sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

25.172 Um capitalista nacional com origens portuenses

  
Em 1819, nascia Francisco de Oliveira Chamiço (Porto, São Nicolau, 24 de Fevereiro de 1819 - Lisboa, Mártires, 21 de Março de 1888).
Era filho de Fortunato de Oliveira Chamiço, um negociante da praça do Porto, e de sua mulher Cândida Margarida Cândida Martins Pacheco, neto paterno de Brás de Oliveira Chamiço, Capitão-de-Mar-e-Guerra, de origem Alemã.
Era irmão de duas personagens que se destacariam pelo relevo alcançado na sua actividade económica, Fortunato Oliveira Chamiço Júnior e de Eduardo Oliveira Chamiço.
Aos 10 anos de idade, Francisco Chamiço foi estudar para Inglaterra, onde a firma do pai, “Chamisso & Companhia” tinha boas relações, regressando com vinte anos.
Começaria, então, a trabalhar na firma do pai, tendo casado com Claudina Freitas Guimarães (1821 – 1913), irmã de Ana Freitas Guimarães casada com Fortunato de Oliveira Chamiço Júnior, irmão do Francisco. O outro irmão, já referido, de seu nome Eduardo Oliveira Chamiço, acabaria por ficar solteiro.
Nos anos seguintes, Francisco Chamiço desempenhou vários cargos de relevo no âmbito da actividade económica, tendo sido Secretário da Associação Comercial Portuense, a cuja Direcção esteve ligado por espaço de 23 anos, durante os quais foi encarregado por aquela Associação e pelo Estado, de numerosas Comissões em proveito do serviço público.
Assim, em 1852, Francisco Chamiço é nomeado pelo Ministro Rodrigo da Fonseca Magalhães, para a comissão de inquérito da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro.
Nesse ano, aparece ligado a uma elite portuense, quando juntamente com António Bernardo de Brito e Cunha, Ricardo de Clamouse Brown, José Pedro Barros Lima e mais uns quantos, vão coadjuvar as senhoras, Marquesa de Terena, Condessa de Terena, Viscondessa de Alpendurada, Viscondessa de Balsemão, Viscondessa de Castro Silva, Baronesa de Ancêde, Baronesa do Bolhão, Maria Ermelinda Woodhouse e muitas outras, que organizavam um baile, na Quinta das Águas Férreas, que ficaria célebre, por não se ter realizado.
O baile estava previsto ser em honra da rainha D. Maria II, que visitava a cidade e o norte do País, em Maio de 1852, mas o S. Pedro não esteve pelos ajustes e despejou água, sobre a cidade, até fartar.
Entretanto, anos antes, Francisco Chamiço já tinha fundado, juntamente com o seu irmão Fortunato e com Carlos Silva, a firma que se destacaria no comércio dos vinhos do Porto, “F. Chamiço Filho & Silva”, que teve a sua sede na Rua dos Ingleses, nº 87 – 1º (actual Rua do Infante).

 
 

Rua dos Ingleses, c. 1860

 
 

Garrafa de vinho do Porto Chamisso


 
A “F. Chamiço Filho & Silva” que exerceria também na área exportadora funções de consignatários (correspondente aos actuais agentes de navegação) haveria de ver, também, o seu nome ligado a um naufrágio célebre, em 1864, do vapor Corinthian.

 
 

Anúncio do jornal “O Comércio do Porto” em 1 de Julho de 1864

 
 
“Vapor “Corinthian”
Um telegrama chegado ontem de Viana informa estarem destruídas todas as esperanças, dadas pela notícia anterior relativamente ao vapor inglês “Corinthian”, que tendo saído ante-ontem a barra do rio Douro, encalhou às 6 horas da tarde do mesmo dia num banco de areia a 5 milhas ao Sul de Viana, abrindo logo água.
Às 3 horas da madrugada de ontem, a tripulação vendo que o navio ia submergir-se abandonou-o e desembarcou a salvo em Viana.
Com os socorros prestados pelas repartições competentes daquela cidade pôde ser salvo do vapor naufragado parte do gado que ia no convés.
O “Corinthian” está totalmente perdido. Bateu e submergiu-se em sítio tão fundo, que ontem às 3 horas da tarde, segundo uma carta de Viana, apenas se viam os mastros fora da água. Os tripulantes tinham-no abandonado pouco antes da submersão.
O vapor levava perto de 300 bois, dos quais ainda foram salvos 60 e tantos, que iam no convés. Mergulhadores empregados para a salvação da carga, ainda não tinham conseguido salvar nada até às 3 horas da tarde de ontem”.
In jornal “Comércio do Porto”, terça, 5 de Julho de 1864
 
 
 
Em 1853, com 33 anos, Francisco Chamiço foi dos fundadores da Companhia de Seguros Garantia, praticando seguros marítimos e terrestres e que rapidamente se expandiu pelo estrangeiro: Brasil, Inglaterra, Espanha.
Em 1854, foi pela primeira vez deputado eleito pela cidade do Porto, ocupando, sucessivamente, o seu lugar na Câmara dos Senadores, até 1864, data em que renunciou à candidatura por divergências com o Ministério presidido pelo 1.° Duque de Loulé.
Com a publicação da Constituição de 1838, decorrente da revolução de 1836, foi estabelecido nela um compromisso entre a Constituição de 1822 e a Carta Constitucional de 1826, e a manutenção do sistema bicameral. A Câmara dos Senadores é, no entanto, electiva e temporária. O número de Senadores era igual à metade dos deputados. Duraria pouco, no entanto, a nova Constituição, pois com a chegada de Costa Cabral ao poder, em 1842, seria reposta em vigor a Carta Constitucional de 1826.
A função de deputado levou Francisco Chamiço, assim, a passar parte da sua vida na capital, onde haveria de se radicar e onde iria adquirir contactos cruciais para o singrar da sua actividade profissional.
A amizade que fez com o escritor, jornalista, diplomata e político, José da Silva Mendes Leal (Lisboa, 18 de Outubro de 1820 — Sintra, 22 de Agosto de 1886), foi fundamental.
O casal Fortunato Chamiço Júnior e Ana Freitas Guimarães teve uma filha, Amélia Freitas Guimarães Chamiço (1843 – 1900), que casou, em 22 de Novembro de 1870, com Frederico Biester (1833 – 1899), irmão de Rosa Biester Mendes Leal, esposa de José da Silva Mendes Leal, que viria a ser ministro da Marinha e do Ultramar.
Francisco Chamiço vai valer-se do seu relacionamento com José da Silva Mendes Leal, em 1862, quando consegue desbloquear o arranque da construção do Palácio de Cristal pela denominada Sociedade do Palácio de Cristal eleita numa reunião em 1861.

