domingo, 22 de janeiro de 2023

25.176 Quem não conhece a MAJORA? – Uma empresa portuense

 
Os jogos
 
 
Esta empresa foi fundada em 1939, no Porto, por Mário José de Oliveira (1908-1995) que, após uma viagem a Berlim, decidiu começar a fabricar jogos usando, para o efeito, a cave de casa dos seus pais, na Avenida da Boavista.
O seu primeiro jogo foi o Pontapé ao Goal, inspirado no futebol, que estava em alta de popularidade.

 
 


 
 
Aquele início de actividade fez-se, também, em 1940, com o fabrico de cubos para puzzles e jogos tendo por objectivo o ensino do abecedário — o “abc” em cubos e a caixa de tabuada.
No ano de estreia, a empresa acabou com um lucro de 1621 escudos, uma importância de relevo para a época e, em 1944, a empresa  muda-se para a Rua das Taipas, no centro histórico do Porto. 
 
 
“O sucesso dos jogos de cartão e dos cubos de madeira de Mário José fizeram-no acreditar que a marca tinha futuro. Deixou o respeitável emprego que tinha como técnico de contas na cordoaria Oliveira e Sá e lançou-se na vida empresarial com a firma de jogos e brinquedos. Em 1943, ainda o País sentia os terríveis efeitos da Guerra, convidou o irmão a juntar-se à aventura. Com Joaquim, nasce a Mário J. Oliveira & Irmão, Lda, que se instalou na rua das Taipas para fabricar os jogos Majora.
A marca consolidou o estatuto de divertimento para as crianças, com jogos como o Mikado, que punha à prova a paciência e destreza dos jogadores, obrigados a retirar de uma pilha os pauzinhos sem fazer mexer um cabelo que fosse. Outras grandes referências da Majora são ainda do tempo das Taipas. É o caso do Jogo da Glória, em que os jogadores fazem tudo para chegar ao fim sem cair na casa do inferno…”
Fonte: “cmjornal.pt/”, de 27 de Outubro de 2013

 
 


 
O sucesso de jogos como "Quebra-Cabeças", "Tarzan e a Caça às Feras", "Loto/Quino", "Tangram", entre muitos, até então completamente desconhecidos entre nós, multiplicou-se ao longo da década de 1940.

 
 


 
 
 
 

O Loto ou Quino era o jogo da noite de Natal

 
 
Continuando a apostar nos jogos de tabuleiro de cartão, a Majora cresceu e conheceu, na década de 1950, um dos grandes momentos de relevo na sua história - o início da produção da versão portuguesa do mais conhecido jogo de tabuleiro a nível mundial, o Monopólio, por acordo com a Hasbro, licença de produção que viria a perder em 1992.
É na década de 1960, mais precisamente em 1962, que é criado “O Sabichão” - um boneco mágico de madeira pintada, com um ponteiro de arame que os jogadores rodavam para fazer perguntas. Um sucesso!

 
 


 
 
O senhor Sabichão acertava sempre na resposta: rodava em cima de um espelho de vidro e apontava para a solução de todos os mistérios, fossem eles do corpo humano, da anatomia ou da história de Portugal. Gerações e gerações deliciaram-se com este jogo da Majora, que até estava para se chamar Eu Sei Tudo.
As regras da UE determinaram que o boneco de madeira e o arame podiam criar acidentes. Passou a ser utilizado o plástico e o cartão – modernices.
O Sabichão, em 2012, chegou à era dos smartphones e ipads e,  50 anos após a sua criação, uma aplicação digital voltou a pôr miúdos e graúdos a fazer perguntas para o Sebastião adivinhar as respostas.
A aplicação respectiva passou a estar disponível na loja de aplicações.
Com a continuação da actividade e do constante aparecimento de novos jogos de tabuleiro, surgiu a necessidade de expansão em termos de instalações, mudando-se a Majora, em 1967, para a fábrica que ocupou durante anos, na Rua Delfim Ferreira, na então recém-criada Zona Industrial do Porto.
Na altura da inauguração da nova fábrica, os filhos de Mário José Oliveira, António Oliveira e Alberto Oliveira passaram, também, a fazer parte da equipa de gestão.
Na empresa existia um grupo de elementos que constituíam o chamado departamento de invenções, que ligava a um ilustrador prolífero que desenhou centenas de tabuleiros – Gabriel Ferrão.
Para a posteridade ficaram jogos muito simples, que fizeram a delícia de muitos, que as famílias podiam jogar em conjunto: Volta a Portugal em Bicicleta, Rallye Automóvel ou Corridas de Cavalos são títulos que muitos recordarão.
Em 2006, o administrador António Oliveira cria um museu com os jogos, brinquedos e livros, cubos de letras, etc, onde reúne o espólio da empresa.
Em 2008, entraria na equipa de gestão a geração mais nova da família Oliveira. Pedro e Paula, filhos de António de Oliveira e netos do fundador, assumiram o comando da empresa e procuraram modernizar os produtos. Lançaram-se várias novas marcas, que ultrapassavam o universo dos brinquedos e dos jogos, mas mantendo os mais novos como público-alvo.
Nos anos de maior sucesso comercial, entre 2006 e 2009, a Majora facturou cerca de cinco milhões de euros por ano.
 
 
“A partir da edição de 31 de Julho de 2010, o jornal Expresso, numa onda de revivalismo, lançou a colecção “Jogos de Sempre Expresso”, colocando assim disponível ao público uma colecção de 5 dos mais carismáticos jogos da Majora. O primeiro jogo publicado foi o Jogo da Glória, estando previstos para o resto da colecção o Jogo das Damas, o Jogo das Escadas, o Jogo do Ludo e o Três em Linha”.
Fonte: “aminhagestao.blogspot.com/”

 
 


 
 
 
Porém, os tempos determinaram que o mercado de jogos passasse a ser dominado pelos jogos eletrónicos e, assim, não resultaram os esforços encetados pela administração da Majora, com os acordos conseguidos para fabricar as personagens da moda de então:  o Noddy, a Hello Kitty, o Ruca ou o SpongeBob.
A situação de estagnação não se alteraria apesar do lançamento, entretanto, de jogos como Aljubarrota (recriava a batalha) e de outros cujo tema era a actividade económica: Petróleo S. A., Jogo do Euro e Bolsa de Valores.
 
