terça-feira, 13 de novembro de 2018

(Conclusão) - Actualização em 12/03/2019 e 18/02/2021

 
Evolução da Real Companhia Velha
 
 
Até às lutas ocorridas para estabelecer o liberalismo, de que ressalta como fundamental o Cerco do Porto, a Companhia foi cumprindo as funções para a qual foi destinada.
O rio Douro era sulcado por rabelos que traziam para os cais de V. N. de Gaia, e para os que a Companhia tinha também no Porto, os vinhos para a respectiva comercialização.
 
“O barco rabelo é uma embarcação portuguesa, típica do Rio Douro que tradicionalmente transportava as pipas de Vinho do Porto do Alto Douro, onde as vinhas se localizam, até Vila Nova de Gaia - Porto, onde o vinho era armazenado e, posteriormente, comercializado.
Sendo um barco de rio de montanha, o rabelo não tem quilha e é de fundo chato, com um comprimento entre os 19 e 23 metros e 4,5 metros de boca. A sua construção, de tábuas sobrepostas, tábua trincada, é nórdica, em comparação com a do Mediterrâneo.
Com uma vela quadrada, o rabelo era manejado normalmente por seis ou sete homens. Quanto aos mastros, os primeiros só usavam um, enquanto que os segundos usavam também um mastro à proa. Para governo, utiliza um remo longo à popa – a espadela. Quando necessário, os barcos eram puxados a partir de caminhos de sirga por homens ou por juntas de bois.
O barco rabelo passou a ter a sua identidade bem definida, a partir de 1792, quando a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, publicou os alvarás e mais documentos que se relacionavam com a notável instituição pombalina. Nessa publicação, conhecida vulgarmente por "Leis da Companhia", encontram-se preciosas informações referentes tanto ao barco como aos seus tripulantes, como ainda ao tráfego a que se destinavam”.
Fonte: “pt.wikipedia.org”


 

Barco rabelo na Régua

 
 
Em 16/8/1833, durante o cerco do Porto, a Companhia viu arder cerca de 16.000 pipas, algumas com vinho antiquíssimo, cujo prejuízo foi de 2.002.378$000, uma avultadíssima verba.
Durante aquele conflito tinha-se formado uma Comissão Administrativa da Companhia, sob a tutela das autoridades liberais, no Porto, que pouco depois deu lugar a uma Junta eleita. Passaria a existir, então, até 1834, um órgão de administração da Companhia, liberal, no Porto, e outro órgão de administração da mesma, miguelista, na Régua, que tinha como provedor Francisco de Sousa Cirne de Madureira.



 

Embarque de vinho na Régua
 
 
 
Em 30/5/1834, saiu o decreto que abolia toda a legislação que lhe atribuía prerrogativas e atribuições, e a extinguia.
Publicou os seus novos estatutos em 4/11/1834 e renovou-os em 7/4/1838.
Com efeito, entre 1834-1838, adoptou a denominação de Companhia dos Vinhos do Porto.
Com dívidas ao Estado e a particulares de vários milhares de contos de reis, dada sua robusta constituição financeira conseguiu sobreviver.
Conseguiu adiar e reestruturar algumas das suas maiores dívidas e receber do estado vários créditos.
Conseguiu, após muitas dificuldades, acabar por pagar a todos os seus credores. 
António Barreto, na sua obra, “Douro”, irá concluir que "extinta" em 1834, "literalmente reorganizada em 1843, a Companhia será definitivamente dissolvida em 1863".
Outros afirmam que a Companhia "passa a desempenhar exclusivamente as funções próprias de qualquer firma comercial".
O certo é que a Companhia, "inoperante e desacreditada, atacada por forças poderosas, como a Associação Comercial do Porto, acabará por ser extinta definitivamente em 1865".
 A antiga Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro passa, então, a utilizar o nome de Companhia Velha e resolveu continuar os seus negócios.
Precisando: dado que a Companhia sempre foi uma sociedade por acções ela funcionou sempre até aos nossos dias. Só podemos falar de extinção, renovação, reforço ou redução quanto aos privilégios e poderes concedidos ou delegados pelo Estado a esta Empresa.



Outras actividades da Real Companhia Velha



A Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro não teve só intervenção na área do vinho, fez, também, grandes empréstimos ao governo para obras importantes.
De 1789 a 1792, demoliu o Cachão da Valeira.
Interveio na reconstrução de Amarante muito destruída nas invasões francesas.




Amarante c. 1900



Procedeu à construção da estrada Porto-Mesão Frio-Régua e à construção/beneficiação de outras estradas no Alto Douro, nomeadamente Régua--Santa Marta-Cumieira-Vila Real e Pinhão-Provesende.
Teve, ainda, intervenção decisiva na construção dos cais que contiveram o rio Douro, desde da Ribeira até à Foz.
Para isso, cederam dos seus cofres, inicialmente, 400 000 cruzados referentes a acções da Companhia de que se perdera o rasto dos titulares, e recolhendo e aplicando o imposto dos 100 réis por tonelada, aplicado sobre as embarcações de comércio que entrassem na foz do Douro (1790-1834).
Com pedra na sua maior parte extraída da pedreira da Arrábida foram levantados os cais, das Padeiras, de Massarelos e a sua marginal, do Ouro e da Cantareira até ao Molhe de Felgueiras.
Foi ainda devido à sua iniciativa que se fundou, em 1803, a Academia Real da Marinha e Comércio da Cidade do Porto (onde hoje está a Reitoria, nos Leões).
Este estabelecimento bem como os que o antecederam nesse local (Aula de Náutica em 1762 e aula de Debuxo e Desenho em 1779) funcionaram debaixo da sua inspecção e administração económica, cabendo-lhe mesmo nomear os funcionários, com excepção dos lentes, professores e substitutos, que propunha sob consulta ao rei.



A Companhia e o ensino na cidade do Porto – Fonte: Museu/Enoteca da Real Companhia




Em 1831 construiu a Real Casa do Asilo dos Náufragos, na Foz por ordem de D. Miguel I.


Real Casa do Asilo dos Náufragos no Passeio Alegre



A Companhia arrecadava ainda uma série de impostos, tarefa para a qual estava devidamente mandatada pelo Estado.


“Para se fazer uma ideia dos montantes arrecadados pela Companhia em nome do Estado, basta dizer que os rendimentos a cargo da Junta, em 1825, de acordo com os balanços da receita e despesa do Tesouro Público, atingiram 114 032$679 réis, mas, no ano seguinte, tal receita atingiu os 536 432$193 réis, a maior receita do Tesouro Público a seguir às receitas das alfândegas, décima e contribuição de defesa, e contrato do tabaco”.
Com o devido crédito de Fernando de Sousa - Professor Catedrático da Universidade do Porto

Nos textos seguintes, dá-se conta do que duas personalidades (que narraram um pouco da vida da cidade do Porto) disseram sobre a Companhia, em épocas distintas.







Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro – Cronologia



1756 – É instituída por decisão régia a Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro, portadora de uma série de privilégios que lhe são concedidos;

1758 – Início da demarcação da zona vinhateira;

1808 – Alargamento da área denominada por demarcação mariana ou subsidiária, passando a região demarcada a comportar 87 paróquias;

1821 – As cortes vintintas, pós revolução de 1820 retiram os primeiros privilégios à Companhia. Instituem a Feira da Régua e os bilhetes de qualificação; fixam os preços para os vinhos exportados e libertam a destilação da aguardente nas 3 províncias do Norte, até então, privilégio da Companhia;

1834 – São extintos os privilégios da Companhia. Decreto da instituição da Companhia dos Vinhos do Porto por 12 anos;


Lista dos Provedores da companhia entre 1756 e 1834 – Fonte: Museu/Enoteca da Real Companhia



1838- Fim do período começado em 1834, de transicção e mudanças, com o aparecimento de novos estatutos;

1843 – Costa Cabral concede à Companhia um subsídio de 150 contos de réis, para compra de 20.000 pipas de vinho do Douro;


Presidentes da Companhia entre 1834 e 1843 – Fonte: Museu/Enoteca da Real Companhia



Presidentes da Companhia entre 1843 e 1960 – Fonte: Museu/Enoteca da Real Companhia




1858 – O Estado deixa, a partir daqui, de intervir na Companhia;


1878 – A Companhia passa a sociedade anónima e é estatutariamente prorrogada por 99 anos;


1888 – Instituiu-se a “Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal”, sedeada no Porto, com funções de agente intermediário entre a produção e o comércio e de comerciante por conta própria, e que será integrada na Companhia em 1963.
Entretanto, a “Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal” irá absorver, em 1922, a Companhia Vínicola Portuguesa, fundada por Clemente Meneres e com sede em Matosinhos;

 
 
 
Fonte: “realcompanhiavelha.pt/”



1937 – A Companhia acerta contas com o Estado, terminando o contencioso que durava desde 1834, relativo à indemnizações dos prejuízos ocorridos no incêndio de 1833, em que milhares de pipas foram deliberadamente incendiadas após os confrontos do Cerco Do Porto e como vingança das tropas derrotadas de D. Miguel;


1953 – Neste ano, Manuel da Silva Reis adquire a empresa de Vinhos do Porto, Miguel de Sousa Guedes & Irmão, Lda., passando a ser o proprietário da Quinta das Carvalhas.
Em 1851, Constantino do Vale Cabral tinha adquirido na qualidade de credor do Barão do Seixo, um lote grande de vinhos e vai fundar para a sua comercialização, a firma “Miguel de Sousa Guedes” que irá ser a proprietária da Quinta das Carvalhas, no Douro.
É esta firma, que quase passado que foi um século, já com a denominação de “Miguel de Sousa Guedes & Irmão, Lda.”, vai acabar nas mãos de Manuel da Silva Reis;


1960 - A Real Companhia Velha é adquirida, com o apoio do banqueiro Pinto de Magalhães, por Manuel da Silva Reis, que assume sua direcção e, até 1973, vai comprar doze empresas de vinho do Porto;



1961 – A Companhia abandona definitivamente as instalações da Rua das Flores que ocupava no Palacete dos Figueiroa, transferindo-se para a Rua da Carvalhosa, em V. N. de Gaia;



1963 – A Companhia adquire a Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal e a Nicolau de Almeida & CIA. Consegue ainda autorização para o transporte por estrada, em camiões cisterna, dos vinhos do Douro;



Fonte: “realcompanhiavelha.pt/”


1972 – A Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro e a Companhia Real Vinícola do Norte de Portugal constituem-se numa única empresa comercial (Vinicolândia).

 

 
Fonte: “realcompanhiavelha.pt/”



1973 - A Empresa Miguel de Sousa Guedes & Irmão, Lda., transfere para a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, SARL todos os bens do seu activo, completando a integração naquela Companhia;

 

1974 - O Estado português interveio na Real Companhia Velha, lá permanecendo até 1978, quando Manuel da Siva Reis retoma as rédeas da empresa.


Assim, em resumo, no século XX:

 
“1921 – 1939 - A Companhia conhece uma época muito favorável, com um elevado movimento de compras e vendas. O desenvolvimento do comércio mundial, a depreciação da moeda e a guerra de 1914-1918 foram os factores que influenciaram positivamente a exportação nesta época.
1960 - Em 1960, Manuel da Silva Reis adquire, com o apoio do banqueiro Pinto de Magalhães, a maioria do capital - assumindo assim a direcção da Real Companhia Velha.
1961 – 1974 - A Real Companhia Velha conhece um dos seus períodos de maior expansão, o qual se traduziu por profundas transformações: mudança das instalações da sede; aumento do capital; renovação de equipamentos e modernização tecnológica da vinificação; preparação, tratamento e conservação dos vinhos; e alargamento dos seus negócios.
1979 - Após períodos conturbados, a Companhia efectuou uma operação comercial envolvendo vinho generoso de várias colheitas, no valor total de 1 000 000 de contos - o que constitui a maior operação financeira jamais realizada na região do Douro. A Empresa volta, assim, a ocupar um lugar de relevo entre os exportadores do Vinho do Porto.
1986 - As vendas no País e estrangeiro atingem um volume considerável - 5 450 000 contos, o que constituiu um autêntico recorde, traduzido por uma quota de mercado de 18%”.
Cortesia de Rui Cunha
 

A Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro na Régua




Actualidade


Nos nossos dias, destaca-se a abertura, em Agosto de 2018, de um Museu/Enoteca, em parte das instalações que foram, durante décadas ocupadas pela Companhia, na marginal de V. N. de Gaia e que ocupavam praticamente um quarteirão.


Marca de delimitação exposta no Museu da Real Companhia Velha (com entradas pela Rua de Serpa Pinto e avenida Ramos Pinto)


As caves primitivas da Companhia sempre se mantiveram na Rua Azevedo Magalhães, em V. N. de Gaia, onde a Companhia continua a exercer a sua actividade, porém, com um novo enquadramento, no que diz respeito à gestão do negócio.
Um outro potentado do sector do vinho do Porto, a Fladgate Partnership, detentora da Taylor's, comprou, em 2011, a Real Vinícola que detinha os activos imobiliários da Companhia Velha e concentrou a actividade do grupo na Quinta dos Barões (à face da Avenida D. João II, em V. N. de Gaia).
Aqui, passou a fazer todo o engarrafamento dos seus vinhos e concentrou, desde então, também, toda a actividade do grupo.


