvez não! 
Soube-se, com efeito, que fora retirado do local por um vizinho também com a argu­mentação de que o cruzeiro era seu. Ainda houve quem se queixasse ao vereador To­más Joaquim Dias, responsável pela retira­da dos cruzeiros da via pública. Mas como no caso precedente, aqui a Câmara nem se­quer atuou. Afinal, cumprira-se a determi­nação camarária que ordenava a remoção dos cruzeiros da via pública. 
Uma curiosidade: aquele vereador empenhou-se com tanto afinco e determinação em fazer cumprir a disposição camarária que passou à história com o epíteto de "o arrinca Cristos". 
Na edícula (nicho reservado para abrigar as imagens dos santos) da Rua dos Caldeireiros está hoje uma pequena cruz com a imagem de Cristo crucificado. É junto dela que decor­re a festa ao Senhor da Boa Fortuna da fre­guesia da Vitória, uma tradição há anos re­cuperada. Festa grandiosa fazia-se, noutros tempos, ao Senhor da Boa Fortuna da Por­ta do Sol.
No Barredo, local outrora habitado por mari­nheiros, embarcadiços e estivadores, ainda hoje é possível encontrar vestígios de antigos símbolos de religiosidade ligados a patronos ou padroeiros das atividades marítimas. Na traves­sa dos Canastreiros, ainda se veem os restos de um oratório onde se venerava a imagem do Se­nhor de Matosinhos. Na Rua de Baixo é visível o nicho do Senhor dos Aflitos. Mas a imagem mais venerada por estas bandas é a do Senhor da Boa Fortuna, exposta numa espécie de capela como que embutida na frontaria de uma casa do século XVII, com a sua lâmpada suspensa de um varão de ferro”. 
Com a devida vénia a Germano Silva
 
 
Quase todos os cruzeiros eram importantes para quem os adorava. Um deles encontrava-se fronteiro ao edifício que foi os Celeiros da Cidade, à Cordoaria, no local que hoje é o Palácio da Justiça e, depois, alojou os quartéis militares dos terços destinados à guarnição da cidade.
Era o “Cruzeiro dos Peixeiros”, que foi removido para a igreja de S. José das Taipas, em 1 de Junho de 1869, quando foi dada ordem municipal para a sua remoção. Os devotos conseguiram que ele fosse preservado na vizinha igreja de S. José das Taipas.
 
 

Cruzeiro dos Peixeiros, actualmente, no Museu da Igreja de S. José das Taipas, à Cordoaria – Ed. Graça Correia
 
 
 
 
Em 14 de Outubro de 1869, recolheram-se no cemitério da igreja de Santo Ildefonso treze cruzeiros pintados com a Crucifixão, de várias invocações, os quais a Câmara retirou das ruas do Bonjardim e Calvário, não sem vivos clamores dos devotos.
No local se benzeram, no dia 1 de Novembro, motivo de gáudio e rija festa com iluminação, fogo, embandeiramentos e filarmónicas.
Nos nossos dias, restam muito poucos destes cruzeiros, implantados na cidade.
 
 
 
 

Cruzeiro do Senhor do Padrão, ao Carvalhido. Encontra-se, actualmente) a cerca de meia centena de metros do local primitivo – Ed. JPortojo

 
 

Cruzeiro do Padrão da Légua na confluência das ruas de Recarei e do Senhor – Fonte: Google maps

 
 
 
Alminhas, Oratórios e Nichos


As alminhas são locais de culto que se destinam à oração e à recolha de esmolas, colocadas, por isso, em locais de trânsito.
Estão ligadas à ideia antiga de Purgatório, que teve vencimento pleno a partir do Concílio de Trento (1545).
As alminhas tiveram grande expressão, em Portugal, principalmente, no norte, podendo ainda encontrar-se algumas espalhadas pela cidade do Porto. Há quem estime a sua existência, ainda, em cerca de vinte.
Muitas alminhas encontravam-se, então, distribuídas pela cidade.
A sua finalidade é a redenção das almas que vão para o purgatório e com a ajuda das esmolas e missas mandadas rezar pelos familiares dos falecidos, seja obtido aquele desiderato.
 