 
 
O sector editorial da Majora
 
 
«No entanto, a Majora desde sempre se preocupou com uma actividade editorial de livros para as camadas infanto-juvenis e particularmente para as crianças dos estratos sociais mais pobres. Alguns dos pequenos livros postos à venda logo no começo da actividade custavam 1 escudo e os mais caros 4 escudos! Só nos anos 50/60, os preços de cada volume de algumas colecções subiram para 10$00 e 12$00. E tal como refere Garcia Barreto (2002: 327), toda a intenção de criar um leitorado jovem e popular revela-se na sigla das suas publicações “um amigo que diverte, que educa e que instrui”.
(…) Este interesse pela formação de um leitorado que criasse o hábito do prazer da leitura e o amor pelo livro levou o fundador/editor da Editorial Infantil Majora, já em 1940, a criar/editar o chamado livro de pano, invenção da Majora e provavelmente os primeiros que se fizeram em toda a Europa. Estes livros eram fabricados num pano tratado de forma que ficasse uma tela maleável e lavável que podia ser impressa em máquinas tipográficas e que não se podia nem rasgar nem romper e sendo as bordas superior e inferior das páginas picotadas, conferindo-lhes assim uma grande durabilidade. Eram livros de tamanho relativamente pequeno, profusamente ilustrados e de fácil manejamento, dirigidos a crianças de muito pouca idade que ainda não conhecessem o abecedário ou tivessem começado a aprender as primeiras letras.»
Cortesia de Maria Lúcia Diogo Ayres d’Abreu (CEAUL - Centro de Estatística e Aplicações da Universidade de Lisboa
 
 
À data do arranque da publicação dos livros da Editorial Majora e, nos anos seguintes, todos eles eram obrigados a ir à aprovação da censura, inclusive os livros de pano que, como acima é referido, eram dirigidos a crianças muito novas, em alguns casos a menores de quatro anos de idade.
Além dos livros de pano, a Majora também editou os chamados livros-brinquedo, em relevo ou de armar, em cartolina, em que as ilustrações das histórias, vulgarmente contos de fadas tradicionais, se “armavam” em volume (a três dimensões) e, assim, as histórias desenrolavam-se perante o olhar das crianças.
Muitos daqueles livros acompanhavam as temáticas que o sistema de ensino do Estado Novo pretendia implementar na formatação das crianças. 
É o caso do que se segue em que o tema é o milagre de Fátima e terá sido publicado, algures, na década de 1950.
Entre a capa e contra-capa a estória que se pretendia transmitir, era realizada por desenhos elucidativos, acompanhados de uma pequena legenda.
Como é referido na contra-capa a ilustração é de uma conhecida e conceituada portuense, Laura Costa (Vitória, Porto, 1910-Porto, 1992), que irá ter uma ampla actividade na Editora Infantil Majora.
Cedo a veia de Laura Costa para o desenho começou a manifestar-se, pois, ainda criança, participou no “I Salão de Humoristas”, organizado, à data, pelo estudante de Arquitectura Licínio Pinheiro Perdigão, sobrinho de Henrique Perdigão, o fundador da Livraria Latina.
Em sequência, mais tarde, a partir de 1942, uma ligação de Laura Costa à Livraria Latina Editora se irá desenvolver, nomeadamente, nos doze números da Colecção Pinóquio (1942-1947).
Laura Costa iria, a partir da década de 1930, ilustrar livros sob a chancela de diversas editoras, como Lello & Irmão, Irmãos Bertrand, Livraria Latina, Livraria Figueirinhas, Livraria Guimarães, Livraria Cruz, Livraria Apostolado da Imprensa, mas, sobretudo, para a Editora Infantil Majora.
Sobre a ilustradora Laura Costa é o texto que se segue.


 
“…uma das mais prolíficas ilustradoras de livros para crianças e de costumes tradicionais portugueses da década de quarenta.
Laura não retrata a fealdade dos vilões das histórias infantis. A mais cruel megera e o mais horrendo gnomo parecem tios feiotes mas simpáticos, criaturas apuradas por um paradoxal arianismo louro e azul que casava bem com o grotesco onirismo das fábulas. Laura evita a representação das odiosas cenas de sangue, fixando geralmente as personagens em trânsito ou em poses narcisistas que dispensam cenário, em trajos sumptuosos que naturalmente beneficiam do seu virtuoso traço. Se a ilustração, em geral, permite maltratar esteticamente a figuração masculina, temos em Laura Costa a excepção. Garbosos príncipes, rudes lenhadores e bondosos reis partilham o mesmo traço adocicado, efeminados até. O pouco que sabemos de Laura está em contradição aparente com a sua delicodoce obra. Senhora de refinada cultura, sem confissão religiosa, foi a primeira aluna das Belas Artes do Porto a participar voluntariamente nas aulas de desenho do nu masculino, quando na altura eram facultativas para o sexo feminino. Amava sobrinhos e primos como filhos, presenteando-os no Natal ou em aniversários com bonecas integralmente criadas e vestidas por si”.
Cortesia de João Caetano; In “almanaquesilva.wordpress.com/”
 
 
 
Capa e Contra-capa do livro infantil “História da Fátima” - Texto do P.e Armando Pereira - Ilustrações de Laura Costa - Aprovado pela Autoridade Eclesiástica - Autorizado pela Comissão de Censura
 
 
 
Ao longo dos anos, várias séries de publicações viram a luz do dia, cada uma delas com vários títulos.
Entre muitas, destacam-se as séries Gato Preto (1947), Salta-Pocinhas (1948), Coelhinho Branco (1948), Pica-Pau (1955), Série de Prata (1964), e as colecções Série de Ouro, Série Relevo, Série Extra, Séria Pequena Princesinha, etc, etc.
Fernando de Castro Pires de Lima e a desenhadora Laura Costa são, respectivamente, autor e ilustradora dos 30 volumes da colecção Varinha Mágica (1955) e mais um sem fim de publicações com a participação de desenhadores, ilustradores e argumentistas.

