terça-feira, 4 de outubro de 2022

25.165 A cidade do Porto e os Bilhetes-Postais Ilustrados

 
Entre meados do século XIX e o início do século XX, a produção de bilhetes-postais ilustrados teve um grande incremento.
 
 
“O bilhete-postal ilustrado foi dominantemente impresso por processos fotográficos ou fotomecânicos, para o desenvolvimento dos quais foi decisiva a experimentação levada a cabo por fotógrafos e pessoas com actividades profissionais estreitamente relacionadas com a fotografia.
A história dos bilhetes-postais ilustrados está profundamente ligada à história do correio tradicional (cartas e bi­lhetes-postais não ilustrados) e à história da imagem fotográfica”.
Cortesia do arquitecto Nuno Borges de Araújo (Universidade do Minho)
 
 
 
No início do século XX, o bilhete-postal ilustrado com fotografia torna-se uma moda generalizada, e as grandes casas de fotografia trabalham para as editoras de postais ou têm as suas próprias tipografias. É o caso da Casa Biel.
Era através do postal que se enviavam boas-festas e era com eles que os artistas de teatro e variedades faziam a sua publicidade.
O rei D. Carlos chegou a coleccionar 1 milhão de postais.
O Município do Porto, na sua Biblioteca Pública, a S. Lázaro, tem uma vasta colecção de bilhetes-postais ilustrados e, dentro dela, um núcleo particular de postais ilustrados antigos do Porto, cujas temáticas e características, mereceram, desde meados da década de 1980, dedicado interesse, traduzindo-se numa série de publicações e de exposições.
Verdadeiros documentos históricos se tornaram os bilhetes-postais ilustrados quando, anos após as respectivas impressões, sobre eles se opinava, a propósito das memórias de antigamente.
É o caso do acontecido com o bilhete-postal ilustrado, nº 358, do editor Arnaldo Soares.
 
 
 

Praça de Santa Teresa; bilhete-postal de verso dividido, nº 358; circulado em 22-05-1914; Editor: Arnaldo Soares
 
 
Sobre o bilhete-postal anterior, a revista “O Tripeiro”, Vª série, Novembro de 1948, na página 160, na rúbrica “Ainda se lembra?”, transcrevia as memórias de alguns dos seus leitores, na publicação do mês seguinte (Dezembro):
 
 
“Bem me lembro, e que recordações eu tenho da Praça da Farinha, Feira do Pão, ou Praça de Santa Teresa (hoje Praça de Guilherme Gomes Fernandes)! Em frente está a antiga Fotografia União, mais tarde consultório do grande radiologista professor Roberto de Carvalho. Ao lado direito, o Ferro de engomar, miserável triângulo, que resta duma grande casa, que foi demolida para passar a Rua de D. Carlos (mais tarde de José Falcão). Ao lado direito, quem vinha dos Voluntários da Rainha, encontrava o restaurante do João do Buraco, onde a rapaziada tantas noites passava na estroinice... À esquerda havia uma farmácia (mais tarde Farmácia Cristo). Dava lá consulta o dr. Coutinho, sogro do Campos Monteiro. Todas as tardes vinha para o seu consultório, montado a cavalo, de S. Mamede de Infesta, onde morava. Depois substituiu-o nessa consulta o meu falecido condiscípulo, colega e amigo dr. José Augusto Rodrigues, que algumas vezes me encarregou de ver ali os seus doentes. Parece que conheço ali todas as casas e até as pessoas, desde as desembaraçadas padeiras até ao sujeito que caminha em direcção ao leitor, de chapéu de coco na cabeça. Se ele trouxesse o costumado bengalão, havia de dizer que era o alegre estudante de medicina António de Almeida Trinta, que morreu director das Termas de S. Pedro do Sul...”.
J. A. Pires de Lima
 