“As alminhas são a mais singular forma que o povo cristão encontrou para lembrar seus mortos (…). São quase sempre pedras velhas talhadas como capelinhas (…). Eram memorial. Encerravam a lição do Purgatório”. Alberto Correia – Fonte: “aviagemdosargonautas.net”
 
 
Por exemplo na freguesia de Ramalde ainda se encontram três “Alminhas”.
 
 
 

Alminhas junto ao viaduto da Rua Pedro Hispano (Ramalde) – Ed. José Magalhães



O viaduto da Rua Pedro Hispano, na foto anterior, foi executado na década de 1960.
 
 

O viaduto da Rua Pedro Hispano, em 1964, em fase de acabamentos


O viaduto da Rua Pedro Hispano, em 1966, já aberto ao trânsito




 

Alminhas, na Rua do Castelo de Guimarães (Ramalde), junto do Bairro do Património dos Pobres do Carvalhido – Ed. José Magalhães


 

Alminhas na Rua do Monte dos Burgos (Ramalde) – Fonte: “gisaweb.cm-porto.pt”

 
 
As alminhas da foto acima estão, hoje, no mesmo local (esquina da Rua do Monte dos Burgos com a Rua de Santa Luzia), mas embutidas num prédio.
 
 
 

Alminhas na esquina das ruas do Monte dos Burgos e de Santa Lúzia

 

 
 
Alminhas na Capela do Senhor do Socorro, antiga capela do Senhor do Olho Vivo, na esquina das ruas Antero Quental e Monte da Lapa

 
 
 

“Alminha” na fachada sul da capela do Senhor da Agonia, na Ramada Alta

 
 

“Alminha” nas traseiras da capela do Senhor da Agonia, na Ramada Alta


 
A "alminha", das fotos abaixo, ainda existe embutido na fachada de um prédio, situado na Rua Formosa, quase em frente à Rua Dr. Alves da Veiga, desde os tempos em que foi construído por um proprietário devoto.
Nos dias de hoje, o zelador daquelas alminhas é a paróquia de Santo Ildefonso.


 

Alminhas da Rua Formosa
 
 
 
 
 

Alminhas da Rua Formosa – Ed. “ruasdoporto.blogspot.pt”


 
 
Os oratórios eram locais de culto e reportavam a devoções específicas de alguns residentes na área de implantação.
 

Oratório do Senhor dos Aflitos, c. 1900 – Fonte: Foto Guedes; CMP, Arquivo Histórico Municipal
 
 
 
 
O oratório da foto acima esteve colocado, até 1911, na esquina das ruas da Bainharia (à esquerda), Escura (em 1.º plano), dos Pelames (à direita) e do Souto (em frente). Foi, naquela data, retirado por ser alvo de ataques a tiro, feitos por desconhecidos.



 

A mesma perspectiva (actual) da foto anterior – Fonte: Google maps
 
 
Na Rua do Barredo, também se presta culto ao Senhor da Boa Fortuna, exposto num nicho embutido num prédio.

 
 
Nicho do Senhor da Boa Fortuna, no Barredo









Em 18 de novembro de 1682, é constituída a Confraria de Nossa Senhora da Silva, no Hospital de São João Baptista (na Rua dos Caldeireiros, n.º 104), por fusão das duas associações dos ferreiros de Cima (de Vila) e dos ferreiros de Baixo (da Reboleira).
O hospital tem no 1.º andar uma capela de Nossa Senhora da Silva e, também, tem as imagens de São João Batista e de São Baldomero.

 
 

Oratório e capela de Nossa Senhora da Silva
 
 
 
 
Nas fotos abaixo, sen­sivelmente a meio da Rua de Cristelo (Cristelo, isto é, um Cristo pequeno?), do lado direito, para quem vai da Calçada de Sobre-o-Douro em direcção à Alameda de Basílio Teles, encontra-se uma cobertura envidraçada, en­costada à fachada de um prédio, sob um al­pendre, e que protege uma cruz de pedra, onde foi pintada a imagem de Cris­to. À entrada do ano de 2018, o oratório estava abandonado e vandalizado.
Em 2022, já se encontrava preservado.
 
