sexta-feira, 16 de junho de 2017

(Continuação 8)

Casas com história


Rua do Passeio Alegre e as suas casas


Casa mandada construir por Domingos Oliveira Maia - Ed. MAC


Em 9 de Maio de 1855 Domingos de Oliveira Maya, natural da casa da Quinta do Paço, em Alvarelhos (Maia/Santo Tirso/Trofa), compra ao “brasileiro” Bento de Souza Villa Nova o terreno onde irá construir a casa “acastelada” ou amuralhada na Rua do Passeio Alegre, n.º 954, com projeto do próprio comprador, que foi depois pertença da família Pinho, e onde esteve até Setembro de 2017 o colégio Ramalhete. 
Domingos de Oliveira Maia era o patriarca da Casa dos Maias ou Casa do Ferraz, da Rua das Flores nº 29. 



À esquerda no prédio de que se vê só o cunhal esteve o Casino High-life - Fonte: "doportoenaoso.blogspot.pt"

“A foto acima é de antes de 1910. Adiante vê-se a Rua das Motas onde esteve a Pensão Mary Castro (...). Era a mais luxuosa da Foz e era frequentada por Eça de Queirós e Ramalho Ortigão nas suas épocas de praia”.
In portoarc.blogspot

Ainda sobre a foto anterior, a seguir ao prédio mais baixo (que actualmente não existe sendo a sua área um quintal da casa adjacente) na esquina da Rua das Motas, na está a casa Margarida Rosa de Pereira Machado.


Casa Margarida Rosa de Pereira Machado de 1884

A casa acima foi projectada com dois pisos e um pequeno recuado, com portas e janelas ogivais dando-lhe um aspecto romântico e “gótico”.


Casa Constantino Rodrigues Batalha de 1897


Casa Sousa Guedes do fim do século XIX

O Eléctrico no Passeio Alegre - Ed. “A Nossa Foz do Douro–facebook”

Perspectiva actual das duas fotos anteriores - Fonte: Google Maps


Capela do Passo do Passeio Alegre

Segundo o Arquivo Paroquial de S. João da Foz do Douro, em meados do séc. XVIII, tornou-se imperativo a fixação dos passos, que eram armados para a procissão que os percorria no quarto Domingo da Quaresma. Isso tornava necessário a construção de algumas capelas, que simbolizassem alguns dos passos de Cristo. Contudo, devido à falta de fundos, só em 15 de Outubro de 1764, foi celebrado o contrato, com o mestre pedreiro Manuel dos Santos Porto, dando-se logo início as obras de construção. Em 1767 as capelas estariam já abertas aos fiéis.
Na imagem abaixo vemos o Passo do Passeio Alegre, que ainda existe actualmente, tendo no entanto sofrido algumas pequenas modificações.
Originalmente possuía um coberto ou telheiro e uma sólida porta em madeira que, entretanto, seriam retirados.
Foram cinco as estações da Via Sacra que foram construídas a instâncias da Confraria do Senhor dos Passos e de Nossa Senhora da Soledade. Assim temos: o Passo do Passeio Alegre que fica na Rua do Passeio Alegre, ao fundo da rampa de acesso à Igreja de São João da Foz; o Passo de Santa Anastácia que se situa na Rua Padre Luís Cabral; existe ainda outro Passo na Rua Bela e outro na Rua do Alto da Vila e por último na Rua Padre Luís Cabral próximo do Largo da Feira.