 
“Lembra, sim senhor. A fotografia é da antiga Praça de Santa Teresa, a antiga Feira do Pão, dos meus tempos de petiz, e que é hoje a Praça de Guilherme Gomes Fernandes, homenagem ao grande bombeiro português que tão alto levantou o nome de Portugal em Congressos Internacionais... Lá estão as barracas onde se vendia todo o ano, pão de Valongo, fabricado com trigo da terra, moído nos velhos moinhos e com água também de Valongo, que o tornava muito saboroso, e era trazido diariamente para o Porto em burros com duas canastras abarrotadas deste tão útil alimento e com as vendedeiras encarrapitadas em cima e por isso se dizia quando a cilha da alimária se desapertava: – ‘Lá vai o burro com as canastras...’ Lá vejo, ao fundo, com o mastro para a bandeira nacional nos dias de Grande Gala, o edifício onde estava a Fotografia União, que era fornecedora da Casa Real, e onde me retratei em 1895, no dia da primeira comunhão... Abaixo, a casa da esquina da Rua D. Carlos, estreitíssima, que – dizem – foi construída para fazer pirraça ao vizinho, o que hoje já não seria possível... Ainda mais abaixo da antiga Rua de D. Carlos, o velho Café das Leiteiras, onde, por um vintém, tomavam uma caneca de café com leite e pão com manteiga... (havia de ser hoje!...). Ainda lobrigo, nas primeiras barracas à esquerda, os célebres pães de Valongo, que custavam 75 reis e pesavam, salvo erro, meio quilo. Bons tempos!... O candeeiro do primeiro plano mostra a iluminação pública desse tempo, a gás, com o bico Auer que fez furor nessa ocasião (...)”.
João Moreira da Silva
 
 
 
 
“Sim, eu conheci-a, lá vivi uns dez anos, na Farmácia Costa, no n.º 39 (...). Era alegre, ruidosa, essa paniceira Praça de Santa Teresa, mais tarde votada em consagração ao grande Guilherme Gomes Fernandes. Conheci-a aí por 1887 quando, agarrado às saias de minha mãe, por lá passava abeirado das típicas barracas a comprar o saboroso pão de Valongo, um por 30 reis, dois por 55, ou no dizer de então: meio e cinco; abençoado tempo! Tenho saudades dessa praça onde, desde manhã até à noite, se movimentava uma população heterogénea, onde se misturava o pé descalço com a opulenta dama tripeirinha, dessa praça onde, na Fotografia União, blasonando de o ser da Casa Real, se davam rendez-vous a melhor mocidade e a aristocracia citadinas; dessa praça onde por cinco tostões eu jantei tantas vezes no Bastos, cuja casa me parece ainda lá estar, para melhor modificada (...).”
Francisco Alexandre Ferreira – Tripeiro - Ramaldeiro
 
 
“Se me lembro! Chamava-se o sítio, no meu tempo, Praça de Santa Teresa e Praça do Pão. Tenho o postal ilustrado que foi reproduzido na secção. Aquela figura do 1.º plano, sempre tive para mim que é o Rodrigo Solano. O poeta do Fumo lá vem, feito leitor--transeunte. Depois, aquela barba, aquele chapéu, aquele livro – um livro que bem poderia ter sido adquirido, naquele dia, na Livraria Moreira ou no Tavares Martins... (...).”
Amadeu Cunha - Lisboa
 
 
 “Se me lembro... É uma praça à esquina das Carmelitas, conhecida pela Praça do Pão. Ali existia a famosa casa do João do Buraco, onde à noite, quando o jantar na República era mais fraco (em especial no fim do mês), nós íamos saborear o belo bacalhau à moda da casa. (...).”
Alexandre Van Zeller – Lisboa
 
 
 
“É a antiga Feira do Pão, depois Praça de Santa Teresa e mais tarde Praça de Guilherme Gomes Fernandes. Ao fundo lá está a Rua de D. Carlos e agora Rua de José Falcão e a casa esqueleto, que então ali se construiu para tirar a vista ao vizinho que não quis comprar a nesga entre a rua aberta e o seu terreno. Essa casa esqueleto que não tinha dois metros de fundo, foi felizmente demolida ainda não há muito tempo. E lá está, ao lado, a Casa (parece que ainda é da família do Barão de Fermil) onde o falecido dr. Roberto de Carvalho montou a sua grandiosa obra de radiografia, etc., e aonde há muitos anos e durante muito tempo esteve estabelecida a Fotografia União, de Fonseca e C.ª, que chegou a ser a primeira do Porto. Ainda me recordo dos seus ricos salões, luxuosamente decorados, onde pontificava Raul de Caldevilla, menino e moço, recebendo com gentileza os seus visitantes e conseguindo com as suas maneiras afáveis e palavras convincentes, que tirassem as melhores e mais caras fotografias. (...)”.
José da Fonseca Menéres - Porto
 
 
 
 
A Tabacaria de Arnaldo Soares, editora do postal que vem merecendo a nossa atenção ocupou, vinda dos Lóios, a esquina do prédio, na Praça D. Pedro, contíguo à igreja dos Congregados. Mais tarde, cederia o espaço ao Banco Pinto da Fonseca, que ocupava o 1º andar daquele prédio e mudar-se-ia para uma área contígua, ainda na Praça D. Pedro, onde tinha estado uma pastelaria que não vingou.
 