 
 





 
 


 
 


 
 
De destacar a publicação, em 1955, da colecção Formiguinha, composta por sessenta livros de muito pequeno formato, com cerca de uma dezena e meia de páginas e de 10 centímetros de altura. As estórias são, em grande parte, adaptações de contos de fadas e de outros contos tradicionais feitas por João Sereno e ilustradas por Costa Abott e, devido ao seu êxito levou, anos mais tarde, à sua reedição.
 


 



 
Livros da colecção Formiguinha
 
 
 
 O Fim
 
 
Ao fim de 74 anos a fabricar diversões para a família, a Majora encerraria. Para trás ficaram mais de 300 jogos.



 

Cartaz da Majora
 

 
O logótipo do cartaz acima é original da Majora e representava uma criança a jogar com uma bola, e foi idealizado a partir do  quebra-cabeças Tangram.
Acabaria por ser redesenhado com outras novas imagens destinadas a um determinado público-alvo, em substituição da figura da criança.
No início de Março de 2013, a Majora encerrou a sua produção e dispensou os últimos trabalhadores da unidade.
Apesar dos esforços dos detentores da marca Majora, foi impossível manter a empresa no seio da família Oliveira.
Assim, em 2014, a marca foi vendida ao The Edge Group, liderado pelo empresário José Luís Pinto Basto, por um valor anunciado de 600 mil euros. Este fundo de investimento ficou com todo o espólio da marca, que veio a relançar no mercado em 2016 e que ficaria inactiva em 2018.
Em Novembro de 2022, é noticiado que a empresa de brinquedos detida pela família Feist, a Concentra Brinquedos, tinha comprado a Majora ao The Edge Group por 800 mil euros.
Os novos donos pretendem relançar a marca e esperam que ela renasça forte e adaptada aos novos tempos.

domingo, 15 de janeiro de 2023

25.175 Um cabeleireiro com queda para os negócios

 
João Heitor Guichard ficou para a posteridade, sobretudo, pela pena de diversos escritores, frequentadores dum café na Praça D. Pedro (actual Praça da Liberdade), gerido por aquele súbdito francês, ao descreverem nas suas prosas algumas peripécias que por lá se passaram e o ambiente vivido no seu interior. 
Em meados do século XIX, o café do Guichard era uma referência na cidade. 
Aí, se encontravam algumas personalidades da época, em tertúlia e para bebericar o café e a cerveja que começava a conquistar o gosto de alguns portuenses.
João Heitor Guichard era cabeleireiro, numa época em que se destacaram naquela profissão, no Porto, profissionais com nome na praça como, José Joaquim da Costa, Mr. P. Villaret, Mr. Amable Godefroy, Pedro Suére e Domingos Sebastião.


In jornal “A Coalisão”, do dia 3 de Julho de 1843



In jornal "A Revolução de Setembro", de 14 Agosto de 1843


Exercendo, originalmente, aquela profissão de cabeleireiro, João Heitor Guichard foi, no entanto, um comerciante com interesses vários.
João Heitor Guichard foi casado com Elena Eufrásia Formant, sabendo-se que houve um filho de seu nome Heitor Guichard Júnior, nascido a 1 de Fevereiro de 1835, na freguesia da Vitória, no Porto, e baptizado a 8 do mesmo mês, que exerceria como o seu pai, também, a actividade comercial.
Elena Eufrásia era uma das modistas com fama na cidade, e com João Heitor Guichard constituíam um casal dentro dos padrões dos que se dedicavam ao sector da moda: cada membro do casal tinha na sua actividade profissional, funções complementares e permutavam clientes.
 
 
 
“As relações familiares entre os agentes de moda eram usuais. Não é difícil depararmo-nos com uma modista com casa ou armazém de modas associada ao estabelecimento comercial do marido, que poderia ser cabeleireiro, ou mesmo alfaiate ou um mero comerciante, como Madame Guichard (D.Elena Eufrásia Formant) e o cabeleireiro João Heitor Guichard, mais conhecido por Heitor Guichard, dono do célebre Café Guichard, aberto em 1847 na Praça de D. Pedro, ou o casal Pedro e Bernardina Suére, entre outros”.
Cortesia de Maria Antonieta Lopes Vilão Vaz de Morais; In “Os Agentes da Moda no Porto (1830-1850)”
 
 
 
 
Para além do seu salão de cabeleireiro, João Heitor Guichard abriria o famoso café na Praça Nova e, próximo deste, uma casa de modas gerida por sua mulher e ainda, um depósito de materiais, na Rua de Santo António como representante do marceneiro e “marmorista” francês Pedro Bartholomeo Dejante, como demonstra o anúncio seguinte.
 
 
 
“Bartholomeo Dejante, enxamblador de SS. MM. faz publico que estabeleceu em Lisboa uma grande fábrica movida a vapor para serrar mármore e madeiras &c. Quem pertender algum objecto de marmore deverá remetter as medi­das exactas, podendo dirigir-se à mesma fábrica na Rua Direita da Boa Vista n.º 4 ou ao seu depósito no Porto em casa de H. Guichard, Rua de S.to António n.º 23, onde já se acha à venda um bom sortimento de folhas de mogne. Toma-se conta de qualquer encommenda que será desempenhada com promptidão”.
“O Gratuito”, Jornal de annuncios da Typographia Commercial, n.º 242, Porto, 20 de Julho de 1843; cit. por José Francisco Ferreira Queiroz
 
 
 
O café do Guichard teria aberto portas, possivelmente, c. 1845, e encerrá-las-ia, em 5 de Fevereiro de 1857.
Em 30 de Setembro de 1861, o jornal “O Commercio do Porto” dava conta da venda de dois bilhares que tinham servido no famoso café.
 