 
 

Primeiros corpos gerentes da Direcção da Sociedade do Palácio de Cristal, em 1861

 
 
Como se pode observar, Francisco Chamiço fará parte da 1ª Direcção da sociedade do Palácio de Cristal, mas será a assinatura do seu irmão, Eduardo Chamiço, como substituto, que irá aparecer em muita documentação atinente ao exercício da actividade daquela sociedade, pois, por estes anos, já Francisco Chamiço passava longas temporadas em Lisboa, devido à sua actividade política.
 
 
 
“Em Julho 1861 Alfredo Allen, Francisco de Oliveira Chamiço e Francisco Pinto Bessa promoveram a fundação da Sociedade do Palácio Agrícola, Industrial e Artístico, depois denominada do Palácio de Cristal Portuense S.A.R.L., com o objetivo de construir um palácio destinado a exposições agrícolas, industriais e artísticas.
De início parecia que tudo se encaminhava bem mas, contra o esperado, a recusa da colónia portuguesa no Brasil em participar no capital da sociedade, trouxe dificuldades que pareciam inultrapassáveis, até que Francisco de Oliveira Chamiço, sendo deputado e sendo ministro José da Silva Mendes Leal, em Julho de 1862, parente da família de sua sobrinha Amélia, conseguiu um lei que isentava a sociedade de impostos e concedia importação livre de direitos de todos os materiais destinados à construção do Palácio.
Com esta ajuda e com a de outros beneméritos que ofereceram os seus haveres pessoais, como foi o caso do Dr. António Ferreira Braga, lá se concluiu o Palácio de Cristal do Porto, que, segundo parece, nunca teve uma exploração sem desequilíbrios financeiros e não permitiu reembolsar os seus credores, falecendo o referido Dr. Braga, distinto professor da escola médico-cirúrgica, em 1870, em penosa pobreza”.
Fonte: banconacionalultramarino.blogspot.com/
 
 
Naquele mesmo ano de 1861, em Setembro, Francisco Chamiço era eleito para o Conselho Fiscal da Companhia de Viação Portuense com sede ao Jardim de S. Lázaro.
 
 
 

Palácio de Cristal inaugurado em 1865 - Gravura do Archivo Pittoresco
 
 
 
 
 
É ainda, José da Silva Mendes Leal que, como Ministro da Marinha e Ultramar, vai proporcionar a Francisco Chamiço que seja o fundador de um banco.
Assim, expõe pessoalmente o projecto do Banco à Câmara de Deputados do Reino, em 7 de Abril de 1864 e, logo em 10 de Maio, seguinte, é aprovado o decreto que autoriza o novo banco.
Seis dias depois, 16 de Maio de 1864, o rei, D. Luís, assina a Carta de Lei que ractifica o decreto, nascendo assim, oficialmente, o Banco Nacional Ultramarino (BNU).
O BNU foi emissor de Papel-Moeda para as colónias. Em 1865, a emissão contemplou Angola seguindo-se todas as outras. Até 1926, o BNU exerceu aquela actividade para Angola.
Em 1876, a banca em Portugal sofreria uma grave crise, à qual o BNU não fugiria.
Em 18 de Agosto de 1876, a maioria dos bancos, em Lisboa, suspenderia os pagamentos.
Nesse dia, o governador do BNU, Francisco de Oliveira Chamiço, fez afixar à porta do Banco o seguinte aviso: 
 
 
“Por difficuldades na cobrança de valores vincendos de hoje, e pela suspensão feita por outros estabelecimentos bancários no pagamento de cheques de que este Banco era portador, encontra-se elle a necessidade de suspender o pagamento de cheques a seu cargo, até que realise cobranças que o habilitem, ficando também suspenso o recebimento de quantias para depósito e, podendo assegurar aos srs. Depositantes que dentro de breves dias lhe serão pagos integralmente os seus depósitos.
In Diário Ilustrado nº 1314
 
 
A saída da crise esteve na solução encontrada por Fontes Pereira de Melo em obter junto de Londres um empréstimo para compensar a falta de numerário.
Nesses tempos, em que para o sector bancário se aproximavam situações conturbadas, consta que Francisco Chamiço visitava, em Viana do Castelo, frequentemente, Mateus Barbosa da Silva - uma personalidade muito conceituada na região, que ficaria conhecido por ter sido o presidente desde 1853 a 1873 da Associação Empresarial de Viana do Castelo, e Vice-cônsul da França em Viana do Castelo.
Francisco Chamiço teria, então, convencido os Barbosa e Silva e outros burgueses e aristocratas de Viana a investir confiadamente importantes somas no Banco Nacional Ultramarino e, “ao dar-se seguidamente o mais famoso descalabro daquele banco foi como se ocorresse um terremoto em Viana”, causando enorme prejuízo àquela família. Diz-se, ainda, que o Francisco Chamiço veio a ser “inculpado” no processo subsequente.
Entretanto, Mateus Barbosa não assistiria a este descalabro bancário, pois já tinha falecido em 1873.
Em 1881, o banco reformou os estatutos, aumentando o capital para reforçar as operações de crédito agrícola, móvel e comercial. Internamente, reformulou o seu Conselho de Administração que passou a ser constituído por um governador e dois vice-governadores.
No desenvolvimento da sua actividade nas colónias africanas, o BNU acabou por se envolver directamente em actividades comerciais de importação e exportação e de exploração de actividades agrícolas, adquirindo várias propriedades agrícolas.
Assim, Francisco Chamiço ter-se-á oposto à abolição da escravatura, pois pretendia que os proprietários dos escravos fossem indemnizados no cumprimento da lei que a impunha.
Tal tomada de posição decorria do facto de que o BNU ao fazer a exploração de várias fazendas em S. Tomé, necessitava de mão-de-obra escrava.
Em 1875, o BNU contrata directamente da Libéria, 600 homens e mulheres para as suas propriedades de S. Tomé e até ao final de 1876, tinha já “importado” da Libéria, cerca de 3000 trabalhadores.
A importação de mão-de-obra da Libéria foi a solução que o Francisco Chamiço encontrou como ideal para evitar a caça aos navios de escravos que era feita pelos navios de guerra ingleses sobretudo nas costas de Angola.
Aliás, em 1877, o navio à vela “Ovarense”, ao serviço do BNU, foi arrestado pelos ingleses e confiscada toda a sua carga, sob pretexto de que fazia comércio de escravos.
Em 1877, o jornal “O Progresso” de Lisboa refere que em Luanda se encontram 240 escravos comprados pelo BNU com destino a S. Tomé, estando mais 1000 escravos em Novo Redondo, prontos para partir para a “Água Izé”, propriedade do BNU em Timor.
Francisco Chamiço seria, ainda, proprietário de minas de estanho da Mostardeira (Alentejo) e de Trás-os-Montes, que vieram a ser financiadas pelo BNU.
Em 1876, a rainha D. Maria Pia, por ocasião das inundações de inverno, organizou uma comissão para angariar donativos, da qual faziam parte as personalidades mais importantes da sociedade portuguesa, como o cardeal patriarca, e que incluía, também, Francisco de Oliveira Chamiço.