Capela primitiva do Passo do Passeio Alegre

Capela do Passo na Rua da Bela


O Farol de São Miguel-o- Anjo e outras Balizas do rio Douro

“O Farol de São Miguel-o-Anjo, também conhecido por Torre, Capela ou Ermida de São Miguel-o-Anjo, situado junto ao Jardim do Passeio Alegre é um primitivo farol português, classificado como Imóvel de Interesse Público que se localiza na Cantareira, Cais do Marégrafo, na freguesia da Foz do Douro.
Primeiro edifício puramente renascentista datado em Portugal e um dos mais antigos da Europa.
Trata-se de uma torre quadrangular em cantaria de granito encimada por uma cúpula de tijolo com oito gomos, formando uma pequena abóbada, rebocada e caiada de branco, que contém uma grade de ferro a substituir a primitiva balaustrada, apoiada numa cornija lavrada, que encima as quatro paredes do edifício.
O seu interior apresenta uma forma octogonal, com três nichos com o formato de conchas, incrustados na parede do lado do rio. Em cada nicho haveria uma imagem. O central, mais alto que os outros dois tinha um pequeno altar na sua base. Uma escada em caracol, incrustada na parede junto à porta, faculta o acesso à cobertura.
Quanto ao lugar onde estaria situada a luz do farol, o edifício não mostra o mais leve sinal. Segundo alguns era no interior da torre, em frente à vidraça da janela da parede oeste, hoje tapada pelo edifício da Guarda-Fiscal, que estava posta a candeia que alumiava o farol. A comprová-lo existe um manuscrito antigo que afirma «existir uma grimpa no topo da abóbada que servia de respiradouro ao farol».
Em 1527, foi mandado construir, conforme reza uma inscrição latina na parede voltada para o rio, que traduzida diz: "Miguel da Silva, bispo eleito de Viseu, mandou construir esta torre para dirigir a navegação, ele mesmo deu e consignou campos comprados com o seu dinheiro, com o rendimento dos quais foram acesos fogos de noite perpetuamente na torre, no ano de 1527".
Desativado o farol nos meados do século XVII, manteve a partir daí, somente o uso como Capela, sendo a construção classificada como Imóvel de Interesse Público em 1951.
Em 1841 foi construído um edifício anexo à Capela-Farol, para aí instalar um posto da Guarda-Fiscal.
Em 1852 foi edificada uma torre anexa, com 3 pisos, onde foi instalada uma estação telegráfica”.
Fonte: Teixeira da Silva


Depois de anos ao abandono espera-se que, no ano de 2017, se proceda à recuperação da capela-farol e a sua envolvente, de modo a que seja criado um Núcleo Interpretativo do Farol/Ermida de São Miguel-o-Anjo, inserido no projeto global de recuperação e requalificação deste local emblemático da cidade do Porto, permitindo, assim, vir a potenciar o conhecimento sobre o primeiro farol construído de raiz em território nacional, por volta de 1528.
Desde há alguns anos o complexo encontra-se ocupado com uma delegação dos Pilotos da Barra do Douro.


Inscrição latina, na fachada sul

Farol-capela e a antiga estação telegráfica de 3 pisos, actualmente


A Cantareira em 1848

A imagem anterior é segundo o site “PortoDesaparecido” :

“…reprodução de uma gravura representando a Cantareira na Foz do Douro que pertencia a um conjunto com o título: «As margens do Douro, coleção de doze vistas». Esta coleção de vistas foi desenhada por Cesário Augusto Pinto, em 1848, e foi editada na litografia de Joaquim Vitória Vilanova, com sede na Rua do Campo Pequeno, n.º 1849, na cidade do Porto”.

Eram várias as designações por que eram co­nhecidas as pedras e rochedos localizados à en­trada da barra do rio Douro, perfeitamente visí­veis no desenho anterior, em que tam­bém se veem a igreja matriz da Foz, a capela de S. Miguel-o-Anjo e a capela de Nossa Senhora da Lapa.
Havia a "Ponta do Dente", imagina-se porquê; o "Aguião", que a maré- cheia, encobria; a "Bezerra de Fora" e a "Bezerra de Dentro", no enfiamento do castelo. Os manuais de navega­ção citam a seguinte rota: "por entre a pedra da Olinda e o Cabedelo, continua a linha navegá­vel...". E também era assinalado o "canal da Laje, que fica entre a pedra Davra e os penedos Fogamanadas e os filhos da Prelonga...".