 
 

Praça D. Pedro, em 1897
 
 
Na esquina, na fachada voltada para a Praça D. Pedro esteve a Tabacaria Arnaldo Soares, nas suas duas moradas.
Pela porta central (mais estreita) se entrava para as instalações do Banco Pinto da Fonseca, antes da sua mudança para o piso térreo.

 
 

Postal de Arnaldo Soares, circulado em 1904
 
 
 

Postal de Arnaldo Soares, circulado em 1903
 
 
 
Um outro editor, conhecido no Porto, foi Alberto Ferreira, que incluiria nas suas séries de bilhetes-postais ilustrados, fotografias de um elevado número de vilas e cidades, do Norte e Centro do país.
Alberto Ferreira possuía uma tabacaria, num rés-do-chão de um prédio, na esquina da Rua de Entreparedes com a Praça da Batalha, onde incrementou este ramo de negócio.
No 1º andar do edifício esteve, durante largos anos, o Hotel Continental.


 




Rua dos Clérigos; Editor: Alberto Ferreira
 
 
 

Túneis do Seminário; Editor: Alberto Ferreira, c. 1910; Impressor: Papelaria e Tipografia Académica
 
 
 
A partir de 1905, Carlos Pereira Cardoso começa a editar os postais, “Estrela Vermelha”, dos quais faz o respectivo pedido de registo, em finais do ano de 1904, que seria deferido, em 10 de Junho de 1905, pelo Conselheiro Director Geral do Comércio e Indústria permitindo ao requerente, em sequência, aumentar significativamente a produção de bilhetes-postais ilustrados, que já realizava anteriormente, a essa data, sob a designação de “C. P. Cardoso”.
Para o efeito, dá como morada a Rua Senhora da Luz, nº 254, em S. João da Foz.
Pedido de registo:
 
 
“Carlos Pereira Cardoso, português, natural de Granja de Alijó, comerciante, estabelecido na Foz do Douro, requer em conformidade com a lei da propriedade industrial registo de uma marca que destina a ser aplicada a bilhetes--postais de seu comércio e cuja descrição é a seguinte: A marca consiste numa estrela de cinco bicos, tendo inferior a esta a palavra: Estrela. Junta 12 exemplares da marca. Junta procuração. Pede a Vossa Majestade a Graça de a mandar registar.
E. R. M. Lisboa 12 de Dezembro de 1904”.
 
 
 

Carlos Pereira Cardoso
 
 
 
 No conjunto de séries produzidas por Carlos Pereira Cardoso destaca-se a enorme qualidade dos clichés, que captam cenas únicas da cultura portuguesa, e a imensa quantidade de postais produzidos.
A actividade por ele desenvolvida não será alheia ao facto de Carlos Pereira Cardoso ser um excelente fotógrafo, com colaboração conhecida em importantes revistas da época, com realce para a Ilustração Portuguesa e para a Ilustração Transmontana.
O número de bilhetes-postais ilustrados por ele produzidos, cerca de 600, terá sido possivelmente o mais elevado dos editores da sua época.
 
 
 

Palacete de Manoel Pinto da Fonseca na Avenida da Boavista; Editor: Estrela Vermelha

 
 

Praça de Touros de Matosinhos; Editor: Estrela Vermelha

 
 

Porto - Foz do Douro – Marégrafo; Editor: Estrela Vermelha, Série: Porto - Foz do Douro, Postal: n.º 12

 
 

A Mulher da Afurada (1910); Editor: Estrela Vermelha
 
 
 
 
O conhecido fotógrafo Emílio Biel, da firma Emílio Biel & C.ª (antiga Casa Fritz), também teve um papel de realce na edição dos bilhetes-postais ilustrados.

 
 
Última ascensão do balão Lusitano, verso não dividido, circulado em 03-12-1903; Editor: Emílio Biel & C.ª - Porto
 
 
 
Vila Nova de Gaia, verso dividido, circulado em 02-08-1905; Editor: Emílio Biel & C. – Porto

 
 
O fotógrafo Domingos Alvão não poderia deixar de enveredar, também, por um ramo de negócio que se encontrava em expansão.