 
 

Francisco de Oliveira Chamiço


 
Francisco Chamiço fez ainda parte da Administração da Companhia de Caminhos de Ferro Portugueses e presidiu ao comité executivo da exposição colonial portuguesa na exposição universal de Antuérpia, de 1885.
Francisco Chamiço faleceu em Lisboa no dia 21 de Março de 1888, com 68 anos.
Depois da nacionalização em 1974, em 2001, o BNU desapareceria, sendo englobado na Caixa Geral de Depósitos.
 
 
 
 
 
Outros factos relacionados indirectamente com Francisco Chamiço
 

Primeira sucursal do Banco Nacional Ultramarino no Porto
 
 
O Banco Nacional Ultramarino logo, em 1865, abriria a sucursal de Luanda e uma agência na cidade da Praia, em Cabo Verde. Em 1868, criaram-se agências em S. Tomé, Moçâmedes, Benguela e Goa e, em 1876, o banco estendeu-se a Lourenço Marques. Em 1902, criaram-se agências em Macau e Bolama e, em 1912, a de Díli. Em 1913, expandiu-se a pontos-chave no Brasil, nomeadamente, São Paulo, Salvador da Baia, Belém, Recife e Manaus.
Mas, apenas em 1917, foi aberta uma agência no Porto e, no ano seguinte, em Faro.
No Porto, aquela agência situou-se na Praça da Liberdade, junto da igreja dos Congregados.
 
 
 

Vista da Praça da Liberdade, em pleno século XIX, junto da igreja dos Congregados
 
 
 
Na foto acima, no local do prédio de esquina, adossado à igreja dos Congregados, se instalaria a agência do BNU.
Toda a frente do edificado, a nascente da praça, foi o chão do convento dos padres congregados.
Com a extinção das ordens religiosas, o mosteiro foi vendido, em 23 de Abril de 1834, a um brasileiro de torna viagem, Ma­nuel Duarte Guimarães, de alcunha "O Cheira", enquanto a igreja era cedida à confraria de Santo António.
Em 1843 e 1844, as antigas instalações do mosteiro seriam alvo de obras sob a licença nº 98/1843 e licença nº 156/1844, respectivamente.
No prédio referido esteve, em meados do século XIX, o famoso café Guichard.
 
 
 

Café Guichard na 3ª, 4ª e 5ª porta, a contar da esquina
 
 
 

Igreja dos Congregados e mosteiro – Gravura de Joaquim Villanova, em 1833

 
 
No local em causa, em novo prédio, haveria de se instalar a casa bancária Pinto da Fonseca & Irmão.
 
 
“A fundação da casa bancária Pinto da Fonseca & Irmão data de 30 de dezembro de 1896. Constituída sociedade comercial em nome coletivo, com responsabilidade ilimitada, estabeleceu a sede social na Praça da Liberdade, no Porto. Foram sócios fundadores Joaquim Pinto da Fonseca e Manuel Pinto da Fonseca. O objeto social da Pinto da Fonseca & Irmão era o exercício do comércio bancário”.
Fonte: bportugal.pt/arquivo/
 
 
 
 
Em Julho de 1894, tinha sido autorizado pela licença nº 217/1894, um novo edifício para o local em apreço.
Seria definitivamente aprovado em Agosto de 1895.

 
 

Desenho de fachada voltada para o Largo da Feira de S. Bento, integrante de projecto de construção que obteve a licença nº 217/1894


 
 

Edifício, em 1897, correspondente à licença nº 217/1894

 
 
Em 1901, a casa bancária de Pinto da Fonseca & Irmão abandona as instalações do 1º andar do prédio e passa a ocupar o rés-do-chão do mesmo.
 
 
“7 de Dezembro de 1901 – Inauguram-se as novas e modernas instalações da casa bancária de Pinto da Fonseca & Irmão, no rés-do-chão do prédio da esquina das praças dos Congregados e D. Pedro, onde anteriormente se encontrava a tabacaria Arnaldo Soares. Este reabre também, no prédio contíguo, o seu novo e elegante estabelecimento comercial.
In revista “O Tripeiro”, Vª Série, Ano VII, Dezembro de 1951
 
 
 
 
Edifício onde esteve o Banco Pinto da Fonseca & Irmão, vendido ao Banco Nacional Ultramarino



 
Em 22 de Agosto de 1916, é assinado o contrato de trespasse, por 75.000$00, das instalações da Casa Bancária de Pinto da Fonseca & Irmão a favor do Banco Nacional Ultramarino para montar a sua filial no Porto.
 


 
“Em 12 de dezembro de 1916 a firma registou uma alteração estratégica. Trespassou o estabelecimento da Praça da Liberdade ao Banco Nacional Ultramarino, tendo os sócios assumido o compromisso de não negociarem no ramo bancário, na cidade do Porto, durante o prazo de 20 anos. Assim, o objeto da firma ficou limitado ao comércio de compra e venda de mercadorias, por conta própria ou à consignação e comissão, tendo mudado as suas instalações para a Rua dos Clérigos.
Este acordo ficou entretanto anulado, por escritura de 11 de maio de 1920, quando a firma alterou o pacto social, retomando o exercício do comércio bancário”.
Fonte: bportugal.pt/arquivo/
 
 
 
 
Em 1917, o Banco Nacional Ultramarino chega à cidade do Porto, adquirindo o prédio da foto anterior ao Banco Pinto da Fonseca & Irmão que, por sua vez, se deslocaria para uma loja no Palacete das Cardosas, em local que, hoje, seria contíguo ao da Farmácia Vitália, que ainda existe.
O Banco Nacional Ultramarino irá fazer remodelações de vulto no prédio adquirido, que receberia obras, em 1920, sendo dotado de mais um piso e uma mansarda e duplicado o alçado voltado para a Praça da Liberdade, pelo ganho de área de edifícios contíguos.

