sábado, 3 de junho de 2017

(Continuação 6)


No ano de 1704 o bispo D. Frei José de Santa Maria de Saldanha fundou, no campo da Via Sacra, ou do Calvário Velho, o Convento de S. José e de Santa Teresa de Carmelitas Descalças, junto ao local em que antes estava situada uma pequena ermida, que assinalava o termo de uma via-sacra que tinha início junto da capela do Espírito Santo, à entrada da antiga Viela da Cadeia (hoje Travessa da Rua Chã), atra­vessava o Campo das Hortas (hoje a Praça da Liberdade) e subia por um carreiro (hoje a Rua da Fábri­ca) até ao sítio do Calvário Velho, que era como então se designava, a actual Praça de Guilherme Gomes Fernandes.
Da sua igreja e casa conventual não resta hoje qualquer vestígio, a não ser na designação oficial das Ruas das Carmelitas e de Santa Teresa. A respectiva autorização para a fundação do convento, foi concedida por D. Pedro II em 1701.

Rua das Carmelitas. À direita o muro que delimitava o Convento


Rua das Carmelitas. À direita ficava o convento


Convento de S. José e Santa Teresa das Carmelitas Descalças

As obras de construção levaram cerca de duas décadas até ficarem concluídas.
O epílogo deste convento foi, a exemplos de outros, a derrota do exército de D. Miguel nas lutas liberais, e a decisão governamental de extinção das ordens religiosas tomada em 1834.

“As poucas religiosas que viviam no con­vento, quando o exército liberal entrou no Porto, aproveitaram a noite invernosa de 19 de janeiro de 1833 para fugir, seguin­do assim o exemplo que já havia sido dado, antes, pelos frades. As fugitivas, por altu­ras da Lapa, foram abordadas por uma pa­trulha do exército de D. Pedro I.
Iam disfarçadas. Tinham trocado o hábi­to por roupas vulgares. Mas não consegui­ram iludir os soldados que mandaram cha­mar o juiz do bairro de Santo Ovídio que, por sua vez, providenciou para que as re­ligiosas fossem entregues no mosteiro de São Bento da Ave Maria. Assim acabou, ao fim de quase 130 anos de existência, o mosteiro de São José e Santa Teresa das Carmelitas Descalças.
Durante muito tempo, a igreja e o mos­teiro estiveram completamente abando­nados. Só depois que terminou o cerco do Porto é que se começou a pensar no apro­veitamento que podia e devia ser dado às antigas instalações monásticas.
O recheio da igreja foi dividido por vá­rios templos da cidade. Por exemplo: a sa­nefa que estava no arco cruzeiro foi para a igreja dos Congregados. Arte da talha dou­rada dos altares foi para a capela de Fradelos, na esquina da Rua de Guedes de Aze­vedo com a Rua de Sá da Bandeira. O cha­fariz que enobrecia o centro do claustro foi colocado no mercado do Anjo quando este se construiu ali perto.
O pequeno sino da torre da igreja foi para o cemitério do Prado do Repouso”.
Com a devida vénia a Germano Silva

Tinha então este convento, uma pequena igreja muito elegante, com boa talha, claustro, dormitórios, e uma cerca com tanques e chafariz.
A igreja do mosteiro seria demolida em 1900.
No cemitério tinha sido encontrado, alguns anos antes da demolição da igreja, o corpo incorrupto de uma freira que tinha falecido, e esse achado tinha sido descoberto, quando ainda lá estava instalado o Colégio da Guia.
Sobre este facto, segue-se o texto exarado no Tripeiro série V- ano X


Parecendo ter existido por aqui duas escolas denominadas, Colégio da Guia e Colégio Portuense, parece-nos que o autor do texto anterior estará equivocado, pois, Patrício Teodoro Álvares Ribeiro foi, de facto, director do Colégio Portuense inaugurado em 1876, como se narrará mais adiante.
Por outro lado sabe-se que um colégio com a denominação de Colégio da Guia existiu, e é referido também num exemplar da revista O Tripeiro de 15/10/1910, por volta da década de sessenta do século XIX, mas, com paradeiro na Rua de Santa Catarina, no edifício onde funcionou a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais e onde também funcionou o Liceu Portuense, que lá se instalou a partir de 1866, pelo que o Colégio da Guia esteve aqui (no palacete dos Castro Pereira), em anos anteriores.
A área do convento voltada para a Praça de Santa Teresa (antes Calvário Velho e hoje a Praça Guilherme Gomes Fernandes), a nascente, teve aí localizado um tanque, a Fonte de Santa Teresa, que sucederia c. de 1823, a um chafariz situado próximo.

“À referida fonte, instalada no local mais tarde ocupado pelos Armazéns do Chiado, seguia-se uma escola (será o Colégio da Guia?) para a qual se subia por 2 lanços de escada e que tinha como director o padre Parreira.
A escola foi depois botica, armazém de cereais e salão recreativo de danças e onde se representavam comédias”.