 
 
Postal-fotográfico com legenda impressa e verso dividido, não circulado; Porto – Recordação da cheia de Dezembro de 1909; Editor: Fotografia Alvao, Santa Catarina 100, Porto
 
 
 
 
 
Um outro editor, “A. D. Canedo, sucessor”, sito na Rua das Flores, 200 a 206 – Porto, teve a circular, cerca de 1910, uma grande quantidade de bilhetes-postais ilustrados.
 
 
 

Bilhete-postal das igrejas dos Carmelitas (à esquerda) e do Carmo (à direita), c.1900; Editor: A.D. Canedo, Sucessor
 
 
 
Por vezes, a data de circulação dos postais-fotográficos, versando acontecimentos importantes aconteciam, por vezes, imediatamente após a ocorrência dos mesmos.
É o caso do exemplo seguinte do editor e fotógrafo Joaquim Azevedo.
 
 
 
Postal-fotográfico sem legenda; Editor / fotógrafo: Joaquim Azevedo; Verso dividido, circulado em 21-11-1908
 
 
 
 
Segue o texto do postal:
 
 



Sobre o texto anterior, deve dizer-se que o local apresentado é próximo ao Jardim de S. Lázaro, com o Beco do Pedregulho, à esquerda.
Quanto ao tema, a cena apresentada ocorre no dia 8 de Novembro de 1908, durante o desfile da comitiva real de D. Manuel II, após o seu desembarque na Estação Ferroviária de Campanhã.

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Conclusão

 
Assistência às vítimas
 
 
Nestes tempos de guerra, organizações como a Cruz Vermelha, a Sociedade Humanitária, a Comissão de Assistência Pública ou então as recém-fundadas, Cruzada das Mulheres Portuguesas, a Société Amicale Franco-Portugais e a Associação de Assistência às Vítimas da Guerra ficaram com as suas intervenções gravadas para a posteridade.
No entanto, em Março de 1916, categorizadas personalidades da sociedade portuense se juntariam para fazer nascer a "Junta Patriótica do Norte", cujo objectivo principal era a assistência-socorro às vítimas da Guerra e que se destacaria das demais.
Seria o Dr. Alberto de Aguiar a lançar aquele que, para lá de um movimento de exaltação patriótica (propondo-se glorificar e alentar os que partiam para os campos de batalha) pretendia, ao mesmo tempo, amparar os filhos dos que perdessem a vida ao serviço da Pátria.
 
 
“A Junta Patriótica do Norte surgiu de um movimento patriótico no seio da Câmara Municipal do Porto e foi aberto a todos os portuenses que nela quisessem participar e seguir os seus ideais. Apesar da Junta Patriótica do Norte não ter qualquer fi­liação partidária, vai nascer quando o Dr. Henrique Pereira de Oliveira presidia à edilidade, tornando-se vice-presidente da mesa das reuniões plenárias. O projeto inicial da sua fundação contou com vários professores da Universidade do Porto, elementos da função pública ligados à Câmara do Porto e ainda comerciais e industriais”.
Cortesia de Ana Sofia Veiga Peniche
 
 
Na sua actividade de propaganda, a Junta Patriótica do Norte promoveria reuniões e a distribuição massiva de manifestos em papéis avulsos ou afixados em placards.
Estes materiais propagandísticos foram produzidos entre 20 de Abril de 1916 e 14 de Julho de 1918, num total de quinze manifestos e nove placards, embora se desconheça o número de exemplares impressos.
Outro modo também usado para divulgar a mensagem, utilizava as sessões cinematográficas realizadas em cinemas e teatros da cidade do Porto, divulgando imagens dos palcos de guerra protagonizadas pelo exército aliado.
Os fundos necessários ao êxito deste empreendimento tinham várias origens.
 