 
 

Construção das novas instalações da sucursal do Porto do Banco Nacional Ultramarino, observando-se os tapumes que protegem os trabalhos e exibem cartazes das “Propagandas Caldevilla” – Fonte: AHMP



 

Ao centro, os dois edifícios que permitiram a expansão das instalações daquele que passaria a albergar o Banco Nacional Ultramarino. A meio da foto, o restaurante Camanho que daqui saiu em 1917
 
 
 

Edifício resultante da intervenção para instalação definitiva da sucursal do Banco Nacional Ultramarino no Porto
 
 
 
Chalet Biester, em Sintra
 
 
Do casamento atrás referido de Amélia Freitas Guimarães Chamiço e de Frederico Biester, nasceria uma única filha que morreu muito jovem vítima de tuberculose óssea.
O casal haveria de habitar, por poucos anos, o chamado Chalet Biester, situado na estrada da Pena, na antiga propriedade da Quinta Velha, encomendado por Frederico Biester, para uma parcela de terreno adquirido, na Serra de Sintra, de cerca de 6 hectares e no qual intervieram artistas de renome europeu.
O Chalet foi projectado pelo arquitecto português José Luiz Monteiro, começado a construir em 1886, e decorado pelos melhores artistas da época, nomeadamente, Luigi Manini, nas pinturas de tectos e Leandro de Souza Braga, em todo o trabalho sumptuoso de marcenaria.
Os estuques ficaram a cargo de Domingos Meira, de Afife, a quem se deve, também, os trabalhos no vizinho Palácio da Pena.
 
 
 

Palácio Biester, em Sintra -  Fonte: @vleandro
 
 
Por morte de Amélia de Freitas Chamiço, por ausência de herdeiros directos, a sua tia, Claudina Ermelinda de Freitas Guimarães Chamiço, viúva de Francisco Chamiço, viria a ser a herdeira do Chalet Biester e de todos os demais bens daquele ramo da família, passando a ser a mulher mais rica do País.

domingo, 11 de dezembro de 2022

25.171 Revolta de Maio de 1915

 
A 14 de Maio de 1915, iniciou-se um golpe de estado para repor a plena vigência da Constituição de 1911, e derrubar o governo presidido pelo general Pimenta de Castro – que governava em ditadura, após o encerramento forçado do parlamento.
Pimenta de Castro tinha subido ao poder no desenvolvimento de um golpe militar, o Movimento das Espadas (20 a 25 de Janeiro de 1915), ou Golpe das Espadas, nome pelo qual ficaram conhecidos os incidentes de insubordinação militar, em que se destacaram o capitão Martins de Lima e o comandante Machado Santos, que conduziram à demissão, a 25 de Janeiro de 1915, do Governo presidido por Victor Hugo de Azevedo Coutinho (alcunhado de “Os Miseráveis” de Victor Hugo) e à instauração de um governo ditatorial, a primeira ditadura do republicanismo português.
Face aos acontecimentos protagonizados pelos militares, o governo de então demitir-se-ia e o Presidente da República Manuel de Arriaga, num acto que em muito contribuiu para destruir a sua credibilidade como democrata, nomeou o general Pimenta de Castro para governar em ditadura.
Porém, passados apenas cerca de quatro meses, em 14 de Maio, surgia o movimento que sairia vitorioso, levando à substituição do governo de ditadura por uma Junta liderada por João Chagas, e à demissão do presidente da República, Manuel de Arriaga, substituído, em eleições, por Teófilo Braga.
Os tumultos só terminaram no dia 17, causando cerca de 200 mortos e mais de mil feridos, em Lisboa.
Este foi um dos acontecimentos mais dramáticos ocorridos durante a vigência da I República Portuguesa (1910-1926).
 
 
“A revolta de 14 de Maio de 1915, começou por ser uma tentativa de reposição da Constituição de 1911, levada a efeito por um conjunto de militares que vão ser conhecidos como os Jovens Turcos, entre eles destacavam-se Álvaro de Castro, Freitas Ribeiro, Sá Cardoso, entre outros. Este grupo procurava acabar com a ditadura do General Pimenta de Castro, que tinha chegado ao poder ao fracasso das iniciativas governativas lideradas por Bernardino Machado (10-02-1914 a 11-12-1914) e por João de Azevedo Coutinho (12-12-1914 a 25-01-1915) que enfrentou graves problemas com o denominado “movimento das espadas”, quando os militares de várias unidades pelo País, numa atitude de protesto, devido à transferência do então major João Carlos Craveiro Lopes da Figueira da Foz para Lisboa a pedido dos líderes locais do Partido Republicano Português, entregaram aos superiores hierárquicos, as suas espadas e criando assim um ato de indisciplina contra a transferência deste camarada de armas”.
In Almanaque Republicano
 
 
 
A revolta de 14 de Maio estender-se-ia ao Porto resultando, no final, nesta cidade, dois mortos e mais de vinte feridos.
Do funeral de uma das vítimas mortais, Manuel Oliveira Ramos, noticiava a revista Ilustração Portugueza na sua edição de 31 de Maio.
 
 
 
O funeral de Oliveira Ramos passando pelas Carmelitas e Rua 31 de Janeiro – Ed. Ilustração Portugueza de 31 de Maio de 1915
 
 
 

Multidão concentrada, na Praça da Liberdade, durante a revolta de Maio de 1915

domingo, 4 de dezembro de 2022

25.170 Comemorações do 1º centenário da revolução liberal do Porto

 
São já decorridos 200 anos sobre a madrugada do dia 24 de Agosto de 1820, quando a cidade sublevada por um pronunciamento militar, a que a população de imediato aderiu, proclamou a Junta Provisional do Governo Supremo do Reino e deu o primeiro passo para edificar o Portugal moderno, concretizando a revolução liberal.
A cidade do Porto, como polo fundamental desse acontecimento histórico seria, por essa razão, o centro das comemorações do 1º centenário daquela revolução.
Assim, o presidente da República, António José de Almeida, chegou à cidade no dealbar da manhã do dia 23 de Agosto de 1820, véspera do aniversário da revolução liberal, depois de desembarcar no comboio-correio, vindo da capital e de ter passado pelas estações ferroviárias de Campanhã e S. Bento.
A sessão de boas-vindas ao Chefe de Estado decorreria na Câmara Municipal a funcionar, à data, no antigo palácio episcopal, à Sé.