Capela-Farol de S. Miguel-o-Anjo, vista de terra, em gravura de Gouvea Portuense


Gravura a água-forte da Capela-Farol de S. Miguel-o-Anjo

Na última gravura de Manoel Marques de Aguilar, vê-se a Capela de S. Miguel o Anjo e o Forte de S. João da Foz com o destaque para a cúpula da Igreja renascentista (1542) dentro do Castelo.
Sobre este farol/Capela fala-nos o texto que se segue da autoria de Germano Silva:

“…balizas deve entender-se as marcas para a orientação de navios, que tanto podem ser árvores de grande porte; edifícios cons­truídos em sítios elevados ou de enormes proporções; ou torres construí­das propositadamente para o efeito. 
No rio Douro, entre a foz e a Ribeira, houve, ao longo dos tempos, especial­mente quando aquele rio era um porto natural, várias dessas marcas, umas natu­rais, outras feitas pelo próprio homem, para ajudar os mareantes a conduzir os seus barcos em segurança quando de­mandavam a perigosa barra do Douro. A mais antiga julga-se que tenha sido um pinheiro que se erguia mesmo à entrada do rio. Mas a árvore um dia secou, mirrou e terá caído numa noite de ventania. 
Em 1867, um grupo de mer­gulhadores que se ocupavam em quebrar alguns rochedos existentes no leito do rio à entrada da barra, para facilitar a entra­da dos barcos, encontraram debaixo das águas uma estátua de pedra que repre­sentava a figura de um homem vestido à romana - O Togado. 
Passados poucos dias, novo achado: desta feita, uma lápide com uma inscri­ção em latim. E logo a seguir apareceu uma coluna de pedra. A leitura da legen­da, de que constava o ano de 1536, não deixava dúvidas: a lápide, a estátua e a co­luna faziam parte de uma espécie de mo­numento mandado colocar a meio do rio pelo bispo de Viseu, D. Miguel da Silva, para servir de orientação aos navios que pretendiam entrar na barra do Douro. 
A esta altura da crónica, estou a imagi­nar o leitor a perguntar: e que tinha o bis­po de Viseu a ver com a foz e com a entra­da e saída de navios no rio Douro? Tinha, sim senhor. D. Miguel da Silva, além de ser bispo de Viseu, era, também, abade comendatário do mosteiro beneditino de Santo Tirso, a que pertencia o couto da Foz do Douro, logo tinha interesses nos rendimentos resultantes dos impostos que o couto pagava àquele convento. 
Voltemos à estátua. Serviu, na foz do Douro, seguramente como marca de orientação aos navios. Deve ter substituí­do o tal pinheiro. Pelo teor da legenda, a estátua estava colocada em cima de uma estrutura feita em pedra e sustentada por quatro colunas. 
Muito perto do local onde fora coloca­da a estátua, e com o mesmo intuito, o de facilitar a entrada e a saída da barra do rio Douro, o mesmo bispo, D. Miguel da Sil­va, mandou fazer, em 1538, quase no meio do rio, uma capela-farol que colocou sob a proteção de S. Miguel-o-Anjo. 
Visto do exterior o edifício, que ainda existe, tem a forma quadrada, mas inte­riormente era octogonal. Em tempos idos, na parte voltada ao rio, tinha uma espécie de átrio com assentos de pedra. Ainda na fachada voltada ao Douro, tinha gravada numa pedra a seguinte legenda em latim: "Salvos ire rogo Deum", ou seja "Rogo a Deus que passem sãos e salvos". Tinha, porque a inscrição já quase se não lê”. 

Também serviu de baliza aos navegantes do rio, a Capela de Santa Catarina, A Torre da Marca, A Igreja dos Clérigos e a Torre da Lapa, que nada tem a ver com a igreja, mas sim, com a estrutura na qual esteve o telégrafo e que foi também moinho, situada nas imediações da igreja da Lapa.