Aquela fonte que chegou a receber as carrancas que saíram da Fonte da Natividade foi, em 1905 substituída por um fontanário, situado no meio da praça.
Em frente, a poente da praça, em casas térreas ficavam tabernas e estábulos onde os negociantes da Feira do Pão guardavam os seus muares, sendo uma dessas tabernas, o célebre “João do Buraco”.


Os Armazéns do Chiado em 1910 – Ed. “Le Temps Perdu”

Na transição do século XIX para XX os lisboetas, Grandes Armazéns do Chiado, abriram uma sucursal na Praça dos Voluntários da Rainha (na foto acima) com fachada também para a Rua da Galeria de Paris.
Em 1907, no rés-do-chão deste edifício abriu um grande animatógrafo, com capacidade para aproximadamente mil pessoas.

“Do lado da Rua das Carmelitas instalaram-se após a extinção do convento, em 1833, a estação central da Mala-Posta, que fazia a ligação entre o Porto e o Carregado, depois até Lisboa, entre 1855 e 1864, a Escola Normal, uma estação de polícia, o Colégio de Patrício Teodoro Alves Ferreira, a Direcção das Obras Públicas, uma associação académica, os Correios e Telégrafos que entre 1836 e 1857 ocuparam uma parte do antigo Convento das Carmelitas, denominando-se Correio Central e o Salão Americano, uma espécie de Bar servido por espanholas de flor no cabelo,  entre outros serviços, e nos terrenos da sua cerca tiveram lugar uma série de diversões (exibições de animais ferozes, espectáculos de variedades e circo), para além de peças de teatro popular e por fim em 1875 o Teatro de Variedades”.

O colégio acima referido, cujo proprietário e director era o Prof. Patrício Theodoro Álvares Ferreira, denominava-se Colégio Portuense, e foi inaugurado em 1876, passando a ser conhecido como um estabelecimento de ensino modelo, na cidade.
Nicolau Medina Ribas fez parte do corpo docente na cadeira de Música, nos anos lectivos de 1879/80 e 1880/81.
Foram lá também professores, Augusto Luso, Basílio Teles, Joaquim de Vasconcelos, JJ Rodrigues de Freitas, Júlio de Matos, Ricardo Jorge, entre outros.
Foram lá alunos, entre outros, Leite de Vasconcelos e Santos Pousada.

“Entre 1892 e 1904, a Companhia de Utilidade Doméstica, subsidiada pela Câmara, iniciou no edifício do antigo convento a Cozinha Económica. Servia cerca de 1000 refeições por dia aos operários a preços reduzidos. Eram fornecidas fichas com os preços dos pratos. Anos depois, por 60 reis, servia merendas aos empregados comerciais”.
Fonte: “portoarc.blogspot.pt”

Ficha para o pão – Fonte: “portoarc.blogspot.pt”


Ficha para a sopa – Fonte: “portoarc.blogspot.pt”


Na zona que é hoje a Rua Cândido dos Reis, a cerca do antigo convento deu origem, também, a um mercado denominado “Os Ferros Velhos”.
A cerca do convento daria também lugar à Rua da Galeria de Paris, projectada para ter uma cobertura envidraçada à moda das galerias parisienses, o que não se concretizou.

“A Rua Galeria de Paris foi aberta em 1903, no quarteirão anteriormente ocupado pelo convento das Carmelitas e os prédios que ladeiam a Rua da Galeria de Paris são elegantes e de boa traça, com destaque para o número 28, casa em estilo Arte Nova.
Ao longo da segunda metade do século XX, os armazéns de tecidos foram ocupando grande parte dos edifícios da rua. Na esquina da rua da Galeria de Paris com a rua das Carmelitas ficam os populares Armazéns Marques Soares e, do outro lado, está a Fernandes, Mattos & C.ª, casa de tecidos fundada em 1886.
De local triste e pouco habitado da Baixa do Porto, a Rua da Galeria de Paris tornou-se, em pouco tempo, naquilo que é muitas vezes referido como um dos centros da movida portuense, fenómeno semelhante ao Bairro Alto. Tudo começou em 2007, com a abertura de um bar numa antiga livraria. O calendário variado de eventos que desenvolveu, com destaque para os concertos de jazz, desencadeou o surgimento de outros espaços, tornando este num local da moda da noite do Porto, especialmente aos fins- de-semana”.
In Wikipédia


Mala-Posta


Planta do local

Na planta acima, após 1839, pois o recolhimento do Anjo já foi demolido e lançada a Rua das Carmelitas, pode observar-se a área de implantação do convento, adivinhando-se também a localização do seu claustro e chafariz.


O carro da Camisaria Confiança na Rua das Carmelitas no Carnaval de 1905 


Bairro das Carmelitas em construção – Fonte: JN



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