 

Câmara do Porto, funcionando na Sé, com a estátua do “Porto” guardando a entrada
 
 
 
Entretanto, o paço episcopal estava pelo solar dos Terena, ao Palácio de Cristal, depois de uma breve passagem pelo palacete de Sacais, ao Bonfim.
 
 
 

Palacete de Sacais (Rua António Granjo), no início do século XX
 
 
 

Solar dos Terena, em frente ao Palácio de Cristal, antes da abertura da Rua de Júlio Dinis (pela esquerda), na década de 1930
 
 
 
Seguir-se-ia o lançamento da primeira pedra do novo edifício da sede do “Clube Fenianos Portuenses”, à Praça da Trindade.
O icónico clube acabava de ser o alvo da ira dos monárquicos quando, no início de 1919, e durante o seu reinado breve, de cerca de mês e meio, as suas instalações, à Praça da Batalha, foram completamente destruídas.

 
 

Sede do Clube Fenianos Portuenses, em 1935
 
 
 
O presidente António José de Almeida recolheria, depois, ao palácio presidencial, tendo sido, para o efeito, preparado o palacete Braguinha, na Rua Rodrigues de Freitas, a S. Lázaro. Aqui, visitaria as instalações que lhe foram destinadas, tendo como cicerone o vereador do município, Aurélio da Paz dos Reis.

 
 

Palacete Braguinha que alojaria a Escola de Belas Artes do Porto, a partir de 1928
 
 
Depois de uma cerimónia de apresentação de cumprimentos, contemplando uma imensidão de personalidades e instituições, o Presidente da República ofereceria um jantar a alguns comensais, por si escolhidos, conforme noticiava o jornal “O Comércio do Porto” de 24 de Agosto de 1920.
 
 
 



No dia seguinte, 24 de Agosto, o Presidente da República, António José de Almeida, depõe flores no Monumento aos Vencidos do 31 de Janeiro de 1891, ao Prado do Repouso.

 
 

Monumento aos vencidos do 31 de Janeiro – Ed. Foto Guedes; AHMP
 
 
 
 
A jornada continuaria com a cerimónia de descerramento de placa evocativa da data, na frontaria do Quartel de Infantaria nº 6, ao Palácio de Cristal, acto similar que se repetiria, seguidamente, no regimento de infantaria nº 18, à Praça da República.

 
 
 

Descerramento de placa comemorativa do 1º centenário da revolução liberal, junto do regimento de infantaria nº 6 – Fonte: revista “Ilustracção Portugueza” de 6 de Setembro de 1920
 
 
 
Inscrição na placa descerrada na fachada do quartel de infantaria nº 6
 
 
 
Durante a tarde desse dia, seria também lançada a 1ª pedra do Monumento aos Mortos da Grande Guerra, uma vontade da Junta Patriótica do Norte, na Praça Carlos Alberto e, à noite, inaugurado o Museu Histórico da Revolta de 1820, no salão nobre do Teatro S. João, montado pelo Dr. Pedro Vitorino com a colaboração do seu irmão, o arquitecto Emanuel Ribeiro, e do seu pai, o pintor Joaquim Vitorino Ribeiro.
 
 
 

Reprodução de uma gravura de J. Vitorino Ribeiro (1887), com a legenda: "História da Revolução Portuguesa de 1820. O Capitão S. Machado Sousa Magalhães e o Tenente Paulo Correia impedindo a entrada no quartel do regimento de infantaria 6, ao Coronel Grant na madrugada de 24 de Agosto de 1820"



Seguir-se-ia uma récita, com a subida à cena da tragédia “A Castro”, à qual o jornal “O Comércio do Porto” se referia nos seguintes termos:

 
 



O dia 25 de Agosto, começaria com uma visita ao Museu Soares dos Reis (que era onde hoje é a Biblioteca Municipal) e ao atelier do pintor José de Brito (Santa Marta de Portuzelo, Viana do Castelo, 18 de Fevereiro de 1855 — 26 de Março de 1946), conhecido entre outras obras, por ser o autor das pinturas dos tectos do Teatro S. João.
 
 
 
Vista de uma das salas da Biblioteca Pública Municipal do Porto, com várias obras de arte expostas, pertença do Museu Municipal do Porto que, desde 1911, deixou de ser o Museu Portuense para passar a ser designado por Museu Soares dos Reis. Este só em 1942 ocuparia as instalações actuais

 
 
 

Vista de uma das salas da Biblioteca Pública Municipal do Porto. Ao fundo, a maqueta do Monumento aos Mortos da Guerra Peninsular (inaugurado, em 1951, na Rotunda da Boavista) e, à esquerda, a estátua do Conde de Ferreira

 
 
Daqui, a comitiva tomaria o rumo do Porto de Leixões, mas antes ainda ocorreria a tradicional visita à Associação Comercial, ao Palácio da Bolsa.
A caminho de Matosinhos seria então visitada a Colónia Sanatorial Marítima da Foz do Douro, que estava sob a alçada da edilidade.


 
Antiga Colónia Sanatorial Marítima da Foz do Douro, quando já era a escola masculina do Jardim do Passeio Alegre, em 1965
 
 
 
 
Em Leça da Palmeira, seria feita a recepção e, pelas 14,30 horas servido o almoço, nas instalações do Posto de Desinfecção, adaptado para o efeito, que terminaria, apenas, às 19 horas.

 
 

Posto marítimo de desinfecção de Leixões
 
 
 
A comunicação social, por sua vez, tornava público o menú.


 




Durante o repasto, nos discursos da praxe, procurava-se com a retórica dar um empurrão às obras para adaptação do Porto de Abrigo de Leixões, de molde a transformá-lo num verdadeiro porto comercial, que decididas há meia dúzia de anos antes, teimavam a marcar passo.
(Os trabalhos, em primeira instância, consistiram na adaptação, no molhe sul, de um cais acostável, com cerca de 400 metros de comprimento que permitia a sua utilização por navios que podiam atingir até 23 pés de profun­didade. A obra ficaria pronta em 1931, mas logo se percebeu que teria de existir uma solução mais ousada e, em 4 de Julho de 1940, seria inaugurada a Doca nº 1).
Pelas 5 horas da tarde, o Chefe do Estado estaria pelo Palácio de Cristal para presidir a uma cerimónia relacionada com a 1ª Grande Guerra e de homenagem ao Marechal Ferdinand Foch.