 


 

Após a extinção das ordens religiosas, por decreto de Joaquim António de Aguiar, de 30 de Maio de 1834, foi o edifício do Convento da Congregação do Oratório da regra de S. Filipe de Néri, à Praça Nova das Hortas, posto em almoeda e adquirido à Fazenda Nacional.
Uma parte passou para a posse dos Contratadores do Tabaco (que tinham a ideia de aí fazer montar a sua fábrica) e, a outra, foi comprada pelo cidadão brasileiro de torna-viagem, Manuel José Duarte Guimarães que, passado algum tempo, diligenciou a compra da parte afecta aos contratadores e entrou na posse de todo o edifício, do qual fazia parte uma torre sineira erguida do lado poente da igreja.
 
 
 
À esquerda, o convento e a torre sineira que entraram na posse de Manuel José Duarte Guimarães – Gravura de Joaquim Villanova, em 1833
 
 
 
 
“Do lado da Praça de D. Pedro, aproveitando as boas caves de abóbada que os padres costumavam alugar a particulares mandou outrossim o mesmo senhorio (Manuel José Duarte Guimarães, brasileiro de torna viagem), ao rés-da-rua abrir portas regulares para estabelecimentos e rasgar mais janelas de varandas a todo o correr do primeiro andar. Depois de concluída a obra de adaptação, é que os botequins, pouco a pouco, começaram a concentrar-se à volta do extinto edifício do Convento dos Congregados, tanto para a banda da praça, como para a de Sá da Bandeira (actual Sampaio Bruno) como ainda para a do Bonjardim (actual Sá da Bandeira)”.
Horácio Marçal – “Os antigos botequins do Porto”, in O Tripeiro. 6ª Série, Ano IV, n.º 3. Porto: Março 1964, p. 72.
 
 
Dado que, em 3 de Julho 1844, Manuel José Duarte Guimarães, acima referenciado, solicita permissão de remodelação do edificado existente (antigo convento dos Congregados) e acrescentar sacadas de pedra, para a qual viria a obter a licença nº 156, tal facto, apontará para que o café do Guichard fosse, por aqui inaugurado, certamente, em data posterior ao pedido vertente.
Sabe-se que as demolições necessárias para o levantamento da obra, teriam já começado em 1842.
 
 
 
 

Nos baixos do prédio da esquina próxima, a poucos metros dela, ficava o café do Guichard - Fonte: revista “O Tripeiro”, Série VI, Ano IV, nº 3, Março de 1964

 
 
Em meados do século XIX, neste café, ocorreria o lançamento do sorvete na cidade, por um italiano, de seu nome Trucco, na altura um seu empregado. Mais uma achega para que o café fosse falado.
Como já foi referido, o café do Guichard sempre mereceu, da parte dos escritores, referências que ficaram para a posteridade.
 
 
“O ‘Café Guichard’ é o ‘Marrare do Polimento’ do Porto, com a simples diferença de não possuir essa profusão luxuosa de madeira envernizada, que immortalisou nas collunas de um jornal burlesco o ‘Café Marrare’. O ‘Guichard’ é, como o Porto, inimigo das inovações; apesar de ser situado no ponto mais central e mais concorrido da cidade, conserva exteriormente as aparências tradicionais do antigo ‘botequim’. Meias portas pintadas de verde e envidraçadas do meio para cima, quasi sempre fechadas, estão muito longe do bom gosto que se nota em Lisboa neste género de estabelecimentos. Á primeira vista pareceu-me uma taberna inglesa; todavia, como me disseram que era ali o melhor café da cidade, entrei. O interior corresponde ao exterior; mau gosto em tudo; nas pinturas, nos moveis, nas luzes, e mesmo nas bebidas! Para ser o rival do ‘Marrare’, está pouco acima dos cafés mais vulgares de Lisboa.”
Gomes de Amorim; In “Viagem ao Minho”
 
 
“A sociedade mais confusa vai ao Guichard, - botequim celebre pelos romances, pelos folhetins, e que deve, creio eu, á literatura, a sua reputação, visto ser tão feio que não pode devel -a…aos freguezes!…
Júlio César Machado; In “Scenas da minha terra”
 
 
 
"Em 1849, era João Roberto de Araújo Taveira um dos mais galhofeiros e satíricos rapases da phalange do café Guichard - que eu chamava uma colmeia onde se em melavam doces favos de espírito, se aquelle botequim não fosse antes um vespereiro que desferia, ás revoadas, ferretoando os bócios dos gordos philistinos da "Assembleia" e as macias espaduas lácteas das suas consortes no coração e nos ádypos".
Camilo Castelo Branco; In "Serões de S. Miguel de Seide"
 
 
Em 1852, o prédio da esquina, mandado erguer por Manuel José Duarte Guimarães, albergava por arrendamento a João Heitor Guichard, não só o Café do Guichard, como um armazém de modas que a sua esposa geria.
No âmbito do exercício da sua actividade ligada ao café, ao qual emprestava o seu nome, na Praça D. Pedro, João Heitor Guichard acabaria por desenvolver uma actividade industrial conexa.
Assim, quando o consumo de cerveja na cidade do Porto que, apesar de ainda limitado face ao mais popular e alargado consumo do vinho, passou a assumir um papel significativo nos espaços de sociabilidade portuense mais frequentados pela juventude, desde os botequins e cafés até às emergentes cervejarias, onde o “bock” se tornou bebida corrente, João Heitor Guichard montaria, em Arnelas, V. N. de Gaia uma fábrica de cerveja e, mais tarde, uma outra próxima daquele seu conhecido café, no centro da cidade do Porto.
A de V. N. de Gaia era conhecida pela “Fábrica de Cerveja de Arnelas”.
Esta fábrica terá sido a primeira de um ramo industrial que viria a conhecer algum sucesso em V. N. de Gaia.
Começou a laborar no início de 1848 e, em Maio, desse ano, era possível lermos o seguinte anúncio:
 
"Cerveja de superior qualidade, da nova fábrica de H. Guichard, vende-se no café do mesmo, praça de D. Pedro".
In jornal "Periódico dos Pobres no Porto ", nº 33, Porto, 7 de Fevereiro de 1849, p. 133
 

 

In jornal “A Revolução de Setembro”, de 2 de Maio de 1850

De acordo com o jornal "Periódico dos Pobres no Porto", nº 291, Porto, 9 de Dezembro de 1852, p. 2023, Heitor Guichard viria a instalar uma outra fábrica de cerveja, mais próxima do seu café, na Praça D. Pedro, que já estaria a laborar, em 1850, segundo a publicidade acima exibida. Talvez, seja esta a razão, que tenha contribuído para o definhamento da fábrica de Arnelas, embora, ambas tenham coexistido durante mais algum tempo.