 

Entrada da Quinta dos Barões, na Avenida D. João II, em V. N. de Gaia – Fonte: Google maps
 
 
Assim, a Companhia Velha, a quase tri-centenária empresa, continua a sua actividade, mas, agora, em instalações arrendadas.



“A Fladgate Partnership, detentora da Taylor's, entre outras, é a nova dona da Real Vinícola. A empresa, proprietária dos activos imobiliários da centenária companhia criada sob os auspícios do Marquês de Pombal, foi comprada por 21 milhões de euros.
O negócio foi confirmado ao JN/Dinheiro Vivo pelo director geral da Taylor's, Adrian Bridge. "Comprámos todas as instalações da Real Vinícola em Vila Nova de Gaia. O negócio pressupôs a compra da empresa sem pessoal, sem débitos e sem negócio", explicou.
A Real Vinícola (criada em 1889) passou, assim, a integrar, desde o fim de Setembro, o portfólio da Quinta and Vineyard Bottlers - Land Holdings. Segundo Adrian Bridge, a Real Companhia Velha (fundada em 1756 por alvará régio de D. José I e detentora do negócio vitivinícola, designadamente as quintas no Douro) continuará a operar no mesmo espaço em Vila Nova de Gaia, que lhe será, agora, arrendado.”
Cortesia Ilídia Pinto, In “Jornal de Notícias”, 23/10/2011



Entrada das instalações primitivas da Companhia Real Vinícola do Norte, na Rua Azevedo Magalhães, em V. N. de Gaia – Fonte: Google maps



Armazéns e caves da Real Companhia Vinícola do Norte, na Rua Azevedo Magalhães, em meados do século XX – Fonte: Museu/Enoteca da Real Companhia



Entrada de uma das caves da Real Companhia Velha, em antigas instalações da Real Vinícola – Ed. Graça Correia


Vista de uma pequena parte das caves da Real Companhia Velha, em antigas instalações da Real Vinícola – Ed. Graça Correia

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

25.21 Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro ou Companhia Velha – Importância Económica


A Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro surgiu de uma determinação régia de D. José I e de um sonho de três portuenses.
São eles: Dr. Luís Beleza de Andrade, D. Bartolomeu Pancorbo de Ayala e o dominicano padre mestre Dr. frei João de Mansilha.
Luís Beleza de Andrade convenceu o governador da cidade, ao tempo, António Bernardo Alves de Brito, a informar o ministro de D. José I, da enorme pobreza que grassava nas terras do Alto Douro, onde o pai possuía algumas propriedades e das inúmeras adulterações que o vinho sofria na sua qualidade.
Tendo levado a cabo reuniões com outros produtores daquela região vinhateira, na qual esteve presente o tal Mansilha, decidiram da necessidade de fazer a demarcação das terras onde o vinho era produzido.
Pancorbo seria escolhido para apresentar o projecto em Lisboa, o que foi feito, mas, aquele acabou por sugerir ao Dr. Beleza de Andrade que, dali por diante, fosse ele a dar, pessoalmente, seguimento ao caso.
Beleza de Andrade acabaria por incumbir frei João de Mansilha de proceder a diligências na capital para o que se comprometeu a custear-lhe as despesas que fizesse nesse sentido.
As diligências foram coroadas de êxito no dia 1 de Junho de 1756, chegava ao Porto a notícia da formação da Companhia de que veio a ser primeiro provedor o Dr. Luís Beleza de Andrade.
Eram privilégios da Companhia:





“A Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro recebeu a sua personalidade jurídica pelo Alvará de 10 de Setembro de 1756, formada com o capital de um milhão e duzentos mil cruzados repartido em acções de quatrocentos mil reis cada uma, e propunha-se restituir o bom nome ao vinho do Douro, garantindo a genuidade, elevar o nível de vida da região e sustentar o comércio de exportação do vinho que era um dos mais importantes do Reino.
As vantagens que da sua criação resultaram foram indiscutíveis, introduzindo o regime de demarcação que os franceses também adoptaram quase um século depois (§ XXIX dos Estatutos)”.
Com o devido crédito a “ruisaeguerra.blogspot.com”




A Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro começou por ter o seu escritório ou casa do despacho, como era uso dizer-se, na Rua Nova (hoje, do Infante D. Henrique).
Entretanto, em 1761, acabaria por arrendar na Rua das Flores uma casa a
Manuel Pamplona Carneiro Rangel Veloso Barreto Miranda de Figueiroa, herdeiro de seu padrinho, sem descendentes, Manuel Figueiroa Pinto (1721 – 1775).
Aquele Manuel Pamplona venderia por 23 contos de réis, em 1 de Dezembro de 1809, o prédio à Companhia Velha.
 
 
 
 

Casa da Companhia, c. 1900 – Ed. Foto Guedes; CMP, Arquivo Histórico Municipal
 
 
 
A Companhia da Agricultura das Vinhas do Alto Douro foi fundada, como é sabido, pelo nosso rei D. José I ou,  melhor dizendo, pelo seu  primeiro-ministro, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, no ano de 1756.
Nos seus três primeiros anos de existência foi administrada por uma junta composta por, um Provedor e 12 deputados que eram coadjuvados por seis conselheiros.
No Porto,  a Companhia instalou a sua primeira Administração ou Sala de 
Despacho, como então se dizia, numas casas da Rua Chã, pertencentes a  Manuel de Figueirôa Pinto.
Foi a estas casas que se dirigiram os revoltosos que,  na manhã do dia 4 de  Fevereiro de 1757,  percorreram as ruas do Porto  protestando  contra uma das medidas que haviam sido tomadas pela recém-criada Companhia e que tirava aos taberneiros da cidade e arredores o direito da  venda do vinho a retalho. Por essa razão o motim passou à história como a Revolta dos Taberneiros. Da Rua Chã a sede da Companhia transferiu-se, pouco tempo depois,  para a Rua das Flores, para um edifício que também pertencia a Manuel Figueirôa Pinto.
Luís Beleza de Andrade foi o primeiro Provedor da Companhia.
Natural do Porto, vereador da Câmara no ano em que se fundou a Companhia, Beleza de Andrade era também um grande produtor de vinho com boas e vastas propriedades em Valdigem, na região do Douro. Com o religioso dominicano, D. frei João de Mansilha, e com o negociante biscainho,  D. Bartolomeu Pancorbo, que vivia na Rua Nova, hoje Rua do Infante D. Henrique, Luís Beleza de Andrade foi um dos três impulsionadores da ideia para a criação da Companhia.
Diz-se que tendo ido a Valdigem para as vindimas de 1756 sentiu de tal modo "a desgraça da terra do vinho" que imediatamente convocou os mais importantes viticultores durienses para  uma reunião da qual saiu o projecto da Companhia de que viria a ser o primeiro Provedor.
A família Beleza de Andrade viveu numa casa das Escadas do Monte dos Judeus, na esquina com a Viela da Ilha do Ferro, muito perto portanto dos armazéns da Companhia. A casa ainda lá está agora recuperada depois de ter estado muitos anos ao abandono. 
O brasão que figurava na fachada desapareceu corroído pela acção do tempo.