 
 

Oratório na Rua de Cristelo em Massarelos, em 2018 – Fonte: Google maps

 
 

Oratório na Rua de Cristelo, em 2018 – Colecção do Engº Amaral Gomes

 
 
Ainda em Massarelos, mas na Rua da Fonte de Massarelos, encontra-se outro exemplo de devoção das gentes deste sítio, antigamente muito ligado às lides do rio e do mar.
 
 
 
 

Oratório da Rua da Fonte de Massarelos – Fonte: JPortojo
 
 
 
“Massarelos desde tempos imemoriais ligada ao rio e ao mar, as suas gentes criaram esta memória provavelmente em 1732. Reconstruída em 1907 com obras que incidiram sobre a cobertura, os azulejos e as grades em ferro. A manutenção é feita pelos moradores. Bem, os azulejos não os vi.”
Fonte: J. Portojo 
 
 
“ (…) trata-se, aqui também, de uma imagem de Jesus cru­cificado pintada numa cruz de granito. A pie­dade popular, para preservar a imagem da intempérie, mandou erguer um elegante al­pendre rodeado por igualmente elegante grade de ferro. O que nunca falta, mesmo nos nossos dias, junto à imagem do Senhor dos Aflitos, são flores frescas, nem nunca se apa­ga a chama votiva da lamparina que os devo­tos do sítio mantêm permanentemente ace­sa. Mas não era somente dos rendimentos da pesca ou do tráfego marítimo que, antiga­mente, viviam as populações de Massarelos”.
Fonte: Germano Silva, In JN
 


Procissões na actualidade
 
 
Embora com uma carga emocional mais contida estas manifestações de fé continuam a ter alguns seguidores.
Assim, numa organização das vigararias nascente e poente da cidade do Porto, uma procissão dedicada à Virgem Maria, realizou-se a 31 de Maio de 2022 (3ª Feira), sendo presidida pelo bispo do Porto, D. Manuel Linda.
Teve início na Igreja da Santíssima Trindade e percorreu as ruas de Fernandes Tomás, Santa Catarina, Passos Manuel, Praça D. João I, Dr. Magalhães Lemos, Avenida dos Aliados e regressou à Trindade onde teve lugar a Bênção nas escadas da igreja. Foi acompanhada por mais de mil fiéis.
O bispo diria que, naquele dia, o calendário litúrgico assinalava o Dia da Visitação de Nossa Senhora a sua prima Isabel para a ajudar no seu tempo de gravidez.
Na ocasião, o prelado anunciou, ainda, que a procissão do Corpo de Deus ocorreria a 16 de Junho de 2022.
 
 

Procissão das velas, pelas ruas do Porto, em 31 de Maio de 2022

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

25.177 Jardins do Palácio de Cristal. Feira Popular e outras actividades lúdicas

 
“Os Jardins do Palácio de Cristal incluem o chamado Jardim Emílio David que possui belos exemplares de rododendros, camélias, araucárias, ginkgos e faias, para além de fontes e estátuas alegóricas às estações do ano.
A Avenida das Tílias constitui o eixo mais marcante deste parque e está ladeada pela Biblioteca Municipal Almeida Garrett (onde se situa a Galeria do Palácio), pela Concha Acústica e pela Capela de Carlos Alberto da Sardenha (edificada em 1849 pela princesa de Montléart). Perto situam-se um restaurante e uma esplanada com vista para o lago. Nesta avenida e noutros locais encontram-se estratégicos miradouros que proporcionam vistas panorâmicas do rio Douro e da cidade. É ao fundo desta avenida que encontramos a capela que a princesa de Montléart mandou erguer em homenagem ao seu irmão, o Rei Carlos Alberto.
Os jardins temáticos estão também representados, nomeadamente pelo Jardim das Plantas Aromáticas, o Jardim das Medicinais, o Jardim das Cidades Geminadas (inaugurado em 2009) e ainda o Jardim dos Sentimentos (inaugurado em 2007), onde se encontra a estátua “Dor” de Teixeira Lopes. Outros espaços aprazíveis são o Bosque, a Avenida dos Castanheiros-da-Índia e o Jardim do Roseiral que está enriquecido com significativos elementos do património artístico da cidade. Nas proximidades surgem sete magníficos exemplares de palmeiras da Califórnia.
Contíguos aos Jardins do Palácio de Cristal estão o Museu Romântico e o Solar do Vinho do Porto, ambos na Quinta da Macieirinha. Muito próximo encontra-se, também, a Quinta Tait, com jardins recheados de colecções de rosas, camélias, brincos-de-princesa e um majestoso Liriodendrum tulipifera que circundam a Casa Tait, onde funciona um Gabinete de Numismática”.
Fonte: pt.wikipedia.org