 
 


 
 
 
Ao início da noite, António José de Almeida regressaria a Lisboa.

 
 
Acontecimentos antecedentes à revolta
 
 
Para contextualizar a revolta de 1820, será necessário recuar alguns anos e evocar os seus principais antecedentes: a ida da corte para o Brasil em 1807; a invasão napoleónica do Porto e o desastre da Ponte das Barcas, em 1809; a criação, pelo então príncipe regente D. João VI, do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, em 1815; a conspiração de 1817 e a execução do prestigiado general Gomes Freire de Andrade, que acicatou ainda mais a revolta contra a presença inglesa e o governo liderado pelo marechal Beresford; e finalmente a constituição, no Porto, da associação secreta Sinédrio, criada por Fernandes Tomás, Silva Carvalho e Ferreira Borges com o exclusivo propósito de organizar a revolução.
Durante a 2ª década do século XIX, viveram-se os anos subsequentes à Guerra Peninsular, em que se assistiu à derrota de Napoleão e à chegada dos soldados portugueses intervenientes em plena Europa, no conflito.
Sobre a chegada ao Porto dos heróis da cidade intervenientes na Guerra Peninsular Alberto Pimentel, no seu romance “O Anel Misterioso”, escreve:
 
 
“Amanheceu festivo para a cidade do Porto o dia 15 d'agosto de 1814.
Esperava-se a brigada de infantaria do Porto, composta dos regimentos 6 e 18, que victoriosa regressava de França depois de haver pelejado com egual denodo pela restauração d'estes reinos e de toda a peninsula.
Os feitos da brigada de infantaria do Porto haviam soado, com assombro dos portuguezes, em Portugal inteiro, mórmente os que praticára na batalha da estrada de Bayona, em França, no dia 13 de dezembro do anno anterior.
O senado da camara tinha-se reunido nos primeiros dias d'agosto para assentar nos festejos com que se devia celebrar o regresso das tropas. Resolveu que se levantassem arcos de triumpho, fazendo-se outras mais demonstrações de alegria, e encarregou da direcção dos preparativos o vereador decano José de Sousa e Mello.
Construiu-se sobre a ponte do Poço das Patas a Porta da cidade, guarnecida com os castellos que lhe são proprios, e com as insignias concedidas por carta regia de 13 de maio de 1813; collocando-se na cimalha da porta a imagem de Nossa Senhora, que entregava a seu Divino Filho uma fita com a legenda Civitas Virginis.
O gosto da pintura, imitando velha cantaria, muito deu na vista das pessoas que percorriam as ruas e estacionavam boqui-abertas em frente do arco.
Tambem na cimalha foi embutida uma lamina de bronze com este distico:
 
HINC GENTI HOMEN;
HINC REGNO PLURIES SALUS;
HINC EUROPAE, ORBI
PRIMA LIBERTATIS LUX NOVISSIME AFFULSIT.
 
No alto da rua nova de Santo Antonio levantou-se um arco de triumpho, de ordem composita, firmado em quatro columnas…
…variegado espectaculo das tropas da guarnição, que estavam postadas em alas até ao largo de Santo Eloy; bem como para ver pegar fogo á bateria collocada no topo da calçada dos Clerigos e destinada a salvar com vinte e um tiros de peça a passagem da brigada pelo arco…
…Na rua nova do Almada baralhavam-se dois formigueiros de povo: um que, receoso do tumulto na aproximação das tropas, demandava o Campo de Santo Ovidio; outro que, tendo visto o obelisco levantado no meio d'este campo, ia procurar logar, na hypothese de encontral-o, junto ao arco da rua nova de Santo Antonio.
Era tambem sobremodo esplendoroso o obelisco n'aquelle campo. Rodeava o pedestal uma espaçosa varanda, adornada com ricas bandeiras portuguezas.
Pouco depois das oito horas e meia, um unisono grito de alegria annunciou a chegada da brigada ao Alto do Senhor do Bomfim.
Então começou o estrondear dos morteiros, o repicar dos sinos e o alarido dos vivas. Quando as tropas chegaram ao topo da rua nova de Santo Antonio, o enthusiasmo attingiu as raias do delirio, tamanho era o alvoroço da multidão que saudava com brados, com os lenços e os chapeus os dois regimentos portuenses. Durante todo o percurso até ao Campo de Santo Ovidio as flôres, as grinaldas e os ramos, que desciam das janellas, figuravam uma chuva iriada e espessa que ia orvalhar de petalas as fardetas dos soldados…”.
 