 

Casa de Beleza de Andrade na Escada do Monte dos Judeus

 
 
 
Armazéns de vinhos e Caves
 

É através da voz do povo e da gíria comercial, que a pombalina, Real Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro fundada em 1756, começa a ser conhecida por Real Companhia Velha, e a utilizar essa designação como marca comercial a partir dos finais do Século XIX, sendo a sua designação comercial de Real Companhia dos Vinhos do Porto.
No que diz respeito à armazenagem dos vinhos, aquando da fundação da Real Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, a norma que vigorava há séculos, era que eles fossem armazenados na margem esquerda do rio Douro, em V. N. de Gaia, na sequência de importantes questões quanto ao pagamento de impostos.
Após a fundação do reino de Portugal, as duas povoações de Gaia e de Vila Nova mantiveram-se autónomas. Gaia recebeu Carta de Foral passada pelo rei D. Afonso III, em 1255, seguindo-se Vila Nova, por D. Dinis, em 1288.
Em 1383, no entanto, ambas foram integradas no julgado do Porto, perdendo a sua autonomia.
No final das guerras liberais, Gaia e Vila Nova foram, finalmente, agraciadas com autonomia política e, ao fundirem-se, nasceu o actual concelho de Vila Nova de Gaia com o Decreto n.º 23, de 16 de Maio de 1832.
Assim, até à atribuição do foral a Gaia, em 1255, pelo rei D. Afonso III, todos os direitos relativos ao comércio que era feito pela barra do rio Douro aproveitava, apenas, ao Bispo e ao Cabido.
Este senhorio da cidade do Porto nascera da doação, ao Bispo do Porto D. Hugo, e a seus sucessores, feita por D. Teresa, em 1120 (era 1158) e confirmada, mais tarde, por D. Afonso Henriques em 1138.
Na sequência da primeira doação e dos direitos que ela lhe conferia, promulgou D. Hugo, em 1123, o Foral da cidade do Porto, que ordenava a cobrança de vários impostos, entre os quais a “Portagem da Terra”, somente extintos por D. João VI, em 11 de Junho de 1822, sendo que, contra eles, haviam reclamado os comerciantes da cidade, nas Cortes Constituintes de 28 de Agosto de 1821.
O pagamento de impostos sobre o vinho foi, assim, o primeiro motivo para a instalação dos armazéns e caves em Gaia e Vila Nova.
Os vinhos de exportação que da região Duriense vinham nos típicos barcos rabelos, sempre se armazenaram, por isso, em V. N. de Gaia.



Rua da Praia, na marginal e entrada da Rua Direita, em V. N. de Gaia, no século XVIII




Largo D. Luís I, em V. N. de Gaia, em perspectiva idêntica à da gravura anterior



Anteriormente ao século XVII, o nosso comércio de exportação de vinhos fazia-se pelos portos do Norte, principalmente pelo de Viana, para os vinhos com proveniência no Minho, com uma participação principalmente dos comerciantes ingleses e, ainda, pela barra do rio Douro.
Só em 1678, se regista o primeiro embarque, no montante de 408 pipas, feito pelos ingleses.
Fundada a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, em 1756, a descarga dos vinhos do Douro fazem-se nos cais da cidade do Porto.
Em 1777, primeiro ano do reinado de D. Maria I, um litígio judicial promovido pela igreja representada pelo bispo do Porto, bispo de Penafiel, bispo de Bragança-Miranda e o Cardeal Patriarca de Lisboa contra aquela companhia, reclamava dela o pagamento em atraso (quase 20 anos) dos direitos devidos ao bispo do Porto, sobre as descargas efectuadas nos cais da Ribeira do Porto e respectiva comercialização do vinho.
A razão seria dada aos reclamantes, pelo que o pagamento passou a ser feito em terras do bispo do Porto até 1821 e foram, entretanto, liquidadas as dívidas em atraso.
Porém, os restantes negociantes de vinho do Porto, procurando fugir à jurisprudência que aquele caso poderia despoletar, com consequências nefastas para as suas bolsas, trataram de transferir os seus armazéns e cais de descarga para a margem esquerda do rio Douro, pois, aí, em Gaia, funcionava o foral de D. Afonso III e o território estava fora do alcance dos bispos e do foral de D. Teresa que cobria a margem direita daquele rio.
É, nestes tempos, que se irá assistir a uma procura de terrenos para instalação de armazéns de vinhos, na margem esquerda do Douro, sobretudo na encosta que ia desde do lugar das Devezas até ao rio, todo ele pertencente à imensa Quinta das Devezas que, no século XVI, também era conhecida pela Quinta do Estado e, depois, ficou conhecida pela Quinta do Conde das Devezas.
A partir daqui, os armazéns que iam surgindo para escoar pela barra do rio Douro a produção dos vinhos finos, que se juntava à dos vinhos tradicionais, acabaram por se localizar na margem esquerda do rio Douro.
Os britânicos que tinham a sua feitoria no Porto passaram, também, a guardar os seus vinhos em V. N. de Gaia e muitas das famílias britânicas escolheriam o Candal para viverem ou, por aí, instalarem as suas quintas de férias.
Para além da localização dos armazéns de vinhos na margem esquerda do Douro, decorrente do alívio no pagamento de impostos, juntava-se, também, uma justificação tecnológica.
Aqueles terrenos estando voltados a norte, eram abrigados dos ventos fortes da barra, disfrutavam de um clima ameno e fresco, um pouco húmido e dotados de imensas minas de água.