Farol meio escondido no fim do século XIX  e posto de Pilotos, e lá muito atrás, o Marégrafo – Ed. Emílio Biel

Aguarela de Elizabeth Reid de Capela de Nossa Senhora da Lapa (à esquerda) e do farol de S. Miguel-o-Anjo

O Togado e o Marégrafo
 
O Togado é uma estátua em granito, que representa uma figura masculina trajando uma túnica curta, coberta por uma toga. O braço direito repousa na dobra da toga e o braço esquerdo segura um objecto indeterminado.

O Togado


“Numa descrição da barra do Douro, de Manoel de Pimentel (1650-1719), In “A Arte de Navegar” é referido ,

«Cruz ou pilar, que he huma rocha onde há huma torrinha redonda com a Ermida de S.Miguel, que está na borda da agua na ponta das pedras de São João da Foz, e assim se governa até estar perto da Cruz, ou pilar, que he huma rocha, onde ha huma torrinha redonda, costeando-a o mais de perto que puder ser, deixando-a a bombordo; e outra pedra, que está em meio canal, ficará a estibordo através do navio; e passada ella, se vai por meio canal até a Cidade, e se amarra ao cais, ou no meio do rio».

Essa torrinha redonda foi mandada construir, em 1536, por D. Miguel da Silva. Tratava-se de um pequeno templo, de planta circular, que assinalava um dos rochedos da barra depois conhecido como Cruz de Ferro.
Nesse pequeno templo terá sido colocada uma estátua que ficou conhecida pelo nome de “O Togado”.
Quando no âmbito dos trabalhos de levantamento dos paredões das margens do rio Douro e dos cais, na zona da Cantareira, conduzidos pelo engenheiro Manuel Afonso Espergueira (1835-1917) foi retirada do Douro em 1867,tal facto seria noticiado em O Comércio do Porto na edição do dia 13 de Junho de 1868, que referia o achado de uma «…estátua de pedra de granito, que mede 1m,30 de altura, (…) bem esculpida e representava um homem vestido à romana».
E considerava que era de crer que esta estátua estivesse colocada na primeira Cruz de Ferro que existiu na Barra. 
Foi recolhida pelo arquitecto e arqueólogo Joaquim Possidónio da Silva (1806-1896), 1º director da Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses (fundada em 1863), que a adquiriu para o Museu do Carmo em 1886”.
Com a devida vénia ao admin. do blogue “doportoenaoso.blogspot.pt”

“N.º 3872 —Estátua de granito que servia no seculo XVI para indicar a entrada dos navios no rio Douro,- que o bispo D. Miguel mandára alli collocar a fim de evitar naufrágios. Esta estatua havia caído no fundo do rio, porém foi achada ha muitos annos na ocasião de se concertar o caes, tendo ficado também por muito tempo exposta na praia. O sr. Possidonio da Silva conseguiu adquiri-la em 1886 para se conservar a memória do humanitário prelado que tomou tão util providencia”.
In: Catálogo do Museu de Archeologia da Real Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes, Largo do Carmo, em 1892

“ (…) Na mesma ocasião também foi descoberta uma lápide e foram recolhidos diversos fragmentos de colunas. As colunas seriam marcas que assinalavam os rochedos por entre os quais se navegava e uma lápide de granito, com uma inscrição, também guardada no referido museu e referida no citado catálogo, com o n.º 3872 bis —Inscripção em pedra de granito pertencente á estatua a que se refere o número anterior.
Aquela lápide dizia:
MICHAELSILVIV / EPISCOP. VISENS. / NAVIGANTIVM SALVTISCAVSA / TVRRISIIFECIT / ETIIIICOLVMNAS / POSVIT / ANN. M. D.XXXV. 
(Miguel Silva Bispo vendo a necessidade de salvar navegantes fez duas torres e colocou 4 colunas no ano de 1535)”.
Com a devida vénia ao admin. do blogue “doportoenaoso.blogspot.pt”


À esquerda, bem no canto, a igreja de S. João Baptista, e o paredão da margem direita já construído

Marégrafo - In: “portoarc.blogspot”


Na foto anterior o Marégrafo que  servia para medir o fluxo e refluxo das marés, instalado no cais do Marégrafo a sul da capela/farol de S. Miguel-o-Anjo.

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