 
 

Fachada principal do Palácio de Cristal, c. 1910
 
 
 
 

Capela de Carlos Alberto na Avenida das Tílias - Ed. Delcampe.net

 
 

O Chalet - Ed. “O Porto e os seus Fotógrafos”, coordenação Teresa Siza, Porto 2001



A construção do chalet suíço, da foto anterior, já era anunciada pelo jornal "O Comércio do Porto" em 1864, dando-se notícia do seu arrendamento por seis anos a um negociante lisboeta, Sr. Jansen, proprietário da Fábrica de Cerveja Jansen. Esse equipamento destinava-se ao comércio de bebidas e comidas frias, sendo a oferta gastronómica completada por mais uns quantos restaurantes distribuídos pelos espaços, para além do restaurante principal. 
Para o chalet, a construção de três andares, em madeira, foi implantada sobre a denominada Gruta de Camões, por forma a servir também como mirante sobre o rio.
Muitos anos depois, naquele “chalet”, ao fundo da Avenida das Tílias, à direita, e perto da tal gruta, esteve o Real Velo-Club do Porto antes de ser transferido para as traseiras do Palácio dos Carrancas.

 
 

"Gruta Camões" sobre a qual esteve o chalet

 
 

“Chalet do Palácio de Cristal” e a “Gruta Camões” – Ed. SIPA
 
 
 
 
Durante a Exposição Industrial de 1891, os jardins do Palácio seriam beneficiados com um lago e uma gruta, com projecto de uma firma belga e cujo projectista, Florent Claes trabalhou, também, nos jardins do Palacete Braguinha, a S. Lázaro e foi autor, ainda, de alguns melhoramentos do Jardim da Cordoaria.
 
 
 

Lago e gruta do Palácio de Cristal inaugurados em 1891
 
 
A 6 de Novembro de 1891, seria nomeado para calafate da flotilha de 6 barcos a operar no lago, Miguel Pedro Correia, enquanto, em Setembro, os técnicos da empresa belga que conceberam os equipamentos já tinham partido.
No Domingo, 22 de Novembro de 1891, um dia de muita chuva, lago e gruta eram finalmente inaugurados pelo rei D. Carlos.
O poeta, escritor e historiador Sousa Viterbo, em 1907, sobre o projectista Florent Claes, deixou-nos algumas notas que estão expressas no texto abaixo.




In revista “O Tripeiro”, Vª série, Ano VII, Junho, 1951

 
 

Outra perspectiva da gruta e do lago do Palácio de Cristal

 
 

Jardins e lago original do Palácio de Cristal, em 1903

 
 

Lago do Palácio, em 1905, com a sua frota de barcos de recreio


 

Lago do Palácio de Cristal, actualmente - Ed. “bucolico-anonimo.blogspot.com”
 
 
 
Acabada a Exposição Internacional de 1865, a Sociedade do Palácio de Cristal, que lançou o empreendimento, passou a administrá-lo.
Passado pouco tempo, decidiu entregar a rentabilização dos espaços e equipamentos à firma Burnay & Guichard que, para o efeito, promoveu diversos tipos de espectáculos.
Na realidade, a exploração empresarial do edificado foi sempre deficitária.
Entre os espectáculos, de diversa índole, destacaram-se, nas últimas décadas do século XIX e pelos primeiros anos do século seguinte, o lançamento de balões, normalmente, tendo por base de operações a Avenida das Tílias. Era espectáculo muito concorrido e apreciado.
No dia 3 de Abril de 1904, o balonista António Fernandes, conhecido como “Ferramenta”, gaiense, nascido no Candal e serralheiro de profissão, partia do Palácio de Cristal como conta a notícia.
 