Cais de V. N. de Gaia por onde foram surgindo os armazéns de vinho do Porto – Cortesia de “Gaia à la carte”



A própria Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, por aí, haveria de ter, então, os seus armazéns, no entanto, haveria de decidir montar, também, armazéns na margem direita, em Miragaia.

 
 
 
 

Armazéns da Companhia Velha em Miragaia
 
 
 
Com efeito, no ano de 1807, depois de já ter construído armazéns na Régua, junto á margem do rio Douro, em Vila Real de Santo António, no Algarve,  no Pinhão e junto ao Tua, e no Vimieiro, na margem esquerda do Douro, a Companhia comprou uma série de casas térreas e vários barracões que havia no areal da praia de Miragaia que mandou demolir para, em seu lugar, construir os seus armazéns.
O edifício, ainda existente,  na actual Rua de Miragaia, era enorme. 
Inicialmente tinha capacidade para guardar mais de 4.000 pipas de vinho. 
Posteriormente, porém,  essa capacidade viria a ser aumentada para poder acolher cinco e seis mil pipas.
Os armazéns de Miragaia para além das amplas e arejadas dependências que possuía para arrecadação dos vinhos provenientes do Alto Douro e dos escritórios, dispunha de grandes oficinas de tanoaria; dependências onde se procedia á destilação da aguardente; e um terceiro mas não menos  importante sector para a fabricação de vinagre.
Aos armazéns de Miragaia e aos de V. N. de Gaia, chegavam os vinhos transportados desde o Alto Douro nos barcos rabelos, barcos próprios de rio de montanha. O rabelo, por essa razão, não tem quilha e é de fundo chato. Com uma vela quadrada, era manejado por seis ou sete homens. Para manobrar, utiliza um remo longo à popa - a espadela.

 
 
“A Real Companhia Velha conta com mais de 250 anos de história, um marco ímpar para empresas do ramo. Para trás, fica o registo de uma história fabulosa e de um passado glorioso. Para o futuro, existe a vontade de manter a elevada qualidade dos produtos e a confiança numa Companhia onde o rigor e a vontade de continuar a escrever a história do Vinho do Porto são uma preocupação constante.
Os ingleses, radicados na cidade do Porto, realizaram várias experiências ao adicionarem aguardente aos vinhos Durienses, com o intuito de os preservar nas longas travessias marítimas.
Para sua surpresa e graças a uma série de circunstâncias felizes, dá-se a descoberta do Vinho do Porto.
Em 1749 a exportação de Vinho do Porto atinge o expressivo número de 19.000 pipas.
Em 1756 a 10 de Setembro de 1756, por Alvará Régio de El-Rei D. José I, sob os auspícios do seu Primeiro-Ministro, Sebastião José de Carvalho e Mello, Conde de Oeiras e Marquês de Pombal, foi instituída a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto-Douro, também denominada, Real Companhia Velha.
Formada pelos "principais lavradores do Alto Douro e Homens Bons da Cidade do Porto, à Companhia foi confiada a missão de sustentar a cultura das vinhas, conservar a produção delas na sua pureza natural, em benefício da Lavoura, do Comércio e da Saúde Pública".  
De entre os inúmeros serviços prestados pela Companhia à causa pública, destaca-se como o mais notável a chamada "Demarcação Pombalina da Região do Douro", levada a efeitos entre 1758 e 1761 pelos deputados da Junta da Administração da Real Companhia Velha. 
Mercê desta medida de grande alcance económico, foi delimitada a Região dos Vinhos de Feitoria do Douro, que é a mais antiga Região Demarcada do mundo. 
A importância do Vinho do Porto para a economia portuguesa é tal que, em 1799, o Vinho do Porto representa mais de 50% das exportações portuguesas.
A Companhia passa a operar em mercado livre quando, a 7 de dezembro de 1865, por Alvará Régio do Regente D. Fernando, é declarada livre a exportação através da barra do Porto de todos os vinhos produzidos em Portugal.
Em 1960, Manuel da Silva Reis adquire, com o apoio do banqueiro Pinto de Magalhães, a maioria do capital - assumindo assim a direção da Real Companhia Velha.
Entre 1961 – 1974, a Real Companhia Velha conhece um dos seus períodos de maior expansão, o qual se traduziu por profundas transformações: mudança das instalações da sede; aumento do capital; renovação de equipamentos e modernização tecnológica da vinificação; preparação, tratamento e conservação dos vinhos; e alargamento dos seus negócios.
Em 1979 após períodos conturbados, a Companhia efetuou uma operação comercial envolvendo vinho generoso de várias colheitas, no valor total de 1 000 000 de contos - o que constitui a maior operação financeira jamais realizada na região do Douro. A Empresa volta, assim, a ocupar um lugar de relevo entre os exportadores do Vinho do Porto”. 
Fonte: “realcompanhiavelha.pt”



 Em 19 Maio 1872, p. 2, o “Jornal do Porto” noticiava:
 
 
“A Rampa de Miragaia: concluiu-se ontem a rampa mandada construir em Miragaia para estabelecer comunicação entre a rua de Miragaia e a Nova Alfândega”.
 
 
 
Em 14 de Junho de 1872, o “Jornal do Porto” informava os seus leitores de que, construída a rampa de acesso dos armazéns da Companhia à Nova Alfândega, a Junta d’Obras tinha aprovado que a contribuição da Companhia dos Vinhos deveria ser 200$000 reis.

 
 
 



 

Rampa de acesso do Bairro de Miragaia à Rua Nova da Alfândega, em 1975


 
Uma outra rampa, mais a poente, seria também construída. 




Acesso ao bairro de Miragaia, junto a Monchique, c. 1907, em foto estereoscópica - Ed. H. C. White Co.



Em 1888, instituiu-se a “Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal”, sedeada no Porto, com funções de agente intermediário entre a produção e o comércio e de comerciante por conta própria, e que será integrada na Real Companhia Velha, em 1963.
O povo começa a identificar duas Companhias Reais, como a Nova e a Velha.
 
 
 
 

Capa de livro ” A Questão do Douro” da autoria da Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal

 
 
A “Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal” vai ter os seus armazéns em V. N. de Gaia.

 
 

Localização dos armazéns da Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal, actuais instalações da Real Companhia Velha, na Rua Azevedo Magalhães


 
Após a associação, em 1963, da Real Companhia Velha e da Real Vinícola do Norte de Portugal, as caves e instalações da Real Companhia Velha acabaram por ser sedeadas, na Rua Azevedo Magalhães, nº 314, que tinham pertencido à sua associada.
Actualmente, estão sobre a alçada da Real Companhia Velha as quintas das Carvalhas, Acipestres, Cidrô, Casal da Granja e Síbio.