 
“No que toca a angariações ordinárias, destacam-se: a grande subscrição, a cotização mensal, a subscrição ao Núcleo Infantil e a subscrição além fonteiras, em vários núcleos. A grande subscrição era feita por cerca de 1250 individualidades e empresas e as verbas iam dos 10 até aos 500 escudos. Desta forma se conseguiram substanciais donativos, que visavam ajudar a realização de obras de vário tipo; até 30 de setembro de 1918 renderam cerca de 28 191 escudos.
A cotização mensal era paga por 385 quotizantes, mas os seus valores mensais eram diferenciados, oscilando entre 10 centavos e 10 escudos. Até 1918, as cotas per­fizeram um montante superior a 4513 escudos. A subscrição ao Núcleo Infantil contava com 251 subscritores e a verba apurada tinha a ­finalidade de ajudar os órfãos de guerra. Esta subscrição alcançou um valor acima de 4576 escudos”.
Cortesia de Ana Sofia Veiga Peniche
 
 
Sucediam-se para angariação de capitais as vendas de caridade e os festivais, realizados no Palácio da Bolsa e na Casa dos Filhos dos Soldados Portugueses, promovidos pelas senhoras do Núcleo Feminino de Assistência Infantil, com as respectivas receitas a reverterem para a Junta Patriótica do Norte.
No Brasil e na Califórnia, algumas verbas importantes foram também recolhidas.
Muitos particulares e empresas comerciais e industriais resolveram fazer a sua contribuição em géneros.
Os selos da Junta Patriótica do Norte, inaugurados em 1917, por sugestão do membro da Junta, Aurélio Paz dos Reis, tiveram também algum impacto no montante final arrecadado.

 
 

Selos emitidos pela Junta Patriótica do Norte
 
 
 

Bilhete-Postal da Junta Patriótica do Norte com respectivo emblema da instituição



A um movimento com tão nobres e elevados propósitos, chegavam constantes adesões. E, graças a elas, em 25 de Junho de 1917, a Junta Patriótica do Norte funda a Casa dos Filhos dos Soldados, instalando-a num prédio que, para o efeito, aluga na Rua de Cedofeita, nº 458.
Cerca de uma semana antes, é realizada uma grande exposição na nave central do Palácio de Cristal, noticiado pelo semanário “O Sino” da Senhora da Hora.


 

In semanário “O Sino” de 10 de Junho de 1917




Cabeçalho do semanário “O Sino”


A Casa dos Filhos dos Soldados começará logo por albergar 50 orfãos de guerra, de ambos os sexos.
Agregado à "Junta Patriótica do Norte" começa a trabalhar um núcleo Feminino de Assistência Infantil ao qual preside D. Filomena Sequeira de Oliveira.
De acordo com as idades, as crianças vão ter uma instrução elementar primária, precedida do ensino "Jardim-Escola" e seguida de educação profissional, nomeadamente, em artes e ofícios.
 
 
 
 

Cartaz do Certame de Arte Nacional realizado no Palácio de Cristal, em 1917



A 13 de Julho de 1919, o Tratado de Paz é comemorado pela Junta Patriótica do Norte com um grande cortejo cívico, uma festa infantil no Palácio de Cristal, uma conferência sobre a guerra no Teatro Gil Vicente pelo capitão Augusto Casimiro e uma festa popular na Cordoaria.
Pela assinatura do Tratado de Paz é organizado, ainda, pelo Triângulo Vermelho um festival aos soldados-expedicionários e levada a cabo uma Marcha Luminosa, por iniciativa dos Bombeiros portuenses.

 
 
 

Crianças das escolas primárias do Porto rumo à festa infantil promovida pela Junta Patriótica do Norte, no Palácio de Cristal – Fonte: Ilustração Portuguesa, n° 702, 4 de Agosto de 1919
 
 
 
 

Anverso e reverso da medalha comemorativa dos 50 anos sobre a fundação da Junta Patriótica do Norte
 
 
 
 
Acabada a guerra, a maioria dos seus membros não julgou chegado o momento de dissolver a Junta Patriótica do Norte.

 
 
 

Ofício assinado pelo então presidente da Junta Patriótica do Norte e enviado, em 1932, quando a Casa dos Filhos dos Soldados ainda estava na Rua de Cedofeita, 458
 
 
 
 
“A necessidade de ampliar a sua instalação e sobretudo de a tornar independente pela aquisição de Edifício próprio (este edifício que a boa sorte da Junta conseguiu encontrar, é a Quinta Amarela, à Rua de Oliveira Monteiro, n° 887, comprada, com isenção de sisa, por 250 contos, em 20 de Julho de 1934 e que com uma extensão de 12.000 metros quadrados tem cerca de 1.200 metros quadrados para habitação, entre o edifício central em três pavimentos, e suas dependências), forçou a adaptar o compromisso de 1916 ás exigências legais, porque actualmente se regem todas as instituições de benemerência”.
Fonte: “ep.up.pt/docentes”

 
 

Edifício primitivo da Quinta Amarela onde, de 1921 a 1927, funcionou a Faculdade de Letras da U. P.
 