 
 

Arnelas, na margem esquerda do rio Douro
 
 
 
Já na década de 1860, João Heitor Guichard era representante, no Porto, de Eugène Larrouy, uma casa comercial belga.
Em 18 de Setembro de 1865, um dia festivo para a cidade do Porto, João Heitor Guichard estará presente no dia da abertura da Exposição Internacional, que assinalaria o evento da inauguração do Palácio de Cristal, juntamente com o seu filho Heitor Guichard Júnior, que com ele trabalhava e dava o nome para o catálogo da exposição das peças expostas, que lhes diziam respeito.
Pai e filho aparecem mencionados no catálogo da exposição e João Heitor Guichard é apresentado com presença na anterior Exposição Industrial do Porto, em 1861, e na de Braga em 1863, nas quais saiu premiado com medalha de bronze. Dado com presença na Exposição de Paris de 1853, sairia premiado com a medalha de prata.
Igualmente, vai estar presente no certame aquele que se ligará à família Guichard, Henrique Burnay, representante em Lisboa da mesma firma belga e com o qual fundariam a empresa Burnay & Guichard, que ficará arrendatária do Palácio de Cristal, após a sua inauguração.
Na exposição, os mármores belgas, expostos, foram enviados por Leopold Devas, de Antuérpia, que tinha como agentes no Porto e em Lisboa, respectivamente, Heitor Guichard Júnior e Henry Burnay.
 
 
 
“O empresário Henry Burnay participou na Exposição Internacional de 1865, expondo «um quadro a óleo representando Napoleão em Fontainebleau» e «outro representando Nossa Senhora da Toalha - cópia de obra de Murillo», surgindo também como agente em Portugal de outros expositores estrangeiros. Ocupou o lugar de Vogal no Júri do 11º Grupo – Indústrias dos Metais e Pedras Finas”.
Cf. Sociedade do Palácio de Cristal Portuense – Catalogo Official da Exposição Internacional do Porto em 1865
 
 
Sobre a abertura da exposição, todas as festividades aconteciam, então, com um ligeiro atraso relativamente à data inicialmente prevista de 21 de Agosto.
Acresce que, a anunciada e programada mostra de animais vivos e plantas teria início, apenas, a 12 de Novembro, tomando o lugar de exposição complementar.
Do catálogo da exposição constavam expositores nacionais e estrangeiros.
 
 
“Ao anúncio responderam afirmativamente 3424 expositores de todo o mundo: 1614 portugueses, 752 das colónias, 499 franceses, 265 alemães, 107 ingleses, 89 belgas, 62 brasileiros, 24 espanhóis, 1 holandês, 5 suíços, 16 dinamarqueses, 2 russos, 1 turco, 1 do Japão e 1 dos EUA. Seguindo uma organização semelhante à das restantes mostras que se vinha organizando, os expositores distribuíam-se em quatro grandes divisões, cada uma com um número variável de classes e subclasses390: 1ª divisão – Matérias-primas, com sete classes; 2ª divisão – Máquinas, com treze classes; 3ª divisão – Produtos Manufaturados, com dezanove classes; 4ª divisão – Belas Artes, com seis classes”.
Cortesia de Vera Lúcia da Silva Braga Penetra Gonçalves; MESTRADO HISTÓRIA DA ARTE, PATRIMÓNIO E CULTURA VISUAL (2018)
 
 

Galeria de Pintura da 1ª Exposição Internacional do Palácio de Cristal - Gravura apresentada na revista “Archivo Pittoresco”, Nº 47/1865

 
 
Após o fecho da Exposição Internacional, nos meses que se seguiram, a Sociedade do Palácio de Cristal, que fazia a administração do empreendimento, pretendendo tirar o máximo de rendimento do mesmo, para além das exposições ou comemorações, decidiu dar vida ao recinto com a realização de espectáculos e festas, entregando a sua exploração à empresa Burnay & Guichard.
Naquele âmbito, é de realçar a actividade da empresa Burnay & Guichard, de Henry Burnay (1838-1909), Conde de Burnay e Heitor Guichard Júnior, tidos como os verdadeiros impulsionadores daquele lugar, após a Exposição Internacional, com os tão afamados espectáculos pirotécnicos e outros divertimentos que iam promovendo.
À data da Exposição Internacional de 1865, Henrique Burnay e Heitor Guichard Júnior eram dois jovens a rondar os trinta anos.
É provável, que fosse este, e não o seu pai, João Heitor Guichard, que se envolveu na organização das festas e espectáculos realizados no Palácio de Cristal.
Heitor Guichard Júnior tinha, também, desde muito jovem, uma actividade musical na cidade e estava por dentro da arte do espectáculo.
Assim, algumas exposições terão sido iniciativa daquela empresa, que parece ter alugado o Palácio de Cristal, desde cedo, como é o caso duma ocorrida em 1869, com a realização de uma mostra de plantas, flores, produtos hortícolas, máquinas, utensílios e objectos relativos à jardinagem e horticultura, no âmbito da qual sairia premiado, em primeira classe, com a quantia de cinquenta mil reis, o consórcio de José Marques Loureiro e Emílio David.
O certo é que, na prática, para a Sociedade do Palácio de Cristal a actividade da empresa pouco significava.
 