Em 1976, as instalações que já foram da Real Companhia Velha e da Real Companhia Vinícola do Norte, no Cais de V. N. de Gaia, na Avenida Ramos Pinto, passaram a museu da Companhia



Armazéns da Cruz, no fim do século XIX e, actualmente - Cortesia: Gaia à la Carte



Os chamados “Armazéns da Cruz”, foto acima, situam-se entre os observados na foto que a antecede e a Rua de Rei Ramiro. 
 



Instalações actuais da Real Companhia Velha, em V. N. de Gaia, na Rua Azevedo Magalhães


(Continua)

terça-feira, 6 de novembro de 2018

25.20 António da Silva Leite. Oficinas de construção de violas e comercialização de instrumentos musicais de cordas - (actualização em 14/01/2021)

António da Silva Leite
 
“Até à Revolução Francesa, qualquer acontecimento relevante na monarquia portuguesa, o nascimento ou o batizado de um príncipe, por exemplo, era motivo para toda a nação celebrar. Em 1785 o duplo casamento de dois dos filhos de D. Maria I, infante D. João e infanta D. Mariana, levou todo o Reino à celebração por vários dias. No Porto houve três noites de comédias públicas, três tardes de corridas de touros e um “Te Deum” de David Perez com os melhores músicos da cidade, por exemplo. (Conde & Lessa, 2015)”
Cortesia de Magna Ferreira (Instituto Politécnico do Porto, 2015) - “VOTA MEA DOMINO REDDAM” de António da Silva Leite (1759 – 1833): um testemunho
 
 
 
É numa época em que a música, de um modo geral, durante a celebração de cerimónias religiosas e que, o teatro, tinham importância e relevo no quotidiano das pessoas, que nasceu em 23 de Maio de 1759, na freguesia de S. Nicolau, mais propriamente, na Rua da Fonte Taurina, no seio de uma família católica e burguesa, aquele que terá sido o primeiro e grande divulgador da viola e do ensino prático da execução deste instrumento musical tendo, para o efeito, escrito o primeiro compêndio sobre o tema publicado em Portugal - o portuense António da Silva Leite.
Tendo começado por seguir a carreira eclesiástica e chegado a receber as Ordens Menores, acabaria por renunciar, dedicando-se, então, à carreira de músico.

 
 
"Estudo de Guitarra" – António da Silva Leite (1796)
 
 
Na capa da obra publicada e acima representada, pode ler-se que a mesma era uma oferta a Antónia Madalena de Quadros Sousa e Sá, 12ª Senhora de Tavarede, senhora das Lezírias de Buarcos.
Parecendo que a sua principal educação tenha ocorrido na Escola de Música e Canto da Sé do Porto, António da Silva Leite escreveu muitas e variadas peças de música religiosa, empregada durante longos anos nas cerimónias da igreja, em quase todo o País, produzindo inumeráveis obras de música profana, de várias modalidades e dirigindo vários agrupamentos músico-litúrgicos que, no seu tempo, floresciam na cidade, tendo sido, ainda, director artístico do Real Teatro S. João e, já na década de 1810, mestre de capela na sé catedral do Porto.
António da Silva Leite era, assim, frequentemente solicitado para proceder à composição de obras que eram executadas nos conventos femininos, para os quais a música, associada às cerimónias religiosas, tinha uma grande importância.
Para se entender, tal facto, diga-se que as noviças tendo que se apresentar, à entrada na instituição, acompanhada de um dote, aquelas que possuíssem qualidades vocais importantes seriam dispensadas de o fazer, especialmente, nas de orientação beneditina.
Entretanto, os conventos e mosteiros batiam-se para obter o serviço das noviças com qualidades para o canto.
A religiosa do Mosteiro de S. Bento da Avé-Maria, Florinda Roza do Sacramento, posteriormente, Maria Amália e Mestra da Capela do Real Convento de S. Bento de Ave Maria, chegou a ser comparada às famosas cantoras de ópera da época.

 
 
Caricatura de António da Silva Leite publicada na revista “O Tripeiro”, IVª série, nº 12, Outubro de 1931
 
 
“Este estudo pretende evidenciar a vida e obra de António da Silva Leite, compositor nascido no Porto em 1759 de uma família católica da média burguesia. Seguiu a carreira eclesiástica que veio a interromper quando era clérigo menor – in minoribus – e seguiu a carreira musical. Músico revelador de personalidade bem vincada, não hesitou em recorrer ao Tribunal Régio a pedir a nulidade de uma Ordem do Provisor do bispado, que afectava a vida profissional dos músicos, não obstante a sua formação ligada à Sé do Porto. Foi professor de muitos alunos para quem escreveu Estudo de Guitarra, obra importante na prática musical portuguesa. Compôs obras sacras e profanas, literárias e didáctico-pedagógicas, modinhas e hinos patrióticos. A confiança que mereceu das instituições que o convidaram para músico, “mestre de capela” e cerimónias, a contratação para maestro, compositor e director artístico do Teatro de S. João e a nomeação para Mestre de Capela da Catedral, revelam-no um homem competente, de grande saber e reconhecido pelos seus contemporâneos. A presente dissertação dará particular destaque à Missa Moisés, paródia da Ópera Mosè in Egitto de Gioacchino Rossini, que escreveu em idade avançada sendo o ponto alto da sua obra religiosa, revelando-se um compositor actual e actualizado, com uma linguagem criativa e perfeitamente enquadrada na “moda” do tempo”.
Cortesia de Rui Manuel Pereira da Silva Bessa – Tese de doutoramento em Ciências Musicais (Ciências Musicais Históricas) apresentada à Fac. Letras da Univ. Coimbra
 
 
Com setenta anos morre António da Silva Leite, sendo as cerimónias fúnebres estado a cargo de sue irmão, Bento da Silva Leite, conforme notícia do jornal “O Leal Portuguez”:
 
 
“António da Silva Leite morador na rua de Sao Francisco desta cidade faleceo desta vida presente aos dez de Janeiro de mil oito centos e trinta e tres asestido e dados os Sacramentos fez testamento, e era maior de setenta annos e foi sepultado na igreja aos onze do dito de que foi este asento era como asima.
O Cura Bento da Silva Leite”
 
 
 
Guitarra Portuguesa


A Guitarra Portuguesa tem uma extensa história no nosso País, na qual surgem, com grande realce, os nomes dos artesãos que, de geração em geração, ao longo de séculos, a têm fabricado. É o caso daqueles que as produziram em oficinas na cidade do Porto, com enorme sucesso.