 
 
A Junta Patriótica do Norte teve a sua sede social nos Paços do Concelho do Porto (Câmara Municipal) e a sua Secretaria e Instalações e a Casa dos Filhos dos Soldados, provisoriamente, na Rua da Cedofeita n°s. 458/460 - Porto; posteriormente, foram as mesmas transferidas para a Quinta Amarela - que a Junta comprou em 20 de Julho de 1934 -, sita na Rua Oliveira Monteiro, n° 887 - Porto.
A Junta Patriótica do Norte foi extinta em 1938, tendo o seu património sido transferido para a Liga dos Combatentes da Grande Guerra, que presentemente o continua a usufruir e a gerir.
Por isso, em 24 de Janeiro de 1938, a Liga dos Combatentes assina a escritura que lhe confere a posse da Casa dos Filhos dos Soldados, na Quinta Amarela, ao Carvalhido.
A Liga dos Combatentes criada em 1921, com a denominação de Liga dos Combatentes da Grande Guerra tinha como principal objectivo reunir numa associação os militares e ex-militares portugueses que tinham combatido na 1.ª Guerra Mundial, mas só em 1929, seria a instituição oficializada com a eleição dos dirigentes e publicação dos estatutos.
Entretanto, muitas outras organizações da sociedade civil se instalaram no terreno, entre o começo e o fim da guerra e, nalguns casos, para além dela.
 
 
“Menos de duas semanas após a declaração de guerra a Portugal, o laicismo expressou-se em forma de "cruzada" – a Cruzada das Mulheres Portuguesas – herdeira do movimento Pró Pátria. Não confundir com a "Assistência das Portuguesas às Vítimas da Guerra", uma associação também inteiramente feminina, mas ligada à aristocracia monárquica e ao catolicismo”.
Fonte: RTP
 
 
 
Em 20 de Março de 1916, seria criada a “Cruzada das Mulheres Portuguesas”, presidida por Elzira Dantas Machado, mulher do presidente Bernardino Machado, contando também com suas filhas e outras familiares de políticos e militares notáveis. A “Cruzada das Mulheres Portuguesas” aglutinaria quase uma centena de mulheres da elite republicana.
Ana de Castro Osório ocupou-se da comissão de propaganda e organização do trabalho.
A “Cruzada das Mulheres Portuguesas” criou dezenas de subcomissões locais, de norte a sul do país, e internacionais.
Os seus Estatutos foram aprovados por Alvará do Governo Civil de Lisboa a 19 de Agosto de 1916 e existiu até ao início do Estado Novo, tendo sido sua última Presidente, Ana de Castro Osório.
Para além de iniciativas como a 1ª “Festa da Flor”, que ocorreu na primavera de 1917, em várias cidades e vilas do país, onde a “Cruzada das Mulheres Portuguesas” tinha os seus núcleos organizou, em 1917, cursos de enfermagem destinados a formar enfermeiras para servirem nos hospitais militares do País e nos corpos expedicionários.
Durante a “Festa da Flor”, que teve o patrocínio do jornal “O Século”, foram angariadas verbas importantes quando, em troca duma flor colocada ao peito de cada homem, as voluntárias da “Cruzada das Mulheres Portuguesas” recebiam um donativo.

 
 

Jovens da “Cruzada das Mulheres Portuguesas” no contacto com a população do Porto, junto do Restaurante Europa, na Praça da Liberdade, em Março de 1917, durante a 1ª “Festa da Flor”
 
 
 
Logística de apoio alimentar aos mais carenciados
 
 
 