 
“António Bernardes construiu o seu balão que denominou de “O Português”, com uma capacidade para 1 200 metros cúbicos, que poderia elevar-se com o peso bruto de 800 Kg e marcou a sua primeira ascensão para o dia 3 de Abril de 1904 nos jardins do palácio de Cristal.
No dia aprazado o balão foi conduzido ao Palácio, em dois carros de bois, com a filarmónica a abrir caminho. Quando se ensaiava a ascensão o governador civil, temendo o pior, proibiu a subida. No entanto o “Ferramenta” cortou as cordas e o balão depois de roçar nas tílias subiu mesmo, perante os aplausos do público. Andou quatro horas pelo ar e foi pousar num campo, em S. Cosme, no concelho de Gondomar”. 
 
 
O balonista “Ferramenta” subiria, mais algumas vezes, no Palácio de Cristal, como quando o fez em benefício da aeronauta espanhola Mercedes, que tinha partido uma perna numa ascensão, na Praça de Touros da Rua da Alegria, e que terminou na Quinta de Sacais, tendo sido socorrida pelo Dr. Alfredo de Magalhães.
O balão do “Ferramenta”, dessa vez baptizado como “Internacional”, foi pousar a Rio Tinto, no meio de um viçoso nabal, tendo o seu proprietário, na ocasião, exigido a reparação dos prejuízos causados. 

 
 

António da Costa Bernardes, “O Ferramenta”
 
 
 

Balão de ar quente, no Palácio de Cristal, junto da Concha Acústica, no início do século XX


 

Publicidade a uma subida de balão a efectuar no Palácio de Cristal, em 1907

 
 
Durante o século XIX, os portuenses começaram, também, a dedicar uma atenção especial aos festejos de Carnaval.
Os cortejos carnavalescos sempre prestigiaram com a sua presença os jardins do Palácio de Cristal durante as suas exibições.


 

Palácio de Cristal no Carnaval de 1905 – Ed. Photo Guedes


 

Corso carnavalesco na primeira década de 1900



Muitos portuenses usufruíam dos jardins do Palácio de Cristal para socializarem e passearem pelas suas avenidas, observando os espectáculos oferecidos em diversos palcos e, por vezes, fazendo visitas ao mini-zoo que exibia, em jaulas, alguns animais e se situava num pequeno bosque.



 
Entrada lateral de acesso aos jardins do Palácio de Cristal (Esquina da Rua D. Manuel II e a Rua Jorge Vitervo Ferreira) percorrendo a Avenida dos Plátanos – In revista Brasil, 16 Setembro 1903
 
 
 

Viajando no Autoped, no Palácio, em 1918




Avenida das Tílias
 
 
 
 

Antigo zoo no bosque do Palácio de Cristal


 

Jaula dos macacos, em 1910



A música e o teatro tiveram grande expressão, em alguns palcos, nos jardins do Palácio de Cristal.
No topo sul da Avenida das Tílias, ainda hoje existe uma concha acústica, que é um equipamento cénico, disposto à volta da orquestra e aberto para a plateia, que reflecte o som dos instrumentos musicais para o público, e que é um elemento icónico do jardim.
Foi inaugurada na década de 1880.


 

Concha Acústica - Fonte: gisaweb.cm-porto
 
 
 
“A concha acústica é uma construção de pedra provavelmente edificada na década de oitenta do séc. XIX, exibindo na sua base a inscrição de uma conceituada fundição do Porto: Massarellos. A concha ostenta uma requintada decoração em ferro e a ladear a sua abertura encontram-se duas esculturas (provenientes do Val d’Osne) de mulheres, uma representando uma negra e a outra, uma egípcia”.
Fonte: Paula Torres Peixoto
 
 
Em Julho de 1886, passaria a funcionar como teatro um novo espaço nos jardins do Palácio de Cristal, junto da Avenida das Tílias.
Tal actividade aconteceria no Palco-Coreto, em alvenaria e ferro, de concepção do arquitecto Tomás Augusto Soller.
O arquitecto Tomás Soller (1848-1883) faleceu muito novo, com 35 anos.
Nessa ocasião, os seus colegas de profissão terão promovido uma recolha de fundos para prover a sua viúva.
Assim, a construção do palco-coreto, com projecto de Tomás Soller, ocorreria cerca de três anos após a morte do arquitecto.
 