“O instrumento a que damos hoje o nome, de Guitarra Portuguesa, foi conhecido até ao século XIX em toda a Europa sob os nomes de Cítara (Portugal e Espanha), Cetra e Cetera (Itália e Córsega), Cistre (França), Cittern (Ilhas Britânicas), Zither e Cithren (Alemanha e Países Baixos)”.
Fonte: Pedro Caldeira Cabral, 09/06/2007, Construtores da Guitarra Portuguesa


 “No século XIX já existiam em Portugal muitos mais construtores, instalados um pouco por todo o País e, em particular, na cidade do Porto, onde trabalhavam vários (os mais importantes eram a família Sanhudo) construindo instrumentos com características relativamente aproximadas, naquilo que poderia ser uma espécie de ‘escola’ local. Nesse período também houve estrangeiros na lutherie (construção de violas) nacional, como é o exemplo do francês Pierre Blaisot que aportuguesou o nome para Pedro Blaison e que tinha oficina em Lisboa. Ainda no final do século XIX, as Casas Duarte e Guimarães, duas lojas no Porto, vendem instrumentos feitos por construtores portugueses, mas utilizando etiquetas das próprias empresas, algumas vezes coladas por cima da marca dos verdadeiros autores”.
Fonte: “matriznet.dgpc.pt”


António Duarte foi o mais importante fabricante de guitarras do seu tempo, na cidade do Porto, tendo fundado em 1870 uma oficina na Rua da Bainharia.
Mudou-se depois para a Rua Mouzinho da Silveira, onde abriu uma loja de grande dimensão (do nº 159 ao nº167) e, paralelamente, uma oficina na Rua da Ponte Nova, na qual chegaram a trabalhar 40 homens.
Especialista em escalas, António Duarte construía guitarras (tendo criado o modelo da guitarra portuense), violas, violas braguesas, violões e bandolins. Esteve activo até cerca de 1919. O filho, António Carvalho Duarte, construía também rabecas chuleiras e violinos.
A Casa António Duarte, Sucessores teve o seu tempo áureo nas primeiras décadas do século XX, exportando inclusive para o Brasil.
Posteriormente, verificou-se um decréscimo progressivo nas encomendas. A oficina da Rua da Ponte Nova foi encerrada no final dos anos cinquenta e substituída por uma outra em frente à loja da Rua Mouzinho da Silveira. Em 1965 a loja sofreu uma redução de área, mantendo-se apenas nos números 165 e 167.
Esta grande casa comercial resistiu até final dos anos 90, altura em que foi vendida pelos herdeiros à Casa Castanheira.
O estabelecimento que foi de António Duarte, na Rua de Mouzinho da Silveira, nº 165, já não existe.


No prédio à esquerda, a cerca de uma dezena de metros da Rua da Ponte Nova, ficava o António Duarte, construtor de instrumentos musicais de corda



De entre dos construtores do Porto do início do século XX, salientam-se, José do Nascimento Lopes e António Pereira Cattão, “fabricantes de guitarras de boa qualidade, esmerado acabamento de verniz e decoração cuidada”.
Porém, já no século XIX outros artesãos se tinham evidenciado no fabrico de instrumentos de corda.
Assim:

No século XIX, no Porto

António Teixeira (Activo entre 1817-1820, R. Nova do Almada, guitarras);
Irmãos Antunes (Activos em 1850);
Custódio Cardoso Pereira & Cia (Activo desde 1861);
António J. da Cruz Moura (Activo em 1867, guitarras)
António Duarte (Activo desde 1870/1919, guitarras, violas, rabecas, etc.)
Joaquim da Cunha Mello (Activo de 1870 a 1895)
Júlio Thomaz da Silva (Activo entre 1890-1910, guitarras, violas, etc.)
A. Rodrigues do Amaral (Activo em 1890, guitarras, etc.)
Manuel da Silva Espírito Santo (Activo desde 1895)

Primeira metade do século XX, no Porto:

José do Nascimento Lopes (Entre 1890-1905, guitarras, violas, etc)
Júlio Teixeira (Rua Alexandre Herculano, 198, activo em 1920, guitarras, etc.)
José António Miranda (Viela do Anjo, nº 1, activo em 1955, guitarras)
Domingos Cerqueira da Silva (Rua Costa Cabral, 388, com actividade entre 1901-1980, guitarras, violas, etc.)
Júlio Thomaz da Silva (Activo entre 1890-1910, guitarras, violas, etc.)
A. Rodrigues do Amaral (Activo desde 1890, Porto, guitarras, etc.)
Luís da Cunha Mello (Activo de 1895 até 1912)
Manuel da Silva Espírito Santo (Activo desde 1895)



“António Duarte teve a primeira oficina na Rua da Bainharia, fundada em 1870 e mais tarde mudou-se para a Rua Mouzinho da Silveira nº 165/167 (cuja oficina ainda existe, actualmente gerida por António Couto).
Construia 3 modelos com comprimentos de corda vibrante de 470 mm, 440 mm e 420 mm e utilizava também medidas diferentes para os corpos (35 cm a 27 cm ) e ilhargas que podiam variar entre os 8,5 cm e os 7 cm (máximo) e os 5,5 cm e 4 cm (mínimo).
António Duarte é também conhecido como bom construtor de violinos, rabecas “chuleiras”, violas “braguesas” e bandolins, sendo justamente considerado o criador do “modelo” de Guitarra do Porto, o qual se distinguia do de Lisboa pela sua forma mais arcaica (próxima do perfil das cítaras italianas) e pela cabeça geralmente ornamentada com motivos fitomorficos.
Construiu entre muitas outras, a guitarra da célebre cantora e actriz Adelina Fernandes, onde se pode notar o esmerado fabrico em pau-santo, cercadura da boca com embutidos de madre-pérola e cravelhal em chapa de leque, encimado por escultura representando uma cabeça de bacante, com o cabelo envolto em cachos de uva.
Joaquim da Cunha Mello, também do Porto, foi contemporâneo do anterior, tendo sido sobretudo fornecedor dos estudantes de Coimbra, para os quais realizava guitarras em materiais baratos, fabricando segundo os modelos e medidas de António Duarte.
Criou uma firma, cuja gerência passou a seu filho Luis da Cunha Mello tendo este abandonado a actividade em 1910.
Ainda inserido na chamada “escola do Porto” encontramos Manuel Pereira dos Santos, com oficina em Alfena e mais tarde em Matosinhos, o qual foi premiado com medalha de prata na Expo Universal de Paris em 1889”.
Fonte: Pedro Caldeira Cabral, 09/06/2007, Construtores da Guitarra Portuguesa


O que distingue os três tipos de guitarras existentes em Portugal, ou seja, de Coimbra, de Lisboa e do Porto, reside principalmente, no acabamento da cabeça da mesma.
A de Coimbra possui uma lágrima incrustada, enquanto a de Lisboa, apresenta um caracol.
A do Porto goza de maior liberdade, podendo ter  um dragão esculpido ou uma flor.
Os três estilos têm em comum as seis ordens duplas de cordas metálicas.