 
Quanto ao momento que, de facto, teria despoletado todo o movimento revolucionário e que fez transbordar as paixões nacionalistas, decorreria da execução de Gomes Freire.
Gomes Freire de Andrade e Castro, Gomes Freire de Andrade ou, simplesmente, Gomes Freire (Viena, 27 de janeiro de 1757 — Oeiras, Oeiras e São Julião da Barra, Forte de São Julião da Barra, 18 de outubro de 1817), foi um general português, oriundo de uma antiga e ilustre família nobre da Boémia e ainda parente da segunda mulher do Marquês de Pombal.
Destinado à carreira militar, assentou praça de cadete no regimento de Peniche, sendo em 1782 promovido a alferes. Passou à Armada Real, embarcando em 1784 na esquadra que foi auxiliar as forças navais espanholas de Carlos III de Espanha no bombardeamento de Argel.
Foi iniciado na Maçonaria antes de 1785, provavelmente em Viena na Loja Zur gekrönten Hoffnung (À Esperança Coroada), a cujo quadro pertencia, juntamente com Wolfgang Amadeus Mozart, em 1790. Tinha então o grau de Mestre. Ocupa o cargo de Venerável da Loja Regeneração. Em 1801 reúne-se em sua casa a assembleia que levou à organização definitiva da Maçonaria Portuguesa, com a posterior criação do Grande Oriente Lusitano em 1802, sendo eleito como um dos seus principais dignitários.
Gomes Freire, viria a integrar a "Legião Portuguesa" criada por Jean-Andoche Junot e que, sob o comando do marquês de Alorna, partiu para França em Abril de 1808, onde vem a ser recebida por Napoleão Bonaparte no dia 1 de Junho. Participou na campanha da Rússia.
Entretanto, fez parte da Loja Militar Portuguesa Chevaliers de la Croix (Cavaleiros da Cruz), em Grenoble, entre 1808 e 1813 onde vem a ser o 5.º Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, de 1815 ou 1816 a 1817.
Foi detido, preso, condenado à morte e enforcado (embora tenha pedido para ser fuzilado) junto ao Forte de São Julião da Barra, em Oeiras, por crime de traição à Pátria junto com outras onze pessoas: o coronel Manuel Monteiro de Carvalho, os majores José Campelo de Miranda e José da Fonseca Neves e mais oito oficiais do Exército.
Essa data, 18 de Outubro, foi, durante mais de um século, dia de luto na Maçonaria Portuguesa. Ainda hoje o seu nome é venerado como um dos grandes maçons e mártires da Liberdade de todos os tempos, tendo sido numerosas as lojas crismadas com o seu nome e abundantes os iniciados que o escolheram como nome simbólico.
Os britânicos tinham vindo para Portugal para combater os franceses, porém, acabaram por permanecer muito para lá do fim da guerra, exercendo uma tutela política e militar sobre o País, dirigida pelo odiado general William Beresford, e que era vista por certa imprensa portuguesa como uma segunda ocupação, depois da francesa. Além de ser agora uma espécie de colónia do Brasil, Portugal era, assim, igualmente, aos olhos de muitos, um protectorado da Grã-Bretanha
A formação do Sinédrio é, também, fundamental na evolução dos acontecimentos.
Manuel Fernandes Thomaz, apoiado no Sinédrio, é considerado o impulsor do movimento de 24 de Agosto de 1820 que redundou na revolução do Porto.
As reuniões realizavam-se em sigilo, no dia 22 de cada mês, na Foz do Douro, para ajuizarem as notícias do mês anterior e determinarem os propósitos mais oportunos e as acções a tomar, segundo as circunstâncias.
O número dos associados no Sinédrio, que contou desde sempre com a presença de José Ferreira Borges, nunca passou de 13, sendo o último a inscrever-se, em 18 de Agosto de 1820, Bernardo Correia de Castro e Sepúlveda que depois prestou à causa liberal relevantes serviços.
 
 
 
“Em janeiro de 1818, no Porto, é fundado o Sinédrio, uma organização secreta que tinha como objetivos iniciais, nas palavras de um dos seus membros, José Maria Xavier de Araújo, «observar a opinião pública, e a marcha dos acontecimentos, vigiar as notícias da vizinha Espanha» e, «se rompesse um movimento anárquico, ou uma revolução […], conduzi-la para bem do País e da sua liberdade, guardada sempre a devida fidelidade à dinastia da Casa de Bragança».
O grupo fundador era constituído pelos juristas José da Silva Carvalho, José Ferreira Borges e Manuel Fernandes Tomás, a sua principal figura, e pelo comerciante João Ferreira Viana. Ao longo dos dois anos seguintes, o Sinédrio foi recrutando mais elementos entre a burguesia do Porto, mas só na primavera de 1820, após a estabilização do regime constitucional espanhol resultante de um golpe militar ocorrido em janeiro, é que terá considerado o contexto suficientemente favorável para planear um movimento e aliciar militares para ajudar a pô-lo em marcha, uma tarefa levada a cabo com sucesso.
(…) Na manhã do dia 24 de agosto de 1820, no Campo de Santo Ovídio, no Porto, as tropas comandadas pelo coronel Cabreira reúnem-se e assistem a uma missa, seguida de uma salva de vinte e um tiros de artilharia. Juntam-se-lhes, depois, as forças do coronel Sepúlveda e do tenente-coronel Domingos António Gil, tendo-se constituído um conselho militar e feito duas proclamações, lidas, respetivamente, pelos coronéis Cabreira e Sepúlveda. Na primeira, dizia-se: «Soldados! - Uma só vontade nos una. Caminhemos à salvação da Pátria. Não há males que Portugal não sofra. Não há sofrimento que nos portugueses não esteja apurado. […] É necessária uma reforma, mas esta reforma deve guiar-se pela razão e pela justiça, não pela licença. Coadjuvai a ordem; coibi os tumultos; abafai a anarquia. Criemos um governo provisório, em quem confiemos. Ele chame as Cortes, que sejam o órgão da Nação, e elas preparem uma Constituição, que assegure os nossos direitos. O nosso rei, o senhor D. João VI, como bom, como benigno e como amante de um povo que o idolatra, há de abençoar nossas fadigas. Viva o nosso bom rei! Vivam as Cortes e por elas a Constituição!
Não houve qualquer resistência ao pronunciamento, até porque o comandante militar da cidade do Porto tinha garantido a Sepúlveda que não iria intervir, embora, por lealdade ao Conselho de Regência, também não aderisse. À tarde, em reunião na sede da Câmara Municipal do Porto, enquanto lá fora, na Praça Nova, soldados e povo davam vivas à Revolução, constituiu-se a Junta Provisional do Governo Supremo do Reino, composta por António da Silveira na presidência, Sebastião Cabreira na vice-presidência, Bernardo Sepúlveda, três secretários (entre eles, Ferreira Borges e Silva Carvalho) e doze vogais, estes últimos repartidos entre representantes do clero, da nobreza, da magistratura (Fernandes Tomás), da Universidade, do comércio, e das províncias do Minho, Trás-os-Montes e Beira.
Fonte: parlamento.pt/Parlamento/Paginas/A-Revolucao-Liberal-1820.aspx

 
 

Gravura coligida por Pedro Vitorino na obra Iconografia Histórica Portuense


 

"General Cabreira" - Reprodução de um retrato gravado a representar o militar Sebastião Francisco Drago Valente de Brito Cabreira (1809- 1868). O retratado foi barão de Nossa Senhora da Vitória da Batalha. Portugal, Torre do Tombo, Jorge de Almeida Lima, cx. 57, doc. 1173
 
 
 

Naquele dia glorioso de 24 de Agosto, o povo, juntando-se aos destacamentos militares oriundos do Campo de Santo Ovídio, reunia na Praça Nova (hoje, Praça da Liberdade) “a dar o juramento de se unirem na regeneração de Portugal convocando novas côrtes” (Mattoso, 1993)