 
"Inaugura-se amanhã o novo teatro-coreto recentemente construído nos jardins do Palácio de Cristal, segundo o plano delineado pelo falecido arquitecto Soller.
o cenário foi pintado por Guilherme de Lima e o pano de boca apresenta o Terreiro do Paço, em Lisboa."
Jornal "O Primeiro de Janeiro", de 10 de Julho de 1886 – Sábado
 
Passados dois dias, dizia o mesmo jornal a propósito do palco-coreto:
 
"É de alvenaria e ferro e, como se sabe, extremamente elegante. A cobertura metálica saiu das oficinas da Fundição de Massarelos."

 
 

Primeiro palco-coreto implantado nos jardins do Palácio de Cristal, à esquerda e, em frente, a meio, o Palácio dos Terenas e a sua torre – Gravura, madeira, por F. Pastor, in “Universo Ilustrado”- 2º vol. – Lisboa, Abril 1878

 
 
Atendendo à data de publicação da gravura anterior, o palco-coreto nela representado teria sido substituído pelo da concepção de Tomás Soller. Aliás, como se pode observar na notícia abaixo, era referido  em 1882, que tinha existido junto da "grande avenida" um coreto.

 
 
Jornal "O Comércio do Porto", de 2 de Julho de 1882

 
 
Na notícia acima, podemos observar que um dos concorrentes ao certame foi a viúva de Zeferino Matos, e que este horticultor, que teve um modesto horto na Rua da Boavista, à data, já tinha falecido.
Sabe-se que, em 1875, Zeferino Matos é vendedor de uma parcela de terreno, que se juntava a algumas outras, anteriormente adquiridas, destinadas à edificação do futuro hospital militar D. Pedro V.
Seria o seu filho, Jacinto de Matos, que na mesma actividade ficou célebre, a dar continuidade ao negócio.
Sobre o coreto e a concha acústica se apresenta o texto que segue:
 
 
“Em volta do palácio, o espaço era igualmente muito acolhedor e rapidamente se tornou num autêntico local de desfile da fina flor da sociedade portuense. No coreto (desaparecido) da conhecida avenida das Tílias, todos os domingos e feriados havia música por conta de bandas regimentais.
Mais à frente, a concha (ainda existente), apresentava peças de teatro e recitais. Ao fundo da avenida, à direita, havia um chalé alpino, de onde se apreciavam desafogadas vistas sobre a foz do rio e o mar. Nas proximidades estavam as coleções zoológicas, a aldeia dos macacos e a gaiola das águias. À volta, o compacto arvoredo convidava ao passeio e à tranquilidade”. 
Com a devida vénia a Manuel de Sousa
 



O Comércio do Porto, em 5 Julho de 1917



Barraca de tiro ao alvo, nos jardins do Palácio de Cristal, no início do séc. XX – Fonte: CMP, Arquivo Histórico Municipal






Comboio de passeio, nos jardins do Palácio de Cristal, inaugurado em 1934



O comboio da foto anterior entrou ao serviço quando, entre Junho e Setembro de 1934, se realizou nos Jardins do Palácio de Cristal a Exposição Colonial.
Após a realização do evento, as instalações do Palácio, então, encerraram e procederam-se a diversas beneficiações, entre as quais se destaca a capela Carlos Alberto, a Avenida das Tílias e a transferência para esta da estátua do “Porto”, que se encontrava junto da Câmara Municipal, à data, a funcionar na Sé, no Paço Episcopal.
O Palácio reabriria depois de intervencionado, em 22 de Junho de 1935 e passados cinco dias, no dia 27, ocorreu a inauguração festiva do novo parque infantil do Palácio de Cristal que passaria, então, a ser um alvo das crianças quando, com os seus pais, visitavam a Feira Popular.
 