 
«De vez em quando o snr. Henrique Burnay, hoje conde, e o seu socio Heitor Guichard planeavam um divertimento pyrotechnico, mas isso, se constituia uma receita para os dous, não chegava a produzir dividendo para os accionistas do Palacio.
Na nave central trabalharam durante algum tempo dous acrobatas portuguezes, Pena e Bastos, que se arrojavam a arriscados equilibirios. No coreto da avenida havia musica, pela banda do Palacio, aos domingos e quintas-feiras de tarde, mas só aos domingos era que o publico portuense, essencialmente laborioso, estava acostumado a sahir á rua.»
Alberto Pimentel – O Porto há Trinta Anos
 
 
As festas e bailes de Carnaval eram também merecedores de destaque, conhecendo especial relevo nas referências literárias e registos fotográficos.
Na década de 1870, perde-se o rasto de João Heitor Guichard, desconhecendo-se, inclusivamente, a data da sua morte.
Heitor Guichard Júnior casaria com Cândida Emília Leal Cerqueira e, em 1864, João Heitor Guichard seria padrinho de baptismo de seu neto Raúl Guichard, filho daquele casal.
Cândida Emília Leal Cerqueira Guichard faleceria, em 31 de Janeiro de 1896, com 60 anos, na sua residência na Rua da Belavista (actual Raúl Brandão), nº 42, freguesia da Foz do Douro.
Heitor Guichard Júnior teve uma actividade ligada à música.
Assim, em 10 de Junho de 1855, aparece como integrando a orquestra num espectáculo musical levado a cabo na igreja do convento de S. Bento da Vitória pela Sociedade Filarmónica do Porto.
 
 

I
In jornal “O Commercio” de 12 de Junho de 1855. O nome de Heitor Guichard Júnior está identificado pela pinta preta
 
 
Heitor Guichard Júnior é dado, também, como membro do coro do Orpheão Portuense em alguns espectáculos.
 
 
 

 In revista “O Bombeiro Portuguez” de 1 de Fevereiro de 1882, sobre espectáculo realizado no Teatro Gil Vicente (Palácio de Cristal) e oferecido aos sócios da Associação dos Bombeiros Voluntários do Porto
 
 
 

Cortesia de HL. Gomes de Araújo; In “A Origem do Orpheon Portuense -  As Famílias Fundadoras
 
 
 
Ainda, no âmbito da sua faceta musical, a revista “A Arte Musical”, ano VI, nº 143 de 15 de Dezembro de 1904, dava conta de que Heitor Guichard tinha na sua posse uma rebeca do luthier Giovanni Battista Guadagnini, que teria pertencido a Nicolau Ribas e tinha sido restaurada, em Paris, por Gustave Bernardel.
Acrescentava que ele era, também, proprietário de um violoncelo do luthier Domenico Montagnana, com a data de 1719 e, um outro, com a data de 1757, de construção atribuída ao luthier alemão Leopold widhalm.
A 12 de Junho de 1891, Heitor Guichard Júnior, haveria de se naturalizar português.
Tendo abraçado a causa republicana, em 1915, com a 1ª Grande Guerra Mundial a decorrer, Heitor Guichard, com 80 anos, e na qualidade de decano das Juntas de Paróquia do Porto, recebe durante uma visita à cidade Leote do Rego, o oficial que comandou a divisão naval que defendia a costa portuguesa e apoiou a participação de Portugal naquele conflito.

 
 

In jornal “O Mundo” de 28 de Junho de 1915
 
 
Quanto a João Heitor Guichard, até hoje, foi impossível alguém descobrir as datas do seu nascimento e da sua morte e o local e circunstâncias em que ocorreram. O Prof. Francisco Queiroz descreve-o do seguinte modo:

 
“Refira-se que Heitor Guichard foi um conhecido comerciante no Porto. Começou por deter uma loja de comércio onde se vendia de tudo, desde pomada de urso e outras mezinhas até artigos para senhoras, cabeleiras postiças, modas e fazendas, vinhos, gravatas, espingardas, chapéus, candeeiros, tapetes, graxa, etc. Contudo, julgamos que a verdadeira profissão de Heitor Guichard fosse, no início, a de cabeleireiro.”


Uma última referência pública a João Heitor Guichard surge numa notícia inserida no jornal " O Comércio do Porto" de 16 de Setembro de 1862, na qual ele anuncia, por razões de saúde, a venda da sua fábrica de cerveja de Arnelas.








Por outro lado, em 5 de Abril de 1912, o jornal brasileiro, do Rio de Janeiro, “O Paiz”, dá conta do falecimento de Heitor Guichard Júnior, em terras brasileiras e noticiam pormenores do seu enterro.
Desconhecem-se pormenores sobre o percurso de vida desta personagem e da sua possível ligação familiar aos Guichard que, por aqui, abordámos.

 
  



De facto, Heitor Guichard Júnior, por aqui referido como filho de Heitor Guichard, ainda era vivo em 1915, de acordo com prova apresentada.

domingo, 8 de janeiro de 2023

25.174 Grande Hotel de Paris - Hotel do Louvre

 
No prédio do gaveto formado pelas actuais ruas do Rosário e de D. Manuel II,  abriu portas, em 1865, pela primeira vez, o Grande Hotel de Paris que ficaria celebrizado como Hotel do Louvre, desde da década de 1870.



 
“Abre-se o hotel denominado Grande Hotel de Paris no primeiro de Setembro próximo; é situado na Rua do Rosário, fazendo duas faces, sendo outra para a rua do Triunfo, perto do palácio de Sua Majestade.”
In jornal “Restauração”, 19 de Agosto de 1865 – Sábado

 
Após cerca de quinze dias, sobre a abertura do Hotel de Paris, seria inaugurado o Palácio de Cristal.
Uns meses antes, em Março de 1865, abriria junto do Paço Real (Palácio dos Carrancas), na Rua do Triunfo, n.ºs 72 a 74, O Restaurante do Triunfo.