Durante os 40 dias que se seguiram à revolta do Porto, vão aderir ao movimento várias cidades, sucessivamente, acabando Lisboa também por fazê-lo.
O único destacamento de tropas importante que não adere é o de Chaves.
O Conselho de Regência que governava, à data, sob as ordens de Beresford, ainda tenta um acordo com a Junta Provisional do Governo Supremo do Reino, o que não é conseguido.
Beresford, em finais de Março, tinha-se deslocado ao Brasil procurando, junto de D. João VI, ser empossado de mais poderes.
Em 15 de Setembro, após várias peripécias, finalmente, em Lisboa, é proclamado um Governo Interino que irá chegar a acordo, a 27 de Setembro, com a Junta Provisional do Governo Supremo do Reino.
No dia 1 de Outubro, as forças da Junta do Porto entram em Lisboa num ambiente festivo.
Assim, seriam criados dois organismos constituídos de modo misto por elementos da Junta do Porto e do Governo interino: a Junta Provisional do Governo Supremo do Reino, com funções administrativas, e a Junta Provisional Preparatória das Cortes, dividida em dois grupos e que teria como responsabilidade a organização das Cortes, tanto ao nível da logística, como da preparação dos conteúdos que naquelas se discutiriam.
No regresso do Rio de Janeiro, em 10 de Outubro, Beresford foi impedido pela Junta de desembarcar em Lisboa e regressou à Grã-Bretanha.
 
 
“As Cortes reúnem-se em 30 de Janeiro de 1821, aprovando uma Constituição provisória e um Conselho de Regência, para governar em nome de Dom João VI. 
O monarca deixa o Brasil em 26 de Abril e chega a Lisboa em 3 de Julho de 1821. O Brasil proclama a independência a 7 de Setembro de 1822 e no dia 23 desse mesmo mês, é jurada a Primeira Constituição Portuguesa. 
D. João VI, quando regressou a Portugal, deixou como regente o seu filho D. Pedro, herdeiro da coroa portuguesa, que se tornou imperador de Brasil em 12 de Outubro de 1822. Entretanto o monarca, D. João, tinha nomeado a sua filha D. Isabel Maria de Bragança como regente do reino, na ausência do herdeiro e seu irmão. 
Assim, à morte do monarca, a 10 de Março de 1826, D. Pedro IV assume a coroa portuguesa, mas dias depois abdica a favor da sua filha D. Maria da Glória, em 28 de Março de 1826, uma vez que, a constituição brasileira, lhe vedava a possibilidade de ser soberano de mais que um país. Para obviar a possibilidade de D. Miguel, seu irmão, reivindicar a coroa de Portugal, ficou assente que a sua filha casaria com o tio, tentando, assim, selar um armistício entre os partidos que, cada uma das figuras tutelava: liberais e absolutistas”. 
In foranadaevaotres.blogspot.pt


 
A 4 de Julho de 1821, quando o rei desembarcou em Lisboa, já estavam cumpridos dois dos principais objectivos do 24 de Agosto: o primeiro era a Constituição, que estava a ser preparada e de que já existia, então, um documento provisório, e o segundo era o regresso da corte.
Embora a mudança de mentalidades tivesse começado nos finais do século XVIII, princípios do século XIX, após a revolução de 1820 e com a vitória definitiva do Liberalismo, os acontecimentos constituíram um verdadeiro terramoto social e político. A sociedade é sacudida de alto-a-baixo. 
Novas leis começariam, então, a ser aplicadas:
 
- Abolição dos direitos banais (os forais que durante séculos pautaram as relações entre senhorios e lavradores eram desvalorizados).
- Lei dos foros, que reduz para metade as rações e para a quarentena os laudémios.
 - Extinção do Santo Ofício da Inquisição.
 - Leis de desamortização que atingiam as ordens religiosas.
- Desmantelamento das corporações de ofícios – o mundo dos mesteres que desaba.
- Nacionalização dos bens da Coroa e venda em hasta pública desses bens.
  - Extinção das portagens.
  - Abolição da censura prévia.
  - Regulamentação do exercício de liberdade da imprensa.
 - Promulgação da Constituição Portuguesa – princípio da igualdade.


Em 23 de Setembro de 1822, seria aprovada a tão ansiada Constituição, que consagraria os princípios ligados aos ideais liberais da época: representação, separação de poderes, igualdade jurídica e respeito pelos direitos pessoais.
A grande figura da revolução, Fernandes Tomás, foi encarregue dos Negócios do Reino e da Fazenda, as duas pastas mais importantes da governação de então. Mas seria como deputado nas Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa que se distinguiu entre os autores das bases da Constituição Portuguesa jurada pelo Rei D. João VI, em 1822.
À data da revolução, Fernandes Tomás desempenhava o cargo de desembargador do Tribunal da Relação, para onde tinha transitado, três anos antes, vindo de Coimbra.

 
 
 

Fernandes Tomás discursando

 
 
Manuel Fernandes Tomás foi um grande pensador, grande político e grande patriota, participou nos trabalhos parlamentares até ao seu encerramento, com a aprovação da Constituição Política da Monarquia Portuguesa, a 4 de Novembro de 1822.
Pouco tempo viveu, após a aprovação da Constituição de 1822, pois faleceu, pobre, disseram, em 19 de Novembro do mesmo ano.
Os seus restos mortais foram sepultados primeiro, na antiga igreja de Santa Catarina, trasladados, depois, para a dos Paulistas e, desta, transferidos para jazigo de família, no cemitério dos Prazeres, em Lisboa.
O elogio fúnebre estaria a cargo de Almeida Garrett.
 
 
“ (…) E quem choramos nós: quem lamentam os Portugueses? Um cidadão extremado; um homem único; um benemérito da pátria; um libertador de um povo escravo: Manuel Fernandes Thomaz. Que nome, Senhores, que nome nos fastos da liberdade! Que pregão às idades futuras! Que brado às gerações que hão-de vir! Este nome será só por si a história de muitos séculos; este nome encerra em compêndio milhões de males arredados de um grande povo.
(…) Manuel Fernandes Tomás morreu: derramemos lágrimas de gratidão e de saudade: este é o verdadeiro elogio fúnebre dos grandes homens; estas lágrimas são as honras do seu funeral, são as pompas do seu enterramento: elas terão lugar na história, elas serão o epitáfio eloquente que mostrará aos vindouros o jazigo das suas cinzas gloriosas: molhai com essas lágrimas a pena da verdade, e escrevei-lhe sobre a lápide sepulcral – “Aqui jaz o libertador dos Portugueses: salvou a Pátria, e morreu pobre.”
Almeida Garrett, in “Oração fúnebre de Manuel Fernandes Tomás”, lida a 27 de Novembro de 1822, em sessão extraordinária da Sociedade Literária Patriótica