 
“Por vezes o meu pai levava-nos, a mim e meus irmãos, ao Palácio para nos deliciarmos com as suas surpresas. Lembro-me bem da roda dos cavalinhos, dos baloiços, dos balancés, das caixas de areia, dos escorregões, do anel rolante preso ao poste… 
Saudades do lindíssimo lago com a sua ponte e gruta, onde mais tarde andava de barco ou gaivota. Dos animais, em especial do leão, da aldeia dos macacos, dos pavões e galinhas da Índia, dos papagaios…
Andei de bicicleta e triciclo naqueles grandes salões laterais e nos jardins, fiz corridas de sacos e, com os olhos tapados, tentei acertar num cântaro com água ou areia… Ainda assisti a uma inesquecível exposição de rosas que pela sua grandeza me espantou.
Pagava-se de entrada 1$50, a partir dos 6 anos. O aluguer das bicicletas pequenas custava 2$50 e dos triciclos 1$50 por hora. 
Vi uma exibição de ginástica do Sport Clube do Porto, e delirava quando meu pai me levava a ver a luta livre. Por vezes a exaltação do público era tal que eu me encostava a meu pai cheio de medo. 
Mais tarde íamos à Feira Popular onde nos divertíamos nos carroceis, carrinhos de choque, cadeiras voadoras, etc. 
Nunca deixávamos à Feira Popular sem ir ao stand da Regina “furar” a nossa sorte nos seus deliciosos chocolates”. 
Com a devida vénia a Rui Cunha 





Feira Popular
 
 
A partir da década de 1940, nos jardins do Palácio de Cristal, durante os meses de verão, instalava-se uma feira popular que fazia a delícia de todos, miúdos e graúdos.
Para satisfazer os aficionados das touradas chegou a ser construída, num espaço contíguo à Avenida das Tílias, uma praça de touros com 1.400 lugares.
No dia 18 de Junho de 1944, era anunciado nos jornais que se encontrava em concurso a exploração da citada praça.
Nesse ano, a feira encerrou em 23 de Setembro.
Neste âmbito, diga-se a título de curiosidade que, no dia 15 de Novembro de 1964, foi improvisada uma praça de touros no Pavilhão do Palácio de Cristal, onde evolucionaram numa corrida os cavaleiros Manuel Conde, David Ribeiro Teles, Mestre Baptista e Núncio e a participação dos forcados amadores de Lisboa capitaneados por Salvação Barreto. Não houve toureio a pé, por ser uma corrida "à antiga portuguesa", e destinou-se a recolher fundos para a campanha de Natal em favor dos soldados portugueses que lutavam nas colónias, sendo organizada pela delegação do Porto do Movimento Nacional Feminino.
A 31 de Março de 1950, o Governador Civil do Porto promete que a Feira Popular do Porto será tão boa ou melhor que a de Lisboa e, na véspera de S. João desse ano, o Subsecretário da Assistência inaugura a Feira Popular, no Palácio de Cristal.

 


Vista nocturna da entrada principal da Feira Popular

 
 

Palácio de Cristal em noite de S. João de 1940
 
 
Na foto acima vemos, em primeiro plano, a fonte do Jardim de Emílio David situada mais a poente, e as iluminações do gradeamento de entrada, na noite de S. João de 1940.

 
 

Feira Popular na década de 1960


 

A Feira Popular do Palácio de Cristal, em 1958 (O algodão-doce e a roda gigante) – Fonte: “frame” do filme “A Costureirinha da Sé”




A Avenida das Tílias e a Feira Popular do Palácio de Cristal, em 1958 – Fonte: “frame” do filme “A Costureirinha da Sé”




A Feira Popular do Palácio de Cristal, a Avenida das Tílias e o “Stand” da Regina, em 1958 – Fonte: “frame” do filme “A Costureirinha da Sé”
 
 
 

Os chocolates eram aqui “furados” (sorteados)

 
 

A Feira Popular do Palácio de Cristal, a Avenida das Tílias e o “Stand” da OLIVA, em 1958  – Fonte: “frame” do filme “A Costureirinha da Sé”
 
 
 

O Pavilhão de Exposição da firma Agostinho Ricon Peres, de Máquinas e Ferramentas, que integrou a Feira Popular, durante anos
 
 
 

O novo comboio, na Feira Popular do Palácio de Cristal, em 1958 – Fonte: “frame” do filme “A Costureirinha da Sé”
 
 
 