“… junto ao paço real e próximo do Palácio de Cristal, acabou há pouco de abrir este estabelecimento… dão-se jantares desde as 2h30 às 5h30 da tarde, sendo servidos muito bem, dando café com as bebidas competentes que pedem os fregueses. Torna-se por todos os motivos agradável aos seus visitantes, já pelos bons petiscos, como pelas vistas que da dita casa se gozam, tendo um bom quintal” 
In jornal “Diário do Povo”, de 3 Abil 1865 (cit. Guido de Monterey, “O Porto 2”, p. 593)



Ao Hotel do Louvre ficariam ligadas diversas personalidades importantes que o escolheram para nele se hospedar.
Assim, por lá passaram nomeadamente, Lady Jane Franklin, viúva do célebre explorador do Pólo Norte, John Franklin (1786 - 1847) que, enquanto esteve hospedada no Grande Hotel de Paris, em 1869, visitou a cidade e os seus monumentos.
Em 1872, durante uma visita à cidade e ao Norte do país, seria a vez do imperador do Brasil, D. Pedro II e a imperatriz D. Teresa Cristina Maria de Bourbon se hospedarem neste hotel que, para o efeito, foi sujeito a diversos melhoramentos.
No entanto, no final, D. Pedro II recusou-se a pagar a conta que achou especulativa.
O caso peregrinou pelos tribunais, durante cinco anos, com sentença favorável ao hotel.
Por essa razão, a proprietária, Maria Henriqueta de Mello Lemos e Alvellos, chegou a deslocar-se ao Brasil para cobrar a dívida, onde alguns capitalistas saldaram a dívida para evitar mais embaraços.
Na segunda metade do ano de 1879, possivelmente em Julho, é Maria Ratazzi que é recebida no hall do Hotel do Louvre, procurando hospedagem, mas não concretizaria os seus intentos em consequência do modo deselegante como foi recebida pela gerência do hotel e abala para se acomodar no Hotel Francfort.
O chão em que nasceria o Hotel do Louvre teve uma evolução que a seguir se assinala.
Assim, na planta abaixo, de 1808, se observa que a Rua do Rosário (2) já está prevista e o lado norte da Rua dos Quartéis (1) apresenta o corpo do Palácio dos Carrancas (A), com construção iniciada em 1795, e uma outra construção anexa (B).



Planta (1805) local da parte ocidental da cidade…de Luis Ignacio de Barros Lima



Abaixo, na planta de Balck, de 1813, a área entre o Palácio dos Carrancas e a esquina formada pelo lado norte da Rua dos Quartéis e a Rua do Rosário já se apresenta edificada.


 




Em 1830, o traçado da concordância das ruas dos Quartéis e do Rosário, cuja ultimação e escolha das soluções mais correctas se vinha a arrastar nos últimos anos é, finalmente, decidido.
Então, a esquina da Rua do Rosário com a Rua dos Quartéis, que viria a ser do Triunfo, estava ocupada pela residência (A) de António Caetano da Silva Pedroza Guimarães (filho de José Joaquim da Silva Pedrosa, entretanto, já falecido em 1819) e um terreno (B) com uma casa de que era também proprietário, apenas com os alicerces implantados e que desejava concluir para, posteriormente, tentar adquirir o terreno contíguo (C).
Por isso, António Caetano da Silva Pedroza Guimarães, solicita a informação ao departamento de obras da câmara do Porto de que “perciza por isso que se lhe marque o alinhamento, em que a mesma rua deve ficar desde a sua entrada”.
Para o efeito, entrega uma planta do local, da qual, a seguir, se apresenta um pequeno extrato.

 
 

Planta editada, da confluência das ruas dos Quartéis e do Rosário, de 1830
 
 
Acontece que, algures, na década de 1840, os lotes A, B e C da planta anterior já tinham entrado na posse de outro proprietário.

 
 
«Isto porque, por esta altura, o proprietário dos lotes de terreno que na planta anterior estavam representados pelas letras “A”, “B” e “C” já não era António Caetano da Silva Pedrosa Guimarães, mas o negociante Gaspar Joaquim Borges de Castro que encetara, uns anos antes, a sua efetiva regularização. Nesse terreno de ângulo agudo, o negociante pretendia edificar uma casa com duas frentes. No entanto, esse detalhe morfológico originava problemas quer à circulação das carruagens, quer na organização interna do edifício. Assim sendo, a solução encontrada foi o ligeiro arredondamento da esquina do edifício, de forma a este ficar mais funcional, permitindo também haver mais espaço para a paragem das carruagens, bem como para se realizarem as cargas e descargas necessárias para o seu funcionamento (Livro Plantas de Casa nº28 f.51, 1863, AHP). Este edifício tinha sido pensado e projetado para servir de armazém de vinhos, onde o proprietário poderia guardar as pipas e as garrafas que comercializava, mas o projeto foi alterado e, no seu lugar, acabou por nascer um luxuoso hotel, o mais luxuoso que a cidade havia tido até à data (“O Tripeiro”, série I, ano II), que se anunciava até como “o melhor e mais rico estabelecimento d’esta ordem que conta actualmente a cidade do Porto” (Comércio do Porto, 12-08-1865).»
Cortesia de Daniela Filipa Duarte Alves, Hélder Filipe Sequeira Barbosa e Jorge Ricardo Pinto
 
 
 
 
O prédio onde começaria por estar o Grande Hotel de Paris foi mandado construir, em 1863, pelo negociante Gaspar Joaquim Borges de Castro (sogro do 2º visconde de São João da Pesqueira), casado com Joaquina Augusta Vieira de Castro, com a qual teve nove filhos, que ali pretendia residir e instalar um armazém de vinhos,  intenção que não se concretizaria.
Em 1875, António Joaquim Borges de Castro, sobrinho e testamenteiro de Gaspar Joaquim Borges de Castro, entretanto falecido em 1871, residente, à data, na Rua do Triunfo, solicita na qualidade de tutor das suas filhas menores e, no caso para apreço, de uma jovem herdeira, a cobertura do terraço da casa no cunhal da Rua do Rosário e da Rua do Triunfo. 