Como é óbvio, uma crise alimentar haveria de se instalar na cidade fruto da guerra.
Na edilidade como resultado das eleições municipais de 30 de Novembro de 1913, as primeiras realizadas segundo os preceitos da Constituição de 1911, Henrique Pereira de Oliveira foi eleito Presidente do Senado e, Eduardo Santos Silva, Presidente da Comissão Executiva.
O organismo da Câmara Municipal que tinha a seu cargo a questão de combater a escassez de géneros alimentares, que acabava por afectar com maior severidade as classes mais desfavorecidas, era a Comissão de Subsistências, dirigida por Manuel Pinto de Azevedo, vereador da Câmara, que procurou levar a cabo uma política de regulação dos preços, não querendo competir com os particulares no mercado.
Em Janeiro de 1917, aquele vereador ofereceu à Câmara, pelo período em que decorresse a guerra, uma padaria com todo o seu conteúdo, para que pudesse ela própria começar a panificar.
A Comissão de Subsistências acabou por comprar e vender alimentos diretamente à população, tais como açúcar, arroz, azeite, bacalhau, além de outros géneros.
Para obstar às carências alimentares que atingiram uma grande parte da população, foi montado no Porto em instalações cedidas à “Comissão de Subsistências”, pelo industrial Joaquim Afonso Fernandes Pereira, da fábrica têxtil de calandrar “A Vencedora”, um armazém para a distribuição do apoio alimentar de que a população carecia.
Naquelas instalações, na Rua do Bonfim, nº 105, passaria a funcionar a sede daquela comissão que dirigia toda a campanha de socorro alimentar aos portuenses.
O industrial Joaquim Afonso Fernandes Pereira teria o seu nome ligado, também, na primeira metade do século XX, à conhecida fábrica de acabamentos de tecidos e tinturaria a “Calandra do Bonfim”, na Rua do Bonfim, 266, que tinha existência desde 1859.
 
 
 
 

Fábrica de calandrar “A Vencedora” sede e oficinas de empacotamento da Comissão de Subsistências

 
 




As fotos anteriores mostram o exterior e o interior de um moinho situado num riacho de uma zona rural do Porto, onde a Comissão de Subsistências moinha o seu cereal.

 
 

Posto de venda de pão, gerido pela Comissão de Subsistências, na Rua de Montebelo, ao Campo 24 de Agosto

 
 
Posto de venda de pão na Junta da Paróquia do Bonfim

 
 

Posto de venda de pão na Junta da Paróquia de Santo Ildefonso
 
 

Veículo trabalhando para a Comissão de Subsistências

 
 

Entrada para a antiga fábrica “A Vencedora”, sede e armazém de empacotamento da Comissão de Subsistências, na Rua do Bonfim, nº 105
 
 
 
A acção da Comissão de Subsistências desenvolvia-se em torno dos bens essenciais e numa acção de regulação dos mercados.
Assim, no que dizia respeito ao azeite, a Câmara Municipal do Porto alugou um armazém em Vila Nova de Gaia, para funcionar como depósito, sendo o respectivo engarrafamento realizado num dos armazéns do Matadouro da Corujeira. Aqui, também funcionava um armazém de acondicionamento das farinhas.

 
 

Engarrafamento de azeite num armazém do matadouro da Corujeira


 
Em 21 de Abril de 1918, ainda em plena guerra, um grupo de mulheres portuenses haveriam de fundar a Cruz Branca do Porto, que pretendia ajudar a "pobreza envergonhada".




 
Municipalização dos Serviços de Energia
 
 
O sector de produção de energia aparecia, por estes dias, também envolvido em grossa polémica.
Assim, no que ao fornecimento de energia dizia respeito, a Companhia do Gás do Porto era a principal fornecedora de energia à cidade, quer destinada à iluminação, quer ao uso industrial.
A Central Térmica do Ouro tinha sido construída entre Abril de 1907 e Julho de 1908, junto dos gasómetros da Companhia Portuense de Iluminação a Gás (CPIG), em Lordelo do Ouro, por uma empresa sua subsidiária - a Sociedade Energia Eléctrica do Porto (SEEP) -, a fim de produzir e distribuir electricidade.
Em Outubro de 1906, a Câmara Municipal do Porto tinha autorizado a CPIG - uma empresa que veio a integrar as Companhias Reunidas de Gás e Electricidade (CRGE), de Lisboa, por sua vez, dependentes, a partir de 1913, do grupo franco-belga Société Financière des Transports et d'Entreprises Industrielles (SOFINA) - a transferir a concessão para a produção e distribuição de energia eléctrica para uma sociedade anónima a criar, a já referida SEEP, com o objectivo de explorar a referida concessão. O projecto arquitectónico das instalações da Central Térmica do Ouro foi da responsabilidade de Fernand Touzet, um engenheiro especializado na construção de edifícios industriais, particularmente na região de Lisboa, e que veio a construir também a primeira Central Tejo, concluída nos finais de 1911.