“Para a minha geração, Palácio de Cristal, ou simplesmente Palácio, será sempre sinónimo de Feira Popular. Entrando pela Rua D. Manuel II, percorrida a pequena recta ladeada de árvores, estávamos perante dois clássicos de sempre, o martelo para testar as forças e um homem muito velho com um carrinho de ferro. O carrinho tinha uma pega, devia-se empurrar com a máxima força por um emaranhado de curvas e contra curvas. Se chegasse ao cimo, batesse na porta, saltava um cabeçudo a fazer um manguito. Um prémio estranho para os dias de hoje, mas que nos enchia da satisfação do dever cumprido.
Havia aviões de sobe-e-desce, barracas de tiro, carrinhos de choque, umas cadeiras que andavam em círculo presas por cadeados numa espécie de desafio radical, barracas de chocolates em que se fazia um furo. Conforme a cor da bola que nos calhasse em sorte, um chocolate diferente.
Tínhamos as esplanadas da avenida das Tílias, onde lanchávamos tostas mistas e leite chocolatado UCAL, o lago, onde consoante a bolsa, se podia andar de barco a remos ou a motor.
Mais abaixo o «zoológico» com o chimpanzé Chico, o leão Sofala, pavões,
aves exóticas e galinhas de Angola a cacarejar «Tou fraca». Restaurantes onde se comia sardinha e frango assado, azeitonas e broa, coisas simples, num tempo simples.
Planeei ir à Feira do Livro, apoio a revitalização deste espaço da cidade, mas Palácio será sempre a alegria infantil de uma Feira Popular”. 
Com a devida vénia a Fernando Lopes



Carrinhos de choque
 
 
Na foto acima, pode ver-se que os carrinhos de choque, em uso nas décadas de 40, 50 e sessenta do século passado, têm os para-choques metálicos, sendo sobre eles, que em saltos bem medidos, de carro para carro, se movimentava o cobrador das moedas, recebendo o dinheiro da “viagem” e fazendo os trocos. O movimento dos veículos era feito em volta de uma placa central, no sentido contrário aos ponteiros do relógio.



Esplanada, com vista sobre o Douro, de um restaurante presente na Feira Popular
 
 
 

Aspecto da Feira do Palácio. Ao centro a roda de “looping”- Ed. António Tavares, In “Porto Desaparecido”
 
 
 

Feira Popular do Palácio de Cristal (1970)

 
 

Feira Popular do Palácio de Cristal, c. 1970
 
 
 
 
A Feira Popular que tinha para além do divertimento algumas funções de assistência social, foi obra na qual se empenhou o então Director do Palácio de Cristal, de seu nome António Pinto Machado.
 
 
 


Bilhete de acesso à Feira Popular, em 1958, organizada pelo Governo Civil do Porto. Inclui publicidade a sorteio de uma habitação, na Rua da Ilha Verde, 60, organizado por “O Lar do Comércio”




Lápide, de António Pinto Machado, exibida nos jardins do Palácio de Cristal
 
 
 
António Pinto Machado, natural de Vila Real, nasceu em 1895 e faleceu em 1965, na cidade do Porto.
Jornalista, escritor, poeta e Oficial do Exército, foi, ainda, Director do Palácio de Cristal desde 1935 até 1965. 
Viveu num prédio da Rua Alberto Aires de Gouveia identificado, como tal, pela Câmara Municipal do Porto.


 
Casa de António Pinto Machado, na Rua Alberto Aires de Gouveia, nº 59
 
 
 
 
António Pinto Machado viveu, também, na casa do roseiral, que reformou.
Na qualidade de jornalista, foi colaborador do “Jornal de Notícias”, Jornal “A Voz”, “Diário do Minho” e “Correio do Minho”, Jornal “O Debate”, “Diário do Norte”, Jornal “A Ordem” e revista “Os Bairristas do Palácio”. Foi Director e Editor do Jornal “A Palavra”, o qual refundou.
Célebres são os seus diálogos entre o João D`Além (seu heterónimo) e a personagem que criou – Manuel Agrónomo - inspirada no seu caseiro Manuel da Silveira, seu grande amigo.
Segundo uma sua neta, Suzana D’Eça, António Pinto Machado era um monárquico convicto.
 
 
 

Casa do Roseiral no Palácio de Cristal
 

 
Ainda no século passado, a Feira Popular encerraria no Palácio de Cristal e seria transferida para o Parque da Cidade (ocidental), para a área que o chamado Queimódromo costuma agora ocupar, onde se manteve alguns anos, até que encerrou em definitivo.




Feira Popular no Parque da Cidade, em 1994