Desenho anexo a pedido de licença de obras que obteria o nº 73/1875 para cobertura de terraço de prédio


Antes, em 16 Julho 1859, Henriqueta Augusta Vieira Borges de Castro já se tinha casado com Luís de Sousa Vahia Rebelo de Morais, 2º Visconde de São João da Pesqueira, tendo em 27 Novembro de 1862, nascido desse casamento o futuro 3º Visconde de São João da Pesqueira, Luís Maria de Sousa Vahia Rebelo de Morais que, em 25 Novembro de 1897, desposaria Maria Adelaide Pinto da Silva.
A inauguração do Grande Hotel de Paris (primeira denominação do Hotel do Louvre) ocorre a 1 de Setembro de 1865, a cerca de duas semanas da inauguração do Palácio de Cristal.
 
 
 

In Jornal “O Comércio do Porto” de 12 de Agosto de 1865
 
 
Segundo um leitor da revista “O Tripeiro” o Grande Hotel de Paris abriu portas por iniciativa de Rodrigues da Cruz, um tio da mulher do comandante dos bombeiros, Guilherme Gomes Fernandes.

 
 

In revista “O Tripeiro” de 10 de Agosto de 1909, nº 41, página 127, Iª série, 2º ano, rubrica “Correspondência entre os leitores”


 
Como curiosidade diga-se que, cerca de um ano antes, em 30 de Outubro de 1864, o jornal "O Comércio do Porto" de 27 de Outubro informava da abertura de um "Novo Hotel de Pariz", na Rua do Bonjardim.





 
O Hotel do Louvre que se tornou um dos melhores hotéis da cidade chamar-se-ia, então, até c. 1870, Grande Hotel de Paris e, nesta data, seria já administrado por Maria Henriqueta de Mello Lemos e Alvellos, oriunda de uma família distinta da Beira-Alta.
 
 
 

Publicidade ao Hotel do Louvre, In jornal “O Comércio do Porto” de 25 de Setembro de 1870
 
 
 
Maria Henriqueta de Mello Lemos e Alvellos haveria de abrir, primeiro, uma filial do Hotel do Louvre, na Foz do Douro, na Avenida de Carreiros, numa casa propriedade de Manuel Maria da Costa Leite (1813–1896), 1.º Visconde de Oliveira, genro de Gaspar Joaquim Borges de Castro e, após o seu encerramento um outro, com o mesmo nome, ainda, na Foz do Douro, na esquina das ruas do Túnel e do Gama, onde residiu, mais tarde, o clínico e vereador, Dr. Nunes da Ponte.
 
 
 
In revista “O Tripeiro” de 10 de Agosto de 1909, nº 41, páginas 79 e 80, Iª série, 2º ano, rubrica “Correspondência entre os leitores”

 
 
Em 1880, é dada notícia de um incêndio de reduzida dimensão, mas que, no entanto, não teve consequências significativas no estado do hotel.
 
 
“A notícia é de 15 de junho - Às 5 horas e um quarto da tarde. Rua do Triumpho. Propriedade do visconde das Devezas, onde está estabelecido o hotel do Louvre, de D. Maria Henriqueta de Mello Lemos e Alvellos. O incendio que causou insignificantes prejuizos declarou-se na fuligem da chaminé e foi extincto pela bomba dos voluntários.”
 
 
 
Em 1880, o Hotel do Louvre acaba mesmo por fechar as portas, na sequência de um processo que Joaquina Augusta Vieira Borges de Castro, filha de Gaspar Joaquim Borges de Castro, move contra Maria Alvellos, por esta lhe estar a dever a prestação de arrendamento referente aos anos de 1879 e 1880.
A filial da Avenida de carreiros terá estado aberta, apenas, dois anos e a unidade hoteleira da Rua do Túnel, ainda menos tempo.
Em 1904, Maria Henriqueta de Mello Lemos e Alvellos morre na miséria. Passados cinco anos, em 1909, o prédio estava ocupada pela Administração do Bairro Ocidental do Porto.
Foi neste prédio, em  1 de Janeiro de 1881, inaugurada uma das primeiras clínicas particulares da cidade - a Casa de Saúde do Dr. António Bemardino de Almeida e, c. 1930, por aqui se instalou o Orfeão Lusitano.
Nos anos 30, foi sede do velhinho e popular Sport Comércio e Salgueiros seguindo-se o Cineclube do Porto fundado em 1945 e o Movimento Unidade Democrática (MUD) entre 1947 e 1948, até à sua expulsão pela PIDE.
No final do século XX, veio a ser ocupado pela Escola de Condução “A Desportiva”, que ali permaneceu até meados do início do século XXI, na altura da construção do Túnel de Ceuta.
 
 
 
 

À direita, na foto, o edifício do antigo Hotel do Louvre

 
 
Na fachada do prédio, é possível observar em placa afixada na mesma, um texto alusivo à intervenção da Polícia Política do Estado Novo, vulgo PIDE, sobre o MUD (movimento de Unidade Democrática), que teve ali a sua sede.

 
 

Placa alusiva à intervenção da PIDE
 
 
 
Mesmo diante do edifício onde esteve o Hotel do Louvre está hoje um busto de Arthur Wellesley (1768 – 1852) que viria a ser, Duque de Wellington.
De origem Irlandesa, como comandante militar teve  uma actividade vitoriosa em Portugal e Espanha durante as invasões francesas da Península Ibérica.
Com a fuga e retorno ao poder, de Napoleão, o Duque de Wellington foi nomeado comandante das forças aliadas (britânicos, prussianos e holandeses) derrotando o Imperador francês, definitivamente, na batalha de Waterloo.
Membro da Câmara dos Lordes, envolveu-se na política tornando-se primeiro-ministro da Inglaterra, em 1828.
O governo português atribuiu-lhe os títulos de Conde de Vimeiro, Marquês de Torres Novas e Marquês do Douro e, ainda, Duque de Vitória.
Wellington é também, o nome dado a uma cidade fundada em 1840 na Nova Zelândia, sendo a capital daquele país, desde 1865.
 
 
 

Duque de Wellington
 
 
Nos anos de 2021 e 2022, o prédio onde esteve o Hotel do Louvre, sofreu grandes obras que o transformaram num condomínio habitacional.