 
 
Fábrica do Gás e Central Elétrica (à direita), em 1908, no Ouro. À esquerda, observa-se o prédio de Joaquina Margarida Cardoso (proprietária do Palacete das Cardosas, na Praça da Liberdade)
 
 
 
Desde Fevereiro de 1916, se estabeleceu uma série de peripécias entre esta companhia e a Câmara.
Obrigada a reduzir a iluminação pública, a partir de certas horas, naquelas que eram as partes mais iluminadas da cidade e, consequentemente, a pedir auxílio à Câmara, para aquisição de coque, a Companhia do Gás não cumpriria o que contratou.
Depois de acontecidos vários conflitos, toda a relação só podia ter tido um epílogo, que foi o da municipalização da Companhia do Gás em 19 de Novembro de 1917. A partir desta data, o fornecimento de gás passou a estar assegurado pela Comissão Municipal Administrativa da Exploração dos Serviços do Gás, presidida por Marques Guedes.
 
 
 
Assistência hospitalar
 
 
A assistência hospitalar aos militares feridos, em campanha, ficaria a cargo de equipas de enfermagem da Cruzada das Mulheres Portuguesas.
D. Manuel II, no exílio, cederia o Palácio dos Carrancas para servir como Hospital de Guerra e os postos de socorros a Náufragos do Passeio Alegre e da Comissão do Salva-Vidas da Foz do Douro seriam usados para hospital e enfermaria de convalescença.
Um projecto inédito não materializado foi a proposta do Dr. Santos Silva, aprovada pela vereação, de se criar no Porto uma Escola de Reeducação para os soldados mutilados.
 
 
 
 
O fim do conflito
 
Porém, toda a atenção dos portuenses face às contingências da guerra iria sofrer um desvio, no final do ano de 1917, quando acontece a revolta protagonizada por Sidónio Pais, que irá abalar as estruturas políticas.
 
 
 
“O triunfo da revolta do major Sidónio Pais e depois a sua ditatorial «República Nova» (11 de dezembro de 1917 a 14 de dezembro de 1918) confi­rmaram esta inclinação anti intervencionista, mesmo aquiescendo numa quinta campanha colonial, a alteração das ordens de serviço no C.E.P. e a suspensão do esforço de guerra levaram a um certo desprestígio internacional.
Pela atitude da Câmara Municipal do Porto ao conhecer a notícia da vitória do golpe revolucionário, a sua direção tinha compreendido precocemente esse prognóstico, a recusa de saudação ao novo Chefe de Estado foi transmutada para os soldados portugueses nos campos de batalha. O novo regime acabaria por substituir todos os membros dos organismos políticos, policiais e militares portuenses pelos partidários do seu movimento, mas a instabilidade política continuaria com diversas conspirações e intentonas dos opositores e um peso acentuado da União Operária Nacional neste meio citadino, resultando em várias cenas de prisões, cargas policiais e perseguições aos seus elementos e dirigentes. Entre os mais queixosos encontravam-se os ferroviários e os pescadores, cujas traineiras arriscavam cada vez menos as pescarias em alto mar pela maior frequência dos submarinos alemães piratas, juntando-se assim a falta do peixe às recorrentes dos cereais, da carne e do carvão”.
Cortesia de Francisco Miguel Araújo (Faculdade de Letras da Universidade do Porto
 
 
Os tempos, que se sucederam à revolta de Sidónio Pais, foram de descrença e o apoio da população aos mais desfavorecidos e às organizações que lhes prestavam o seu auxílio esmoreceu.
A situação teria um volte face perante as notícias chegadas da frente da batalha, em La Lys, e das enormes perdas sofridas pelo exército português quando a solidariedade dos portuenses renasceu.
A Junta Patriótica do Norte, como ficou dito, exerceu a sua actividade para além do fim da guerra.
Uma referência de destaque, neste âmbito, merece ser atribuída ao jornal “O Comércio do Porto” que, dirigido por Bento Carqueja, um dos fundadores da Junta, diariamente publicava todos os passos, decisões, iniciativas, fracassos e sucessos da Junta, e ao publicitar o balancete das suas contas, todos os que haviam contribuído conseguiam perceber o destino das suas doações.
Constituiu também um apoio importante para as famílias dos soldados, pois publicava notícias sobre os combatentes na frente e explicava como elas poderiam obter os seus direitos, fundamentalmente, os relativos a subsídios.