Guitarra do Porto com acabamento do braço em flor – Ed. “casadaguitarra.pt/”



sexta-feira, 2 de novembro de 2018

25.19 Clube Português de Cinematografia - Cine Clube do Porto (CPC-CCP)


O Clube Português de Cinematografia foi fundado em 1945 por Hipólito Duarte Cardoso de Carvalho (1927-2002), no Liceu Alexandre Herculano, quando ele tinha 17 anos e designado, a partir de 1948, como Cine Clube do Porto.
O clube arranca com 165 sócios, mas em Janeiro de 1947 já eram 216.
O embrião do que viria a ser o futuro Cineclube, que começa com sessões de projecção numa sala do Liceu Alexandre Herculano, passaria, depois, a contemplar um grupo de cinéfilos que em 1944 se passaram a intitular “A República dos Pardais”, e se quotizavam para verem em conjunto filmes de agrado de todos.
Aquele grupo acabaria em 13 de Abril de 1945, fruto de uma reunião acontecida na Rua de Santa Catarina, nº 1252, por dar existência ao Clube Português de Cinematografia.
Era assim extinta “A República dos Pardais”.

"Fundou-se no Porto, O Clube Português de Cinematografia, que tem delegações em Lisboa e Coimbra, e se destina a desenvolver o gosto pelos mais sérios problemas da cinematografia. É seu director, Hipólito Duarte".
In jornal “A Tarde” (Porto), 5 de Maio de 1945


Entre muitos outros intervenientes, destacaram-se no arranque do clube, para além de Hipólito Duarte, Fernando Lavrador, João David, Jorge Tavares, Manuel Ferraz e António Lopes Fernandes.
Impulsionado por Hipólito Duarte (pedagogo, fundador e Director da Escola Industrial de S. João da Madeira, e de 1975 a 1993, professor e presidente do Conselho Diretivo da Escola Secundária Oliveira Martins), em Janeiro de 1946, surge o primeiro Boletim Informativo do Clube Português de Cinematografia, que se denominava PROJECTOR.  Tinha na capa o "Rato Augusto", uma das personagens de um filme de animação de Jorge Tavares.
A 21 de Dezembro de 1946, pelas 21,30 h, iria para o ar o primeiro programa de rádio do Clube Português de Cinematografia que se chamou "VAMOS FALAR DE CINEMA".
Tal aconteceu na Rádio Porto (na Rua dos Clérigos) e foi coordenado por Hipólito Duarte e, posteriormente, também por Guilherme Ramos Pereira.
Os locutores eram, Manuela Delgado, Alfredo Pimentel (na foto abaixo) que era locutor profissional no Emissor Regional do Norte e Hipólito Duarte.
A emissão do programa radiofónico tinha lugar, semanalmente, aos Sábados, pelas 21,30 h.
Posteriormente, mudaria para os Domingos às 14,45 h e, muito mais tarde (1948), passaria a ter uma periodicidade quinzenal às quartas-feiras, às 19,45 h.
Por ele passaram grandes nomes do cinema português em entrevistas como, por exemplo, António Lopes Ribeiro.


Alfredo Pimentel na Rádio Porto


Direcção e Planificação do filme “O Porto Trabalha” - 1947


Na foto acima vemos Manuel Ferraz, Gonçalves Lavrador e Hipólito Duarte. 
Nos anos 50 e 60, é Henrique Alves Costa (1910 - 1988) o principal animador do Cine Clube então instalado no edifício Capitólio, responsável pela divulgação dos filmes, que por razões políticas, eram censurados pelo regime ou que as distribuidoras não consideravam rentáveis, em termos comerciais.


Edifício Capitólio do arquitecto Carlos Neves, na Avenida dos Aliados – Fonte: Google maps


«As finalidades do clube eram defender o cinema em geral e o cinema português em particular; publicar um boletim; realizar sessões exibindo filmes de interesse cine-clubista e tendentes a dar uma boa formação cinematográfica aos associados; e formar uma escola de cinema.
O clube não tinha fins religiosos ou políticos e cobrava uma quota mensal de 2$50 (considerando o efeito da inflação, equivaleria em 2007 a cerca de 0,94 €).»
Fonte: “pt.wikipedia.org”


“Após a fundação do que será o primeiro cineclube do país e um dos primeiros da Europa, o seu trajecto torna-se fulgurante com as suas sessões anti regime. Chega, a certa altura, ter mais sócios que o Futebol Clube do Porto. Após uma temporada sem actividade regular, retoma as suas sessões em 2010 com um filme-concerto no cinema Passos Manuel e sessões quinzenais. No Verão, organiza sessões de Cinema ao Ar livre com vários parceiros. Desde 2013, que mantem em parceria com a DRCN, o projecto de "Cinema na Casa das Artes" com duas sessões semanais”.
Fonte: “facebook.com”

José António Cunha, sócio há muitos anos, seria um dos responsáveis pelo renascimento do cineclube em 2010, depois de um período de inactividade devido a problemas financeiros.
Hoje, o cineclube está sedeado na Casa das Artes (Palacete Vilar d’Allen), na Rua António Cardoso, tendo transitado para aqui, da sua anterior sede na Rua do Rosário, onde os sócios assistiam aos filmes e reuniam em assembleia.


Antiga sede do Cineclube do Porto na Rua do Rosário – Fonte: Google maps


A utilização da nova casa, decorre de um acordo estabelecido com a Direção Regional da Cultura do Norte em 2013.
As sessões do CPC-CCP, após a sua fundação, que se realizaram na Rua Gonçalo Cristovão, no “Grupo dos Modestos”, passariam ainda por outras diversas salas, como sejam as dos cinemas, Passos Manuel e Batalha e ainda pelo Teatro do Campo Alegre, passam, presentemente, na Casa das Artes, integrada na Casa Allen, na Rua António Cardoso.
Aguarda-se a publicação de um livro sobre os 75 anos do CPC-CCP, em 2020.




Em cada sessão exibida, os espectadores levam um folheto personalizado sobre o filme que vão ver – Fonte: Ana Catarina Peixoto (“Observador”-Agosto 2018)